Mikey deu a Frank o mais miserável dos olhares. Sabia que de todas as pessoas (tirando seu irmão), Bert era o menos recomendável para se gostar. Na verdade, nem mesmo Mikey sabia o quanto gosta de Bert, ou ao menos o porquê. Talvez fosse porque Bert era tão desgraçadamente insano, e adorável, e “nojento”, até — e ao mesmo tempo. Tinha o gostinho do proibido, afinal, Bert ficava com Gerard praticamente desde que Mikey o conheceu. E também o baixista sempre fora o bom moço, o irmão mais quieto de Gerard, o carismático. Talvez ele se atraísse pelo caos. E Bert era o caos encarnado. Por isso o odiava. Porque tinha escolhido Gerard. Porquê não ele, Mikey?

Frank o olhava, simpatético. Mikey percebeu que estava olhando para o vazio há um bom tempo, então achou melhor quebrar o silêncio:

- E você gosta do meu irmão. Qual de nós está na merda maior?

Frank o olhou aborrecido, e falou na defensiva:

- Eu e Gerard não vamos voltar. Ele aprontou demais. Ás vezes você precisa deixar os seus entes queridos sofrerem para que eles aprendam...

- Ah, tá. – Mikey cortou. – Você só diz isso porque morre de ciúmes dele com o Bert. Vamos, admita.

- Não. Gerard faz o que quer da vida. Eu não me importo mais.

Os dois trocaram o mesmo olhar de descrença. Então Frank falou:

- Por mais que eu não goste do Bert, e por qualquer motivo que seja, não só porque ele está com Gerard – completou ao ver o olhar divertido de Mikey. – Eu vou te ajudar a ficar com ele.

Mikey sorriu, passando a mão por debaixo das lentes molhadas dos óculos.

- E aí eu posso te ajudar a voltar com o meu irmão!

Frank fechou a cara.

- Eu não vou voltar com aquele... prostituto drogado. Ele não era assim, sabe. Foi depois de ficar com Bert que ele ficou desse jeito. Francamente Mikey, você não tinha ninguém melhor pra gostar?

O Way caçula deu de ombros.

- E a gente escolhe quem gosta?

Frank ficou calado. Mikey quase riu da sua cara. Era óbvio que ele (F) morria de ciúmes de Gerard. Os dois ainda se gostavam, mas nenhum iria admitir tão cedo -a menos que houvesse um empurrãozinho. A maneira como terminaram não havia sido das melhores, e isso Mikey admitia. Frank e Gee estavam namorando há algum tempo, quando Iero ficou com outra mulher. Gerard descobriu, o que resultou num trágico sentimento de vingança — o vocalista acabou ficando com uma fã e o namoro chegou ao fim. Por isso eram até hoje irritados um com o outro, apesar de o episódio ter terminado com ambos sem ninguém. Mas Mikey achava que já estava na hora de o casal 20 da banda passar por cima do orgulho e ser reunido novamente. Afinal, tinha que manter Bert livre. Sorriu.

- Vamos ver Gerard.

Carrancudo, Frank foi com ele para o quarto onde Gerard estava internado. Ele estava pálido. Mas desta vez tinha sido menos pior que as outras. Desta vez ele mesmo tinha admitido que tinha sido idiota.

Quando Mikey e Frank entraram no seu quarto, ele só falou com Mikey.

- Hey. Alguém ligou no meu celular?

- Não, ninguém. – Mikey falou, seco. Sabia no que aquela conversa daria.

- Então me empresta o seu. Ou melhor, liga pro Bert. Fala que eu já estou de coma. – piscou inocentemente para o irmão.

Mikey suspirou tristemente. Não podia repreender Gerard, porque ele realmente não tinha consciência que estava magoando tanto Mikey quanto Frank (se bem que Mikey suspeitava que aquilo também fosse para fazer ciúmes em Frank).

- Ok, eu vou avisar pra ele. – Falou e se retirou do quarto com a desculpa, mas na verdade era pra deixar os dois sozinhos.

Frank e Gerard evitavam o olhar um do outro. Mas foi Gerard que quebrou o silêncio:

- Você não vai começar? – perguntou, subitamente interessado da ponta do seu lençol.

- Começar o quê? – Frank falou, olhando para a janela. Sentia que se fixasse o olhar em Gerard, cederia.

- A brigar. Você sabe, a ladainha de sempre. Ele não te merece, você fez isso de novo, etc.

- Já faz muito tempo que eu deixei de me preocupar com o seu bem-estar. – Frank falou frio.

- Ah é? – Gerard falou sarcástico, e olhou para Frank. Este continuou se recusando a olhar nos olhos do ex-namorado e talvez ex-melhor amigo. – Então o que você está fazendo aqui?

Era incrível como ele sempre fazia Frank ficar sem palavras.

