Before The Sunrise
24 A Armadilha
Notas iniciais
24. A Armadilha
Mack
Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.
Ele é um mestiço.
O pensamento me fez trincar os dentes. Sim, Aiden era um mestiço, e o fato de eu não ter percebido antes me deixava furioso. Nada era mais óbvio!
O cabelo humano, os olhos sombrios, a pele pálida ligeiramente prateada que brilhava fracamente à luz da lua. Numa intensidade menor que a minha e a de Glynda, era verdade; mas existente.
– Não. – Aiden murmurou com a voz trêmula, porém, sua rejeição à idéia era bem evidente. – NÃO! – berrou com mais força, pondo-se de pé num salto.
Meu rosto perdeu a cor enquanto eu me perguntava se ele por acaso estaria cogitando partir para cima de Glynda. Não tive tempo de descobrir. No segundo seguinte, Brian também estava levantado, segurando Aiden pelos ombros.
– Me solta! – Aiden começou a se debater e eu estremeci. Era noite, e sendo ele um mestiço, portanto meio-filho de Zanthon, Brian não teria a menor chance. – EU VOU ACABAR COM ELA!
Diante da frase, eu e Glynda nos sobressaltamos ao mesmo tempo e eu rapidamente me postei na frente dela. Empurrei-a para trás de mim, assumindo uma posição defensiva e indicando que eu a protegeria.
Aiden grunhiu de raiva e frustração, e eu podia ver toda a cólera em seu rosto, mas ele não queria realmente soltar-se; não queria realmente fazer mal à Glynda. Eu sabia, pois suas investidas contra Brian eram fracas demais, não correspondiam nem à metade de sua real força.
– Não é verdade! – ele gritava com desespero. – Eu não sou um mestiço. Não posso ser!
– É claro que é! – a voz de uma furiosa Catherine subitamente cortou a atmosfera. Assustado, eu a vi levantar-se num ímpeto e segurar um dos braços de Aiden, exibindo-o bem diante dos olhos do garoto. – AQUI! Não está vendo como brilha?! Agora eu sei por que quando vi Mack à luz da lua pensei me lembrar de alguém! Como pôde esconder isso da gente todo esse tempo?!
– PAREM COM ISSO! – foi a vez de Lizzie gritar, também se levantando e marchando na direção de Catherine. Lizzie tocou o ombro da amiga, o que fez Catherine virar o rosto violentamente na direção dela. – Catherine, por favor! Não está vendo que ele não...
Ela não completou a frase, mas não precisou.
Catherine largou o braço de Aiden e mesmo Brian o soltou. Eu mantive minha posição à frente de Glynda, mas meu queixo havia caído. E eu sabia que o dela também.
Aiden estava muito imóvel. Falou após segundos silenciosos depois, confirmando o que a garota humana tinha tentando nos passar.
– Eu... eu não sabia.
Ele fechou os olhos e estremeceu. Catherine voltou a tocá-lo, mas dessa vez nos ombros, e com gentileza.
– Não... não fique assim.
Aiden virou-se para ela e abriu os olhos por uma fração de segundo. Depois, voltou a estremecer, e baixou a cabeça, suas sobrancelhas ondulando de um jeito muito triste enquanto ele encaixava o rosto no ombro de Catherine.
– Ah, me desculpe! – ela pediu numa voz chorosa enquanto o envolvia num abraço. – Não é culpa sua, não é tão terrível assim, Aiden... Isso não muda quem você é ou tudo o que já fez por nós!
Catherine continuou sussurrando palavras confortadoras enquanto eu sentia toda a tensão nos meus músculos se extinguir. Glynda tremia em minhas costas.
– Glynda... – a voz de Lizzie agora era suave enquanto ela se voltava para a princesa. – Ele realmente não fazia idéia...
Lizzie parou de falar e se voltou outra vez na direção de Aiden e Catherine, pondo-se a caminhar até eles.
Seguiram-se minutos de mais consolos e choramingos.
De repente, todos estavam sentados novamente, conversando sobre a recém-descoberta. Os humanos pareciam aceitar muito bem, e Aiden sussurrava a toda hora frases como “Minha vida inteira foi uma mentira” ou “Será que sou adotado, ou meu progenitor sombrio ainda mora comigo?”
Eu me virei para Glynda e lancei-lhe um olhar de compaixão. Pelo menos, era o que eu planejava fazer.
Ela não estava mais atrás de mim.
Avistei-a sentada numa pedra ao longe. Afastando-me com cuidado para não chamar a atenção do grupo, caminhei na direção da princesa.
– Você está bem? – quis saber. Era engraçado eu estar perguntando isso a ela agora, sendo que, nas últimas horas, ela quem tinha perguntado bastante a mim.
Glynda balançou a cabeça negativamente.
– Ora, vamos – tentei confortá-la, parando para sentar-me a seu lado. – Você não tinha como adivinhar que ele não sabia!
