Beautiful War
4 Sem Fim
Notas iniciais

ALBA
Quando eu tinha quatro anos, fui visitar meu pai no Distrito Seis.
Eu fiquei um fim de semana inteiro lá. Quando brincamos de todas as coisas e conversamos sobre todos os assuntos, pedi para papai me contar uma história feliz que ele viveu. Ele me confessou que assim como todos os jovens de Panem, ele tem pouquíssimas, porque estava ocupado demais fugindo da fome. Contou-me então, sobre o dia do meu nascimento. Mas ele já havia me contado antes. Então, começou a contar sobre como conheceu mamãe, mas eu já estava cansada de tanto ouvi-la. Um tanto cansado e já sem paciência, meu pai me contou sobre sua ultima colheita. Quando ele tinha 18 anos, e seu nome foi poupado pela última vez. Ele sempre fora filho único, e sua mãe estava na praça, olhando o tão intensamente que poderia decorar cada sarda e traços de espinha que ele tinha no rosto. No entanto, meu avô recusou-se a ir para praça, esperando tanto as noticias boas quanto ruins sentado à beira de sua cama. Não queria ver o nome de o único filho ser chamado e recusava-se a dizer adeus. Quando meu pai voltou para casa e meu avô o viu adentrando o quarto, o abraçou com tamanha força que fez ambos chorarem. Parte, pelo nome do meu pai estar livre. Parte, por ninguém estar. Meu pai não me deu mais detalhes. Afinal, eu era uma criança, mas ele não me poupou ao dizer aquilo. Ele era um homem amargurado, porém me assegurou de que eu iria crescer livre, teria o que eu quisesse, iria para onde bem entendesse e que eu seria amada sem medo algum. Quando o pacificador e a minha mãe vieram me buscar, eu achei que nunca veria em ninguém o semblante desapontado que eu acabara de ver em meu pai.
Tudo mentira.
Não que papai estivesse errado. Mas eu não estou livre. Estou presa na segurança que eu mesma estabeleci para mim. Posso ir aonde bem entender, eu ainda sou uma cidadã. Mas, ao contrário do que meu pai me disse, eu não sou amada. E se eu sou, é cercada de medo por todas as partes.
Quanto ao semblante desapontado... Eu presenciei outra vez. Pior ainda que o de meu pai, o semblante de Dean ao ouvir sobre o divórcio deixou-me, pela primeira vez, com o sentimento que eu sei que deveria ter tido desde a primeira vez que eu ousei olhar de má forma para o Hawthorne: Como eu sou uma vadia sem coração. Jamais merecerei o amor do meu marido. Entretanto, mesmo sendo um bom homem, meu marido nunca me deu provas pessoais de que merece o meu amor também. A única coisa que lhe ocorreu à mente e ele teve coragem de dirigir a mim foi um triste e confuso “Por quê?”.
— Problemas de amor. — Foi tudo o que eu pude lhe dizer.
Foi a melhor forma que eu achei para resumir-lhe toda a falta de amor por minha parte, a escassez de amor da parte dele e o “Eu te amo” mais filha da puta do Hawthorne. Meu agora Ex-marido ergueu-se de sua velha poltrona de couro negra, onde havia ficado todo o tempo em que eu, infeliz, declarava sem motivos aparentes o fim de um casamento de 3 anos. Dean ficou frente a mim, com um olhar tão desapontado que doeria menos se fosse ódio. Ele juntou nossas mãos, deu-me um único e solitário beijo na testa antes de partir para os seus aposentos. Ele se foi, da mesma forma que eu fiz. Porque ele sabe que acabou. Porque nunca fomos o casal que deveríamos ter sido. Todos os meus flertes foram planejados, e ele não tinha outras opções. Ele não sabe ler minhas expressões, nem ao menos lembra o nome do meu pai. Ele sabe que vamos chorar a vida sozinhos agora, porque é isso o que fazemos, Alba.
Porque eu estou prestes a fazer isso, novamente. Oh, um tapa na cara seria mais digno.
Então eu carrego meu filho e meus saltos em direção ao velho apartamento em que ele foi concebido.
***
GALE
Não era muito difícil desvendar Alba. Ela pode estar apenas em três lugares no mundo: sua mansão, da qual eu sei que ela não está depois de ter se separado. O Distrito Seis, mas também sei que ela não pretende se esconder de mim (ou ao menos conseguiria). E seu apartamento quase vazio no centro da Capitol. Ela me deu as chaves uma vez, quando eu tinha 12 horas de folga e tivemos parte delas de sexo. Confirmei que estava certo quando, dois dias depois do encontro com as crianças, eu tive a visão dela deitada no sofá com a cara inchada e os cabelos loiros bagunçados. Ela se ergueu um pouco e olhou para porta, onde eu estava parado.
