“Algumas presenças não chegam para ocupar espaço…

chegam para fazer você perceber que nunca esteve realmente sozinha.”

POV BELLA

Dois anos não passam.

Eles apenas se acumulam.

E, com o tempo, você aprende que sobreviver não é seguir em frente… é aprender a existir no mesmo lugar, com o mesmo peso, sem deixar que ele te destrua por completo. Eu não superei. Eu nunca tive a intenção de superar. O que eu fiz foi organizar a dor, dar a ela um espaço fixo dentro de mim, um lugar onde ela pudesse existir sem interferir no resto.

Ou pelo menos… sem parecer que interferia.

Eu acordei no mesmo lado da cama, como sempre, o corpo respeitando automaticamente o limite invisível que eu nunca atravessei. O outro lado permanecia intacto, como se o tempo tivesse parado ali, como se ele ainda pudesse voltar e simplesmente deitar naquele espaço sem perceber que dois anos tinham passado.

O travesseiro ainda alinhado, o lençol esticado, o cheiro… mais fraco agora, quase imperceptível, mas ainda suficiente para me manter.

Eu virei o rosto devagar, meus olhos percorrendo aquele espaço com atenção demais, como se eu estivesse verificando algo que eu já sabia que não tinha mudado.

— Bom dia…— murmurei.

Silêncio.

Mas não vazio.

Nunca vazio.

Eu me levantei devagar, sentindo o chão frio sob os pés, um arrepio leve subindo pela pele, passando pelas pernas, pela coluna, até a nuca. Meu corpo ainda respondia ao ambiente, mesmo quando minha mente estava distante.


O complexo Higginbotham continuava perfeito.

Como sempre.

Organizado, limpo, artificialmente impecável. As árvores alinhadas, o chão sem falhas, as pessoas se movendo dentro de padrões invisíveis que ninguém questionava.

Era bonito e completamente morto.

Eu caminhava pelos corredores com passos firmes, postura impecável, cumprimentando as pessoas com pequenos acenos controlados. Eles me observavam. Sempre observaram. Mas agora havia algo diferente.

Respeito.

Eles viam alguém que suportou, mas não sabiam como e eu não expliquei.

— Bella…— a voz de Jasper surgiu ao meu lado.

Eu virei o rosto levemente, encontrando ele ali, postura tranquila, mas olhar atento. Jasper nunca falava por acaso. Nunca trazia informação sem propósito.

— Jasper…— respondi.

Ele caminhou ao meu lado, acompanhando meu ritmo com facilidade.

— Tem um funcionário novo hoje…— disse ele.

Eu não reagi imediatamente.

— É mesmo?…— perguntei fingindo interesse.

— Ele vai ficar na livraria…— continuou Jasper.

Isso fez diferença, pequena.

Mas fez.

— Livraria?— repeti, quase sem perceber.

— Veio de Seattle…— disse ele, simples — Eu trouxe ele pra cá.

Seattle.

A palavra ficou.

Eu não sabia por quê.

— E?— perguntei.

Jasper demorou meio segundo.

— Ele observa demais…— disse.

Silêncio.

Aquilo de novo.

— Você também observa…— respondi.

Ele deu um leve sorriso.

— Não desse jeito.

E isso…isso me fez ir.


A livraria ficava em um dos espaços mais silenciosos do complexo, afastada do fluxo constante de pessoas. Era um lugar que respirava diferente, onde o tempo parecia desacelerar, onde o barulho não entrava completamente.

Eu gostava dali.

Sempre gostei.

O cheiro de papel, madeira e café me atingiu assim que empurrei a porta, uma sensação familiar, quase confortável, quase segura.

E então…eu te vi.

Você estava ali.

Parado.

De costas.

Mas presente de um jeito estranho, como se ocupasse mais espaço do que deveria sem fazer nada.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Um leve aperto no peito.

Uma atenção que se estreitou.

Errado.

Completamente errado.

— Você deve ser Anthony.— eu disse, a voz saindo naturalmente, sem esforço.

E então você se virou.

E tudo…mudou.

