Respire. Inspire. Expire. Apenas respire.


Rachel tentou ignorar as seis mãos a poucos centímetros de seu rosto enquanto quatro outras mãos cuidavam de seus cabelos, puxar, empurrar, puxar, colocar grampos em seu couro cabeludo tentando manter seus cabelos na forma perfeita. Duas outras mãos eram mais invasoras, levantando o seu queixo, para que o seu rosto ficasse mais exposto para a aplicação da maquiagem pesada. Ela seguiu as ordens de olhar para um lado e dessa forma tentou se acomodar para ficar mais confortável quando o empurra e puxa das mãos em seus cabelos lhe obrigaram a fazer exatamente o oposto. Não ajudou o fato de haver mais meia dúzia de membros da equipe com os olhos colados nela, a examinando, a procura de qualquer imperfeição que necessitasse ser corrigido.


Respire. Inspire. Expire. Apenas respire. Quase pronto.


— Ei, pessoal. Da algum espaço para que ela possa respirar. Meu Deus. — Quinn se aproximou agitando as mãos como se estivesse espantando os estilistas como se eles fossem moscas.
— Obrigada. Ela esta maravilhosa, mas eu acho que ela precisa de um pouco de ar.
— Nós ainda precisamos ter certeza que...
— Você pode fazer isso mais tarde, se acabar sendo um problema. — Quinn cortou os cabeleireiros. — Esta foto é dela, e não dos cabelos. Agora os cabelos me parecem perfeitos. — A loira olhou para baixo, firme em sua decisão.
Lentamente, eles recuaram e caminharam até o final da sala, obviamente falando sobre como eles foram tratados pela loira.
— Era tão óbvio? — Rachel perguntou nervosamente.
Ela não queria parecer fraca. Isso fazia parte do seu sonho e ela precisava ser capaz de lidar com isso.
Quinn balançou a cabeça e sorriu levemente.
— Nem um pouco. Eu só te conheço bem o suficiente para ler os seus olhos. Você lidou com isso muito melhor do que eu teria. Eu teria gritado e chutado. — A loira admitiu, escovando levemente uma mecha de cabelos de volta ao seu lugar. — Eles estão tão excitados para que as suas fotos saiam perfeitas que não se dão conta que já estão estragando a perfeição.
— Tirar a foto é o seu trabalho. — Rachel brincou, tentando descontrair a conversa.
Quinn tirou os olhos dos cabelos de Rachel para olhar em seus olhos castanhos profundos e sorriu novamente.
— Isso é verdade. E é por isso que eu tenho que entrar e afastá-los. Eles se preocupam com o seu cabelo e maquiagem. Eu me preocupo com você.
As duas caíram em um silêncio que lhes assegurou a firmeza, mas não as sufocou. Elas se conheciam, ou seja, conheciam seus passados. Mas agora essa nova atitude da loira perante Rachel não lhe lembrava em nada as suas memórias. Ela estava calma, relaxada, mas ainda assim estava no controle. Quinn foi a primeira a quebrar o silêncio depois de limpar a garganta.
— Se você não se importar, eu gostaria de tirar algumas fotografias apenas para teste.
— É claro. — Rachel virou-se e tentou caminhar, mas o vestido fez dessa uma tarefa difícil de ser realizada.
— Eu esperava que um vestido elegante desses me fizesse parecer sofisticada e não uma palhaça tentando andar.
Quinn abriu um sorriso largo antes de oferecer a mão para Rachel ter equilíbrio para poder subir os degraus que faziam parte do cenário montado. O shoot era uma representação de um palco da Broadway pronto para a noite de abertura de um show. O cenário era de uma paisagem noturna de uma rua em uma cidade distante e Rachel estaria parada na varanda com a vista do alto.
Colunas falsas de pedra e trepadeiras de hera alinharam-se a estrutura de mármore e Rachel realmente sentiu que estava em um palco de teatro. Ela aceitou a mão de Quinn impulsivamente e foi atingida com a súbita percepção de que ela nunca tinha entrado em contato físico com a loira fora do Glee ou aos pequenos embates físicos que tiveram, que era basicamente um puxão no braço nada gentil e solidário como agora.
— Então, onde eu me posiciono? — A diva perguntou enquanto soltava a mão de Quinn.
