Before - League of Legends II
17 Rosas
O homem de terno, que Kristofer disse se chamar Albert, nos guiou até uma passagem subterrânea muito próxima de onde estávamos. O que me fez perguntar seriamente desde quando aquilo existia. Kristofer me dava olhares significativos que eu tentava interpretar da melhor maneira possível, a única coisa que era inegável é que não parecíamos convidados, e sim prisioneiros.
Eu poderia imaginar muitas coisas sobre a “senhorita LeBlanc”. Talvez ela fosse um monstro devorador de almas. Talvez fosse uma nova identidade adotada por Lissandra. Não seria a primeira vez. Para a minha surpresa, ela era bastante normal.
O cabelo azul-escuro era longo, embora boa parte dele ficasse escondido pelas enormes golas do manto roxo. Os braços e dedos cobertos de joias estavam levemente repousados nas pernas cruzadas quando ela nos recebeu, sentada em uma espécie de trono dourado. O rosto era estranhamente jovem, mas algo me dizia para não acreditar no que eu via ali.
Toda a estrutura subterrânea era muito elaborada, além de antiga. Grandes flâmulas vermelhas com rosas negras desenhadas no centro cobriam as paredes de pedra negra. Tochas ardiam onde quer que fosse, iluminando todo o salão. Eu duvidava que faltasse tecnologia para eles, o que tornava aquela pitada de era medieval mais assustadora do que qualquer coisa.
O que quer que fosse aquele grupo, eles faziam as coisas à moda antiga. Albert se postou em pé ao lado da senhorita LeBlanc como o servo obediente que aparentemente era. A boca dela se contorceu em um sorriso ao nos ver. Eu até poderia entender por ser tão bonito, mas algo me dizia que não era esse o motivo.
Nossos olhares se encontraram. Os olhos verdes dela faiscavam na minha direção. Ofelia certa vez dissera que eu passava a impressão de poder olhar no fundo da alma das pessoas. Se aquilo fosse verdade, então LeBlanc não tinha alma. Apesar do sorriso, a expressão era um véu que nada revelava, embora me fizesse sentir algo que eu conhecia bem: Medo.
– Kristofer. – Ela falou, desviando o olhar de mim. Pelo canto do olho, notei ele fazer uma curta e rígida reverência. Me perguntei desde quando ele saudava qualquer um. – Sempre lamentei como seu mestre afastou nossa companhia para trabalhar com aquela… – Ela balançou a mão em um gesto de desprezo. – Coisa.
Engoli em seco. Não era sempre que alguém chamava a bruxa gélida de “coisa”. Se eu falasse de Lissandra daquele jeito, ainda que ela não estivesse ali, me transformaria em um poro congelado. Ou em um sorvete de goiaba.
– Ex-mestre. – Corrigiu Kristofer, me dando um olhar significativo. O tom era, no mínimo, respeitoso. Uma dádiva, vindo dele. – Eu também apreciava a sua companhia, senhorita.
Os olhos dela brilharam, divertidos com a mentira. Eu também não negava, pois duvidava muito que Kristofer já tivesse apreciado a companhia de algo ou alguém. O divertimento desapareceu rapidamente e ela apoiou a cabeça no punho levemente cerrado.
– Devido a sua recente… condição – Ela sorriu e mesmo Albert soltou um sorrisinho de escárnio. — você pode não estar situado com os últimos acontecimentos.
– Ah, existem sussurros em todos os lugares. – Kristofer balançou os ombros, indiferente. – O doutor Brandon já me esclareceu algumas coisas importantes.
O olhar de LeBlanc se virou novamente para mim como se, à menção do meu nome, ela lembrasse repentinamente da minha existência. Riven e Vayne mal respiravam atrás de mim. Esse provavelmente era o jeito delas de dizer “estamos prontas para matar todos”. Eu torcia para que não contestar a senhorita LeBlanc fosse o meu jeito de dizer “Não matem todos!”.
– Brandon Beck. – Ela falou para mim, com uma pontada de desapontamento em sua voz infantil. – Eu achei que você tinha morrido.
Eu não sabia o que responder. Não apenas pelo receio de ofendê-la com algo do tipo “Mas eu morri! Sou o fantasma dos natais passados.”, como também era a primeira vez que alguém lamentava a minha existência de um jeito tão melancólico. Normalmente, meus inimigos eram mais raivosos.
– Não faltaram tentativas, hã, senhorita. – Respondi, erguendo as sobrancelhas e torcendo para que aquilo fosse suficiente e ela nos deixasse ir. Talvez até nos oferecesse uma cesta de maçãs. Naquele momento, eu mataria por uma cesta de maçãs.