— Sabia que era você. — Ela disse com uma voz embargada, que me pareceu, a princípio, estar bêbada novamente. Alba tinha sérios problemas com álcool, que chegam a ponto de ser carregada as escondidas por seu marido (ou ex-marido, tanto faz) pelos fundos das festas. Mesmo sendo sofisticada e toda essa coisa, acho que a única pessoa capaz de tomar um porre com ela sem cair inconsciente no chão é o velho Haymitch Abernathy. Depois que notei que Alba também tinha os olhos vermelhos e assuava o nariz a cada dois minutos, percebi que ela estava chorando. Depois, voltou a se deitar.
Caminhei passando sob a cozinha branca com uma pia abandonada em direção a sala, que consistia em três sofás de couro recém-novos. Junto com uma cama de casal no quarto do lado, essa era a única mobília do apartamento dela. Nunca me perguntei antes, mas agora, minha curiosidade em saber com quantos caras ela já transou nesse local me atinge. Reprimo logo depois, junto com um enjoo forte, um nojo de sua falsidade e com um sentimento quente e desconhecido que se atingia em mim depois de tantos anos: Ciúmes. Alba é minha. Eu sou dela. Qualquer outra situação é impensável.
— O que você foi fazer na minha casa, Alba? — Pergunto, frente ao sofá.
— Fui descobrir porque você disse aquilo, Gale. — Ela se sentou no sofá, secando as bochechas com as costas das mãos e respirando a cada vez que parecia perder o controle. — Porque você disse aquilo, Gale? Não estávamos indo bem? O que tem de errado com você? Sabe, a gente podia continuar a ser o que éramos se você não tivesse feito a estupidez de...
— Falar a verdade? — Interrompo. — Não é isso que as mulheres querem ouvir, Alba? Não foi exatamente isso que você disse nesse mesmo apartamento?
***
ALBA
Eu disse à Gale que poderíamos ser nós mesmos enquanto estivéssemos aqui, nesse apartamento, juntos. Sem mentiras. Sem enganações. Sem holofotes. Mas eu não sei, juro que eu não sei, aonde deu errado. Nós nos apaixonamos e eu me separei. O que há de errado? Parece que nada termina como os filmes, e tanto Gale quanto eu adoramos um drama, mesmo que ele não deixe isso claro.
— Olhe para nós, Alba. Não vamos a lugar algum. Eu já sou um homem adulto, velho, eu não tenho tempo para suas loucuras, nem seus dramas problemáticos, seus casos proibidos, nem suas cenas bêbadas.
Pela segunda vez, penso se um tapa na cara seria mais digno e doeria menos.
— Certo... Casos e cenas bêbadas. É isso, então?! — Eu falei, tentando manter não sei que calma na voz. Depois, passei a descrença e a indignação. — Você disse que me amava porque achou que era a maneira mais fácil de terminar tudo? Afinal, é assim que você estraga relacionamentos. Você diz “eu te amo” para as mulheres erradas! — Nunca tive a intenção de magoar Gale, mas é o que parece que acabei de fazer. E eu não posso parar, eu não consigo parar de acusá-lo, porque uma espécie de fúria está em mim e eu não quero parar de dizer o quão mal ele está me fazendo, porque assim, Deuses, quem sabe ele se sinta tão mal quanto estou agora. O fogo quando controla algo é quase impossível de ser impedido, e eu mesma só vi esse fogo que agora me domina uma única vez na vida: Eu o vi no próprio Gale. — Você deveria ter dito “Eu te amo” para sua ex-noiva Lucy, mas não o fez, porque você é covarde, e quando começou a se apaixonar por ela, simplesmente a chutou. Ela o esperou por tanto tempo, Gale... Mas é claro que você não se importou com isso. Porque você é egoísta. Você também é louco Gale. Você também tem mil problemas! Você...
— Viu?! — Me interrompeu, quando eu estava prestes a perder a voz e ir às lagrimas. — Exatamente disso que eu estou falando, Alba. Seus dramas e estúpidos chiliques. E eu não preciso suportar isso. Você tem seu marido para essa função. Espere, mas você terminou o seu “casamento seguro”. Onde está a sua ganância e seu discurso infalível, Alba?
