Beautiful and Dangerous
4 3. Talvez?
Notas iniciais
–A história é simplesmente fabulosa, quer dizer, nem todos os bons autores conseguem escrever algo tão bonito e tão complexo e ao mesmo tempo atingir a moral de forma tão perfeita assim. – disse Macon.
Estavam sentados em uma das cafeterias do campus como combinado, após a aula naquela quarta-feira. Lila nunca pensara que ele pudesse ser tão inteligente e sagaz como se mostrara ser naquele dia, mas era.
Macon lhe contara pequenas coisas sobre sua vida, a maior parte insignificante, pois quando ela tentava perguntar sobre coisas maiores ele voltava a ser frio com ela. Acabara dizendo que sua mãe e irmã moravam e Nova Orleans e que ele morava em um dos apartamentos independentes fora do campus, não quisera falar muito sobre o pai, porém revelara que este havia se separado de sua mãe e se casado novamente, mas que acabara por voltar a se divorciar e agora estava sozinho.
Lila também lhe falara de sua vida, sobre a irmã mais velha, Caroline e sobre seus pais que procuravam lhes dar uma educação rigorosa sempre lembrando-as das boas maneiras e esperando que as meninas pudessem ter um futuro bom pela frente.
Naquele momento, no entanto, os dois estavam discutindo o livro que tinham pegado emprestado na biblioteca. Macon tinha um ótimo ponto de vista sobre ele.
–Sabe, eu concordo com você. Eu também acho o autor incrível. Espero conseguir escrever como ele algum dia. – confessou ela – Eu sei que é impossível que eu consiga, mas quero ser boa o suficiente para pelo menos estar satisfeita com meu trabalho.
–Não diga “pelo menos”, essas palavras são cruéis, não indicam contentamento, indicam que você não conseguiu aquilo que desejava e tem de se obrigar a ficar feliz com ter o que a vida te ofereceu. – Macon disse aquilo de maneira tão sincera que Lila ficou atordoada e nenhum dos dois desviou o olhar, embora fizessem isso com grande frequência – Acho que você é o tipo de pessoa que pode conseguir tudo aquilo quiser, Lila.
Sua atenção só se focou mais nele quando ele disse seu primeiro nome pela primeira vez desde que tinham se conhecido. Macon Ravenwood a intrigava, ele não era um livro aberto, pouco falava sobre si e o mais importante: ela sentia uma conexão com ele que a fazia desejar mais do que qualquer outra coisa no mundo ser amiga dele, saber seus segredos e deixá-lo saber os dela, mesmo que estes fossem insignificantes.
–Já ouviu falar que as mulheres são cativadas pelas belas palavras? – perguntou à ele.
Macon se afastou abruptamente e Lila teve receio de ter estragado tudo. Ela não queria que ele ficasse chateado, só queria fazer um elogio à sua bela forma de falar com ela, mas é claro que aquilo pareceria um frase “namoradeira”, porém não era. Que coisa! Pensou ela, nem mesmo sabia se ele tinha uma namorada, embora sempre tivesse suposto que não, ainda assim...
–Desculpe! – disse Lila de imediato – Eu só quis dizer que você discursa muito bem.
–Tudo bem. – respondeu o rapaz.
Lila encarou seu expresso pensativamente. Ela queria perguntar se ele tinha uma namorada, mas não queria esfriar a amizade deles novamente ao fazer a pergunta, então resolveu deixar o assunto para outro dia. Ou outra década.
–Está ficando tarde. – disse Macon ajeitando o suéter cor de vinho – É melhor irmos embora, eu te acompanho até o dormitório.
Ela assentiu quietamente e os dois saíram da cafeteria, caminhando lado a lado na noite de Outono. Estavam próximos um ao outro, mas Macon matinha a distancia certa para que nem mesmo seus ombros se esbarrassem de vez em quando. Parte de Lila estava feliz por ter saído com ele naquele dia e descoberto o quão legal ele podia ser, mas parte dela apenas ficara mais instigada a conhecê-lo mais.
