Naquele desespero, até morrer era difícil. Brandon deveria estar se desprendendo de pensamentos, desvanecendo, mas quanto mais respirava daquele estranho gás, mais lúcido ele ficava. Os passos ficavam cada vez mais audíveis, porém ele mal reparava neles, embora tivesse a distante impressão de que eram importantes.

Em sua mente, passaram-se horas até que ele absorvesse cada detalhe do corredor. Como não os percebera antes? Os quadros, provavelmente pintados no século anterior, em suas molduras douradas, retratando guerras ou guerreiros. As numerações nas portas. A de Katarina era a 405. O carpete que cobria todo o corredor. Era um carpete feito em Ionia. O pedaço de tinta descascada em uma extremidade próxima das escadarias. A janela de vidro, trancada.

Na verdade, ele precisou de meio segundo para saber de tudo aquilo. E menos ainda para perceber o que precisava fazer. Era praticamente impossível segurar Katarina, ela tinha sido completamente… gosmificada. Ele não podia abandoná-la ao próprio destino e muito menos levá-la. Em outros momentos, aquilo se tornaria um dilema. Mas, diferente de antes, ele agora via claramente o objetivo principal: Mantê-la segura. E se aquilo significava lutar, ele lutaria. E como lutar trazia lembranças.

“– Eu não sei lutar, sou um cientista. – Protestava Brandon, ao ser derrubado por Kristofer. Ele havia perdido a conta de quantas vezes aquilo acontecera no dia. Kristofer prometera que, se Brandon ficasse, ele o ensinaria muito mais do que ele aprenderia em Piltover. Já naquele tempo, Brandon via o que o “muito mais” significava.

– Se não se adaptar, será removido. – Kristofer repetiu, ele gostava daquele pensamento. Aprendera da pior forma que adaptação e evolução eram necessárias para sobreviver no mundo moderno. Nem tudo se resolvia com fórmulas científicas ou experimentos. Brandon podia não significar muito, não naquele tempo, mas um bom professor não olha para os alunos talentosos, esses de nada valem. Não precisam ser moldados, apenas exibidos. Como artigos de decoração. Brandon não era um artigo de decoração, embora, e ele praguejava ao admitir internamente, fosse muito inteligente.

– Removido de onde? – O jovem cientista de Piltover perguntava, trincando os dentes em fúria. Precisava de mais tempo descansando na lona. Ele notava lentamente que, quanto mais se apanhava, mais se conhecia bons locais para dormir. Qualquer pedra áspera virava uma almofada confortável na cabeça de um moribundo.

– Casa. Tempo. Vida. Você escolhe. Nunca faltam coisas para se tirar de um homem. – A ideia lhe dava prazer. Kristofer não acreditava em pessoas sem nada a perder, sempre havia como dar um requinte nas obras mais cruéis. Ele sorriu para Brandon, a obra estava apenas no início. – Agora levante-se. Enquanto consegue.”

Brandon recordava de cada passo de seu treinamento. Os estilos ionianos de luta e o jeito zaunita de fazer ciência. Levara tudo aquilo consigo, mas pouco uso tinha para tais coisas. Em suma, eram as artes dos homens violentos, e Brandon não era um deles. O que o chamava atenção, enquanto os passos se intensificavam, era que recordava-se, todavia, não revivia mais a situação. Não como alguém com cronodisplasia costumava reviver. Não como ele costumava reviver.

Ele tinha suspeitas, que eram bem mais do que suspeitas. E tempo de sobra para pensar nelas, mesmo que não parecesse. Seu olhar, contudo, recaiu sobre Katarina. Ela não podia falar, mas ele suspeitava de que podia ver. Era uma das campeãs que haviam escolhido apoiá-lo. Uma das lendas. Ele retribuiria a confiança e a protegeria, pois eles haviam chegado.

Eram cinco homens, todos trajando armaduras. As máscaras que eles usavam, com certeza, filtravam o gás. Brandon pensava calmamente em como aquilo podia ser uma singela coincidência enquanto corria na direção deles. Bobagem, não existiam coincidências. Não para um gênio. Ele via quão lamentável era que tivesse que resolver aquilo com os punhos. Haviam tantas formas, tantas possibilidades.

