Beber, Transar, Fumar e, talvez, Amar
6 Capítulo 6
Júlia encarou o apartamento a sua volta. Suas malas estavam prontas. Estava decidida. Finalmente, tivera coragem de recolher todas suas coisas. Sentou-se no sofá e encarou o retrato dela com Ana que decorava a mesa de centro. Durante aqueles breves segundos, pensou em desistir de deixá-la. As lembranças vieram como um furacão: o primeiro “oi”, o primeiro beijo, a primeira noite de amor, o primeiro dia de frio juntas, o primeiro “eu te amo, não posso viver sem você”. Mas junto delas, veio o motivo que a fizera desistir do relacionamento: sua carreira e seus pais. A maçaneta girou, tirando-a de seu devaneio e fazendo-a encarar a porta. Ana destrancou a porta e adentrou com um sorriso brilhante:
– Você não vai acreditar... –ela parou quando se deu conta das malas ao seu redor, seu sorriso se desfez de imediato – O que é isso? – Ana a encarou com um olhar desacreditado. Júlia teve coragem pra dizer:– Estou te deixando, Ana. A cena a seguir foi cinco vezes mais dolorosa do que a que ela havia imaginando: Ana parou onde estava, seus olhos lacrimejavam e perdiam todo o brilho que costumavam possuir quando a encontrava. O silêncio se instalou no recinto. Ambas apenas se encaravam. No fundo, Ana sabia o motivo do término, porém não poderia deixar de perguntar:– Por quê?– Porque uma bailarina tem que casar e ter filhos com um homem – doeu. Mas Júlia disse mesmo assim. Agora, as lágrimas de Ana se tornaram mais frequentes. Elas escorriam por todo seu rosto que carregava uma expressão de ódio. Sim, ódio. Depois dessa frase, odiava todos os momentos que passara com Júlia até então. Odiava todas as promessas, odiava todos os “eu te amo”, odiava todas as manhãs de frio que abrigara Júlia em seus braços. Depois de um imenso flashback, ela fez questão de ferir Júlia também:– Você é uma covarde – a paciência havia se esgotado. Foram quatro anos tendo paciência. Quatro anos escondendo um relacionamento, quatro anos apresentando Júlia “apenas como amiga”, quatro anos sem poder dar um beijo em público. A frase foi em cheio no coração de Júlia, despedaçando-o:– Eu disse pra você não me obrigar a escolher entre o Ballet e você, Ana. Eu tentei. Eu tentei, Ana. Eu tentei todos esses anos... – sua voz falhava em meio ao pranto enquanto encarava Ana buscando algum perdão. O “ex” amor da sua vida apenas respondeu:– Saí! – a frieza em sua voz era gigantesca. E assim, Júlia fez. Recolheu suas malas, suas lembranças, seus sentimentos e, apenas, saiu.
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