Ela encolheu os ombros.
– Mack – suspirou –, eu fiquei com raiva pela intromissão dele no meu relacionamento com Brian. Mas eu não queria fazer o Aiden sofrer! Ele não merecia. Ele não é mau...
Glynda estremeceu ao terminar a frase e eu quis por meu braço em volta dela, mas não tinha coragem.
– Glynda – ela virou o rosto, com uma sobrancelha erguida em minha direção, por eu tê-la chamado pelo nome. Eu ri. – Sei disso. Acredito em você. Também posso sentir que Aiden é uma boa pessoa, mas, mais cedo ou mais tarde ele teria descoberto. É, ahn, e nós também, eu acho.
Ela suspirou e esfregou a testa com desconforto. Depois, virou-se para mim e sorriu.
– Obrigada, Mack.
– Sei que sou horrível em consolações, não precisa me agradecer falsamente.
Glynda pareceu não ter como não rir do que eu disse.
– É sério, ok? Eu realmente me sinto melhor. – Ela me abriu outro sorriso. – Mas, por favor, não faça outra piada, acho que meu estômago não agüenta.
Foi a minha vez de cair na gargalhada. Foi uma risada verdadeira e muito gostosa. Mal acreditei naquilo. Fazia realmente muito tempo que eu não ria com vontade!
Sorri para Glynda.
– Sabe... – ela me disse enquanto torcia a barra do vestido verde rasgado, parecendo sem jeito. – Mack, realmente te considero um grande amigo agora.
Corei. Não conseguia achar nada decente ou minimamente inteligente para dizer, de modo que fiquei calado, com um sorriso de gratidão estampado nos lábios.
Glynda estendeu a mão para mim, mas eu não interpretei que deveria apertar a mão dela, pois estava com outra idéia em mente. Quando dei por mim, já a estava abraçando. Quis correr para bem longe e enfiar minha cara num buraco. AAAAAAAAAAAH, IDIOTA!
O que é que estava acontecendo comigo?! Eu duvidava que conseguisse encarar Glynda depois do abraço que a dei como um completo imbecil, abraço esse totalmente inesperado e desnecessário.
Afastamo-nos e ela estava completamente vermelha. Meu rosto não deveria estar muito diferente, eu tinha certeza disso.
– Er... ahn... Por favor, vamos voltar para perto dos outros.
Glynda inacreditavelmente riu do meu comentário. Tudo bem que eu estava cometendo uma esquisitice atrás da outra, mas eu realmente achei que ela fosse me bater ou no mínimo me bronquear.
– Vamos! – ela concordou, e eu, mais uma vez sem pensar, sorri e lhe ofereci o braço. Mais inesperadamente ainda ela aceitou, fechando a palma em torno dele.
Caminhamos assim, de braços dados, até nos aproximarmos outra vez da fogueira e, consequentemente, do grupo de humanos e do mestiço. Eles por sua vez nos encararam como se fôssemos alienígenas, pelo motivo de que, eu sabia, os cavalheiros não ofereciam mais os braços às damas no mundo humano desde 1800 e alguma coisa.
Baixei meu braço, fazendo Glynda largá-lo, e sorri amigavelmente para eles.
Ela limpou a garganta.
– Eu sinto muito, Aiden. Não quis te magoar, nem queria que você ficasse sabendo desse jeito. Eu realmente não pensei que você pudesse não ter conhecimento da situação...
Aiden balançou a cabeça e dispensou as desculpas de Glynda com um gesto.
– Está tudo bem. Você não tinha como adivinhar mesmo, e eu sei que a irritei. Mas estou feliz que me contou. Realmente acho que precisava saber disso – ele sorriu fracamente para ela. – Ah, e não se preocupe, não vou tentar te atacar outra vez.
Caímos na gargalhada eu fiquei feliz por o clima ter se amenizado.
Estávamos há muitas horas parados e eu ressaltei que devíamos continuar seguindo, mas pelos bocejos durante meu discurso percebi que não adiantaria nada exigir esforço da parte de ninguém naquele momento. Eu próprio não dormia há dias, e não resisti à tentação. De modo que perdemos um dia inteiro de caminhada. Íamos levar mais tempo do que o previsto.
Eu me deitei na grama macia e fechei os olhos, perguntando-me se algum guarda teria dado por minha falta na prisão. Se sim, não podíamos continuar com tanta folga. E o pior era que se ninguém tivesse encontrado o pedaço rasgado do vestido de Glynda na praia, estariam procurando-a também, e nossa única vantagem era que ninguém podia suspeitar que ela tivesse seguido comigo, e ainda menos pelo Caminho Sagrado.
Mas se eles perguntarem a Huann Kippur... Se o sacerdote revelar nossa localização, ou pior, transportar os guardas com sua mágica...
Estremeci, mas eu estava realmente cansado. Mesmo com todos os pensamentos atormentadores que vagavam por minha mente, adormeci em questão de minutos.
