Before The Sunrise
17 Mudanças e um Abrir de Olhos
Notas iniciais
17. Mudanças e um Abrir de Olhos
Aiden
Eu simplesmente não tinha me sentido bem naquele dia. Sei lá, algo estava errado. Eu nunca vivi, ou acho que poucas vezes vivi uma experiência tão... tão... Ah! Tão fortemente traumática que me fizesse ficar com vontade de me esconder num buraco só para não conversar com ninguém. Poxa, acho que isso revela o quanto sou sociável. Será que ser sociável demais pode ser um problema? Porque eu pelo menos nunca ouvi falar de ninguém que estranhasse não estar rodeado de pessoas, mas eu estava estranhando.
Nem mesmo com Cole Stryder, meu melhor amigo, eu tinha trocado muitas palavras. Já foi um pesadelo ter que tranqüilizar ele e Jeremy sobre eu estar bem apesar de ter caído em um buraco. Tive que inventar uma mentira enorme. Na verdade, acho que fui para a biblioteca fugir deles como o diabo foge da cruz, pois eu não sabia mais o que fazer para eles pararem de se preocupar comigo e minha mudez anormal.
E foi lá que eu a encontrei. Lizzie.
Quem diria que nós dois estaríamos ambos ali pelo mesmo motivo: fugir da sociedade? Acho que vou matar alguém de infarto aqui se eu disser que conversei bastante com ela, não vou? E provavelmente mais ainda se eu disser que a conversa até foi boa. Mas pior que foi verdade! Eu conversei mesmo agradavelmente com Lizzie, e, pela primeira vez, ela me mostrou seu sorriso autêntico. Depois até senti que ela parou com todo aquele mau-humor com que ficava perto de mim.
E foi no meio de uma risada que demos juntos no corredor que eu me toquei e a verdade me atingiu como um raio: Cara, é hora da saída e nós conversamos o dia inteiro!
– AHAHAHAHA! Aiden, você é hilário! Tadinha da sua tia – Lizzie comentou, enxugando com a ponta do dedo uma lágrima que caíra decorrente de tanta risada.
Só para esclarecer, eu tinha acabado de contar para ela sobre o último verão que minha tia Dianne passara com minha família lá em casa, e os micos que ela pagou e sobre como foi tudo terrivelmente engraçado.
– Pois é – eu sorri para ela. Surpreendi-me ao perceber que minhas reações eram as mesmas das que seriam se eu estivesse conversando com um amigo meu.
Nós caminhávamos por um dos corredores da escola em direção à porta. O sinal tinha tocado há pouco tempo.
– Aaahn... – Liz fez um ruído de mal-estar de repente, pondo a mão na testa e parecendo fraca. – Que fome. Agora estou arrependida de não ter almoçado.
Parecia que ela ia desmaiar a qualquer minuto. Tirei um chocolate do bolso.
– Então, toma – eu disse, pondo-o nas mãos dela. Nossa, como estavam macias. Liz ergueu uma sobrancelha para mim. – Que foi? Não gosta desse?
– Não, na verdade eu adoro! – ela sorriu e fechou os dedos ao redor do chocolate. – Quem é que não gosta de chokito? Mas eu não posso aceitar! Você também não almoçou e deve estar com fome – ela tentou me devolver, mas eu a impedi.
– Ei, não se preocupe comigo! – dei de ombros. – Eu comprei dois na hora da entrada, mas já comi um no intervalo entre a 3ª e a 4ª aula. Não estou com fome.
Ela sorriu para mim novamente. Dessa vez, docemente e agradecida.
– Obrigada.
– Em todo o caso, eu não pretendia comê-lo.
– O que você ia fazer com ele então? – Lizzie quis saber, já abrindo a embalagem e dando uma mordida no chokito.
– Eu ia dar para a minha irmã – eu ri quando ela se engasgou ao som de minhas palavras.
– Ai-meu-Deus! E como assim você foi me dar, Aiden? Fiz a sua irmã deixar de ganhar um chocolate delicioso, que péssima pessoa eu sou!
– Acredite, você não é uma péssima pessoa – abri um sorriso irônico. – Anna tem meio que uma paixão por chocolate, mas ela já come demais dele. Um a menos não vai fazer falta.
– Mesmo assim, ainda estou me sentindo mal.
Revirei os olhos.
– Vai para casa de ônibus, a pé ou de carro? – mudei de assunto.
– De ônibus.
– Com a galera toda da escola? Irado!
Ela riu.
