Before - League of Legends
6 Capítulo cinco
– É um prazer conhecê-lo, professor Brandon. Eu sou Katarina, representante de Noxus. E estou muito interessada em como conduzirá seus projetos. – A garota era ruiva e possuía uma cicatriz no olho esquerdo. No cinto e nas costas, jaziam mais adagas do que Brandon poderia contar. Uma escolha estranha de objeto para se portar em conferências de paz.
– Acredite, eu tenho ouvido muito isso hoje. – Era verdade. Ofelia e Heimer somavam-se aos Invocadores e outros Conselheiros do Instituto da Guerra, na desconfiança. Cada cidade-estado de Valoran possuía pelo menos um representante no Instituto, estes possuíam cadeiras fixas e podiam tomar decisões em prol da paz.
Os outros, os Invocadores, eram oriundos de diversos locais diferentes e tinham funções variadas. Podiam ser cientistas, médicos, cozinheiros, qualquer um era aceito como Invocador desde que mostrasse a sua aptidão. Além da sua bela estrutura central o Instituto possuía várias edificações igualmente atraentes espalhadas pelo território neutro onde se encontrava. Anos atrás, por se posicionar entre Demacia e Noxus, esse local fora o palco de diversos conflitos rúnicos. Hoje, ele estava ali unicamente para impedir que qualquer outro surgisse.
– Eles querem te ouvir. – Encorajou Ofelia, após as apresentações serem terminadas. A sala principal do Instituto, onde os Conselheiros se reuniam, era preenchida por uma mesa circunferencial o que fazia com que ele, ao ser colocado no centro vazio, inevitavelmente fosse alvo de todos os olhares. Doran não estava mais ao seu lado, fazia parte da massa disforme de Invocadores amontoados nas extremidades da sala quadrada. Ofelia ocupou o seu lugar ao lado deles, era uma Invocadora como os outros.
“Sim, eles querem me ouvir. Mas o quê eu devo dizer?”, ele pensou. Era impossível procurar pelas palavras certas enquanto fosse alvejado por todos os olhares. “Mais um cientista pirado de Piltover”, era o que deveria passar pela cabeça dos presentes enquanto o estudavam um pouco mais. Jayce e Heimerdinger eram espetaculares, merecedores de suas alcunhas mas jamais de um assento entre os Conselheiros, os gigantes que comandavam o mundo através do Instituto.
– Hum… Suponho que devo começar do início. Meu nome é Brandon Beck. Muitos de vocês devem estar se perguntando o que um “zé-ninguém” como eu faz aqui. Bom, eu sou um viajante. Mas eu não cruzo os mares como os corsários de Bilgewater. Eu não ando pelos desertos como os nômades de Shurima. Eu não disputo território como os guerreiros de Freljord. Eu nunca visitei Bandle City embora uma das pessoas mais importantes para mim ame aquele lugar e tenha nascido lá. Nunca procurei por artefatos na floresta de Kumungu. Não meditei em Ionia. Apesar da rivalidade que nós de Piltover alimentamos, eu gostaria de visitar Zaun, mas também nunca o fiz. Contudo não gosto sequer de pensar na Ilha das Sombras. E, noxianos e demacianos espero que me perdoem, pois eu não sinto a mais remota vontade de pisar em suas cidades. Eu cresci tendo vocês como sinônimo de guerra e dor, não importa o que digam. Agora mesmo, vocês mais uma vez aumentam a tensão e se preparam para mais uma guerra. Mas, se nunca tirei o pé da minha amada Piltover até agora, como posso dizer que sou um viajante? Bom, eu viajei pelo tempo. — “Ignore-os. Não importa que cara estejam fazendo. Não olhe para eles, você não é como eles. Você tem um futuro. Faça acontecer.” – Assim como o nosso aqui presente Zilean, o representante da extinta Grande Barreira. Mas, diferente dele, não procurei com a magia pelos múltiplos futuros que poderiam ser desencadeados entre diversas ações, usei a tecnologia de Piltover, vi e vivi apenas um. Um futuro de paz. Um futuro que eu pretendo criar. E sei que vocês também pretendem, do contrário, jamais me convocariam. O que é bom, pois podemos trabalhar juntos nisso. Ninguém mais precisará morrer em vão, como, como… — Sua voz falhou. Havia treinado um discurso diferente no espelho a cada dia desde que voltara para o seu tempo mas daqueles ensaios nada fora aproveitado. Era totalmente diferente ao vivo. Ele sentia a pressão daquele lugar, a história que aquilo carregava. Tudo era preenchido por magia, o próprio solo não tinha semelhante em todo o mundo. Mas a tecnologia era o totem que ele adotara, e as palavras jamais o trairiam. – Como os meus pais. Um soldado e uma enfermeira de Noxus. Eles confiavam tanto em sua cidade natal, em minha cidade natal, que nunca me deixaram vê-la. Do que eles estavam me poupando? Comandante Katarina, a senhorita saberia me dizer? – A Conselheira fez menção de falar, mas não houve tempo. – Não se incomode. Todos nós sabemos. O meu ponto não é esse, mas sim que podemos mudar.