***
Ajeitei melhor a mochila em meu ombro pela milésima vez.
Eu e meus companheiros tínhamos desmontado o acampamento – se é que podíamos chamar aquilo de acampamento – ao nascer do sol, e recomeçado a caminhada após um café-da-manhã farto.
Glynda estava à minha esquerda, puxávamos conversa casualmente vez ou outra. À minha direita, estavam Catherine e Aiden; Brian e Lizzie encontravam-se um pouco atrás por um motivo que não saberia dizer. Com a ausência de trilhas, não havia realmente razão para não caminharmos lado a lado, embora talvez eventualmente fôssemos separados por alguma árvore que aparecesse.
Catherine caminhava tão perto de mim que, de quando eu quando, eu sentia o braço dela roçar no meu, e corava toda vez que isso acontecia. Ela era uma evidência de que nem tudo o que eu lia sobre humanos era verdadeiro. Sempre ouvi que as fêmeas de sua espécie eram completas barangas, ou feias de dar dó; e, no entanto, lá estava ela, a maior prova viva de que tudo não passava de calúnias.
Eu acabei por me perder algumas vezes observando seus olhos castanhos e cabelos escuros, tal era a beleza extraordinária deles. Mesmo sua pele cor de chocolate, à qual eu não estava acostumado e sabia que deveria estranhar, na verdade até me fascinava. Tudo nela despertava o meu interesse.
Catherine murmurou qualquer coisa para Aiden, que riu e logo depois repuxou os lábios para cima num sorriso, tive de reconhecer, arrebatador. A garota apenas limitou-se a retribuir o gesto, mas eu me vi completamente enciumado. Não tinha reparado em como Aiden era atraente até então. Ainda mais para um mestiço!
Glynda, ao reconhecer o sentimento que tomava conta de mim, riu do meu lado.
Não ofereci meu braço novamente, porém ela o pegou, e silabou um “obrigada” que provavelmente era para despistar – e também não alarmar – Brian.
– Você gosta dela. – Glynda murmurou a meu ouvido com convicção.
Suspirei. Ela me encurralara, mas eu não queria negar nada. Glynda não tinha dito que era minha amiga? Pois bem, o que eu mais estava precisando naquele momento era de um amigo para desabafar.
Mordi o lábio, mas não consegui pensar num jeito de admitir antes que ela me falasse novamente:
– Mack, ela é humana. – Glynda continuava sussurrando muito baixo, com medo de que os outros nos ouvissem.
– E quanto a você e Brian? – retruquei.
– É diferente. Ele é minha alma gêmea. – Ela fez uma pausa. – E se ela só quiser usar você?
Um arrepio percorreu minha espinha.
– Por que diz isso?
– Catherine não é o tipo de garota que preza um compromisso sério, Mack.
– Como você sabe?
– Posso sentir isso dela.
Suspirei. Eu suspeitava que ela fosse dizer isso.
– Ela nem deve está interessada em mim, para começar – lembrei, achando que estávamos indo longe demais.
– Você é que pensa. – O tom de voz divertido de Glynda continha certa malícia.
Encarei-a, boquiaberto. Glynda apenas ergueu as sobrancelhas para mim e desviou o olhar, um sorrisinho maldoso ainda brincava em seus lábios. Ela estava confiante de que estivesse certa.
Ela achava mesmo que Catherine estava interessada em mim?
Quase me esqueci de andar ao olhar de novo para a morena. Ela agora ria com gosto de qualquer coisa que Aiden tivesse dito, talvez em resposta a seu comentário anterior. Trinquei os dentes e Glynda abafou uma risadinha a meu lado.
E foi aí que eu senti. O cheiro dela... Um cheiro maravilhoso que provinha de sua boca.
– Você tem um hálito especial! – constatei como um idiota enquanto me virava para Glynda novamente.
– Oh, sim – ela enrubesceu de leve e baixou a cabeça. – É vergonhoso, na verdade.
– Pois eu achei muito bom – contrariei-a. – O que é?
Glynda ficou ainda mais vermelha.
– Morango... e flores do campo.
Eu ri.
– Bom, com certeza não é muito do mal como eu acho que seus pais gostariam que fosse. Mas é sinceramente muito agradável – fui sincero.
Ela me sorriu. Parecia sinceramente agradecida.
– Mack, você é o melhor amigo do mundo – declarou de brincadeira, fazendo-me rir. E foi aí que ela percebeu: – Você também tem um cheiro!
Sorri e revirei os olhos, ligeiramente corado também.
– É, bem, tenho.
– Canela?!
– Não sei. Na verdade nunca descobri – admiti. Glynda riu.
– Eu proclamo agora que é canela!
Ri com ela. Começava a me divertir cada vez mais ao lado de minha ex-soberana.
– Do que é que vocês dois tanto riem? – questionou Brian. Seu tom era ligeiramente agressivo. Aquilo me apavorou e eu rapidamente soltei o braço de Glynda, que se virou e sorriu para ele.
