Notas iniciais
Transformação cada vez mais perto... A obscuridade invadindo a história, aguardem mais disso nos próximos capítulos, é claro sem perder a linha que seguíamos antes.

Maldito, maldito, maldito!

Estavam sentados na sala de estar após terem apagado o fogo que o acendedor causara, mas a destruição que Silas Ravenwood trouxera ainda estava evidente em cada pedaço do apartamento.

Macon se sentava de costas para ela, o suéter queimado grudando-lhe a pele avermelhada, Lila jurava Silas lhe pagaria por ter feito aquilo com ele.

– Tire esse trapo. – pediu ela num sussurro.

Ele a obedeceu, lentamente Macon despiu a camisa e deixou a pele exposta para ela. Lila trouxera uma tigela com água e um pano da cozinha e se inclinou até a mesa de centro onde algum tempo atrás ela fora arremessada e molhou o pano depois o levou as costas do rapaz.

Com cuidado Lila passou a compressa por toda a extensão de pele queimada tentando aliviar-lhe a dor, mesmo sabendo que aquilo em pouco ajudava. Ela odiava Silas Ravenwood e ficaria agradecida se o desgraçado simplesmente morresse.

Enquanto jogava um pouco da água fria pelos ombros de Macon deixando que as gotas remanescentes caíssem em seu colo ela foi incapaz de impedir-se de tocar sua pele. As marcas deixadas pelo fogo eram evidentes não apenas pela vermelhidão, mas pelas partes que haviam se enrugado e ficado em relevo, distorcendo-se.

– Não se preocupe. – disse Macon ao sentir seus dedos traçando-lhe as cicatrizes – Elas vão sumir com o tempo, a Transformação vai fazer com que desapareçam.

– Por que ele te odeia tanto? – questionou ela – Quer dizer... Nenhum pai jamais faria isso com o filho!

– A não ser que ele seja um demônio como o meu que não faz ideia do que é amar.

Macon se virou para ela e retirou um caco de vidro que estava preso na manga de seu pijama. Havia alguns pequenos cortes em seu braço feitos quando ela caiu contra a mesa quebrando toda a cerâmica adornada que a enfeitava.

– Tudo isso é minha culpa, não é mesmo? – murmurou ela – Seu pai não estaria furioso com você se não fosse por mim.

– Jane. – sussurrou ele, ela amava o som de seu nome saindo pelos lábios dele de forma tão doce – Nada disso é sua culpa. Você apenas escolheu a pessoa errada para amar.

Lila abaixou os olhos e sentiu algumas lágrimas os queimarem, porém ela se recusou a chorar, estava na hora de parar de ser uma menina medrosa e se tornar uma mulher mais forte. Ela não permitiria que a situação de hoje se repetisse novamente em qualquer momento futuro.

– Eu odeio que isso tenha acontecido. Eu o odeio. – disse ela.

As mãos de Macon tomaram a dela e ele as beijou, depois puxou Lila até que ela estivesse em seu colo, com a cabeça enterrada em seu peito, era quase como se ela estivesse guardada em uma conchinha onde ficaria segura para todo o sempre. É uma pena que os estúpidos contos de fada fossem apenas ficção, ela daria tudo para se enterrar em qualquer história melhor do que aquela.

– Hoje você viu uma prova do que eu serei. Viu verdadeiramente o que é um monstro. – disse Macon enquanto acariciava-lhe os cabelos – Como ainda está aqui? Como ainda não fugiu?

Ela levantou a cabeça para que pudesse fitá-lo.

– Não dá para fugir de quem se ama. – disse Lila – Um dia talvez eu me arrependa, talvez eu olhe para trás e pense: como eu pude ser tão burra? Mas não creio que isso um dia vá acontecer. O meu coração tinha um lugar vago que foi preenchido e criou raízes em mim. Se você for arrancado daqui – ela apontou para o peito – os danos serão irremediáveis. Se você for um mostro então será o meu mostro.

Macon baixou os olhos e balançou a cabeça de forma indignada.

– Por quê? – indagou ele – Por que toda vez em que estou prestes a te dizer adeus você tem que fazer isso comigo? Fazer com que eu sinta que preciso de você?

– Talvez porque mais do que querer você comigo, eu não quero que desista de si mesmo, Macon e sei que se ficar sozinho acabará fazendo isso. – murmurou ela.

Ele levantou a cabeça para que pudesse encará-la e dessa vez seu rosto expressava uma seriedade extrema.

– Sabe disso da mesma forma que sei que se você ficar acabarei fazendo algo que não quero. Acabarei sendo o autor de sua morte.

Foi a vez dela negar.

– Mande seu pai e todos que dizem isso para o inferno com sua opinião. Macon, as pessoas são cegas! Elas não veem além do comum, do esperado! Mas o diferente existe, você é a prova viva disso, é tudo o que eu jamais esperei que fosse.