– Mais ou menos. E você?
– De carro.
– Uau. Que chique! – ela me fez rir. – Papai vem buscar, motorista vem buscar ou você tem o seu?
– Eu tenho o meu.
– Nossa, duplo “uau”! Até onde eu sei, isso significa independência e descolagem total!
– Quem pode, pode. Quem não pode, se sacode – brinquei.
– Ei, pô. Não humilha!
Nós dois paramos de andar para cair na gargalhada e de repente eu notei que Whitney, Nicole e... outras meninas que não sei o nome, mas me lembrava claramente que eram do grupinho de Liz, começavam a chegar perto da gente vindo de trás; e ao nos verem gargalhando juntos, arquearam as sobrancelhas e deixaram cair o queixo, obviamente surpresas. Na verdade elas estavam tão perplexas que pareciam mais estar observando uma ninhada de porcos batendo as asas e se preparando para voar.
Para completar, dei-me conta de súbito que estávamos perto de onde ficava o armário de Cole. Pelo canto do olho, arrisquei olhar rapidamente atrás de mim e vi meu melhor amigo lá, parado perto de seu armário, encarando a mim e a Lizzie com um sorriso malicioso nos lábios que me fez revirar os olhos.
Só aí eu calei a boca, mas felizmente Liz também estava parando de rir. E olha que nossa risada não foi nem tão longa assim, foi mal, sei que fiz parecer que durou séculos.
– Ai, ai. Eu nunca imaginei que... – ela não completou a frase.
Nunca imaginou o quê? Que eu pudesse ser tão legal?, pensei comigo mesmo. Eu não estava com raiva. Só... curioso por querer saber o que ela nunca tinha imaginado, mas tinha medo de perguntar e ela não querer dizer.
Nós estávamos parados de frente um para o outro, de modo que eu não podia ver a porta de saída/entrada e Lizzie por sua vez não podia ver os corredores nem a escadaria da escola. Notei quando ela olhou por cima do meu ombro e corou. Eu quase olhei para trás para ver o porquê, mas não precisei. Também olhei por cima do ombro dela e percebi que agora todos olhavam para a gente. Bom, não era de se admirar. Os populares deviam estar anotando mentalmente nossas reações para fofocar tudo tim-tim por tim-tim, e as pessoas comuns estavam certamente abismadas de ver Lizzie conversando comigo.
Sem dúvidas era por isso que ela tinha corado. Lizzie não estava acostumada com essas coisas, ao contrário de mim.
– Então, hã, tchau – ela me disse quando o ônibus Escolar buzinou na porta do colégio.
Eu mordi o lábio inferior para não rir da cara dela e ergui a mão para tirar, com o polegar, uma mancha de chocolate que tinha no seu canto da boca.
– Tchau – respondi. Percebi como Liz corou e se encolheu ao meu toque, claramente envergonhada. Nossa. Gente tímida é outra coisa...
Ela correu para o ônibus e eu comecei a pensar. Lembrava de hoje mais cedo, quando estávamos na biblioteca e eu peguei uma mecha de seu cabelo; ela também corou levemente. Será que ela tinha ficada vermelha assim quando eu a “carreguei nos braços” em Orazón? Eu não me lembrava, mas tinha certeza de que não estava prestando muita atenção nela na hora. Talvez ela tivesse corado. Caramba, ô, menina acanhada!
Caminhei na direção de Cole, que estava rindo.
– CARAAAAAAAAAA!
– Nada de “Cara”! – repreendi. – Eu sei o que você está pensando, e não é nada disso.
Cole fez cara de poucos amigos.
– Que pena.
Eu suspirei.
– Cole, já falamos sobre isso. Não tem nada a ver com a Brittany!
– Não estou dizendo que tem – ele levantou as mãos em sinal de paz. – Só não entendo por que depois dela, você não quis saber de mais nenhuma garota. Como seu melhor amigo, não tenho o direito de me preocupar?
Eu dei um tapa no pé da orelha dele.
– Ai! PÔ, QUALÉ? – Cole reclamou. Eu ri e pus o braço ao redor de seu ombro. Depois de um tempo, ele riu também e imitou meu gesto. Começamos a balançar de um lado para o outro, e a grunhir como se fôssemos bêbados procurando equilíbrio.
– Você sabe que isso não é verdade – eu sorri um rápido sorriso travesso, e então puxei meu braço de volta. – Ontem mesmo nós...
–... Extrapolamos na paquera pornô – ele disse num tom de voz sério, como se fosse a coisa mais normal do mundo. – É, eu sei.