– Talvez as pessoas erradas tenham tentado, invocador. – Ela insinuou, estendendo uma mão para que Albert a levantasse do trono. Imaginei se “servo para a eternidade” estava na descrição de trabalho daquele cara.
– Uma bruxa de gelo, esse carinha aqui, – apontei para Kristofer. — alguns ionianos, um bando pirata e as criaturas mais assustadoras que a Ilha das Sombras podia oferecer. Todos soam bem certos para a descrição de “assassino”.
Alguns passos pelo tapete vermelho foram o suficiente para que ela ficasse de frente para mim. Albert veio apressado oferecer um cajado dourado para ela, que o recusou em um gesto de “eu não preciso dele para matá-los se me irritarem” ou “não combina com as roupas”. Como eu disse, ela era uma pessoa de complicada interpretação.
– Você sabe o que é uma rosa? – Ela me perguntou.
– Hã, sim? – Respondi evasivamente. Normalmente, as perguntas mais óbvias possuíam respostas não tão óbvias. Elas me irritavam muito.
– Você já viu uma rosa negra?
Tentei me lembrar. Muitos tipos de rosas passaram pela minha cabeça. Rosas vermelhas, rosas rosas, rosas brancas, rosas de chocolate e rosas carnívoras assassinas. “Não”, concluí, “nenhuma rosa negra”. Balancei a cabeça negativamente para ela.
– Nós – Ela colocou a mão no peito, orgulhosamente, enquanto indicava os guardas e Albert com a cabeça. — somos as rosas negras. As únicas e as primeiras do mundo. Existimos antes da existência das próprias rosas. Uma bruxa, como eu, Zyra, criou as rosas em nossa homenagem.
Olhei para Kristofer com o meu melhor olhar de “me diga que isso não é verdade que eu te dou um coelhinho de pelúcia”. Ele se limitou a assentir, confirmando a história. Me senti estranhamente pesado. Eu era o maldito invocador conselheiro, ou ex-invocador conselheiro, e nunca tinha ouvido falar de rosas negras.
– Uma antiga elite noxiana – Ela continuou, empolgada. — moldando a sociedade desde os seus primórdios. Com o tempo, descobrimos que somos mais eficientes operando nas sombras. Eliminando ameaças potenciais, figuras de autoridade perigosas e incômodos.
– E quem decide quem é o quê? – Perguntei, com uma raiva repentina subindo do meu âmago.
– Eu. – Ela respondeu com simplicidade. – Consegue ver alguém melhor por aqui?
– O que significa… — Kristofer interveio em tempo de me impedir de exclamar impropérios na cara daquela… — que eles vão nos ajudar a eliminar aquele ioniano. Estamos com o mesmo problema aqui, Brandon.
– Não vamos eliminar ninguém. – Afirmei, sem retirar os olhos da bruxa. Que se limitou a rir.
– Então não o mate. Prenda. Apague a memória. Tire seus poderes. – Ela falou friamente, me dando as costas. – Faça o que precisar para poder continuar se considerando uma boa pessoa, mas tire aquele ioniano do meu caminho.
– Você não estava se gabando do seu poder agora a pouco? – Vayne rosnou, ganhando um olhar surpreso de LeBlanc, que a olhou como se uma ameba tivesse acabado de falar. – Por que precisaria de nós?
– Por que um general não usaria o seu exército em uma guerra? – Ela indagou, sinceramente surpresa.
– Não somos o seu exército. – Contestei. Kristofer cobriu o rosto com as mãos, exasperado.
– Doutor Beck… — O tom dela era compreensivo. – Nós controlamos as suas vidas desde que vocês nasceram. As guerras rúnicas em que seus pais morreram? Nós a causamos. Nós fizemos Tesla ir para Piltover. Permitimos que viajasse no tempo porque queríamos que você criasse a Liga. Kiersta Mandrake aceitou o seu projeto, pois ele era uma rosa, assim como Vessaria, que o sucedeu. Cada vida que você perdeu ou salvou, cada tecnologia que você usou ou criou, cada momento de ódio, amor ou pena, foi porque nós permitimos. – Ela fez um gesto na direção de Vayne e Riven – Não foi diferente com vocês. Com nenhum de vocês. Podemos parecer poucos, mas as rosas não crescem em apenas um lugar. Então, sim, Brandon Beck, vocês são o meu exército.