– Jane, você pode estar enganada.

– Que eu esteja! Deixemos o arrependimento para depois.

Ele balançou a cabeça para ela em discordância, mas puxou-lhe para um beijo de toda a forma. Lila tomou cuidado para não encostar em suas queimaduras, portanto manteve as mãos sob seu peito macio e não se mexeu enquanto ele a beijava docemente.

Depois de apenas um minuto Macon se afastou dela e deixou que o rosto descansasse na curva quente de seu pescoço. Ela acariciou seus cabelos negros por um momento até que ele voltasse a levantar a cabeça para fitá-la.

– Eu acho melhor você voltar para o seu dormitório. Vista-se e caminhe rápido até lá.

Lila fez uma careta. Depois do que acabara de acontecer ela não voltaria sozinha para casa naquele escuro nem que lhe pagassem.

– Está muito tarde para ir embora, acho melhor eu esperar amanhecer.

Ele ofereceu-lhe um sorriso afetado e tocou seu rosto, colocando uma mecha de cabelo que escapara de sua trança para trás da orelha.

– Acredite em mim, minha querida, é muito mais seguro enfrentar uma única rua deserta até o campus do que ficar aqui e correr o risco de participar de mais um ataque como o que ocorreu esta noite. Além disso, estarei observando-a até que entre na universidade, não vou deixar que mais nada aconteça com você hoje.

– É melhor se preocupar consigo mesmo, suas costas estão horríveis.

Macon deu de ombros, mas o movimento o fez estremecer de dor, como se mover a pele danificada ardesse mais do que já devia estar.

– Vai doer por algum tempo, mas como eu já havia dito vai passar e as marcas desaparecerão.

– Ao menos é um alivio ouvir isso.

O rapaz conseguiu esboçar-lhe um sorriso.

– Agora vá apronte-se para voltar ao campus, por favor.

Lila se levantou e tocou levemente seu ombro nu antes de desaparecer pelo corredor do quarto. Juntou suas coisas e as enfiou de volta á mochila, depois pegou as roupas com as quais chegara ali e as vestiu guardando o pijama e então calçando as botas de cadarço.

Ela puxou o agasalho de inverno pelos ombros e pendurou a mochila sobre um deles. Colocou os óculos e saiu do quarto deixando a porta entreaberta atrás de si e seguiu seu caminho, Macon estava no canto da sala, olhando pela janela com Boo deitado a seus pés.

Cachorro idiota, pensou Lila, quando está havendo uma briga entre Incubus ele fica quieto na dele, em momentos inúteis ele age como se pudesse matar alguém com seus latidos.

Aproximando-se com certa relutância ela parou ao lado de Macon e fitou a madrugada serena do lado de fora do apartamento.

– Estou pronta para ir. – anunciou ela.

– Vou só colocar uma camiseta. Dê-me um minuto.

Foi a vez de ele desaparecer pelo corredor e ela esperou pacientemente junto a janela, observando Boo travar uma briga contra uma ponta descolada do carpete. Macon voltou segundos depois, vestindo uma camisa polo azul de mangas compridas.

Ele a acompanhou até o lado de fora do prédio e depois beijou-lhe os lábios com uma suavidade cuidadosa.

– Vou te observar até que esteja segura. – disse ele.

Lila simplesmente assentiu.

– Eu vou te ver na aula? — questionou ela.

– Eu não sei. – respondeu Macon.

Olhando para baixo ela mordeu o lábio e tentou não se deixar abater pelo tom morto na voz do rapaz.

– Posso vir aqui amanhã?

Macon soltou um suspiro.

– É melhor não.

– Quando nos veremos novamente?

Ele hesitou por um segundo, mas respondeu-lhe de toda a forma.

– Em breve.

Ela sabia o que aquilo significava, sabia que ele ia tentar afastá-la de si, mas tinha toda a certeza que se suas tentativas de mantê-la longe de si seriam falhas. O coração de ambos falava mais alto, e se o dele estivesse perdendo a voz, ela não se importaria nem um pouco em insistir até que ele voltasse. Ainda tinham tempo para lutar e ela não o desperdiçaria com nenhum tipo de melancolia.

Andando o mais rápido que podia sem se fazer tropeçar no escuro ela voltou para dentro da segurança dos portões da universidade e depois para seu dormitório.

Notas finais
Obrigada por todas as visualizações e comentários na história. Já estou preparando coisas novas para os próximos capítulos e encontrando jeitos de trazer mais elementos de BC para cá. Eu estava relendo os capítulos anteriores e reparei nos horrores de erros ortográficos que deixei passar, geralmente no último semestre quando estava sem tempo de revisar, depois vou concertar tudinho, prometo. Enfim se encontrarem erros me avisem. Comentários serão incrivelmente apreciados.