Beautiful and Dangerous
45 44. Nossas Cartas
Notas iniciais
Dois dias. Esse foi tempo exato que Lila Jane Evers levou para ler o romance escrito por Mitchell Wate. Infelizmente, a porcaria do livro também era uma tragédia, o que lhe acarretou outros dois dias chorando.
Ao ler as últimas palavras escritas, lágrimas caíram por seus olhos, e ela afastou o rascunho de si, temendo molhá-lo. De certa forma, aquela história lhe fizera se lembrar de Macon, causando-lhe uma grande dor no coração, que não poderia ser curada com nenhuma outra coisa, que não fosse ter seu amado de volta. Ela odiava ler ou assistir coisas que lhe fizessem chorar por qualquer motivo, pior então era se pegar desmanchando-se de lágrimas de saudade de alguém que ela nunca mais voltaria a ter.
Passara um grande tempo trancada em seu quarto, andando pelo pequeno espaço do cômodo e pensando no que dizer a Mitchell quando ligasse para dar-lhe sua opinião sobre o livro, mas acabou encontrando-se sem nada para dizer. Era inegável que a história era ótima, mas somente ao pensar nela, os olhos de Lila já se enchiam d’água. Naquela noite, ela deixou seu apartamento e, imprudentemente, caminhou sozinha e dependendo de sua própria sorte até o antigo apartamento de Macon.
A entrada continuava a mesma, sem nem uma única mudança aparente. Ela não sabia ao certo o que fazia ali, mas precisava tanto conectar-se com Macon, e com seu antigo eu – feliz e esperançosa – que viu-se dando a volta até a janela da sala de estar. Parou diante dela, encarando as sombras de um cômodo vazio, imóvel, com uma respiração superficial e dolorida. Fechou os olhos, bem devagar e, quase pôde enxergar tudo aquilo que um dia tivera.
Eram aqueles momentos, os mais bonitos, os mais insignificantes e, até mesmo os mais frustantes que enchiam-lhe a mente, transbordando-a com memórias que jamais voltariam a se fazer presentes.
...
As Trevas que queimam a sua pele,
Estão agora queimando o meu coração,
Tirando-te de mim,
Tirando metade da minha alma,
Afastando-nos.
Onde havia Escuridão,
Você trouxe a Luz,
Meu porto seguro,
Você deixou uma marca em mim,
E tudo quero é ser abraçada por ti.
As Trevas que queimam sua pele,
Sugaram a minha felicidade,
Fizeram-me agir como louca,
É por isso que estou tão triste.
Meu amor estrela-cruzada,
Faça-me sentir novamente,
Como se eu não precisasse,
Sentir nada.
O poema havia caído do livro que Marian o entregara há alguns dias. Macon havia pensado que nunca lera nada tão lindo antes, é claro que todos os poemas de Jane tendiam a ser maravilhosos, mas era a espontaneidade contida naquele ali que o fizera ficar ainda mais encantado do que geralmente ficava.
Já era comum para ele segui-la para onde quer que fosse assim que o sol se punha, pois mesmo que agora ela tivesse outro para protegê-la, ainda assim, ele não confiava que ficaria completamente segura. Preferia continuar a fazer aquilo, mesmo que de longe e em segredo, tendo seu coração esmagado em mil pedaços cada vez que a via acompanhada do outro rapaz. Mas não deixava de amá-la. Não sabia como um dia seria possível deixar de amar alguém que se tornara a sua vida.
Para sempre seu,
Para sempre, minha amada.
Escrevera Macon em um pequeno cartão que colocara no mesmo lugar de onde caíra o poema, que agora estava guardado dentro de sua gaveta de cabeceira. Ao longe ele podia vê-la, estava, intrigantemente, parada diante da janela de seu antigo apartamento, os olhos fechados de maneira serena. Tão bela, tão quieta e tão inconsciente de todo o perigo que aquele mundo ainda apresentava a ela.
Vá embora, meu amor, disse ele em pensamento, vá embora e encontre sua própria vida. Macon olhou para as sombras, não parecia nem um pouco tentador juntar-se a elas e simplesmente desaparecer. Ele queria ficar, nem que fosse apenas para continuar a observá-la, mas tomou uma decisão: deixá-la ir era um passo que deveria ser dado primeiro por ele.
