Before - League of Legends
7 Capítulo seis
– Então, você tem certeza disso?
– Desde que eu fiz trinta e seis anos, não tenho certeza de nada, Ofelia. É uma hipótese. Uma conjectura. Ao menos por enquanto.
Brandon havia se convencido de que Tryndamere, o bárbaro que o Instituto havia prendido dois dias atrás, era inocente. Ao menos naquele caso. O homem se lembrava de ter ido até a Ilha das Sombras e nada após isso. Esse era um dos poucos casos onde estar certo era mais assustador do que estar errado, se a sua teoria se confirmasse, haviam coisas piores do que um homem de um metro e oitenta atrás dele. Quem o controlava, se é que alguém o controlava, era pior, e tentaria outra vez.
Ofelia e Doran estavam meio relutantes em acreditar, na verdade não ligavam realmente se a liberdade de um homem possivelmente inocente estaria ameaçada, especialmente após terem visto o homem matar diversas pessoas ou simplesmente por ele ser um bárbaro.
O infeliz incidente também tivera os seus pontos positivos para o grupo. O Instituto dera a Doran e Brandon o mês que requisitaram para fazer uma partida-teste da Liga, e assim demonstrar o potencial da invenção, além do grande laboratório de recursos ilimitados onde puderam se alojar. Katarina e Zilean haviam se voluntariado para participar, era bom ter alguma confiança daqueles quase que completos estranhos, pois os seus amigos não lhe davam tanto crédito:
– Tá, vamos recapitular. Os olhos dele são azuis, a voz dele não te deu calafrios, então, isso prova alguém o estava controlando?
– Sim, Ofelia. Ok, falando desse jeito parece absurdo. Mas eu tenho provas. Meio que invadi o sistema digital do Instituto e peguei os dados médicos dele. – Falou, como uma criança que cometeu uma travessura.
– Você o quê? – Ela gritou, indignada. – Eles te deram um laboratório para trabalhar na Liga e não para…
– Invadir computadores? Bom, Mandrake não quis me ouvir, Tesla é um grande babaca e alguns dos invocadores têm medo de mim. Tive que dar o meu jeito para descobrir mais, além disso, você não está curiosa para descobrir o que tinha de errado com ele?
– E se nada estiver errado com ele? E se ele for só um maníaco?
– Então eu vou ajudar o Doran com as máquinas, procurar mais oito candidatos para a partida-teste, ou qualquer coisa da Liga, mas você precisa ouvir isso.
Ela suspirou. Sabia que não seria capaz de fazê-lo mudar de ideia. Alguma coisa no dia da invasão do bárbaro havia mudado Brandon. Era possível ver um pouco do seu antigo vigor trazendo-o de volta ao que era apesar da doença, embora, na opinião dela, pelo motivo errado:
– Tudo bem. Estou ouvindo.
Ele havia separado as informações relevantes em um pedaço de papel, sua memória não era mais boa como outrora, outra cortesia da cronodisplasia que o afetava desde o seu malsucedido retorno à sua época de origem:
– Ok, Tryndamere é um cara muito misterioso. Para começar, o seu corpo estava cheio de neurotoxinas, mas elas não causaram nenhum efeito colateral nele além de uma leve paralisia imediata e, lógico, a perda de memória recente.
– Que tipo de neurotoxinas? – Perguntou Doran, levemente interessado.
– Veneno de aranha. – Concluiu, de forma sombria. Não era nada incomum ser devorado por aranhas gigantes na Ilha das Sombras, segundo rezavam as lendas. Mas eram só lendas, até onde eles sabiam. – Ele é capaz de se curar de forma quase que mecânica. Segundo ele, consumindo a própria fúria em troca de mais vitalidade o processo se torna possível. Não me pergunte como. É uma habilidade certamente única. E, cada vez que ele faz isso, todas as suas células se renovam um pouco.
– Como assim renovam?
– O teste de carbono 14 que rodaram nas roupas dele apontou um século para algumas delas, mas ele diz que essas são relativamente recentes, adquiridas em alguma guerra rúnica. A armadura que ele estava usando é de um material desconhecido, mas aparentemente também era muito antiga. A propósito, não pertence a ele. Tampouco as espadas. Vale ressaltar que ambas tem um desenho incomum: pirâmides.
– Datação por carbono-14? Pensei que você só tivesse invadido os arquivos médicos. – A indignação voltou ao tom de voz dela, que por um segundo quase dera crédito à teoria.