Um dos homens tentou socá-lo, mas estava contendo a própria força. Por outro lado, Brandon não. Ele girou ao redor do homem, chutando-o pelas costas o suficiente para que ele se desequilibrasse e caísse de bruços. O chão tremeu. A sola de seu pé doía pelo impacto. A armadura que eles usavam pesava vinte e cinco quilos. Ele sabia. Não havia nada que ele não soubesse. Exceto o motivo pelo qual o gás não o afetava, mas sua mente trabalharia naquilo.

Os outros homens, como sempre, não aprenderiam com o erro do antecessor, mas tentariam contorná-lo com a mesma ignorância. Nunca daria certo, não contra Brandon. Ele lembrava de tudo que Kristofer o ensinara.

“Equilíbrio.”

O braço que descia em sua direção era poderoso. Com o peso que a armadura possuía, a velocidade tinha um acréscimo cruel da gravidade. Contudo, o golpe destinado ao cientista não chegou a conhecê-lo. O chão não teve tanta sorte. O ruído de mais de cem quilos caindo por quatro andares tinha um sabor de vitória. Pelo menos, para ele.

“Força”

– Está na hora de vocês irem embora, e eu não ligo para onde vão. – Ele falou, furioso. Eram lacaios de Lissandra. Machucaram seus amigos. Invadiram seu lar. Corromperam o seu sonho. Mas a raiva não encontrava tanto espaço em sua mente quanto em seu coração. Brandon pousou a mão no ombro de um deles enquanto se impulsionava para saltar sobre ele, escapando do buraco do chão que ameaçava tragá-lo, e chutando outro dos lacaios no rosto. A máscara arremessada pelo impacto bateu na parede e caiu.

“Velocidade”

Brandon também caía no chão, evitando o grande buraco que havia poucos metros atrás dele. Menos distante ainda, o homem que ele usara como apoio pretendia atacá-lo pelas costas. Ele não podia ver, mas ouvia com clareza. Até imaginava, com precisão, a cena. Na frente de seus olhos, o que ainda possuía a máscara também investia em sua direção. Ele não precisava de mais nada. Nada além de um rápido movimento. Quando os dois se chocaram a própria estrutura da torre ameaçou se mover. Apenas ameaçou.

O homem restante tentava pegar a sua máscara caída. Brandon sabia bem como era difícil enxergar com todo aquele gás, mas tivera mais tempo para se acostumar. Seu inimigo não era tão privilegiado assim. E nem merecia. Brandon segurou o seu pescoço enquanto ele engatinhava tateando pelo chão, não podia erguer tanto peso mas podia apertar forte o suficiente para assustá-lo:

– O que vocês buscam aqui?! – Perguntou ferozmente. O lacaio não estava sofrendo os mesmos sintomas que Katarina, mesmo sendo exposto ao gás. Na verdade, não estava sofrendo nenhum. Ele também não falava, apenas olhava. Brandon reconhecia o medo em seu olhar, mas não era medo do cientista, e sim de seus mestres. O medo por falhar em uma missão. Brandon percebeu que ele não diria nada.

– Não é segredo para ninguém, sr. Beck. Olhe para fora e verá. – Brandon ouviu, virando-se instintivamente para o lado. Conhecia a voz, claro. Sempre conhecera. Tesla era um dos mais brilhantes cientistas de Piltover, segundo Heimerdinger. Não era à toa que ele fora escolhido como Representante da cidade do progresso, no Instituto. Ambos sempre tiveram uma relação, no máximo, cordial.

O Representante estava onde Brandon deixara Katarina, examinando-a. O grande buraco no chão os dividia. Tesla também não havia sofrido os efeitos do gás, mas o motivo era perceptível: Ele também usava uma máscara. A dele era superior em todos os sentidos as que os subordinados de Lissandra usavam. Muito mais… tecnológica. Tesla deveria ser muito prevenido, Brandon não o conhecia bem o suficiente para dizer. Mas que outro motivo o faria ter uma máscara dessas de prontidão?

