Before everything

9 Caçando até destruir


pov Michael

Fiquei a noite toda acordado, preocupado com a vinda do pior com o propósito de raptar minha filha. O que é pior do que você perder tudo que ama e valoriza? Acho que nada. O quê eu tinha na cabeça deixando duas pessoas desconhecidas entrarem em minha casa, tinha uma criança, podia dar alguns suprimentos e continuar viagem? Botei meu lar em perigo.

Um pouco antes de o sol raiar peguei um balde de água enchendo o filtro dentro de casa, logo depois fui colher algumas frutas nos pés, isso o sol já estava surgindo no horizonte. Com minha pistola e o recipiente de plástico, andava pela floresta com o reflexo em potência total, caso alguém ou alguma coisa apareça é o mesmo procedimento de sempre, eu saco a arma e atiro.

Passaram-se duas horas colhendo frutos rondando a floresta, consegui até plantar umas sementes de acelora, e nenhum risco de sombra dos roupa-branca. Deve ser umas 08 horas da manha, nesse horário Brenda deve estar acordada junto com as outras duas, se elas quiserem fugir acho que não acordariam tarde. Disse a Brenda que iria deixar um bilhete sobre oque fazeria hoje, então ela vai distrair-las até eu chegar.

Na verdade, estou demorando aqui porque espero que os sequestradores de crianças apareçam e dê tempo de fugir com minha filha, ou até mesmo tentar matá-los, mas parece que eles não irão vir agora e preciso entregar a coleta em casa. Posso até voltar para rondar a floresta, porque não dá para correr rápido com um monte de frutas nas minhas costas.

Fui dar uma olhada no Berg. Aproveitei para pegar outros suprimentos ou ferramentas. Vasculhei o lugar rapidamente porque estou atrasado para ir para casa. Encontrei um workpad quebrado. A sala de ferramentas estava aos escombros impossível de entrar lá, talvez o corpo do Crank esteja lá então é melhor não mexer nesta parte,mas uma coisa recompensou: um lançador de granada.

Corri atravessando todos os obstáculos da floresta tentando chegar o mais rápido possível em casa.

Pow!

Um tiro acertou na cesta espalhando frutas para todo lado.

Larguei o recipiente na terra e joguei minhas costas contra o tronco da árvore ao meu lado ficando de costas para o atirador.

Como eu não os ouvi chegar? Deveria ter escutado barulho do Berg deles pousando, uma nave dessas faz um som estrondeante.

Prack!

– Merda!

Outro tiro, só que agora quebrando uma parte do tronco onde estou encostado. Virei o corpo procurando os atiradores, um deles ficou na minha mira então atirei acertando uma das costelas. Não acredito que acertei, pensei que estava fora de forma.

Avançava na proporção que eles vinham em minha direção. Entre as árvores, me escondia por uns segundos saindo de suas vistas. Quando me localizava longe deles praticamente voei em direção à casa.

Todas estavam na sala quando cheguei e gritei.

– Todo mundo fora!

– O quê houve, pai? – Brenda perguntou desentendida e assustada.

– Os roupa-branca chegaram. – Ela tentou correr mas a segurei.- Espera.

– Precisamos ir para a floresta.

Fui até a cozinha e abri a geladeira pegando algumas frutas e colocando-as em um saco plástico. Nossa eletricidade é produzida por um gerador.

– Para onde nós vamos? – Karen se pronunciou.

– Para a cidade.

Saimos de casa apontando as pistolas ao atravessar a porta (Karen com o lança granada e eu com a pistola, os lanças granadas são muito pesados, ou seja, você só consegue carregá-lo sozinho, sem nenhuma arma mais).

– Iremos para onde? – Karen indagou quando estávamos na floresta na direção contraria.

– Para o norte, somente para o norte. Tem uma cidade atravessando a montanha.

– Você quer dizer Denver? – Teresa inquiriu.

– Isso.

– Mas essa cidade não está em estado de contaminação? – Brenda se articulou.

– Baixa. – Retruquei.

– O quê vamos fazer com eles? – Karen disse dando uma lançada de olhar para trás.

– Vamos despistá-los com a chance de nos alcançar, observei as duas crianças, ou...

Deslocamo-nos em pontos diferentes da região. A trilha nos ajudava a botar o plano em ação. Eu fiquei em frente a uma árvore com as costas encostada ao tronco, igual no momento que me escondia dos tiros uns minutos atrás, e Brenda na arvore quase colada a minha, não daria para ficarem todos os dois em uma só. Karen me imitava junto com Teresa na mesma posição de minha filha.

O plano era: quando os roupa-branca cruzassem o nosso caminho atiraríamos em seus corpos nos livrando do inimigo. Pelo estado seco e sem vida deste lado da floresta, escutaríamos seus passos quebrando as folhas marrons e mortas na terra.

Creck!

Estão vindo, devem estar uns 10 metros de nossa localização. Fiz um gesto de silêncio fechando meu punho tapando a boca. Encolhemos nossos corpos mirando para o chão e olhando diretamente nos olhos.

Expectei que chegariam ao nosso alcance em 5 segundos. Abaixava um dedo de cada vez para Karen representando os segundos. 1. Esses são os piores segundos da minha vida, os 5 segundos que levou para me largar a cesta e me esconder dos tiros. 2. Os 5 segundos que duraram para eu mirar e acertar uma de suas costelas, senão ao contrário estaria morto. 3. Os 5 segundos que levaram para os raios solares queimar a metade do planeta. 4. Os segundos que leva para uma pessoa ser levada pela morte com um tiro no coração. 5. Agora.