— Onde você se sentir mais confortável em um primeiro momento. Podemos ir ajustando as poses à medida que avançamos. Hey, Kim? Posso te pedir para configurar o computador para que eu possa dar uma olhada em como estas vão ficar antes de realmente começarmos?
A assistente rapidamente se mexeu para fazer o que lhe fora pedido, sua ânsia não era exatamente em agradar a loira e sim estar mais perto de Rachel.
— Ela é bem ansiosa. — Rachel observou a maneira quase frenética da jovem. — É uma boa qualidade para ter em um empregado.
— Sim. — Quinn concordou virando-se para olhar Rachel novamente. — Mas ela não tem uma qualidade fundamental que eu preciso. Senso de humor. Ela não ri de nada.
Rachel arqueou uma sobrancelha.
— Isso me lembra alguém.
— Sim, mas as pessoas mudam. — Quinn respondeu encarando seus olhos. — Infelizmente, eu não tenho sete anos para esperar ela mudar. Vou dar-lhe mais uma ou duas semanas antes de demiti-la e procurar outra.
— Ouvi dizer que você demitiu alguns nos últimos tempos.
Este era o momento para se mostrar um pouco. Era a abertura que tanto queria para mostrar que havia mudado.
— Eu não sou uma vadia ou excessivamente exigente ou qualquer coisa assim. Eu só preciso de alguém que vá aprender rapidamente, que siga as minhas indicações, mas que ainda tenha a coragem de me desafiar de vez em quando. E isso vai me fazer confiar nela.
Rachel concordou com a cabeça, pelo menos com a maior parte, de acordo com a última declaração.
— Há quanto tempo você esta procurando alguém com essa descrição? Alguma vez você já encontrou? Porque eu acredito que seria uma pessoa muito interessante para ver você interagir. Teriam que ser uma pessoa bem equilibrada para seguir, mas argumentar ao mesmo tempo.
— Eu tinha uma. E você está certa, ela era muito interessante. Definitivamente me manteve na linha, enquanto continuava sendo capaz de saber instintivamente o que precisava ser feito. Mas agora eu tenho procurado por mais ou menos quatro meses para substituí-la. — Quinn olhou para Kim, que estava terminando de configurar o set.
— Então, por que ela não está mais aqui? — Rachel perguntou curiosa para saber o que a pessoa em questão fez para simplesmente sair. Seria uma boa forma de saber mais sobre em que se transformou a antiga líder de torcida. — Eu imaginaria que caso você tivesse encontrado essa pessoa que reuni todas as qualidades que você tanto almeja você teria feito qualquer coisa para mantê-la por perto.
— Uh... — Quinn hesitou, olhando ao redor antes de encontrar cheia de hesitação o olhar forte de Rachel. — Ela era a assistente perfeita, mas não era a melhor namorada do mundo... — Os olhos da diva se arregalaram e a sua boca se entreabriu diante da confissão. — Como eu disse antes a minha vida ficou muito diferente do que eu esperava.
— Eu diria que sim. — Rachel deixou escapar antes que ela pudesse se refrear. — Desculpa.
Quinn balançou a cabeça com um sorriso suave e com a mão pediu para Rachel descer.
— Está tudo bem. Se pararmos para pensar que a maior parte da nossa convivência na escola foi gasta brigando por garotos, a sua confusão é mais do que compreensível.
Os próximos minutos se passaram em silêncio. Quinn Fabray era gay? A mente da diva correu, mas só poderia incidir sobre a nova informação que acabara de receber. A loira que torturou a pária escolar, se tornou um de seus alvos, mas finalmente abraçou o que era. Quinn tirou as fotografias de teste e ajustou a iluminação e alguns dos adereços antes de se aproximar da diva para corrigir um outro fio de cabelo e encontrar o forte olhar de Rachel novamente. Quinn parou bem na frente dela e sustentou o olhar.
— Ainda processando?
Rachel não respondeu apenas acenou com a cabeça.
— Tudo bem, eu levei muito tempo para processar isso também. — Quinn admitiu enquanto colocava uma mecha de cabelos atrás da orelha de Rachel.
— Como você... quando você descobriu? — A pergunta escapuliu por entre os lábios da diva, mas Quinn pareceu se divertir com o nervosismo da mulher.