– Acho que você deve ter ouvido do meu hálito no palácio, não, Brian? – ele confirmou com a cabeça, assim como seus amigos, apesar de não terem sido interrogados. – Ahn, bem, e sentido – Glynda corou, mas todos nós rimos. – Pois bem. Acabei de descobrir que o Mack tem um também!
– Uau! – exclamou Catherine. – E qual é o cheiro do hálito dele?
A despeito da empolgação e das exclamações de surpresa à minha volta, eu subitamente estanquei e parei de andar. Tinha acabado de me lembrar de algo preocupante.
Olhei em volta, dando-me conta de que nós tínhamos, sem perceber, avançado mais do que eu tinha previsto para a hora atual. Já estávamos na parte escura da floresta. Onde as árvores eram mais densas e abundantes e a luz do sol mal iluminava, um lugar de dar realmente medo. E pensar que não tínhamos percebido por estarmos tão entretidos em nossas conversas!
Eu senti o pavor crescendo rapidamente dentro do meu ser e ofeguei. Agora eu podia sentir o perigo. Não. NÃO.
O terceiro desafio estava bem na nossa cara.
– Canel... – Glynda ia responder, mas sua voz morreu quando ela ouviu o rugido.
Dois olhos vermelhos surgiram por entre a escuridão de uma certa folhagem a uma distância razoável de nós. Os olhos se elevaram por trás das moitas, e então a fera saiu de seu esconderijo.
O mais perigoso, brutal e cruel matador a sangue frio do reino animal de todos os mundos. O bicho de bico grande e alongado, repleto dos dentes mais afiados, e sua coloração verde-musgo que dava uma pista de sua espécie, embora ele parecesse muito mais com um dinossauro achatado.
O rei de todos os jacarés de Orazón.
Guellick.
E eu não podia contra ele.
Isso era o que mais me apavorava.
Ele emitia uns barulhos estranhos e assustadores enquanto se aproximava. Só isso já me fazia tremer. Eu podia sentir meus companheiros fazendo o mesmo à minha volta. Tudo nele inspirava medo. De seu olhar frio até o mais simples movimento de suas patas.
Todos os sombrios conheciam a estratégia de combate de Guellick. Ele tentava abocanhar uma das fêmeas que mais gostasse, e, se alguém tentasse impedi-lo, ele partia para o ataque com toda a sua força irresistível. Já tinha matado milhares de filhos de Zanthon. Ninguém podia contra ele. Não sozinho. Mas quem era o sombrio macho que gostava de estar acompanhado de outros homens? Só se fosse da família, talvez.
Eu não sabia o que fazer. Achei que ia ficar parado e imóvel enquanto Guellick escolhia uma das fêmeas de seu agrado em nosso grupo, começando a devorá-la com prazer, para que o restante de nós pudesse escapar. Eu sabia que não era justo, especialmente porque as humanas não sabiam disso. Mas que escolha eu tinha?!
E, ainda por cima, era dia. Eu estava bem-alimentado, portanto minha força deveria estar quase igual ao que ficava ao cair da noite. Só que de nada iria adiantar.
Os meus pensamentos mudaram completamente no segundo seguinte. Tudo ficou como um borrão, e eu fui dominado por algum tipo de força poderosa que forçou meu corpo a se mexer, não me permitindo ficar estático.
Ele escolhera Catherine.
Não. Não!
Eu não o permitiria arrancar um pedaço que fosse dela. Quando dei por mim, já havia pulado no pescoço do bicho. Ele grunhiu e sacudiu-se com força total, atirando-me para longe como se eu fosse uma folha de árvore. Ótimo, ironizei em pensamento. Parabéns, Mackembethor.
Em segundos, Guellick estava em cima de mim. Tentei me debater, lutar, qualquer coisa, mas não parecia surtir muito efeito. Ele se recuperava dos meus golpes com extrema facilidade, tentando a qualquer custo abocanhar meu rosto. Eu me contorcia de medo. Era o medo que estava me fazendo resistir. Eu não conseguia suportar o horror de sequer me imaginar sendo comido.
– MACK! NÃO! – ouvi Catherine choramingar. Podia escutar outras exclamações distantes, que sabia ser vindas dos outros, mas eu só conseguia distinguir a voz dela. – Mack, não deixe ele te vencer... RESISTA! Precisamos de você!
Precisamos de você.
A frase ecoou e ecoou por meus pensamentos.
Ninguém nunca havia precisado de mim.
De repente, senti-me extremamente emocionado. Eu queria viver. Eu queria beijar a dona daquela voz maravilhosa e, também, abraçar Glynda sem nenhum motivo aparente outra vez. Eu queria aceitar o desafio de fingir ser humano!
Eu queria vencer.