Não foi imediato como antes.

Não foi impacto.

Foi outra coisa.

Mais lenta.

Mais silenciosa.

Mais… profunda.

Você me olhou.

E não desviou.

De novo.

Mas dessa vez… mais perto.

Mais direto.

Mais real.

Eu senti.

Micro.

Mas suficiente.

— Anthony Masen? — eu perguntei, inclinando levemente a cabeça. — Jasper disse que você começaria hoje.

— Sou eu.- disse você forçando um sorriso.

Eu sorri de leve, apoiando a bandeja no balcão, colocando a xícara com cuidado.

— Bem-vindo ao caos saudável do complexo Higginbotham — eu disse rindo baixinho e coloquei uma das xícaras no balcão. — Café?

Você aceitou.

E quando suas mãos tocaram as minhas…foi rápido.

Mas não foi vazio.

— Obrigado.- disse você sorrindo torto.

Eu apoiei os cotovelos no balcão por um instante, observando seu rosto com atenção. Não era consciente. Não totalmente. Era automático. Instintivo.

E você…não era fácil de ler.

E isso…isso me incomodou.

E me prendeu.

— Então… de onde você veio, Anthony?- perguntei curiosa.

— Seattle.- você respondeu.

Simples.

Direto.

Mas havia algo ali.

Algo que não encaixava completamente.

— Mudança grande — eu comentei.

— Às vezes recomeçar é necessário.- você suspirou.

Recomeçar.

A palavra atravessou.

Fundo.

— Concordo.— eu disse.

E naquele momento…

eu senti.

Não calma.

Não conforto.

Mas algo próximo.

Algo perigoso.

Algo que eu não sentia havia dois anos.

Presença.

E isso…

isso foi o primeiro erro.

— Bella, você viu meu… — Emmett entrou, interrompendo, parando ao te notar. — Ah. Você é o cara novo.

— Anthony — eu disse. — Ele vai ajudar na livraria.

Emmett apertou sua mão com força exagerada.

— Emmett. Roteirista frustrado, gênio incompreendido, consumidor ocasional de substâncias que minha mãe prefere não mencionar.

— Ele quer dizer drogas — murmurei, revirando os olhos.

— Alegações sem provas — Emmett respondeu rindo.

Mas eu não estava mais prestando atenção completamente.

Porque você…você ainda estava ali.

E você ainda estava olhando.

E dessa vez…não era só curiosidade.

Era outra coisa.

E eu não gostei.

Não de verdade.

Mas também…não consegui ignorar.

Depois disso, o dia continuou.

Normal.

Funcional.

Controlado.Mas havia algo…fora do lugar.

Eu percebia você.

Mesmo sem olhar.

Mesmo sem procurar.

Como se alguma parte de mim estivesse… atenta demais.

— Você viu?— perguntou Alice mais tarde.

Eu encostei na mesa, cruzando os braços.

— Vi…— respondi.

— E?— ela insistiu.

Eu respirei fundo.

— Ele não tenta esconder…— murmurei.

— Esconder o quê?

Silêncio.

— Ele observa como se já soubesse segredos…— continuei.

— O quê? Tipo, leitor de mentes?

Eu balancei a cabeça.

— Eu não sei.

E isso…isso foi o problema.

Porque eu não gosto de não saber.

No final do dia, eu voltei para casa.

Como sempre, a porta se abriu e o silêncio me recebeu.

Familiar.

Seguro.

Controlado.

Eu caminhei até o quarto, meus passos leves, automáticos e então parei.

Tudo estava igual.

Como sempre.

Mas não parecia.

Eu fiquei ali, parada, observando, tentando entender o que estava diferente.

Mas não era o quarto.

Não era a casa.

Não era ele.

Era…você.

Eu fechei os olhos por um segundo, respirei fundo tentando empurrar, controlar e apagar.

Mas não foi imediato.

Porque pela primeira vez em dois anos…algo novo ocupou espaço.

E isso…isso não foi liberdade.

Foi ameaça.

— Tô fudida— murmurei.