— Gale... — Rodei os olhos em busca de bebida, mas eu não poderia. Então eu gargalhei, cansada, porque finalmente me caiu a ficha do que ele acabou de dizer. Meu discurso? Só meu? — Morda sua língua, Dear... E o seu discurso? Onde está? “Amor não significa nada, a não ser que exista algo que valha a pena lutar". É uma linda guerra, não é? Todos já estiveram aqui pelo menos uma vez. Nós estivemos mais vezes, não?! — Eu estou conseguindo. O fogo se abaixa, e a água que cai dos olhos passa a querer dominar tudo, mas eu não deixo, eu não deixo...
— Você me enlouquece, Alba. — Eu deixo. Eu já nem me controlo mais. E não digo por causa da droga dos meus hormônios, mais... Eu nunca pude tomar conta de mim. Quatro pessoas fizeram isso em toda minha vida: Meu pai, meu ex-marido Dean, Gale e Venus. — Você permite sorrir quando está aqui, mas ainda sim chora todas as vezes em que bebe. Você diz ama a paz que tem comigo, mas ama a bagunça da droga dos seus holofotes. Você tinha um bom casamento, no entanto... E s você se separou para casar comigo, foi perda de tempo e dinheiro. Eu não menti pra você, Alba. Eu realmente te amo, mesmo que eu não saiba o porquê. Mas eu não vou aderir a sua loucura. Não vou ser mais um dos seus planos, nem seu casamento seguro. Você sempre consegue tudo o que quer, mas eu não vou ser sua segunda opção.
Eu nunca o vi tão vermelho. De ódio, provavelmente, mas suponho que seja de tristeza também. Imagino se era esse o semblante que ele usava durante a adolescência rebelde. Se era essa a expressão que ele usava para odiar o lugar que hoje me pertence. Eu sei onde estaria se não fosse por ele, mas não deixo de me perguntar se essa era a chama dele que salvou um país. Elas não me assustam. As chamas dele, não me assustam. Eu. Na verdade, gostaria de me queimar nelas.
— Meus planos. Casamento seguro, Gale? — Eu digo, tão baixo que mal me ouço. — Você está longe de ser um. Se eu me casasse com você, moraria no seu apartamento minúsculo, eu largaria minha amada Capitol e não teria meu luxo nem holofotes. Eu teria que cozinhar, e provavelmente eu frequentaria, de verdade, as reuniões das Senhoras de Panem. Você é Secretário da Segurança, e trocar um Secretário por outro em menos de um mês, ambos com praticamente o dobro da minha idade, faria a Capitol ecoar “vadia” a cada passo meu, com estúpidos fotógrafos de revistas podres desmascarando todos os meus casos. Isso não seria nada bom para minha imagem, certo? E eu sou uma atriz, Gale, eu trabalho com minha imagem. Você também é praticamente um pacificador, e sabe que meu pai não tem boas experiências com um. E eu nunca saberia se você voltaria para casa. Talvez um dia um dos seus soldados vá chegar com uma carta me informando quantos tiros no peito você levou. — As águas dominam por completo. Agora eu choro, soluço, porque sei que as palavras que estão por vir serão as mais difíceis que falarei em toda a minha vida.
— Eu nunca saberei se você realmente me amava e merecia meu amor, porque você nunca deu provas concretas e pessoais de seu amor. — Soluço e controlo meu nariz escorrendo por mais algumas vezes. Pela primeira vez na vida, permito abaixar a cabeça e não mirar seus olhos cinzas. — Eu me separei porque não vou dar ao Dean uma criança que ele não merece, e eu não vou dar ao meu filho nenhum outro pai que não seja o dele. — Levanto o olhar para Gale. Ele tem seus músculos tensos, suas sobrancelhas totalmente franzidas e sua reação de extremo choque e confusão. Depois, ele assemelha informações, e parece apenas... Eu não sei. Não sei como dizer. Surpreso?
— Eu provavelmente vou morar com meu pai no Seis. — Continuo. — Parece algo bom para mim, e em breve retornarei a minha Capitol. E já que você está aqui, quero que ouça da minha boca que eu não quero e nem preciso do seu casamento seguro, Mr. Hawthorne. Você tem problemas de relacionamento, e eu não bato bem da cabeça porque tenho dramas desnecessários, e um casamento entre nós? Seria um desastre. — Completo. Eu finalmente enxugo todas as lágrimas, penso que aceitando mais a ideia de que somos péssimos do que sendo ao todo, irônica. Além do mais, eu estou tão cansada, e não tenho mais forças para pensar em qualquer expressão. — Mas acho que poderíamos ser... Felizes.
Então eu mal respiro. Gale me dá sua prova pessoal e concreta de seu amor quando caminha até mim e me beija como se nada pudesse cair.
— Podemos ser felizes, Alba.
Foi a última coisa que ele me disse antes de me segurar pelos braços para nunca mais me soltar.
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