Eu caí na gargalhada. Ah, Cole se expressava tão bem!
– Qual é a graça? – ele perguntou, cínico. – Ei, Aiden, você não está me escutando! Acontece que foi só. Não pegamos ninguém, lembra? Sua encalhação tá interferindo diretamente na minha vida amorosa, não gosto disso não! – brincou.
Eu fiz uma careta para ele.
– Que vida amorosa?
Ele riu.
– Ok, vida pegadora.
– Melhorou. Tá, agora vamos falar sério. Cole, você sabe que já voltei a pegar algumas garotas, é só que... Bem, eu vou demorar para voltar ao meu ritmo normal – sorri. – Pensei que tivesse entendido isso.
Ele olhou para o lado como se estivesse refletindo, estalou a língua no céu da boca e voltou a sorrir para mim.
– Tem razão. Desculpe. Mas se me permite dar a minha opinião, aquela garota até que era bonita. Quem é?
– Lizzie Johnson. Achou mesmo ela bonita?
– Claro! Você não? É o tipo garota-tímida que costumamos não notar porque são muito reservadas. Mas quando ela estava ali com você, percebi que era bonita mesmo.
Arqueei as sobrancelhas. Às vezes Cole tinha desses momentos, quando nós achávamos que ele ia falar uma coisa nada a ver (porque ele geralmente fala coisas nada a ver) e ele abria nossos olhos para uma verdade escancarada ou nos dizia o que ainda não tínhamos percebido. [N/A: véi, achei isso profundo! *-*]
Automaticamente, a imagem de Liz voltou à minha cabeça. Lembrei que ela tinha dentes pequenos e um lindo sorriso, olhos verdes brilhantes e inocentes, corpo delicado e com curvas bem-definidas. Até mesmo sua pele clara e cabelo castanho ondulado eram bonitos.
Caramba! Pensando bem, ela era até mais bonita do que Catherine. A desejada Catherine, cuja beleza era muito mais fácil de se notar, simplesmenteporque era mais sexy e despertava mais facilmente o interesse masculino.
– Uau – murmurei para mim mesmo, impressionado e com raiva da minha capacidade de desprezo às garotas do “tipo Lizzie”. – Tem razão, Cole. Ela é realmente bonita.
Ele sorriu convencidamente para mim.
– Quem é que tem razão aqui, hein? Sou eu! – Cole riu. – Então, rola ou não rola?
– O quê? COM ELA? Nem pensar! – surtei.
– Minha nossa, Aiden! Por quê?
– Não viu a cara de santa daquela garota? Tudo do que sempre fugi. Além do mais, ela é repelente de homens. Nunca aceitou nenhum dos pedidos para ficadas que recebeu...
Cole interrompeu-me com uma alta gargalhada.
– Você deve estar brincando, não é? Se considerar: primeiro, que são apenas boatos; segundo, que os garotos que ouvimos falar que pediram para ficar com ela foram Flint Fletcher e Oliver Martin – eu fiz uma careta lembrando-me de quão feios eram aqueles garotos e Cole riu novamente. – Viu só? E depois, se ela realmente ainda for encalhada, quem melhor do queAiden Hills para desencalhar?
Eu o fuzilei com os olhos.
– Você é realmente muito convincente, Cole, mas eu já estava pensando em conquistar outra garota...
– OPA! Então tá! Quem é?
Ótimo. Agora como eu ia escapar dessa mentirinha que contei? Abri a boca, mas... Não sei por que, a imagem de Glynda veio à minha mente.
Lembrei que ela era incrivelmente bonita com seu cabelo longo e castanho-avermelhado; seus olhos azuis cor de safira e o corpo perfeito e exageradamente pálido...
Era minha deixa.
– Bom, você não sabe quem é. Eu a conheci na praia. – tentei forçar meu sorriso a sair autêntico, feliz por ter encontrado uma desculpa.
– Aaaah! Legal – ele sorriu para mim.
Comecei a ficar nervoso. Rápido, Aiden, pensa!
– Ahn... é. Lembrei que tenho que chegar logo em casa porque preciso falar com a Annabeth antes dela ir ao... DENTISTA! – terminei às pressas. – Quer fazer o favor de ir chamar logo o Jeremy pra irmos embora?
Cole riu e, lado a lado, nós fomos até meu armário para que eu pudesse pegar minhas coisas e depois ligamos para o retardado – e sempre atrasado – Jeremy.
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