Porque eu reconheci, o início e se tem uma coisa que eu aprendi…é que tudo que começa assim…

termina pior.

Eu abri os olhos.

Olhei para o quarto.

Para tudo que ainda era dele.

E mesmo assim…você estava ali.

— O que você quer?…— sussurrei.

Silêncio.

Mas dessa vez…não foi confortável.

— Você acha que me entende?…— murmurei, a voz mais baixa, mais controlada.

Minha respiração estava mais lenta.

Mas não por calma.

Por atenção.

— Porque você tá olhando assim?…

Nada.

E ainda assim…não parecia vazio.

Porque você não parecia alguém que passa.

Você parecia alguém que fica e isso foi o verdadeiro problema, porque ele foi o amor da minha vida, mas você…você é alguma coisa que eu ainda não entendi. E talvez…esse seja o começo de outro erro...

Existem coisas que você não escolhe perceber, elas simplesmente… acontecem.

Não de forma grandiosa, não como um impacto claro que exige reação imediata, mas em pequenos desvios, quase imperceptíveis, como se alguma parte da realidade tivesse sido levemente ajustada sem te avisar. E quando você finalmente nota… já está envolvida.

Foi assim com você.

Eu não voltei para a livraria naquele dia porque queria.

Eu não tenho mais esse tipo de impulso, esse tipo de curiosidade desorganizada que me faz agir sem pensar. Eu aprendi a controlar, a filtrar, a ignorar tudo que não fosse necessário. Eu não preciso de novidade. Eu não preciso de ninguém.

Mas ainda assim…no dia seguinte…eu fui e isso foi irritante.

O caminho até lá era o mesmo de sempre, os passos calculados, a postura impecável, o olhar firme o suficiente para impedir qualquer tentativa de aproximação desnecessária. As pessoas continuavam me cumprimentando, me olhando com aquele respeito silencioso que eu construí ao longo do tempo.

Eles me viam como alguém forte e eu deixava, porque é mais fácil assim, mas quando eu empurrei a porta da livraria…meu corpo mudou.

Micro, mas mudou.

O cheiro de papel e café me atingiu primeiro, familiar, confortável… mas não foi isso que prendeu minha atenção.

Foi você.

Você estava organizando uma pilha de livros, os movimentos lentos, precisos, como se cada gesto fosse pensado antes de acontecer. Não havia pressa. Não havia distração. Não havia aquela energia superficial que a maioria das pessoas carrega.

Você estava… presente.

E isso…isso me puxou.

— Você voltou…— você disse, sem levantar o olhar imediatamente.

Minha respiração falhou por meio segundo.

Você sabia.

Sem olhar.

Sem confirmar.

Você sabia.

— Eu trabalho aqui…— respondi, mantendo o tom neutro e simpático.

Mentira, eu não precisava estar ali e nós dois sabíamos disso.

Você levantou o olhar devagar e de novo…não desviou.

Meu corpo reagiu antes da minha mente, um leve aperto no estômago, uma tensão que subiu pelos ombros, uma sensação estranha de… exposição.

— Não hoje…— você disse.

Simples.

Direto.

Errado.

Silêncio.

Eu dei um passo à frente, cruzando os braços como uma forma automática de manter controle, de fechar o corpo, de limitar o espaço que você parecia ocupar sem pedir permissão.

— Você observa demais, Masen…— murmurei o provocando.

Você inclinou levemente a cabeça e riu.

— E você percebe demais.

Aquilo me atingiu, fundo, rápido e eu odiei, porque era verdade.

— Isso não é um elogio…— respondi, mais fria.

— Não foi a intenção…— você disse.

E o problema…foi que não pareceu mesmo.

Silêncio, pesado, mas não desconfortável e isso foi pior.

Eu me aproximei do balcão, apoiando as mãos na madeira, sentindo a superfície lisa sob a ponta dos dedos, usando aquilo como âncora, como forma de manter alguma estabilidade enquanto minha mente… reorganizava.

— Você faz isso com todo mundo?— perguntei.

— Isso o quê?

— Ficar olhando… como se estivesse analisando.