– Hum. – Kristofer pigarreou, temendo a mesma coisa que eu. A única coisa que me assustava mais do que biscoitos integrais de cebola: uma briga entre mulheres. Que, caso fosse iniciada, só duraria o suficiente até os guardas apunhalarem todos nós. Então, LeBlanc provavelmente esperaria pelo próximo quarteto poderoso e desavisado que cruzasse aquelas florestas para eliminar Warlock. Ou usaria aquele cajado dourado para fazer isso. Eu preferia o cajado. – E todos nós estamos muito honrados de ser o seu exército. Quando podemos começar?
– Oh, Kristofer, seu mentiroso adorável. – Ela sorriu aprovando. Uma projeção de tela surgiu entre nós. – Boa invenção, Beck. Muito útil.
Tentei não ficar muito bravo ou algo do tipo. Depois de ser jogado para fora da própria ilha, ser sequestrado por um navio pirata, dar um passeio pela Ilha das Sombras, ver minha cidade dizimada e invadir o Instituto, eu estava sentindo que podia controlar a minha raiva. Mesmo com a ironia carregada na voz dela.
Uma quantidade impressionante de dados surgiu na projeção holográfica e, mesmo com a minha experiência em acompanhar várias coisas ao mesmo tempo, aquilo estava me deixando para trás. Percebi, com muito esforço, que se tratava do conteúdo de um cérebro humano, e a menos que eu quisesse ter duas cabeças dentro da minha, resolvi parar de acompanhar os dados.
Kristofer deu um passo para a frente, tocando na tela enquanto procurava por algo.
– Quem é o dono? – Perguntei, acenando com a cabeça para a tela.
– Madame Vessaria Kolminye. – Respondeu Albert, enquanto LeBlanc sentava novamente no trono. – Escaneamos o seu cérebro quando ela foi controlada por Warlock.
– Como você sabe usar uma projeção de tela se ficou um ano preso? – Riven se dirigiu para Kristofer.
– Eu sou do futuro. – Ele respondeu, sem retirar os olhos das informações. – Encontrei.
– Uma equação? – Perguntei, olhando para a tela. Era uma grande equação.
– Só se você ver de fora. De dentro do seu cérebro, isso seria como a prova matemática de que Warlock é o deus desse mundo. – Explicou, arrastando os dedos para ampliar a imagem. – É para isso que ele está usando a Força da Trindade. O item serve como um conduíte.
– E se revertermos tudo? O negativo para positivo e o positivo para negativo?
– Só vai funcionar com quem ainda não foi contaminado. A equação que chega primeiro normalmente é a mais forte na sua mente. – Ele olhou para LeBlanc. – Warlock tem a mesma arma que vocês. A mais fácil de criar e mais difícil de destruir: Uma ideia.
– Você pode ou não fazer algo contra isso? – LeBlanc perguntou, despreocupada. Era óbvio que ela não estava acostumada a se preocupar com os problemas que tinha. Foi quando ela ganhou um para resolver pessoalmente:
– Talvez. – Vayne colocou uma flecha na sua besta de pulso, apontando diretamente para a bruxa. – Mas ele não vai.
Os guardas se moveram, mas LeBlanc fez um gesto para que retornassem para as suas posições. Um sorriso brincava em seus lábios. Se aquilo assustava Vayne tanto quanto me assustava, ela não demonstrava:
– Uh, Vayne, o que você está fazendo? – Perguntei, indeciso sobre qual das duas me assustava mais no momento.
– Meu nome é Shauna Vayne. – Continuou, sem me dar atenção enquanto olhava diretamente para LeBlanc, os olhos faiscando de ira. – Eu sou uma caçadora de monstros.
– Eu sei quem você é e sei o que você faz. — LeBlanc afirmou, revirando os olhos entediada.
– Eu me tornei uma caçadora porque, certa noite, uma bruxa torturou e matou a minha família. – Afirmou, ganhando como resposta outro olhar entediado de LeBlanc:
– Eu sei porque você se tornou uma caçadora.
– Você é uma bruxa que mata pessoas. – Concluiu Vayne, levantando a besta segundos antes da cena se degringolar.
O sorriso da bruxa se abriu de prazer: — Sim.
Não houve mais resposta quando a flecha acertou a testa de LeBlanc, fazendo o sangue escorrer, primeiro lentamente e depois em maior quantidade. Albert olhou horrorizado para a cena, embora os guardas, para a minha surpresa, não se mexessem.
Foi quando a gargalhada cortou o ar. Não era mais infantil tal como não era brava. Era diabólica. Uma gargalhada que revelava o divertimento apenas de seu portador, tornando para os demais o ar gélido e trazendo calafrios. A tensão era tanta que eu mal me atrevia a mover um músculo enquanto o riso se desenrolava por todo o salão.
