Na manhã seguinte, Mikey estava tomando o seu café calmamente quando seu celular tocou. Na verdade, ele não estava tão calmo. Aliás, pra ser completamente honesto, ele estava totalmente ansioso. Depois da noite passada, tinha deixado o celular ligado o tempo todo: a primeira coisa que fez quando acordou foi ver se tinha algo no visor do aparelho (e constatou que nada havia ali), para depois levá-lo consigo para o banheiro, e agora estava comendo seu cereal matinal com o celular ao lado da tigela.

Por isso pulou alguns centímetros na cadeira quando ouviu a campainha do objeto. Conseguiu atender, e falou cheio de expectativa:

- Oi????

- Mike, oi.

Sua voz parecia um balão furado quando falou:

- Oi Frank.

- Será que você é capaz de me explicar o que aconteceu ontem?

- Hum... Acho melhor a gente se encontrar. – Ele falou, lembrando do estado em que Gerard tinha voltado pra casa de madrugada, caindo de bêbado. E que também não era seguro falar sobre aquele assunto perto do próprio... assunto.– Em 15 minutos, naquele café?

- É, pode ser.

- Ok. – Mikey desligou e viu que o irmão estava acordado, escorado no batente da porta, olhando pra ele. Suas olheiras eram fundas, e mexas do cabelo negro lhe caíam sobre o rosto, insistindo em entrar entre os lábios pálidos. Desencostou a cabeça e o ombro da madeira.

- Pra onde você vai?

- Ver o Frank.

Gerard grunhiu. Mikey protestou:

- Só porque você não fala com ele, não significa que eu também não posso.

Gerard pareceu não ouvir. Então perguntou de repente:

- Vocês estão trepando?

O baixista olhou para o irmão, incrédulo. Ele já estava bêbado.

- Vai dormir, Gerard. Vai ser melhor pra todo mundo.

Gerard deu um sorriso frio e idiota ao mesmo tempo.

- Eu sabia que vocês estavam trepando.

Mikey terminou de comer, calado, e saiu do apartamento para ir encontrar Frank. Se continuasse a ver Gerard daquele jeito, faria alguma idiotice.

***

- E ele tava bêbado de manhã? – Frank perguntava. – Mas ele devia estar de ressaca, não bebendo mais.

- Eu sei. – Mikey respirou fundo. – Mas acho que ele bebe assim que acorda pra não ter que lidar com a ressaca. Você sabe, “evite a ressaca, mantenha-se bêbado”.

Frank suspirou. Não queria suspirar, mas o fez do mesmo jeito.

- Eu não posso negar que tinha alguma esperança de que ele se acalmasse um pouco depois do último susto.

-Eu também tinha. Mas na verdade, conheço o meu irmão suficientemente bem pra saber que as coisas com ele não funcionam assim.

O guitarrista assumiu uma expressão de conformidade. Melhor mudar de assunto, pensou. Insistir na tecla manjada não adiantaria de nada.

-Então, o que aconteceu ontem? – perguntou finalmente.

- Você primeiro.

- Você sabe. Gerard apareceu com o Bert, e eu fui embora. Uma hora depois mais ou menos aquele louco me liga, falando que pegou o Bert com o Quinn. Aí o idiota aqui o recebe. Ele estava bêbado, óbvio. Até ficou meio... – pausou.

- Meio? – Mikey incitou, já sabendo o que viria.

- Ok, ele estava doido pra ficar comigo. – Frank deixou escapar um sorrisinho, mas o extinguiu logo depois. – Mas estava bêbado até a alma, então eu o mandei embora. – assumiu uma expressão miserável novamente.

- E agora você se odeia por isso. – Mikey deu um sorriso de lado. Às vezes se parecia demais com o irmão.

- E o que houve do seu lado? Depois que eu saí. – Frank mudou de assunto na velocidade do som.