– Sou um mentiroso, me julgue. A questão é: Ele tem células de um jovem de cerca de vinte e três anos. Contudo tem, pelo menos, um século de idade. Tudo bem? Agora, ouça: Ele foi para a Ilha das Sombras. Alguém o derrotou, alguém que controlava as aranhas que o morderam, não temos como saber quantas mordidas, pois ele regenera muito rápido, e essa mesma habilidade de controle das aranhas foi usada para controlá-lo.
– Contudo, você não tem provas. É interessante, e pode, não digo que é, mas pode ser verdade. Só que… E daí? Ninguém liga para o que acontece agora. Ele podia ser tão malvado quanto seja lá quem o controlou, já pensou nisso? Essas pessoas estão acabando com a paz que tentamos criar, não merecem ser livres.
– Eu ligo para o que acontece agora, Ofelia. Acredite, eu já vi muita injustiça acontecer, e se voltei aqui, foi para evitar que houvesse mais. – Brandon se levantou na direção da porta furioso, faria alguém escutar. Uma pontada de angústia perpassou o seu coração, era a segunda vez em quatro dias que discutia com alguém de quem gostava.
“– Você gosta de neve? – Perguntou Liza, enquanto Brandon tentava desajeitadamente colocar os skis sob os pés.
– Nunca havia visto pessoalmente na minha vida. Mas é bem bonita. – Ele sorriu, embora não soubesse se ela estava vendo, os óculos escuros que ela usava não lhe permitiam saber para onde seus olhos iam. E a franja dos seus cabelos azuis escondia completamente as sobrancelhas.
– Sim, eu sonho com um mundo tomado pela neve. Você não acha que seria um bom lugar para viver?”
Ele não achava. Mas concordar com aquilo faria ela feliz, e ele sempre queria vê-la feliz. O rosto dela e as montanhas de esqui ficavam borradas em sua visão, era impossível lembrar dos detalhes com clareza. Uma última lembrança veio à tona:
“Me avisem antes dessas coisas. Vou abrir uma loja de casacos para frio e ficar rico.” Kristofer sempre aparecia repentinamente entre eles. Ele adorava disputar com a genialidade de Brandon. Embora Liza o achasse desenvolto e divertido, Brandon sentia que aquela atitude beirava a desdém. No final das contas, confiar nele se provara um erro, um dentre os muitos cometidos na sua estadia no futuro.
– Katarina! Precisamos conversar agora. – A sua curta estadia no Instituto havia ensinado que era preciso se impor se quisesse que lhe dessem atenção. Os Conselheiros não dispunham de muito tempo, portanto, se você não desse prioridade a si mesmo, sua solicitação seria protelada indefinidamente. Ainda assim, ela ergueu uma sobrancelha em desaprovação, o que o fez rever a etiqueta. – Digo, se você puder.
– É sobre o bárbaro? Soube que você anda mostrando um interesse incomum nesse caso. – Questionou. O sol estava forte fazendo com que seus longos cabelos vermelhos brilhassem mais do que o natural. Pelo menos, aquilo a dava uma justificativa para o modo de se vestir. Ele nunca a havia visto respeitadamente vestida. “Conhecê-la no inverno provavelmente seria menos desconfortável”, pensou, relembrando brevemente do mundo idealizado por Liza.
– É, é sobre o Trynda… Mere. – Se apressou a corrigir. Durante as muitas vezes em que buscara informações sobre isso, pela facilidade, tinha se acostumado a falar o “nome” do bárbaro no diminutivo, o que sugeria uma intimidade entre eles que não existia. Afinal, na única vez em que se viram, foram forçados a travar um confronto mortal. Ele se sentia grato por não ter que machucar muito o bárbaro, pois coisas ruins tendiam a acontecer quando ele usava os seus poderes cronais.
– Não se preocupe. Vamos executá-lo, assim que descobrirmos como. – Explicou, fazendo uma cara de nojo. Era sabido que um dos soldados de sua cidade natal era um zumbi criado por Zaun após ser fatiado por um guerreiro demaciano, Katarina não deveria ser muito fã de mortos-vivos. “Ou talvez ela não goste dele por ser feio demais”, refletiu Brandon.