– Com licença, você parece gostar mesmo de falar e criticar. Porém, não vejo sua tão brilhante solução. – Interrompeu o Alto Conselheiro Mandrake, um dos mais influentes membros do Instituto. Brandon se limitou a sorrir. De certa forma, desabafara com aqueles estranhos. Sentia-se quase que parte deles, lhes dera seu nome, sua história, agora eles queriam mais:
– Deem-me um mês. Um mês e eu organizarei a primeira simulação de guerra do mundo. Não me dou muito bem com magia… — Ele suspirou, tomado por lembranças. Tirou do bolso algo mais tecnológico do que o pedaço de papel que mostrara para Ofelia em Piltover. Pequenos botões de ferro voavam em círculos até pousarem no chão transmitindo uma imagem tridimensional virtual, algo que todos pudessem ver. A grande arena customizada que Ofelia vira em rascunhos. – Portanto, ela será toda tecnológica, nós de Piltover somos muito bons nisso. Podemos recriar cada cenário que vocês desejarem, introduzir cada item de combate, reproduzir suas sensações. Cada detalhe será tão real que os combatentes inseridos nesse sistema logo terão dificuldade em distinguir a realidade da nossa… Liga. Guerra virtual, esse é o futuro.
– Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi! – Exclamou um dos Invocadores que assistia de longe, enquanto o silêncio do templo era rompido pelas vozes excitadas e assustadas.
– Funciona? – Perguntou Mandrake, olhando diretamente nos olhos de Brandon, que não hesitou, embora as palavras de Heimerdinger pesassem em sua lembrança.
– Vai funcionar.
– Senhor, isso é loucura. Eu conheço esse rapaz, o menino do portão. – Interviu desdenhosamente Tesla, o representante de Piltover no Instituto. – Ele e aquele yordle encardido quase destruíram Piltover com as suas invenções mais vezes do que me atrevo a contar. Não os deixe infectar o Instituto com essas teorias perigosas.
– Eu espero que você não esteja pensando que me escutar seja uma opção, Tesla. Quase destruímos Piltover? As Guerras Rúnicas destruíram nosso continente durante anos. A magia usada para reconstruir o território foi valiosa, mas sobrecarregou o nosso solo. Acredite, Noxus e Demacia sozinhos podem brincar de fogos de artifício o quanto quiserem, mas se os dois forem juntos para o parquinho, Valoran estará condenada. E embora seja perigosa, isso não é uma teor…
A audiência foi interrompida por gritos do lado de fora. Um tumulto começou a se formar no templo superlotado, mas o verdadeiro problema residia do lado de fora. Pouco a pouco, os gritos se intensificavam com pessoas socando o portão pedindo abrigo onde Brandon e os outros estavam. Suas vozes foram brevemente ouvidas antes de serem interrompidas abruptamente. Os portões de ferro do templo eram invioláveis até explodirem trazendo sangue e levando metade de uma fileira de invocadores para o aconchego da morte.