Com um urro, empurrei Guellick com uma força que desconhecia ser minha. O animal cambaleou, emitiu um rugido de frustração e tentou partir para cima de mim novamente, mas passei-lhe uma rasteira potente. Ele rugiu outra vez, agora furioso como eu nunca vira e, apavorado, desviei de um golpe de seus dentes no último minuto.
– AIDEN! – chamei. Agora, eu podia ouvir claramente os gritos de horror dele e dos outros, não só os de Catherine.
– Só pode ser brincadeira! – ele arregalou os olhos, claramente não acreditando que eu o intimara. Guellick conseguiu me atingir novamente e me fez cair no chão, rapidamente me imobilizando com seu peso em minhas costelas.
– VOCÊ É METADE FILHO DE ZANTHON, DROGA! – gritei, em meio à raiva e o desespero. – VEM ME AJUDAR!
Aiden hesitou muito brevemente. Logo corria em minha direção, determinado. Ele era corajoso, eu tinha de admitir.
Guellick não pareceu gostar nadinha do meu novo parceiro. Com apenas uma sacudida de rabo, derrubou-o no chão. Já até parecia que Aiden estava derrotado.
– Obrigado por me chamar para morrer com você! – ele ironizou como adorava fazer. Inacreditavelmente, eu ri com a piada. – AAAAAAAAAAARGH!
Se enfureci Aiden, estressei Guellick mais ainda. O jacaré gigante balançou a cabeça e o rabo de fúria e, naquele momento, tive certeza de que ia morrer.
Mas, aparentemente, eu estava enganado.
Guellick saiu de cima de mim e espatifou-se no pedaço de chão ao meu lado, contorcendo-se no solo como se algo o incomodasse ao extremo. Ele sacudiu tão freneticamente as patas que me assustei. O que será que o perturbou tanto?, perguntei a mim mesmo.
Nossa vantagem não durou muito tempo. Ele logo começou a se recuperar. Eu teria gritado, pois ainda estava no chão e muito fraco para atacar, quando Aiden golpeou Guellick com um tronco seco caído ali perto. O bicho foi brutalmente atingindo; Guellick urrou e recuou para se afastar de seu agressor.
– Estou vendo que se concentrou – murmurei, num fio de voz tão fraco que não sei como Aiden ouviu. – Parabéns. Fiquei impressionado.
– Eu tento – ele sussurrou de volta, dando de ombros com um sorriso convencido no rosto que me fez revirar os olhos.
Guellick voltava com seu vigor incansável para cima de nós, mas eu já estava de pé. Aiden tinha me ajudado a levantar. Ele parecia muito mais confiante do que antes e eu estava satisfeito quando ele murmurou para o jacaré, tão baixo que só eu ouvi:
– Quando acabar com você, jacaré de uma figa, vou vender sua pele nojenta pra uma loja de roupas e ficar milionário! – resmungou. – Ah, e vou doar seus fósseis para o museu. Jacaréossauro.
Que tipo de criatura viva eu seria se não risse daquela idiotice pronunciada?
Gargalhei tão alto que Aiden e os outros me encararam com uma sobrancelha arqueada e um rosto repleto de preocupação do tipo “alguém-chame-um-médico”.
Eu não conseguia parar de rir. Caí no chão e segurei a barriga com os braços, incapaz de me conter.
E foi quando Guellick recomeçou a tremer e sacudir os membros freneticamente, como se algo muito perturbador o incomodasse profundamente, insuportavelmente.
E aí eu percebi. Era minha risada.
Guellick não gostava de risos!
Ora, mas como é que alguém poderia saber disso?! Quantas pessoas eram capazes de rir na presença daquela fera?
Agora que sabia que rir era o antídoto, forcei meu diafragma cada segundo a mais que pude. Guellick rugia, sacudia-se, guinchava, estapeava-se. Chegou a rolar no chão de agonia.
Aos poucos, todos foram entendendo e riram da situação. O acréscimo de pessoas e risadas só ajudou. Guellick chegou a um estágio em que eu pensei que fosse explodir, mas então ele correu como um cachorrinho.
Só parei de rir quando ele desapareceu completamente de minha vista.
– Ah. Meu. Deus. – Catherine arfou.
– Vocês dois acabaram de vencer o GUELLICK! DEEEEEEEEEEEUSES! – Glynda comemorou com palmas empolgadas.
– CARAAAAAAA! – exclamou Brian.
– O nome daquele bicho nojento era Guellick? – Aiden fez uma careta.
Eu ri inesperadamente. Não acreditava ser capaz de fazê-lo, depois de passar tanto tempo gargalhando.
Lizzie foi a única que não esbanjou nenhuma reação de imediato. Ela continuava imóvel em seu lugar, ofegando com vigor.
– AAAAAAAAAAAAAAAAAH! – ela finalmente gritou. – VOCÊS DOIS ESTÃO TENTANDO ME MATAR DE PREOCUPAÇÃO?! – sua voz era tão séria e raivosa que todos pararam de falar. – Ai-meu-Deus, que susto!