- Eu mandei ele se tocar e fui pro meu quarto. Aí eu ouvi ele bebendo e saindo, um tempo depois. Daí a uma hora depois, mais ou menos, o Bert bate lá em casa. É, eu sei. – falou ao ver a expressão de Frank. – Ele contou mais ou menos a história dele, do Quinn e tal, e bebemos um pouco. E... ele deu e cima de mim.

- Ah é? – Frank sorriu.

- Não é só isso. Eu falei pra ele que eu gosto dele e... ele falou legal, e que a gente pode sair qualquer dia.

- E que dia...

- Ele falou que estaria meio ocupado com a banda, e que me ligaria.

O sorriso de Frank diminuiu. Falou com o maior tato possível:

- E... você acreditou?

- Como assim?

- Mikey, vamos ser honestos. Estamos falando do Bert aqui. Você realmente acha que ele vai ligar?

- Talvez. – Mikey ficou na defensiva. Frank sentiu pena, mas não falou mais nada.

- Vai na festa? – Mudou de assunto. Dessa vez, na velocidade da luz.

- Qual?

- A que vai ter naquele clube que a gente sempre vai. Vai ser daqui a uma semana. Acho que vai ser legal. E eu tenho certeza que o Bert vai estar lá. – piscou. Mikey sorriu.

- Hum... não é uma má idéia.

***

Quando o baixista chegou em casa, encontrou seu irmão saindo.

- Onde você vai?

- Vou resolver umas coisas. Não vou demorar. – mandou um beijo no ar e saiu. O caçula suspirou. Pelo menos Gerard já estava sóbrio.

Mikey olhou para o seu celular pela seilá-que-vez naquele dia. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem. É cedo, pensou. Bert deve estar dormindo ainda. Afinal, ele vai ligar sim, é só ter paciência, e essa era uma virtude da qual Mikey desfrutava.

A notícia da festa tinha sido boa, e vindo em ótima hora. É isso, resolveu. Não precisou pensar demais, era simples. Iria ficar com Bert na tal festa. E, se desse tempo, tentaria juntar Gerard e Frank. Eles mereciam, e precisavam disso.

Tudo estava dando certo. Agora só faltava Bert ligar.

***

Mas ele não ligou. No 2º dia, Mikey pensou “ele deve estar sem tempo mesmo”. No 3º, “é, ele realmente deve estar ocupado, sem tempo pra nada, assim”. No 4º, “Bert deve ter perdido o meu número”. No 5º, “acho que nem dei o meu número, pensando bem”. E no 7º, “ele não vai ligar, eu vou morrer sozinho e ser comido pelos meus gatos.”

O caçula Way não poderia dividir suas aflições com Gerard de maneira nenhuma: a) porque ele era o ex de Bert; e b) porque Mikey não conseguia mais nem falar com o irmão, visto que ele não parava mais em casa . Gerard estava agora sempre saindo para algum lugar misterioso, e durante a semana inteira dormiu fora. Na verdade, os dois quase não se falaram mais depois daquela manhã em que Gerard tinha acordado bêbado. Mikey desconfiava de que devia ser algum casinho novo. Nas poucas vezes em que se encontrou com o irmão nos últimos dias, tinha tido a impressão de que ele estava com um ar mais alegre do que o de costume. Ou também podia ser a banda, visto que Gerard sempre fora o mais envolvido dos membros com as questões burocráticas.

Então, durante aquela semana, Frank e Mikey comportaram-se como melhores amigos. Almoçavam juntos, um sempre estava no apartamento do outro e conversavam por horas a fio. O assunto era o preferido universal: homens. E porque eles era tão complicados. Mikey sonhava e divagava e falava de Bert à vontade (era um romântico incurável), Frank reclamava de Gerard, mas com um toque de afeto escondido debaixo daquela mágoa toda. Ainda fazia questão de disfarçar seus sentimentos pelo vocalista, mas provavelmente não seria por muito tempo.