Ao observar o mundo ao redor do campus ela de repente reparou nos prédios mais próximos onde os alunos que não queriam morar dentro da universidade geralmente alugavam apartamentos e ela pensou alto sem nem mesmo ter tido tempo de perceber o que estava falando.
–Em qual deles você mora? – perguntou Lila apontando os prédios.
Como de costume ela sentiu Macon hesitar em responder a questão, mas felizmente ele não ficou calado.
–Moro naquele prédio marrom de tijolos. Andar térreo.
–Qual o número? – ele ergueu uma sobrancelha para a pergunta dela – O quê? – Lila riu – Quem sabe algum dia eu queria te visitar e te levar uma deliciosa torta sulista.
Macon revirou os olhos para ela.
–Número 13. – disse ele
O número da má sorte, pensou ela, mas dessa vez não verbalizou.
–Só para você saber eu estava brincando quanto à torta. Não sei cozinhar nadinha. – ela riu.
Só então Lila percebeu que já estavam na frente do dormitório.
–É melhor você entrar. – disse Macon – Boa noite, Jane.
–Boa noite, Macon.
Ela se virou e subiu as escadas que conduziam à seu pequeno espaço, abriu a porta e depois a trancou com a chave. Ao virar-se novamente ela se deparou com Maria que tinha um sorriso sínico no rosto.
–Quem era o seu amigo? – perguntou a garota.
–Meu parceiro de projeto, você quer dizer. É só Macon Ravenwood.
Ela deu as costas a Marian, mas em sua mente ela pensava que usara a sentença errada. Estava começando a achar que aquele não era “só Macon Ravenwood” pelo menos não para ela.
...
Ao voltar para casa Macon quase riu de si mesmo. Que tipo de estupidez estava cometendo?
Seu pai e seu irmão também ririam dele se soubessem o que se passava dentro da cabeça do rapaz. Era algo tão irracional para ele, mas ao mesmo tempo tão magnífico que o deixava confuso. Ele apenas conseguia pensar que queria passar cada vez mais tempo com Lila Jane, sua parceira de trabalho.
Macon tinha consciência do que era e sabia muito bem que criaturas das Trevas como ele não tinham sentimentos, quanto mais sentimentos positivos em relação às pessoas. Ele deveria ser frio, calculista e cruel, mas não conseguia se convencer a ser, pelo menos não ainda, enquanto a Transformação não tinha ocorrido, porém ele sabia que em breve ela aconteceria. Ele querendo ou não.
Há alguns meses atrás ele havia quase se convencido de que estava bem com o fato de que se tornaria um demônio, mas então Jane aparecera em sua vida e espantara qualquer sentimento de aceitação que vivesse nele. Agora tudo o que Macon Ravenwood mais desejava no mundo era poder ser humano, ou até mesmo da Luz e poder passar mais tempo conversando com Lila. Ele queria que ela confiasse nele e ele queria poder confiar nela.
O pior de seus pensamentos absurdos, porém era o de que se pudesse escolher ter uma única mulher do mundo ao seu lado ele a escolheria sem nem pensar duas vezes. Gostava de sua intelectualidade e de como era uma boa pessoa: gentil e alegre. Uma moça que merecia muito mais do que ele: um condenado à Escuridão.
Pensar em sua condição apenas o fazia odiar ainda mais o pai. Silas Ravenwood era um homem cruel e não se parecia em nada com sua mãe que era uma mulher doce e amável. Talvez as piores coisas acontecessem com pessoas boas, pensou ele, achando que a mãe nunca merecera ter de viver com Silas por tanto tempo, mas ela sempre lhe dizia que quando se conheceram ele era uma pessoa diferente e que a Transformação o tornara quem era.
Macon balançou a cabeça tentando livrar-se de seus devaneios ao mesmo tempo em que tentava negar para si mesmo que talvez estivesse encantado por uma garota com quem nunca poderia ficar.
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