A janela no fim do corredor ficava próxima das escadas. Brandon deu uma breve olhada, dando as costas para Tesla por um momento. Ele imaginava algo do tipo, mas não queria acreditar. Vários prédios do Instituto pegavam fogo. O gás subia cada vez mais. A destruição tomava conta daquele lugar, e se todos estivessem como Katarina, não haveria nenhuma reação:

– Precisamos fazer alguma coisa. – Ele falou. Soou mais calmo do que esperava. Mais calmo do que se sentia, até. A situação inspirava urgência, porém ele sabia que o desespero não era eficiente. Principalmente do jeito que estavam debilitados.

– Eu estou aberto a sugestões. A propósito, o que você está usando como filtro? – Ele perguntou, colocando Katarina em uma espécie de cápsula de contenção. Assim, poderiam transportá-la em segurança. Tesla parecia saber mais sobre o assunto do que ele, e definitivamente estava mais preparado.

– Cronodisplasia. É como uma grande guerra dentro de mim, sem vencedores. Essa coisa verde não me afeta, nem a minha doença. – Ele sabia. Sempre soube. Tinha certeza, embora não se sentisse tão diferente quanto supostamente deveria. Apenas mais normal. E como era bom!

– É por isso que você está loiro? Achei que estivesse tentando imitar aquele yordle. Novamente. – Tesla nunca falava bem de Heimerdinger. E nunca era nunca. Mas aquele desdém todo do Representante não era o que surpreendia Brandon e sim a afirmação. Seus cabelos voltaram ao normal, aquilo era basicamente a confirmação de sua cura. Por um segundo, ele se permitiu visualizar um futuro feliz sem a cronodisplasia, sem Instituto, sem Liga, sem Lissandra ou Kristofer.

Mas os instantes passaram. Como sempre. Brandon lembrava então da responsabilidade. Dos problemas. E das pessoas que podiam resolvê-los, aparentemente as únicas capazes. Infelizmente, ele era uma delas.

– Você sabe quem está liderando o ataque deles? – Ele perguntou, ouvindo Tesla pular pelo buraco para chegar até lá, ainda observando a janela. Seus pensamentos estavam rápidos. Poderia ser Lissandra, Kristofer, Trundle, ou…

O sangue ameaçava sair e, pelo menos, avisava. Já o ataque repentino não teve tais princípios. Brandon olhou para Tesla e para a faca que ele enfiava contra o seu abdome. Ele não sabia o que dizer, nem o que fazer. Distraíra-se. Pensou tanto e tão rápido que a chance de agir jamais chegou. Se outrora tivesse a oportunidade de olhar a lista que Katarina lhe concedeu, notaria o outro nome de batismo que Tesla recebera. Istvaan. Mas agora era tarde demais para ele.

– Eu. – O traidor falou, com um de seus típicos sorrisos irônicos, enquanto Brandon caía. Assim como todo o Instituto. Tesla não costumava sentir afeição pelas pessoas, a dominação, assim como seu mestre Viktor fazia, era mais atraente. Quanto mais dominasse, mais feliz ele ficava. Era o mais próximo de alguma paixão que Tesla conseguia sentir. E naquela tarde nublada e obscurecida pelo verde, Tesla se apaixonou pelo Instituto.


Brandon conhecia boas maneiras de acordar uma pessoa. Em Piltover, inventara um nano despertador que imediatamente ligava todas as funções necessárias do cérebro. Sem espreguiçar, sem a sensação de “onde eu estou”, sem cansaço, apenas objetivo. Economizava tempo. Ele, particularmente, nunca gostara desse invento. Era como se ela tirasse o calor humano de algumas coisas da vida.

Agora, ao ser estapeado no rosto para acordar, ele via o valor de sua invenção. A sensação de “onde estou” era predominante em sua mente. Seus braços abertos estavam acorrentados a uma parede, assim como as suas pernas juntas. Não era a coisa mais confortável do mundo. Ele deveria agradecer por estar vivo ainda. Não haviam janelas onde ele estava. Não que ele soubesse onde estava, não sabia mais nada.

– Começa com a dor. Mas ela é sempre seguida pelo ódio. Vamos, não quero que você perca isso.