Você demorou meio segundo, uma veia saltou no meio da sua testa.

— Não com todo mundo…— respondeu.

Meu coração bateu mais forte, micro, mas suficiente.

— Então por que comigo?— perguntei.

E ali…foi o erro.

Porque eu dei espaço e você percebeu.

Seu olhar não mudou completamente, mas algo nele… ajustou.

Mais atento.

Mais focado.

Mais… direto.

— Porque você não é todo mundo…— disse sorrindo torto— Você é diferente...

Simples, sem esforço ou intenção aparente de impressionar.

E aquilo…aquilo me atingiu de um jeito perigoso.

Porque não era sedução, não era um jogo.

Era percepção e eu…eu fui criada para ser vista como perfeita.

Não como… interessante.

Eu soltei um riso baixo, mas não havia humor.

— Você não me conhece…— murmurei.

Você deu um pequeno passo para mais perto, não o suficiente para invadir, mas o suficiente para reduzir.

— Eu sei…— disse — mas quero muito.

E naquele momento…algo mudou.

Não no ambiente.

Não em você.

Mas em mim.

Porque eu senti, não controle ou estratégia, mas uma reação e eu não gosto disso.

— Cuidado…— murmurei, mais baixo.

— Com o quê?— você perguntou.

Eu levantei o olhar.

Direto.

— Com o que você acha que vê.

Silêncio.

E então…eu fiz.

De propósito.

— As pessoas costumam se decepcionar…— continuei, a voz mais suave agora, mais baixa, mais… vulnerável.

Calculado.

Sempre calculado.

— Eu não sou o que parece.

Mentira e verdade, misturadas do jeito certo.

Você não respondeu imediatamente.

E isso…isso me fez continuar.

— Eu já perdi muita coisa…— murmurei, desviando levemente o olhar, permitindo uma pequena falha na postura, um micro tremor na respiração.

Suficiente.

— Eu não… sou fácil.

Você me observava.

Em silêncio.

E eu sabia.

Sabia exatamente o que estava fazendo.

— Eu não gosto de ser… deixada de lado…— completei, mais baixo.

A palavra saiu com cuidado.

Escolhida.

“Deixada”.

Não “abandono”.

Não “controle”.

Não “posse”.

Eu construí a narrativa, como sempre faço.

E você… ouviu.

— Eu não tenho intenção de ir embora…— disse.

E aquilo foi perigoso, orque por um segundo eu acreditei.

Meu coração apertou, uma sensação quente, rápida, subindo pelo peito, espalhando-se pelo corpo de forma quase elétrica.

— Todo mundo tem…— murmurei.

Minha voz saiu mais baixa agora, mais suave.

Mais… quebrada.

— Eles só não dizem no começo.

E ali…eu vi.

Algo no seu olhar mudou, não completamente.

Mas o suficiente e isso foi o que eu queria.

Porque você não era como os outros.

Você não vinha fácil.

Você não reagia como esperado.

Mas ainda assim…você reagia e isso era suficiente.

— Você não parece alguém que confia…— você disse.

Eu sorri, pequeno, triste e ensaiado.

— Eu confiei…— murmurei.— Uma vez.

Perfeito.

Simples.

Eficiente.

Você não perguntou mais.

Não invadiu.

Não pressionou.

E isso…isso me intrigou.

Porque a maioria perguntaria.

A maioria tentaria se aproximar mais rápido.

Mas você…você esperava.

E esperar…

é mais perigoso.

Eu me afastei devagar, mantendo o olhar por mais um segundo, deixando o silêncio preencher o espaço entre nós como algo que ainda precisava ser entendido.

— Você devia tomar cuidado…— murmurei.

— Com você?— você perguntou.

Eu inclinei levemente a cabeça.

— Principalmente.

E então eu saí, mas não completamente.

Porque enquanto eu caminhava…eu sentia.

A presença.

A atenção.

E isso…

isso ficou.

Porque ele foi o amor da minha vida.

Mas você…não parecia alguém que veio para amar, parecia alguém que veio para entender.

E isso…isso pode ser muito pior.