Beautiful War
22 XXII
Notas iniciais
Conviver com uma doença sem cura era como viver vestindo uma mortalha imaginária. Todo mundo ia morrer de um jeito ou de outro, mas de algum modo, para pessoas como Astoria, a morte parecia mais evidente. Como uma sombra. Um lembrete. E Astoria havia se assustado com isso nos primeiros anos, como era inevitável; saber que algo tão drástico e definitivo estava a sua espreita lhe gerara pesadelos ao longo de toda a sua infância.
No entanto, com o passar do tempo, ela conseguira desenvolver uma relação quase amigável com a constatação de sua morte. Não era como se ela não se importasse ou negligenciasse seu estado. Astoria simplesmente havia concluído que, muito mais do que se opor a vida, a morte a reafirmava. E ela aprendera a sentir – e a adorar — a pulsão da vida martelando dentro de seu peito a cada vez que sentia medo ou dor. Era prova de que ela ainda existia. Todos os sentimentos, bons ou ruins, eram provas (circunstanciais, mas inegáveis) de sua existência. E ela abraçava a todos eles. E todos eles a haviam levado até ali, ao seu vigésimo sétimo aniversário, que começara com uma vozinha estridente que gritava:
— Parabéns, mamãe!
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