– Kristofer. – Ele conhecia a voz. Conhecia várias vozes. E ouvia boa parte delas em sua cabeça. Ou assim pensava até, de fato, abrir os olhos. Um grande tubo continha a maior quantidade de gosma verde que ele já havia visto. Mas não era simples gosma verde. A população do Instituto era estimada em quatro mil pessoas. Quatro mil pessoas, fundidas em uma apavorante biomassa. Entre as vozes quase sussurrantes que dali saíam, Katarina, Mandrake… Ofelia. – Eu achei que você só precisasse de mim.

– Oh, mas eu só preciso de você. Eles fazem parte de outro experimento. – Kristofer explicou, sério. Muitos homens de armadura estavam ali, além de Tesla. Ele nunca derrotaria todos. Não sozinho. – Eu chamo esse projeto de Renascer, embora, se ele se concretizar, teremos a antítese da vida dessas pessoas.

– Isso te diverte, não é, seu sociopata? – Brandon falou. Não havia nada do gás ali. Ele sabia que seus sentidos o estavam deixando. Pouco a pouco ele voltava a ser um doente. A sensação era pior que deixar de sentir, pois ele sabia quão impotente era perante eles. E aquilo doía mais do que qualquer coisa.

– Não posso negar. Vamos lá, alegre-se, você vai testemunhar o nascimento do primeiro Zaunita Amorfo de Combate. Comecem! – Ele deu a ordem. Era o começo do fim. O fim do caminho onde Brandon havia colocado todos os seus amigos e a si próprio.


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– Tem certeza de isso vai dar certo? – Marc perguntou, um pouco receoso, quando Doran fez menção de colocar as agulhas em seu braço. O laboratório, fortemente barricado ao primeiro sinal de perigo, ainda não havia caído perante os invasores. O gás era impossível de ser removido, e já era tarde demais. Mas ele construiu um pequeno filtro que reduzia muito a quantidade dele no ambiente. Doran era multifuncional.

– Você não pode estar com medo de pequenas agulhas, pode? – Doran tentava brincar. Brandon lhe dizia que os homens com soluções não podiam passar confiança se fossem muito arrogantes ou muito descontraídos. Ele nunca achara a medida certa, mas não podia dizer que não se esforçava.

– Sr. Marc, você tem os anticorpos necessários para, hum, combater o vírus. – Zilean argumentou. Ele nunca aparentara ser tão velho sem a sua doença. Ele não flutuava mais e mal podia se manter de pé. Seus cabelos brancos caíam gradativamente e seu rosto enrugado mal diferenciava as próprias expressões.

– Mas você também não foi infectado, Doran. – Marc argumentou, quase que retirando o braço de onde a agulha agora o espetava, ligada por tubos. Ashe, Sivir, Ezreal, Annie, Amumu e Braum haviam sido transformados em gosma também. Os que restavam não tinham opção a não ser buscar uma cura, e se preocupar com o que acontecia ao mundo lá fora.

– Os produtos que vieram da feira eram catalisadores para acelerar a reação de gosmificação quando entrassem em contato com o gás. Eu tenho alergia a perfumes. E frango. – Ele explicou, enquanto extraia o sangue. – Agora, faça um favor e fique mais bravo, sim? Não quero drenar todo o seu sangue sem que você o reponha.

O processo começava. Doran nunca tivera uma oportunidade clara de estudar Marc, embora tivesse visto os relatórios dele, logo quando chegaram no Instituto. Aquilo parecia fazer parte de outra vida. Ele sequer lembrava exatamente como vivia em Piltover, o Instituto era mais interessante. Abria um leque maior de possibilidades. Mas aquela situação não era interessante.

“Cadê você, professor Brandon?”, Doran pensava, desolado. Ofelia também sumira. De certa forma, eram os adultos mais responsáveis. Ele queria que eles estivessem ali. Aqueles de Piltover, os que sempre faziam soluções. Dotados de gentileza e inteligência ímpar. Mas não estavam. Ninguém aparecia para dizer que estava tudo bem e que eles não precisavam se preocupar. Então, eles precisavam.

– Eu acho que encontrei alguma coisa. Me deem um segundo… — Ele falou, examinando as informações na tela. Ele também era de Piltover. Também resolvia problemas. Podia mostrar a eles. Salvá-los. Precisava disso, se quisesse que a sua vida voltasse ao normal.