— Ela me ajudou a descobrir. Nós estávamos trabalhando até tarde em uma noite há alguns anos e estávamos olhando essas fotos no computador quando ela simplesmente se inclinou e me beijou. E eu soube no ato que eu era gay, era diferente de qualquer beijo que eu já havia dado e era um beijo simples e casto, mas ele me deu aquela pontada engraçada no estômago e o meu corpo parecia em chamas. E mesmo assim ainda levou semanas até que eu admitisse.
— É uma grande coisa para se admitir.
Quinn acenou com a cabeça antes de dar um passo para trás e começar a tirar as fotos. — Agora... chega de falar de mim, me diga como a vida tem te tratado? Obviamente bem até certo ponto. Você pode abaixar o queixo só um pouco?
Rachel fez o que Quinn havia pedido enquanto acompanhava os movimentos da loira.
— O trabalho me mantém ocupada, relacionamentos não são a minha prioridade. Mas eu não reclamo disso, afinal era o meu sonho eu sempre quis o que tenho agora.
Ela viu o sorriso de Quinn por trás da câmera.
— Como você acabou na fotografia?
— Senta aqui. — Quinn ajudou Rachel a se sentar e imediatamente começou a arrumar o vestido o afofando um pouco.
— Eu fiz uma aula de fotografia durante o meu primeiro ano de faculdade e acabei me apaixonando. É difícil explicar a minha dependência, mas eu sou completamente viciada.
— Tente. — Rachel pediu estava realmente te interessada em saber mais sobre esse amor que Quinn nutria assim como o que ela tinha pelo palco.
— Bem, é essa sensação de perder o fôlego. — Quinn alterava os ângulos continuamente. — Eu me lembro da primeira vez que eu senti isso. Eu estava nas montanhas e resolvi tirar uma foto durante o pôr do sol. Passei minutos tentando descobrir o angulo e o ponto certo, era uma verdadeira amadora. Eu achei o ponto, a iluminação estava perfeita, o angulo perfeito e as sombras faziam mágica. Finalmente eu encontrei o que eu queria através daquela lente. Era lindo ver o rosa e o azul do céu se misturando contra as montanhas de pedra cinzenta e escura. A imagem que eu tirei foi tudo o que eu jamais poderia imaginar que seria e eu estava extremamente satisfeita até que eu abaixei a câmera e vi que era real e estava bem ali na minha frente — Quinn abaixou a câmera e seus olhos se travaram com os olhos chocolates e quentes de Rachel, fez uma pausa. — Não há palavras para descrever a sensação de perceber que a perfeição que eu vejo através da lente é ainda mais perfeito sem ela.
A respiração de Rachel ficou presa na garganta e Quinn rapidamente voltou para atrás da câmera com um sorriso esboçado nos lábios.
— Mesmo que eu saiba que nunca vou conseguir pegar toda a essência da beleza, eu tenho essa sensação de que sempre há mais para ver. Que cada imagem tem algo novo para mostrar. — A loira continuou se movendo para o outro lado do set, os olhos de Rachel a seguindo para onde ela ia. — Foi quando eu percebi que eu realmente comecei a olhar para as coisas ao meu redor. Me espanta o quanto vemos todos os dias, mas nunca realmente olhamos. Quantas pessoas nós falamos, mas nunca realmente as vemos. Aquela experiência me fez reexaminar cada detalhe da minha vida. Cada relacionamento, amizade, história... eu vejo tudo de uma maneira muito diferente agora.
Rachel engoliu em seco. Quinn falava de uma maneira tão apaixonada e intensa que lhe deixou completamente envolvida, sua respiração saia com dificuldade. Ela não sabia exatamente se era por isso que sua respiração estava tão difícil ou se seria o vestido talvez o corpete no estilo corset estivesse muito apertado.
— Eu suponho que seja dai que venha a sua nova calma, certo?
— É, acontece que quando eu passei a ver o mundo da maneira que ele é, fica muito mais fácil de enxergar a si próprio. O mundo é muito mais do que as pessoas e suas opiniões. Nada tem uma definição correta. Nunca pode se pegar tudo em uma única foto. Por que me preocupar com uma, quando há milhões para poder olhar? — Quinn se levantou abaixando a câmera. — Eu acho que temos a nossa foto.