– Ah! – Brenda gritou atrás de mim.

Um dos atiradores a pegou arrastando para o centro da trilha. Karen iria atirar em sua cabeça, mas surgiu outro atirando na lateral do tronco fazendo-a voltar a sua posição inicial. Intrometi-me na briga jogando meu corpo bem no meio da confusão.

Uma mulher loira de olhos azuis, adotava uma blusa branca e manga longa com a calça e sapatos combinando, fazia de refém minha filha, a ponta de uma pistola encostava-se a sua cabeça atravessando seus cabelos bagunçados.

– Por quê você está fazendo isso? – A mulher perguntou. Sua expressão soava como uma psicopata.

– Volta aqui! – Karen gritou. O quê aconteceu agora?

Teresa estava pendurada nas costas do homem ao lado da moça loira, ele vestia o mesmo estilo e cor dela. O homem caiu no chão e tentou imoblizar a garota, mas o chute de Teresa o empurrou a uma distancia de centímetros dando uma oportunidade de Karen atirar. Um clarão se expeliu do corpo do homem que queimou sua pele com médios raios elétricos. Todos ficaram chocados com a cena, o bico do lança-granada fluía fumaça.

A distração fez com que a mulher relaxasse a força de suas mãos, Brenda a golpeou no joelho e ao mesmo tempo mordendo a mão dela em seu ombro, em seguida, ela correu para atrás de mim. A mulher soltou um gemido.

– Por quê esta nos traindo?

– Por quê? Traindo? Você sabe por que eu sai, Tonya, e não só você, todos eles. – Aumentei a voz no final.

– O CRUEL só está tentando salvar...

– Ele não está tentando salvar nada! – lhe imterrompi antes de terminar, logo depois atirei em sua cabeça.

Inspirava e expirava quando me lembrei de minha filha, encaixei as palmas das minhas mãos em sua cabeça e deitei minha testa em cima da sua. “desculpa” sussurrei. Ela fissurava a visão no corpo da moça sem dar nenhum movimento. Em um lugar de meu cérebro, me preocupei com Teresa, ela andava lentamente observando o chão, acho que ela não se afetou muito ao ver a cena parecendo estar acostumada com esse tipo de situação.

– Melhor irmos rápido. – percebi que Karen queria quebrar o gelo dos sentimentos, que acabou conseguindo. Me despertou do meu mundo sem vácuo.

– Por quê não podemos ficar? – Brenda inquiriu, segurando as lágrimas dentro de si. – Por quê não podemos voltar para casa?

– Eles vão mandar mais pessoas atrás de nós.

– Por quê eles não nos deixam em paz? Estamos os atrapalhando em algo?

– Não, filha...

– Mas por quê não podemos viver na nossa casa de cabana, nem nas cidades estamos?

– Porque eles querem curar algo que não merece a cura.

Ela ficou paralisada por um momento, conseguíamos ouvir a respiração ofegante dela, mas na verdade todo mundo estava respirando forte, também depois dessa cena que quase se finalizou com a morte de duas crianças e dois adultos, precisávamos recuperar nosso fôlego urgentemente.

Ela virou em minha direção um pouco conformada, estendi minha mão quando parava ao meu lado e partimos rumo à cidade.

Apressamos os passos quando começamos a subir a colina. Sons de propulsores ecoavam no fim da trilha, só que um estrondo de madeira e cimento se destacou no ar. A nave passou à cima de nós, ela não nos detectou porque nos refugiamos em um pequeno abatimento na lateral da montanha feito de barro, como uma caverna que cabe somente quatro pessoas bem apertadas.

Escalamos até a metade da montanha, avistamos um fogaréu em um ponto da mata onde se localizava em um ponto certo a minha casa. Queimaram e destruíram-na para acabar com nosso tipo de base e a esperança de morremos na floresta, só que há uma cidade perto, ou se nós tivéssemos voltado nos queimariam vivos confirmando nossa morte. Eles não são burros, vão continuar à nos caçar cidade por cidade, que provavelmente pensariam nessa opção, até nos encontrar, eu não sei oque pode acontecer se isso vier á tona.

Alcançamos o topo do morro, avistamos a cidade á uns 100 metros da gente, um muro de ferro e um painel de vidro refletindo o sol do meio do dia, se isso que nos ocorreu foi antes de 12 horas, o quê irá vir daqui por diante. Direcionamos-nos ao grande e alto muro de aço. Os guardas permitiram nossa entrada e nos postamos em um apartamento, não demora muito desde o portão principal até ele. Os seguranças de alto nível recebem um desses em caso de transferência de Sede, mas eu rejeitei e comprei com meu dinheiro já que ganhava bem na minha profissão.

Perdi minha casa mas não perdi meu lar, lar significa: estar com quem você ama e valoriza vivendo junto. A vida não vai ser a mesma, o CRUEL nos quer de qualquer modo, eles sabem que tenho uma Imune, se não pediria dispensa no mesmo dia, e também sabem que estou com companhia. Não sei como vou mudar a situação, como fazer uma empresa que controla o mundo esquecer isso tudo que aconteceu? Uma coisa é certa, não vai acabar bem para ninguém, pode ser que alguém acabe morto abalando todo resto.

Todos antes de dormir ficaram focados no teto na escuridão do aposento, possivelmente refletindo sobre a mesma coisa que eu estou, todos transformando seu modo de viver.

Fugimos do pior neste instante, mas agora ele vai nos procurar até nos destruir.