Bedroom Talk
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Notas iniciais
Minha e da Ju (Histrionic)
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Aquele dia em especial parecia quente e abafado. Nem o ar-condicionado do hospital e o cheiro de limpeza do saguão tiravam das narinas de Mikey aquele odor de cigarro, que parecia estar impregnado por cada milímetro do corpo dele. A noite havia sido longa, e logo de manhã ele tinha sido pego de surpresa pela notícia do estado do irmão, que deu entrada na UTI com início de coma alcoólico. Não teve tempo sequer de tomar um banho — correu direto para o hospital. Na sala de espera encontrou Frank, sentado sozinho e quase dormindo sobre o recosto da cadeira. —Oi... —Bom dia, Mikey. — bocejou. —Você tá há muito tempo aqui? —Hm... devem fazer uns 15 minutos que eu cheguei. Uma enfermeira me pediu pra dar mais um tempo porque o Gerard tá dormindo.—Como ele tá? —Naquelas, né. Você sabe que não é a primeira vez que isso acontece. —Também acho que não vai ser a última. Frank riu uma risada que não tinha humor. —Pode apostar que não vai ser. Mas daqui a pouco vão acordar ele. Mikey sentou-se ao lado do amigo e fechou a cara de repente. Olhou no relógio com impaciência. Os braços cruzados e os próprios joelhos, que se batiam repetida e ritmicamente, denunciavam sua ansiedade. —Calma Mikey, ele já vai nos receber... —Eu tô cansado disso, Frankie. A olhada dura por cima dos óculos e o tom de voz pesado assustaram o guitarrista. —Disso o que, cara? Mikey bufou em frustração. —Esquece. Eu não devia ter falado isso. Eu nunca falo, não devia ter dito logo agora. —Fala, o que aconteceu? —Não. —Ah, qual é Mikey, você sempre me contou as coisas... —Não Frankie, isso é o que você acha. Não o que eu faço. —Não estou te entendendo. —Tudo bem, não é pra você entender. Tô irritado, só isso. —Não, não é só isso, você disse que tava cansado e eu não sei do que é. —Não é muito difícil descobrir. -Fez uma longa pausa. -É só pensar um pouco. —Sobre o Gee? —Em grande parte. —Achei que você já tava acostumado com essas crises dele, depois de tantos anos... —Como eu vou me acostumar com o meu irmão se acabando desse jeito? Quando eu acho que tudo vai melhorar, que ele finalmente se conscientizou que tá na hora de dar um tempo nessa vida que ele leva, ele vai lá e faz tudo outra vez. E por motivos que eu abomino. Frank respirou fundo. —Eu sei. Sempre que eu acho que ele vai melhorar, ele volta. Já tentei conversar diversas vezes, mas eu me acho tão... sem moral pra querer ajudá-lo. —Os únicos meses que eu me lembro de ter visto ele sóbrio por mais de dois dias seguidos, foi quando vocês estavam juntos. Frank olhou rapidamente para Mikey, que o encarava sério. Aquilo não era, definitivamente, o que ele esperava ouvir. Baixou a cabeça e levou o olhar melancólico até um ponto qualquer no chão. —Todo mundo sabe disso, Frankie. E não precisa fazer essa cara de otário, porque você não é. Você quase "curou" o meu irmão, fez muito bem pra ele. Assim como você faz pra todo mundo... — Mikey se ajeitou na cadeira, disfarçando. — Ahm.... eu lamento tudo ter terminado como terminou. Alguns segundos de silêncio no saguão fizeram o ar Frank visivelmente triste. Ele procurava as palavras certas na mente para dizer, mas elas eram tão difíceis de se achar... —Bri-brigado Mikey. Eu... é, eu tentei ajudar o Gee. A gente se ajudou muito, na verdade. —Entendo. —Mas agora as coisas são diferentes. E depois dessa, eu realmente não sei mais o que dizer pro seu irmão. — O Gerard precisa ouvir as verdades que nunca disseram pra ele. Ou melhor, ele precisa acreditar no que a gente fala, porque ele só parece dar ouvidos para o que o Bert diz. O Bert, como sempre. —Falando nele.. ele tem alguma coisa a ver com o que o Gerard fez? —Você realmente em dúvidas ou isso é só uma piadinha, Anthony? -Mikey falou, o sarcasmo pingando de cada sílaba. —O que houve, você sabe?? —Eles brigaram de novo. Meu irmão tentou ligar pra ele pela centésima vez pra se desculpar e ele, de certo drogado até a alma, fez escândalo. Disse que ia atrás dele e saiu, e desde então a única notícia que recebi foi a da entrada dele no hospital. —Meu Deus... ele deve ter ido beber e ficou assim. —O que mais me irrita é que ele faz isso pra chamar a atenção do Bert, Frankie! Não faz por estar mal, por querer um alívio, ele faz pro Bert dar atenção pra ele!! — O tom de voz se alterou. —O Bert sabe que ele tá aqui? —Não, não sabe, mas quando o Gee acordar certamente vai me pedir pra ligar e avisar o Bert. Pedir pra ele vir ver ele e tudo o mais. Mas dessa vez eu NÃO VOU! Quero o meu irmão longe desse infeliz que só serve pra manter ele nesse caminho. — Acalme-se Mikey, a gente tá num hospital... — "Acalme-se" é o caralho!! Eu... eu grito onde eu quiser e com quem eu quiser! E se o Bert tivesse aqui agora, gritar ia ser o mínimo que eu ia fazer! — Não sabia que você tinha tanta raiva assim dele. Mikey calou-se por um breve instante, pensativo. Ajeitou os óculos sobre o nariz e olhou com nojo para Frankie com uma expressão triste em seu rosto.
—Não é raiva, é muito pior. —E o que é então? Mikey se levantou rápido e correu para a saída do hospital. Passava as mãos no rosto para limpar as lágrimas que começavam a correr e sentia os soluços trancados na garganta. Frank foi atrás dele e o alcançou já do lado de fora. —Damn Mikey, o que aconteceu com você hoje?? Eu não estou te reconhecendo, eu nunca te vi assim! —Me deixa em paz, Frank. Iero deu mais alguns passos até ele e tocou seu ombro suavemente. —Olha, eu não sei o que deu em você. Você nunca foi de dar escândalos assim e perder o controle... —Até as torres mais fortes um dia tombam. —Não você, Mikey. — Frank se aproximou mais alguns centímetros e olhou o outro com ternura. — Por favor, me conte... Aquele toque e aquele olhar eram quase o limite do que Mikey podia aguentar. Segurou-se com força na mureta atrás de si e olhou para Frank com os olhos imersos em esperança, apesar das palavras inflexíveis. —Há coisas que eu venho esperado muito tempo para ouvir, mas acho que isso nunca vai acontecer... Iero deixou a mão deslizar pelo ombro do baixista até encontrar o vácuo. —Mikey... você gosta do Bert, não é?
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