– Bom, talvez não precisemos executá-lo. – De repente, a compreensão elucidou a mente de Brandon. Sua teoria podia ser verdadeira mas de nada valia se ele não pudesse prová-la. Mas haviam outros jeitos de conseguir o que queria. – A Liga pode ser uma solução também para os deslocados de Valoran. Aqueles casos sem solução que o Instituto tanto tenta resolver. Eu tenho lido sobre eles. Um homem imortal, um espantalho assassino preso em uma das câmaras do Instituto, eles podem servir na Liga. Pagar pelo que fizeram, em vez de deixá-los serem inúteis em celas. Ou saciar a sede de vingança das famílias dos invocadores mortos com mais execuções.
– Estranho. – Ela comentou, após refletir um pouco sobre as palavras dele.
– O quê? – O receio tomou conta dele. Nem ele mesmo refletira sobre a proposta que fizera, como as últimas decisões, seus instintos falavam mais alto. Estaria ele errado ao pensar que Katarina concordaria?
– Achei que você fosse só um garotinho bonito e sonso de Piltover. Mas você realmente é alguma coisa quando se trata de pensar, não é, professor? – E sorriu bobamente para ele, acariciando os próprios cabelos aparentemente sem notar, misteriosamente distraída enquanto o fitava.
– Bom, concordo que eu não sou um garotinho. Não mais.
– Talvez esse seja o problema. Você perdeu algumas etapas da vida com todo esse tempo fora. Nem imagino como deve ter sido difícil. – Era árduo retribuir o olhar dela. Não queria falar sobre aquilo, não ali e nem daquele jeito:
– Ér… Posso vê-lo? – Falou, enquanto recuava abruptamente a mão que estava perigosamente próxima de tocar a dela.
– Fique à vontade, vou pensar sobre o assunto. Mas vou designar alguém para ficar com vocês, para o caso dele tentar fugir ou… Pior.
– Ele não vai. – Garantiu. Embora não tivesse certeza disso. – Além disso, precisarei ficar a sós com ele. – O Instituto tinha poucos prisioneiros, portanto cada um tinha uma edificação especial só para ele. Isso também evitava que eles se unissem para concretizar… Sejam lá qual fossem os objetivos deles. Dois guardas especialistas em formação de Barreira, um feitiço dos invocadores que poderia conter a força dos golpes do oponente, faziam a vigília próximos da porta da câmara onde Marc estava.
Com a permissão de Katarina, os guardas o deixaram entrar sozinho sem fazer objeções. O quarto onde prendiam Marc era extremamente reforçado. As paredes eram recobertas por espinhos e por fogo solar. A porta não podia ser aberta do lado de dentro e arrombá-la chamaria a atenção dos guardas. Havia uma cadeira de madeira, onde Tryndamere estava sentado, uma cama, um mictório e um balde. Ele não queria saber para o que o balde servia, mas registrou mentalmente que falaria com o Instituto sobre as condições de vida dos prisioneiros, mesmo sabendo que esqueceria mais tarde:
– Oi. – Ele acenou para o bárbaro que o fitava com uma mistura de curiosidade com desconfiança. Os olhos azuis ainda estavam ali, brilhavam de uma maneira feroz, assim como toda a aparência dele. Brandon precisava lembrar a todo o momento que estava falando com alguém muito velho, embora não parecesse. Tryndamere não se dignou a responder. – Eu sei que você é inocente.
– Então me tire daqui. – A voz dura recitou calma e incredulamente, quase que pondo um ponto final em qualquer conversação que eles pudessem ter. Mas ele não sabia com quem estava falando, Brandon também parecia mais jovem do que era, se algo podia ser aprendido naquele quarto, era que as aparências enganam:
– Eu posso fazer isso. Mas depois disso, o que você pretende fazer? – Inquiriu. Queria confirmar algo sobre aquela pessoa. De certa forma, sentia que tinham algo em comum, embora Tryndamere não soubesse.
– Isso não é da sua conta. – Suas respostas vinham em forma de grunhido, como se Brandon não fosse digno de frases bem elaboradas ou até mesmo respeito.
– Achei que poderíamos ser amigáveis um com o outro. Podemos ter interesses em comum, você tem talentos que podem ser usados para o bem do mundo.