E, sem mais delongas, correu até mim e Aiden e nos abraçou ao mesmo tempo com bastante intensidade. Confesso que me assustei, mas foi bom sentir outra vez que era estimado e querido por alguém. Lizzie, na verdade, estava começando a parecer minha mãe.
Eu sorri com o pensamento e retribuí seu abraço.
– C-calma – gaguejou Aiden. – Está tudo bem.
Lizzie se afastou ligeiramente para ver nossos rostos, e em seguida sorriu triste. Os olhos dela estavam molhados e eu senti uma pontada de culpa no estômago. Ela realmente ficara preocupada.
– Mas poderia não estar.
Aiden sorriu debochadamente com o comentário e puxou-a para outro abraço, dessa vez sem mim no meio. Senti-me completamente deslocado ali perto, principalmente quando Lizzie retribuiu o abraço com ainda mais força do que antes e os dois pareciam num momento muito íntimo, do qual escapei o mais rápido que pude, como um raio.
– Você é louco, Mack. Poderia ter morrido – Glynda me murmurou com zelo quando me aproximei dela, e em seguida sorriu. – Estou tão feliz que esteja bem! E feliz que nenhum de nós precisou ser ferido para isso.
Ela virou-se para Catherine, que também me abriu um sorriso e me estendeu a mão.
– Muito, muito obrigada.
Eu peguei a mão que ela me estendia, mas, de novo, não apertei mão coisíssima nenhuma. Em vez disso, me ajoelhei e depositei um beijo ali.
Glynda revirou os olhos com um sorriso incrédulo e virou a cabeça, fingindo não ver.
– Por nada, Catherine Marie Reynolds.
Catherine abriu a boca e a moldou como se estivesse soltando um grito histérico, mas não ouvi nenhum som. Ela se recompôs e eu me levantei, enquanto a via esfregar uma das bochechas com a mão recém-beijada ansiosamente.
– Poxa vida! O que você é, meu salvador?
Eu sorri largamente. Tinha gostado da idéia.
– Se você quiser.
Felizmente, Glynda e Brian já estavam perdidos numa conversa própria entre eles e não escutaram o fragmento de diálogo que eu acabara de ter com Catherine. Notei que Lizzie e Aiden começavam a voltar para perto de nós, e me virei na direção deles.
– Vamos? – Aiden convocou.
– Claro. – Glynda sorriu para ele.
– Por favor – suplicou Lizzie –, me digam que agora acabou!
Todos rimos. Eu fui o primeiro a responder, com um sorriso:
– Sim. Agora acabou.
***
Os desafios tinham chegado ao fim. Não poderíamos ter felicidade maior do que esta.
Retomamos a caminhada. As árvores tinham ficado mais escassas agora, o que trazia à tona novamente a luz do sol, e eu nunca me senti tão grato por isso. Em um ponto qualquer da floresta, paramos para descansar por uns vinte minutos, mas foi só. Não podíamos nos dar ao luxo de permanecer por mais tempo.
– Bom, ontem à noite vocês fizeram o favor de explicar a Mack como caíram aqui pela primeira vez e, também, nos falaram seus nomes e alguns detalhes sobre seres humanos – distraído, eu escutava Glynda falar para o restante do grupo numa voz distante. – Mas confesso que estou bem curiosa por saber o que os fez cair no portal uma segunda vez.
Ouvi um suspiro. Percebi que ele viera de Catherine quando a garota disse em seguida:
– Foi culpa minha. Acho que eu já disse isso, não? – Tratei de prestar mais atenção na conversa. – Acontece que o enfeite de cabelo da minha mãe... esse – ela tocou o lado direito da cabeça e notei a presença de um objeto brilhante ali –, caiu em Orazón. É uma longa história. Estávamos procurando pelo enfeite nos arredores do portal quando eu deixei ele cair. Pulei no redemoinho outra vez, porque não podia ficar sem o enfeite. Ele tem muito... significado sentimental para a família.
Catherine nos sorriu fracamente.
– E aí nós pulamos atrás de Catherine depois – Lizzie prosseguiu. – Eu não teria como deixá-la sozinha aqui. Nós nunca nos abandonamos.
Ela se virou para a amiga e as duas deram as mãos, emocionadas. Aiden franziu os lábios e Brian revirou os olhos.
– Melosas. Foi isso aí mesmo que aconteceu!
Eu me virei para eles com um sorriso incrédulo nos lábios, e balancei a cabeça.
– Ah, meus deuses... Foi por isso que vocês caíram aqui outra vez?
Glynda abafou uma risadinha.
– É, bem... foi – Catherine semicerrou os olhos. – Por quê?
– Não precisavam ter feito isso – Glynda falou por mim.
Todos se sobressaltaram e arregalaram os olhos para ela.
– Por que diz isso? – Aiden foi o primeiro a questionar.