O invasor era cabeludo como qualquer bárbaro que se prezasse. Sua barba crescia apenas nas laterais da face e seu traje de combate azul reluzia ainda que manchado de sangue fresco. Em ambas as mãos, espadas negras como ébano prontas para tirar mais vidas. O rosto animalesco era destoado pelos olhos, que pareciam estranhamente desfocados embora ele soubesse o que fazia, já que após entrar sob olhares estupefatos gritara ensandecidamente com uma voz fria como o gelo:
– Onde está Brandon?!!
Aquela visão era o suficiente para assustar qualquer um, Brandon imediatamente pôs-se de pé enquanto dezenas de invocadores passavam correndo por ele na direção oposta do bárbaro em busca da saída posterior:
– Brandon, você tem que sair daqui! – Ofelia gritou quando o viu, tentando não ser engolida pela multidão. Doran acompanhava os passos ao lado dela, seu tipo franzino quase o deixava caminhar livremente durante a confusão.
– Vão para o opistódomo*, eu alcanço vocês, prometo. – Brandon segurou Doran por um instante e sussurrou em seu ouvido. – Não se separe dela.
– Você deveria ter se escondido. – Comentou Katarina, quando a multidão debandou deixando apenas o bárbaro enfrentando uma pequena força de elite do Instituto, incluindo ela mesma e Zilean.
– É a mim que ele quer. E eu não fujo tão facilmente. Zilean, vou fazer a marcação. – Explicou indiferente, enquanto dobrava uma das mangas de sua camisa correndo em direção ao bárbaro. O velho barbudo assentiu, sem esperar maiores explicações.
– Você é louco? – Katarina exclamou, completamente atônita, indo em seu encalço para detê-lo.
“4”
Contudo, ele pulou pela mesa antes que ela o agarrasse, o bárbaro sorriu ao ver aquilo e brandiu ambas as espadas em sua direção.
“3”
Brandon aparou a primeira delas pousando o pé no sulco e chutando-a para longe, no entanto, a segunda o atingiu na coxa fazendo jorrar sangue. A dor era excruciante.
“2”
Aterrissar no chão era extremamente dolorido, mas ele conseguiu ficar de pé, frente a frente com o bárbaro, cujo braço se preparava para desferir mais um golpe enquanto a Representante de Noxus arremessava desesperadamente uma adaga naquela direção.
“1”
Então, a bomba temporal de Zilean explodiu, expulsando o bárbaro para fora do templo e fazendo Brandon retornar ao normal. Sua perna estava boa novamente, assim como a sua manga voltara ao estado original:
– Você colocou uma bomba nele. – Katarina estava perplexa.
– Ele me pediu. – Replicou calmamente Zilean. Sua cronodisplasia lhe dera alguns poderes arcanos, estes eram conhecidos por todos, podia trazer pessoas de um determinado ponto temporal ou mesmo fazer o tempo explodir nelas, podia fazê-las se moverem mais depressa ou mais devagar, a depender da sua vontade. Aquilo não era preocupante para os seus aliados, o Instituto sempre catalogava as habilidades de seus membros, mas os poderes que a viagem temporal de Brandon lhe deu eram desconhecidos ao menos por enquanto:
– Você está bem? – Um dos membros do Instituto tentava auxiliá-lo.
– Estou ótimo. – Respondeu Brandon, enquanto se levantava desvencilhando-se e ia na direção dos portões arrebentados, por onde o bárbaro entrara e fora expulso. Um pequeno pelotão o cercava com facas de estática, capazes de dar choques, aguardando o menor movimento, ele não tinha mais as espadas todavia seus grandes músculos ainda eram capazes de fazer estragos.
Os olhos dele repentinamente abriram assustados. Eram azuis. Brandon não se dera conta disso quando o vira antes e ele sabia que não havia faltado atenção: Algo estava diferente no homem. Era quase como se fosse outara pessoa:
– Onde eu estou? Quem são vocês? – Perguntou, a voz também estava diferente. Era dura e assustadora, mas não tanto quanto a voz gélida que demonstrara momentos antes.
– Pela autoridade concedida a mim, Katarina de Noxus, pelo Instituto da Guerra, por crimes contra a paz pública, destruição, homicídio e invasão de propriedade, você está preso.
*Parte posterior dos templos gregos, onde se guardavam ex-votos e que servia de tesouro e museu.
Fale com o autor