Tryndamere levantou, ao passo em que Brandon prendeu a respiração. Três passos eram o suficiente para deixarem ambos cara a cara, embora Brandon precisasse levantar a cabeça se quisesse olhá-lo nos olhos. Aqueles olhos que ele pretendia que fossem assustadores, mas Brandon via no fundo deles o temor e achava que sabia bem do quê:
– Você é um desses idiotas. Os que tem tudo o que querem e acham que podem mudar as pessoas. Você quer fingir que eu faço parte do seu mundinho colorido e alegre, que me salvou. Bom, o mundo não é colorido e alegre, você não me salvou, e não, não temos interesses em comum. – Cada palavra veio carregada de desdém e um tanto de indignação em alguns momentos. Para seu crédito, Brandon não vacilou:
– E o que te faz pensar que me conhece tão bem?
– Simples, já matei muitos idiotas como você. – E virou as costas voltando para a sua cadeira, dispensando-o com um gesto de mão. – Vá embora, nada do que você disser me interes…
– Eu vi o “Guerreiro Vermelho”. É um dos meus talentos, quando a bomba cronal do Zilean explodiu em nós eu vi o que você mais tenta esquecer, mas não pode fugir disso. Não está interessado em encontrá-lo, Marc?
Tryndamere ficou estático. Não só por ser chamado por aquele nome que mal lembrava após tantos anos, mas pelo fato daquela pessoa ter visto coisas que ele mesmo não queria mais ver. A busca por vingança não tinha mais um sentido em si, mas era o que o fazia continuar vivendo. Não podia parar enquanto não concluísse o objetivo, não importava o custo:
– Ao meu lado, ao lado do Instituto, você pode fazer parte de algo muito maior. Não se engane, há coisas que não se pode fazer sozinho. E eu estarei aqui para te ajudar nelas. – Ele estendeu a mão e Marc virou o rosto minimamente, dessa vez decidido a desvendá-lo. Era um homem de duzentos anos no passado, e Brandon um de duzentos no futuro. Um era a morte, e o outro era a vida. Mas ele não saberia dizer qual o papel de cada um ao final de tudo aquilo.
Após alguma hesitação, ele virou-se para Brandon. As mãos se apertaram, selando um acordo que nenhum dos dois ousaria descumprir, embora não soubessem o real motivo:
– É uma aliança temporária. Farei o que me pedir, desde que me liberte. – Falou de forma solene o bárbaro, com mais polidez do que Brandon imaginou que ele pudesse ter.
– O tempo muitas vezes engana. Farei o possível para encontrar seu inimigo. – Completou Brandon, com um sorriso. Ao bater à porta, solicitando que os guardas o tirassem dali, desabafou. — “Antes de embarcar em uma vingança, cave duas covas.”, e sempre saiba que uma delas será para você.
– O que você sabe sobre vingança? – O bárbaro questionou, com um retorno brusco ao seu tom feroz habitual.
– Mais do que você imagina. – Sussurrou quase inaudivelmente com um pesar no coração, enquanto era banhado pelo Sol que entrava pela porta recém-aberta. Era livre para partir dali, se quisesse. Mas era impossível fugir de certas coisas.
– Professor! Professor! – Ele ouviu a voz de Doran. Nunca fora de fato professor do rapaz, admitia que ambos trocavam conhecimento em pé de igualdade. Contudo, a admiração de Doran por ele era digna de atenção. Quando ele se aproximou o suficiente do “discípulo”, este abaixou o tom de voz. – Eu fiz o mesmo que você. Bisbilhotei um pouco nos arquivos de Instituto, e achei algo sobre as espadas do Tryndamere.
– E esse “algo” seria…? – Perguntou, tentando não parecer tão ansioso quanto estava pela resposta.
– Elas são de Shurima. Eu mandei uma mensagem para o Ezreal, o explorador, ele pode nos levar até o lugar de origem delas. Seja lá quem as pegou, deve ter deixado alguma pista.
– Quando partimos? – Aquilo era muito sério. Por mais que não tivessem tanto tempo de sobra, era muito importante para ele e para Marc. Sua mente se apegava em uma teoria absurda sobre quem estava atrás do atentado desde que acessara a memória do bárbaro, um rosto quase reconhecível estava naquelas lembranças. E se fosse quem ele pensava, precisariam de ajuda.
– Se o senhor quiser, agora mesmo.
– Avise ao Instituto para onde estamos indo, peça para providenciarem o necessário. Eu vou falar com o Ez. E, Doran, eu quero que você faça um pedido especial para mim.
– Que seria?
– Tryndamere. Ele vai conosco. E não me pergunte se tenho certeza. – Retrucou, ao ver a menção do rapaz de argumentar contra. – Nunca estive tão certo antes.
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