Glynda ergueu uma sobrancelha para mim, como que para perguntar se eu queria continuar. Fiz que sim com a cabeça e limpei a garganta.
– Objetos comuns não podem atravessar os portais se não acompanhados por seus donos – expliquei. – Eles não podem simplesmente ficar “largados” ou cair sozinhos em uma dimensão. Vocês não comentaram sobre terem voltado à sua cidade, Steklyn, intactos? Com cabelo, roupas, acessórios, tudo no lugar? Isso porque suas roupas e coisas não podiam ficar em Orazón se vocês não estivessem aqui. Se tivessem esperado um ou dois segundos lá em cima, veriam que o portal se fecharia e seu enfeite de cabelo reapareceria magicamente na areia da praia.
Catherine me encarava boquiaberta.
Assim como todos os outros.
– AAAAAAAAAAAAAAAAAH, NÃO BRINCA! – ela puxou os cabelos com tanto ódio que eu achei que fosse arrancá-los. – Quer dizer que eu NÃO precisava estar aqui?! Quer dizer que NENHUM DE NÓS tinha de ter enfrentado esses desafios ridículos e poderíamos estar deitados nas nossas camas a essa altura, dormindo feito bebês para ir ao colégio amanhã, o que, aliás, era o que eu QUERIA ESTAR FAZENDO?
Ela estava tão alterada que me encolhi de medo.
– Nossa. PARECE AINDA PIOR QUANDO VOCÊ FALA! – exclamou Aiden, torcendo os dedos pelo cabelo nervosamente.
– AAAAAAAAAAAAAAAAH! – bradou Lizzie. – Catherine. Eu te amo. MAS QUERO TE MATAR NO MOMENTO!
– PAREM! – pediu Brian. Tomamos um susto tão grande que todos nos viramos para ele ao mesmo tempo; eu, Glynda e Catherine com as sobrancelhas arqueadas, Aiden e Lizzie com os olhos semicerrados. – Não foi tão ruim assim.
O queixo de todo mundo caiu. Brian estava prestes a levar algum tapa quando falou novamente:
– Tudo bem, foi muito ruim, mas... Qual é, pessoal! Catherine não sabia. Não é culpa dela. E depois, os desafios já acabaram, e olhem como estamos unidos! – ele abriu os braços. – Eu estou muito grato, na verdade! Talvez Mack e Glynda nem estivessem escapando desse mundo horroroso para ir ao nosso, se não fosse essa coincidência. E também – ele se virou para a princesa com um sorriso – eu não teria encontrado minha cara-metade.
Glynda estendeu a mão para Brian, que a apertou com doçura.
Lizzie e Catherine suspiraram. Aiden cruzou os braços e resmungou com um pouco de raiva, mas parecia menos irritado.
Eu sorri diante da situação.
Era verdade. Eu ainda estaria preso se não fosse por eles.
Olhei para todos aqueles humanos, parando para observar bem os rostos de cada um. Incrível como eu tinha me acostumado com a presença deles. Incrível como eu tinha aprendido a gostar deles.
Demoramos um pouco para recomeçar a caminhada dessa vez.
Conversamos tanto que eu nem senti o tempo passar. Quando dei por mim, já estávamos aos pés de outra montanha. Essa era mais verde que as outras. E menos irregular também, mas num mau sentido. Ninguém merece escalar paredes de pedra retas demais!
Suspirei e larguei a mochila que carregava no chão por um momento.
Olhei para trás só para ver com qual dos garotos estava a mochila menor agora. Aiden. Suspirei e esfreguei a testa, pensando...
– Por acaso vamos ter que escalar isso?
Glynda fez que sim para Catherine.
– É impossível – Aiden determinou com uma expressão cansada, suspirando e virando o rosto para o outro lado.
– Não, não é – eu disse com convicção. – E se nenhum de vocês tiver medo de altura, o plano vai funcionar muito bem.
Eu já havia pensado cuidadosamente em todos os detalhes dessa parte. Toquei a mochila no chão e a abri. De dentro, tirei um pedaço de tecido vermelho bem elástico que pertencera a meu pai. Longa história. Ele adorava montar armadilhas com aquilo.
– Só pode estar brincando não é? – Brian apontou para o tecido. – Me lembra aquelas coisas de cama elástica, mas jamais pularíamos tão alto pra alcançar aquilo – ele apontou para o topo da montanha de 400 metros.
– Ah, Brian! Então acho que você realmente nunca viu um tecido Sting em ação.
Fiquei satisfeito por Glynda ter reconhecido o material e me apoiado. Ignorei o fato de não saber o que uma era cama elástica, embora pudesse imaginar, e estendi o tecido no chão.
– Só preciso montar. Vocês vão ver como nos leva bem alto!
Em segundos, eu tinha arrumado oito pedaços de madeira e os fincado no chão; eles rodeavam e prendiam o tecido ao solo.
– Você não pode mesmo estar falando sério – Aiden falou enquanto fitava a obra recém-arquitetada.
