Beautiful Soul
21 Determinada.
Notas iniciais
Qual era o grande problema comigo, afinal de contas?
Eu tinha tudo que sempre quis, desde que conheci Ian. Tinha um lar, pessoas que me amavam e que eu amava, um grupo que estava decidido á lutar por mim, assim como eu lutaria por eles. Então qual diabo, era o meu problema?
Fiquei encarando os olhos de Ian por alguns segundos, antes de me virar e caminhar para um dos setores distantes da caverna. Ian não tentou me impedir, nem ao menos disse uma palavra depois de eu ter dito minha frase final. Ele me conhecia bem o suficiente para saber que não adiantava tentar me persuadir ou qualquer coisa parecida com isso, que eles pudessem inventar.
Sentei-me na terra seca, encarando a parede vazia á minha frente. Eu estava feliz, não haviam dúvidas sobre isso, mas depois de tantos anos fugindo quando as coisas se complicavam, eu tinha cansado. Havia cansado de fugir, me esconder e ver seres inocentes lutando por mim. Por quê eu podia lutar por mim. Podia lutar por aqueles que amava.
Fechei meus olhos, sentindo-os começar á arder. Melanie havia me explicado que aquela sensação ardente e desconfortante, significava que eu estava com muita raiva e queria chorar ou que eu estava triste e queria chorar. Independentemente de qual fosse a resposta correta, o resultado era o mesmo, eu queria chorar.
Nas minhas primeiras noites em meu novo corpo, pude fazer uma coisa que não havia tido á chance de fazer quando habitava o corpo de Melanie, pensar por mim mesma. Coloquei todos meus sentimentos á prova dentro de minha mente e me permiti analisá-los. De uma maneira sutil, não encontrei uma resposta que justificasse todo o turbilhão de sensações que me invadiam há todo minuto. Talvez isso seja ser humano. Sentir e não poder compreender.
– Um dólar por seus pensamentos.
A voz que invadiu meus ouvidos foi a mais agradável e mais conhecida por mim. Melanie conseguia ser querida, mesmo quando fazia ou se metia em algo que não deveria se meter.
Virei meu rosto, brevemente, observando-a se juntar á mim no chão. Ela não me olhou, assim como eu, procurou manter sua visão na parede escura e seca.
– O que é um dólar?
Seu riso abafado me fez sorrir por alguns segundos, Melanie sempre parecia disposta á me explicar algo, mesmo quando parecia insatisfeita com alguma coisa.
– Ás vezes eu me esqueço que você não conheceu esse mundo antes das almas o mudarem. — Murmurou, dessa vez, se permitindo me olhar diretamente. — Como está?
Dei de ombros, formulando minha frase com cautela. Essa era uma das coisas que eu tinha aprendido, pensar bem antes de falar ajudaria a não machucar tanto os outros.
– Ian pediu que viesse aqui?
– Você me conhece, sabe que nunca faço o que ele pede. — Deu um sorriso frouxo, esticando sua mão esquerda para pegar a minha. — Estou aqui por que você é minha irmã, por que eu te amo e estou preocupada com você.
Dessa vez fui eu quem sorri, verdadeiramente, depois de muito tempo. Era bom saber que nada que acontecera mudou o que Melanie e eu sentíamos uma pela outra, era bom saber que eu sempre poderia contar com ela.
Apertei meus olhos e fiz o mesmo com sua mão, não sabendo ao certo quais palavras usar e nem como empregá-las bem o suficiente, para que Melanie entendesse o que eu queria realmente dizer. Eu sabia que Melanie entenderia se eu explicasse corretamente, o que se passava pela minha cabeça. Sabia que ela compreenderia, mesmo sem concordar.
Melanie queria paz, como eu queria. Depois de tudo o que vivemos juntas, só ela sabia, exatamente, o quanto aquilo era querido e importante para mim. A pequena e, provavelmente, única diferença entre nós nesse quesito, era o que seríamos capaz de fazer para chegar ao nosso objetivo.
Melanie era uma guerreira, lutaria pelo seu povo e pelas pessoas que amava, até o fim. Ela não os abandonaria. Já eu, não tinha tanta certeza do quanto seria capaz de aguentar, principalmente sabendo, que existiam alternativas mais fáceis e práticas, talvez um tanto quanto dolorosas, mas sem sangue e condenamentos, as coisas que eu mais queria evitar para todos eles.
– Estou confusa. — Comecei, passando minha língua sobre meus lábios ressecados. — Não por não saber o que fazer, mas por não saber como fazer.
– Se você não está confusa quanto ao plano, é só segui-lo. — Melanie murmurou. — Não que eu aprove isso, longe de mim! Mas, se você quer se envolver tão profundamente, não precisa saber como fazer, eles vão decidir isso por você.
E esse era o grande problema, no final das contas. Mais pessoas — Ian, Jared, Melanie, Jeb e tantos outros — enfrentariam os grandes "inimigos" deles, só para ter certeza de que poderíamos viver em segurança. Seria egoísta pensar que eles estavam fazendo isso por mim, principalmente quando era isso que eles deixavam transparecer?
E esse era o motivo de eu não poder ser mais egoísta do que já estava sendo. Se eles queriam á mim, deixariam as pessoas que eu amava em paz, caso eu colaborasse. Nós éramos bons, uns com os outros, e isso me fazia lembrar de que não eram as Almas que eu temia, mas sim a triste realidade de que, se eu aceitasse aquele fardo, nunca veria as pessoas que me queriam bem, as pessoas pelas quais eu seria capaz de fazer qualquer coisa.
– Não quero que decidam por mim. — Chiei, erguendo-me do chão, soltando a mão de Melanie no percurso. Minha voz soou mais grave do que eu imaginei que um dia poderia soar, mas eu não estava irritada, aquela foi uma simples reação á favor do que eu realmente queria. — Não quero que mais ninguém corra perigo por mim. Nem você, Ian, Jared, Jamie... Não quero que mais ninguém se machuque, porque eu fui fraca demais para fazer o que nasci para fazer! — Apertei meus lábios, aquela breve vontade de chorar, me invadindo por completo. — São meu povo! É meu dever para com eles...
Mas não pude terminar. Não porque lágrimas grossas despencavam dos meus olhos e muito menos porque eu não sabia do que estava falando. O que, realmente, me impediu de continuar foi olhar nos olhos da minha nova irmã e não ter mais certeza de quem era meu povo de verdade.
Melanie e todos os presentes naquela caverna, me acolheram e me fizeram sentir coisas das quais eu nunca pensei que fosse capaz de sentir. Eu nunca havia tido uma família, nos meus longos anos de solidão, conhecendo tantos mundos, eu nunca tinha pertencido á um lugar. E foram esses pensamentos, repletos de sentimentos, que me impediram de continuar despejando coisas que eu deveria guardar só para mim.
– Me perdoe! — Balbuciei, sentindo todo aquele misto de sentimentos me dominarem. Sem desgrudar meus olhos, do rosto da minha grande amiga, caminhei de fastos até a saída, equilibrando-me ao me apoiar nas paredes. — Eu... Eu não queria falar isso, me desculpe, Mel.
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