– Arf, arf. – A voz de LeBlanc se recompôs quando ela finalmente parou de rir. – Albert, eu estou ficando descuidada. Primeiro o Du Couteau, agora essa pirralha. Vocês acham isso engraçado? Pois eu vou contar uma piada de matar.
– Du Couteau? – Exclamei, olhando para os lados. A voz dela vinha de todos os lugares, embora o corpo repousasse sem vida no trono. Lembrei do que Reginald me dissera sobre Du Couteau no Instituto. Eu achava que se tratava do Warlock até perceber a verdade ali. – Foram vocês? Por que?
– Por que? – Ela riu novamente, antes de seu corpo se materializar no salão. – Porque eu quero. Porque eu posso. Ambos. Quem se importa? Kristofer, obrigado pela anti-equação, e saiba que eu lamento profundamente pela sua morte. – Ela gargalhou novamente. – Não, não realmente. Mas, ei, foi divertido.
Então o pandemônio se instalou no salão. Uma dúzia de guardas avançou sobre nós. Vayne tentou investir contra a bruxa, mas dois deles entraram em seu caminho. Pelo olhar dela, percebi que ela não se importava mais se íamos ou não sobreviver àquilo. Matar LeBlanc era a única coisa que passava em sua mente.
Kristofer arrancou a lança de um deles e atirou para mim:
– Ainda sabe como usar uma arma?
– Quase certo de que sim. – Afirmei, de forma relutante. Ele tinha me ensinado muitas coisas e eu me arrependia de lembrar de várias delas.
– Eu odeio lutas! – Riven exclamou, furiosa.
– Você não é uma guerreira noxiana? – Kristofer perguntou, dando um sorrisinho por trás da barba.
– Era. E eu queria ver você gostar de lutar quando perde todas!
Quatro guardas vieram na minha direção, o que eu pessoalmente achei injusto, já que eu era o pior lutador dos quatro, mas não reclamei. Preferi girar a minha lança para repelir os seus golpes. Consegui desarmar um deles batendo com o cabo em seu punho, no que eu torcia que tivesse machucado muito ele. Infelizmente, aquilo abriu uma brecha para que outro dos guardas cortasse a minha lança com a lâmina da sua.
“Ótimo”, eu tinha pensado, “Quatro guardas e meia lança”. E aprendi também a não formular pensamentos durante uma luta quando dois deles me apunhalaram pelas costas, rasgando o que quer que estivesse pelo caminho. Meus órgãos, no caso. Talvez o almoço.
– Brandon! – Ouvi Kristofer exclamar de algum lugar, mas tudo estava muito escuro e barulhento para mim. O sono da morte se abateu sobre mim novamente, embora eu soubesse que não podia me dar ao luxo de dormir ali.
“Abra os olhos!”, eu imaginei que estivesse gritando para mim mesmo na minha mente até de fato abri-los para perceber que era Kristofer quem gritava para mim. As feridas estavam verdes e quase completamente cicatrizadas. Olhei pelo salão.
Todos os guardas estavam caídos, alguns mortos e outros igualmente mortos. Uma consequência de viajar na companhia de três assassinos. Pelo lado positivo, Riven tinha ganhado uma luta finalmente. Yay! Pelo lado negativo, LeBlanc nos olhava com um nojo profundo. Com aqueles poderes, ela era a pior ameaça. E hey, tínhamos acabado de matar alguns dos guardas dela.
– Isso é ZAC? – Kristofer me perguntou com um olhar acusador para os ferimentos.
– Agora não! – Censurei, dando um olhar rápido para Vayne, que já preparava mais uma flecha para atirar em LeBlanc quando correntes surgiram do chão, prendendo a todos nós.
– Correntes etéreas. – Ela falou secamente. – É bom saber que vocês se têm em tanta autoestima para imaginarem que sobreviveriam. Jovenzinha – Ela virou para Vayne que se debatia violentamente contra as correntes, perdida em fúria. — você pode enxergar as cordas, mas nunca vai deixar de ser controlada por elas.
Ela estava pronta para matar a caçadora quando a porta da frente explodiu, trazendo consigo uma ventania que dava a sensação de esfolar a pele. Quando a fumaça abaixou, eu vi a silhueta dele. Um samurai, provavelmente ioniano, com uma espada longa e fina e trajes ocidentais. O cabelo longo caía por toda a extensão das costas:
– Riven. – Ele falou em sua voz grave. – Hora de pagar por seus pecados.
O rosto dela embranqueceu como se tivesse visto um fantasma. E a luta recomeçou.
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