– Quer apostar? – subi na minha espécie de Cama-Elástica Sombria.
Sorri ao perceber que tinha calculado a força ao fincar os pedaços de madeira no chão muito bem. Nada tinha se desfeito ou desmoronado com o meu peso.
Exerci uma leve pressão com a parte anterior dos pés, só para mostrar aos humanos do que eu estava falando.
O tecido Sting rapidamente desempenhou seu papel. Elevou-me mais de 200 metros acima do chão, deixando-me no nível da metade da montanha.
– UAAAAAAAAAAAAAAAU! – Aiden e os humanos exclamaram ao mesmo tempo. Glynda comemorou com um sorriso vitorioso.
– E o tecido está em muito bom estado! – observou a princesa.
Eu sempre cuidei muito bem dele, pensei enquanto meu corpo descia novamente em direção ao chão.
– Como é que ele faz isso?! – ouvi Catherine bradar.
– E eu nem fiz força ainda – rebati numa voz normal quando fiquei na altura deles, meus pés quase tocando o tecido Sting outra vez. Impulsionei o corpo para frente antes que isso acontecesse, aterrissando precisamente um palmo à frente da cama-elástica.
Minha nossa, gostei disso! Cama-elástica. Cama-elástica, cama-elástica. Parece um ótimo jeito de nomear o que o Sting faz!
– Algum de vocês quer ir primeiro? – indaguei.
– Acho melhor você ir primeiro, Mack – Glynda expressou-se antes que qualquer um pudesse se manifestar. – Nós temos menos prática em usar o Sting, podemos precisar de ajuda para nos equilibrar e não cair ao chegar lá em cima – ela refletiu.
– Ela tem razão – Brian concordou. – Quero que esteja lá para pegá-la, por favor.
Eu sorri para ele. Estava feliz por não parecer ter mais ciúmes de mim.
– Muito sensato – observou Aiden. – Será que você não vai precisar nos avisar quando chegar lá em cima se a barra tá limpa?
– Por que a barra lá em cima estaria suja, Aiden? – Catherine arqueou uma sobrancelha para ele.
– Ué, sei lá! Melhor prevenir do que remediar!
– Vocês querem saber se pode ter alguém ou... outro perigo lá em cima? – eles concordaram com a cabeça e eu ri. – Ok, então. Se houver alguma coisa, eu grito.
– E se não houver nada? – perguntou Lizzie.
– Então não diga nada, Mack – Glynda se virou para mim. – Poupe sua energia...
– É, para nos salvar – Catherine completou com um sorriso e eu enrubesci.
Os outros rapidamente assentiram e eu voltei para o centro da cama-elástica. Empurrei com mais força para baixo dessa vez, o que me elevou ainda mais alto no céu. Concentrei-me para não perder a hora de me impulsionar e, quando vi, meus pés já tocavam o chão do alto da montanha.
Ergui a cabeça e tive de esfregar os olhos.
Eu estava no Lugar Sagrado.
Tudo lá era maravilhoso. O chão era em sua maior parte regular e muito verde, mas formava algumas ondulações de terra em certos trechos. Uma cachoeira jazia no centro do local, jorrando uma água transparente e límpida.
Eu me lembrava de ter visto uma foto no Livro Sagrado uma vez. A paisagem era exatamente igual àquela, com uma pequena diferença. Na foto, havia pequenos animais, como coelhos e filhotes por toda a parte, e algumas sereias sentadas no topo das rochas em volta da cachoeira, cantando enquanto penteavam os cabelos.
Não havia nada disso no Lugar naquele dia. E eu podia ver a razão, que era a que estava quebrando todo o encanto, magia e paz espiritual contidos ali.
Guardas. Centenas deles rodeando a ilustre cachoeira, e agora me encarando com repreensão. Suas posturas sempre obedientes inalteradas, porém, seus olhos escuros e maquiavélicos repletos de cólera e raiva ardente em minha diretriz.
Pensei em gritar para alertar os outros, mas só fiz dar um passo para trás e de repente uma espada estava encostada em meu pescoço. Eu podia sentir a ponta afiada roçando minha pele, pronta para me perfurar a qualquer minuto, bastava o dono do objeto aplicar o mínimo da pressão necessária.
– Pessoal, acho que o conhecemos – ouvi outro guarda, que estava consideravelmente distante de mim, gritar para os companheiros atrás de si. – É Mackembethor, filho de Zanthon! O otário que foi preso há alguns dias por ter ajudado humanos!
Todos eles soltaram uma gargalhada que, apesar de não ser baixa, não era forte o suficiente para se fazer ser ouvida por meus companheiros lá embaixo. Abri a boca, mas o guarda que estava atrás de mim empurrou ainda mais a lâmina da espada contra meu pescoço, e congelei de medo.
– Uma palavra e você morre, Mackembethor.
Oh, não.
Por favor, não.
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