- Vai se foder. – falou friamente, antes de sair do quarto. Mas não antes de ouvir Gerard exclamando lá de dentro:

- Pra quê você acha que eu to chamando o Bert?!

Frank praticamente bateu a porta atrás de si e respirou fundo. "Ele não tem a intenção de te magoar", repetia para si mesmo. "Ele não tem essa intenção". Tinha a esperança de que se repetisse isso o bastante, se tornaria verdade.

***

Claro que a situação não melhorou nada quando Bert não apareceu. Mikey até tinha comunicado a ele sobre a hospitalização de Gerard (tá certo que ele apenas mandou uma mensagem para o celular de Bert, só falando “G. tá no hospital”, sem especificar o hospital e sem ter certeza que tinha acertado o nº, mas isso são só detalhes sem importância), porém o pior foi ter que escutar o irmão se lamuriando porque Bert não estava lá. Até que Frank falou:

- Sabe qual é o problema dele? Ele é mimado. Sabe que a gente está aqui, se preocupando. – suspirou. – Foda-se ele. Minha vida não gira ao redor de Gerard Way. Não mais. E a sua também não devia girar, Mikey. Não. Eu cansei disso. – se levantou e olhou para Mikey. – Você vem?

O garoto (por assim dizer) ponderou por alguns instantes, antes de se levantar da poltrona. Falou rapidamente ao médico de Gerard:

- Só me liga se ele morrer. E também não deixa ele ligar pra ninguém. — E foi, acompanhado por Frank, para o seu apartamento (que dividia com Gerard).

O guitarrista tinha razão. Gerard tinha que parar de ser mimado, coisa que sempre fora. Desde pequeno era assim, "Gee o que precisa de atenção", "Gee aquele-que-vive-na-barra-da-saia-da-vovó-Elena". Estava mais do que na hora de as coisas mudarem.

***

Então foi a vez de Frank e Mikey beberem. Muito. Estavam no apartamento, com muitas garrafas de vinho vazias. Os dois já estavam sentados no chão, mal conseguindo focalizar um ao outro.

- Sabe qual é o problema dele? – Frank falou, com um copo de vinho vagabundo na mão. Sua cabeça rodava. – É o Bert. Sim, você pode ser apaixonado por ele, mas isso não o impede de ser um prostituto drogado.

- Você realmente gosta de chamar as pessoas de prostitutos drogados, né? – Mikey riu. – E ei! Eu não to apaixonado por ele! E só porque *você* — apontou o copo de vodka que segurava para Frank, entornando um pouco da bebida – Ih droga, minha vodka. Mas só porque você é loucamente apaixonado pelo meu irmão...

- Eu não! Eu não quero mais saber de Gerard, lembra?

- Ah, tá. Frank, acho que depois de tanto álcool, tá na hora de sermos honestos aqui. Nós morremos de ciúme daqueles dois!

- Fale por si próprio. – Frank resmungou.

- Você não ia me arranjar o Bert?

- Vou tentar, né. Quer dizer, é meio difícil.

- Você acha?

- Certeza.

- Mas ei! – Mikey exclamou de repente, empolgado – Sabe o que seria uma vingança legal?

- O quê? – Frank o olhou, desconfiado.

- Se a gente ficasse! Aí eles ficariam com ciúmes, e, e...

O cérebro de Frank falava “mas como eles vão saber se eles nem estão aqui?”, mas é comumente sabido que a lógica abandona os corpos a partir de um certo nível de álcool no sangue, então a sua boca proferiu as seguintes palavras:

- Tá bom!

Cambaleando, Frank foi até Mikey, ficando de frente pra ele.

- Ok?

- Ok. – o caçula Way falou. Houve um momento em que os dois ficaram imóveis, apenas olhando um para o outro. E então se lembraram que tinham que se beijar, e assim o fizeram. Frank instintivamente procurou o cabelo longo para puxar, mas não estava lá. E Mikey segurou a nuca de Frank com força. Esperava algo mais... enérgico. Mas o piercing do lábio de Frank era legal. Se separaram.

- Você acha que eles já estão com ciúmes? – Frank perguntou.

- Provavelmente. – Mikey respondeu. Eles estavam bêbados como gambás.

- Seu irmão beija melhor.

Mikey ia responder, mas um estrondo de algo grande se chocando contra a porta do apartamento no lado de fora desviou os seus pensamentos. Os dois ficaram encarando a porta, imóveis. Então ouviram um barulho de chaves, e a porta abriu.

O que eles viram foi o suficiente para ficarem sóbrios de novo rapidinho.

Gerard e Bert. Um já com as mãos no zíper da calça do outro, os dois com as bocas grudadas num beijo como eles tinham poucas vezes dado. Por alguns segundos não notaram Mikey e Frank, até o primeiro falar:

- Vejo que já te deram alta, Gee.

***