Nisso, as pessoas começaram a falar. Mais de uma vez, seus amigos perguntaram se eles estavam juntos, e Gerard falhava miseravelmente em esconder o seu ciúme quando Mikey avisava que iria sair com Frank. Ficava perturbado ao ouvir os comentários dos outros. Fazia caras e bocas, proferia grunhidos, e insistia em reclamações quase inaudíveis. Repetiu os gestos pela enésima vez numa reunião vespertina com os membros da banda e uns amigos, para a qual o baixista e Iero estavam atrasados.

-Vocês repararam? Eles têm andado muito juntos. Isso não era assim. –Disse Ray.

-É, muito, muito estranho mesmo. Parece que estão de casinho.

-Ah, com certerteza estão.

-Tá na cara! Inclusive, devem estar se pegando no momento. –Bob olhava seu relógio.

Gerard apenas ouvia, bufando e com *aquela* cara de tédio. Não foram precisos muito mais especulações alheias para ele largar o copo de vodka na mesa e deixar a sala reclamando baixinho.

-O que foi isso?

Todos se olharam, estranhando a reação. Na verdade, não estranhavam tanto assim. Já estava deixando de ser segredo o ciúme doentio do vocalista.

Mas Mikey e Frank negavam. Não, somos só bons amigos, com interesses em comum. Eram cúmplices um do outro. Era isso que diziam sempre.

Até conversarem uma vez sobre ficarem juntos. Mas decidiram que seria estranho demais, pois tinham se tornado muito amigos.

- Não é que seja ruim. Você beija bem, acredite – Mikey tentava explicar a um Frank bastante ofendido. “Então eu não sou bom o suficiente?” ele tinha perguntado anteriormente, cruzando os braços e fechando a cara. Mikey media as palavras. – Mas é que no momento atual, nós somos amigos demais pra ficar. Ia foder com tudo.

Frank o desculpou, afinal. Ele tinha entendido o recado. Também sabia que, caso um dos dois chegasse a se apaixonar pelo outro e não fosse correspondido, ia causar mais confusão ainda. Ele sabia que era de Gerard que ele ainda gostava, e tentar preencher sua lacuna com o irmão era arriscado e mesquinho. Às vezes Frank era muito sensível. Combinava direitinho com Gerard.

***

A festa. A tão esperada festa na qual tudo se resolveria. Mikey ficaria com Bert, e estava ansioso demais para poder pensar em qualquer outra coisa. Não encontrou Gerard o dia todo, então decidiu ir sozinho. Lá no clube a música alta já tocava, e estava todo mundo bebendo. As pessoas dançavam, se agarravam, riam sozinhas. Mikey logo viu Frank sozinho no bar, e foi até ele.

- Oi.

- E aí?

- Você viu o Bert por aqui? – perguntou, esperançoso.

- Não. Mas eu vi problemas. Dois problemas, na verdade.

- O quê? – Mikey perguntou.

- Kate e Quinn.

Mikey arregalou os olhos. Deixou o queixo pender.

- Oh! Juntos?

- Claro que não. O Quinn é mais gay que um feriado nacional. Mas acho que Gerard não iria gostar de vê-los.

- Você se preocupa demais com as opiniões dele. – Mikey bebia uma dose de whisky. Frank deu de ombros. Então o baixista falou: — Ei, eu vou tentar ficar com o Bert hoje.

- Ah é? Legal. Boa sorte.

- Ah você podia ficar com o Gerard... – Mikey deu um sorriso maroto e piscou.

- Chance remota. – Frank falou.

- Por quê?

Mas antes de o outro ter chance de responder, olhou para a entrada da festa e travou.

– Realmente remota.

Mikey seguiu o olhar do guitarrista. E teve uma súbita sensação de deja-vu:

Gerard e Bert, chegando abraçados na festa, sorridentes, aos beijos.

Definitivamente deja-vu.