Não iria deixar de cuidar dela ou de vigiá-la sempre que achasse necessário, no entanto, não continuaria a persegui-la. Respirando profundamente ele se deixou juntar a escuridão da noite e então desapareceu.
...
– Posso ver seu livro? – perguntou Mitchell Wate ao acompanhar Lila Evers até sua sala em uma manhã ensolarada.
Lila baixou os olhos para um exemplar que tirara da Lunae Libri sem permissão na noite anterior, o mesmo que seus dedos receosos tentavam não tocar enquanto ela caminhava pelo campus.
– Não, me desculpe. Esse livro não é meu, é do pai de uma amiga, preciso ter um cuidado muito grande com isso aqui.
– Ah, claro. Não que eu fosse estragá-lo só folheando ele, mas...
– O livro não é meu! – insistiu ela.
– Ok, eu sei que no fundo desse seu coraçãozinho você ama conversar comigo.
Ela fez uma careta. Convencido, pensou Lila.
– Vamos no cinema mais tarde, ouvi falar que está passando um filme legal.
– Desculpe, eu não posso ir.
Virando-se para o lado oposto ao qual deveria seguir, ela pôs-se a correr. Cabulou aula pela primeira vez na vida. Diria que a menina que fez isso não era Lila Jane Evers, mas não se conhecia o suficiente para saber quem era ou não.
Agonia me descreve, não apenas agora, mas há muito tempo. Você é meu sonho e meu pesadelo, Macon Ravenwood, me atormenta a cada noite com fantasias de coisas que jamais acontecerão, atormenta-me a cada dia com longos devaneios onde pondero sobre tudo o que envolve você. Eu me pergunto se um dia vou ser capaz de te esquecer, se um dia vou ser capaz de corresponder ao amor de qualquer outro...
Eu não desisti.
Não consigo.
...
Querida,
Tudo o que eu mais quero é a sua paz. Faça aquilo que lhe pedi mais de uma vez: viva por nós, seja feliz. Apenas saiba que nunca será esquecida. O amor que sinto por você não é algo que se possa apagar.
...
– Seja minha namorada, Lila. – pediu Mitchell de forma doce, tendo um dos braços ao redor dos ombros dela, enquanto a moça olhava fixamente para a frente, tentando não encará-lo – Eu sempre respeitei seu tempo, mas não consigo mais continuar saindo com você sem dizer que estou completamente apaixonado.
Oh, Mitchell! Doce e incrível Mitchell Wate, como ela queria correspondê-lo da forma que ele merecia. Ela o amava. Amava por ele ter sido capaz de reconstruí-la e tirá-la da escuridão quando ela já não via mais saída, também o amava por ser aquela pessoa extraordinária, mas aquele sentimento não conseguia ser completo. Ele não era Macon.
Ela podia sentir seu corpo começar a tremer por dentro e, um choro se formar em sua garganta, estava certa de que não queria magoar um dos melhores amigos que um dia ela tivera, mas sentia que não poderia jamais cometer aquela injustiça com nenhum dos dois, nem consigo mesma e nem com ele.
– Mitchell... – disse ela com um engasgo – Eu te amo...
Lila Jane nunca conseguiu terminar aquela frase, seus protestos ficaram presos na garganta e suas desculpas esmoreceram quando ele a beijou, fazendo com que imediatamente se calasse. Ela cedeu a ele e o beijou de volta, depois pediu que a levasse para casa.
Já em seu quarto, ela se sentou contra a porta e desmanchou-se em lágrimas, sem saber como reverter aquela situação.
Macon,
Será possível que algum dia eu não vá me sentir culpada, eu não vá me sentir uma grande fraude ao beijar alguém? Céus, não quero nem um outro, só quero você!
Por que tudo tem que ser tão difícil? Por que uma maldita solução simplesmente não cai na minha cabeça enquanto limpo uma das pratilheiras da Lunae Libri?
Não sou capaz de te esquecer.
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