Beautiful Nightmare
5 New school, new friends.
Notas iniciais
- Leva o casaco Victoria, tá frio lá fora! — Minha mãe gritou do andar de baixo.
- Tá bom, mãe... — Assenti, sem paciência para discutir que de forma nenhuma em pleno verão de Virgínia faria frio o suficiente para eu precisar de casaco. Tentar ser racional com a minha mãe era uma missão fadada a falhar.
Abri o armário e vesti minha jaqueta xadrez vermelha por cima da camiseta branca larga que cobria praticamente todo o meu short jeans. Destranquei a porta da frente e imediatamente senti a lufada de ar gelado que entrou em casa.
- Que porra...? — perguntei a mim mesma em voz alta. O chão a minha frente estava coberto de uma fina camada de neve, derretendo vagarosamente sob o tímido sol das 6:00.
- Loucura, não é? — Minha mãe surgiu as minhas costas. — Nos 19 anos que passei aqui só vi nevar uma dúzia de vezes, e era inverno. — Ela colocou um casaco acolchoado e saiu em direção ao carro.
Minhas pernas estavam congelando, mas se voltasse para me trocar perderia a carona com a mamãe e teria que ir andando, o que certamente me faria perder o primeiro tempo. Entrei no banco do carona e esperei até avistar o enorme prédio do Mystic High. Era apenas o segundo dia de aula e eu já estava implorando por férias. Eu definitivamente não fui feita para acordar cedo.
- Bom dia! — Matt me cumprimentou assim que cheguei a escola.
- Hey, Matt! — Sorri, feliz em ver um rosto conhecido. — O que está acontecendo aqui?
Uma enorme fila indiana se estendia para fora do teatro da escola. Garotos e garotas de todos os anos batiam os pés impacientes e tremiam de frio encarando o grande portão preto do auditório.
- Segundo dia de aula, é dia de inscrições. Quem quiser participar de algum clube, time ou comitê, tem que se inscrever antes que a lista de espera esteja cheia. Normalmente isso acontece no campo de futebol, mas o clima maluco atrapalhou.
- É, qual é a dessa neve? Nunca ouvi falar em geada por aqui no meio do verão.
- É... Também não entendi... — Ele respondeu de forma vaga, olhando para o chão. Se não fosse um assunto tão idiota acharia que ele estava mentindo.
- Mas e aí, não vai se candidatar pra nada? Você tem cara de jogador de futebol. Ou cheerleader. — Falei brincando.
- Eu já estou no time futebol, e definitivamente líder de torcida não é a minha — Ele riu. — E você, não vai se candidatar pra cheerleader?
- Claro, porque eu realmente sou extra-animada de manhã, seria uma ótima animadora. — Fiz minha melhor cara de desânimo. Ele riu.
O sinal ensurdecedor tocou, marcando o início do primeiro período. Pessoas que ainda esperavam do lado de fora do auditório se dispersaram, desanimadas.
- Tenho que ir, Tori. Mas anh... Você quer ir a algum lugar depois da aula? Tomar um sorvete... — ele olhou para a grama coberta de neve recém-derretida aos seus pés — ou talvez um chocolate quente.
Sorri da forma como seus olhos zanzavam do prédio atrás de mim, para o céu e para os seus pés, tentando a todo custo não precisar me encarar.
- Claro, te vejo no portão principal depois da saída.
- Legal, até mais então. — Ele saiu em direção à entrada da escola, sorrindo.
Fui atrás dele, em direção à sala de cálculo, sem vontade calcular merda nenhuma. Queria apoiar minha cabeça em um travesseiro e cobrir minhas pernas geladas com um edredom fofo e aconchegante. Estava sem disposição alguma para encarar uma manhã inteira de aulas monótonas e professores chatos, mas o pensamento de que iria sair com Matt depois tornava a tortura um pouco mais tolerável. Sentia saudades esmagadoras de meus amigos de Nova York, mas Matt meio que supria essa necessidade de socialização. Tinha a sensação de que eu e Matt um dia nos tornaríamos bons amigos.
- Você está atrasada. — O homem de meia-idade, calvo e baixinho que escrevia no quadro disse com severidade.
- Me desculpe — Murmurei e me esgueirei para a cadeira mais próxima. Chequei o relógio: tinha me atrasado menos de um minuto.
- Que isso não se repita, ou vai precisar recuperar a aula perdida na detenção.
- Sim, senhor. — Respondi assentindo com a cabeça. Qual era a porra do problema dele? Ninguém vai morrer por que cheguei alguns segundos depois.
- Agora vamos continuar a aula que etta jovem irresponsável interrompeu. — Ele voltou a escrever no quadro negro.
- Vai se foder — Resmunguei em um sussurro. Me joguei na cadeira, já de saco cheio da aula antes mesmo de ela começar.
- O que você disse, mocinha? — Ele se virou de supetão, com olhos esbugalhados e a fúria subindo à face. Seu rosto estava tão vermelho que eu achei que ele fosse soltar fumacinha pelos ouvidos. Estava muito tentada a dizer "Eu falei para o senhor ir se foder, ou foder alguém, qualquer coisa que melhore esse humor insuportável.", mas não acho que seria apropriado insultar o professor com coisas pornográficas. Sim, ele era um babaca e merecia saber disso, mas eu não estava nem um pouco afim de passar o resto da tarde trancafiada no mesmo recinto que ele. Até porque Matt e uma deliciosa caneca de achocolatado me esperavam depois da aula.
- Não disse nada, professor, só estou grata por ter chegado a tempo de assistir sua aula, me odiaria se perdesse mais um segundo de suas brilhantes deduções matemáticas. — A ironia na minha voz era tão óbvia que fez meia dúzia de alunos no fundo rirem, mas o professor parecia ser tapado e convencido o suficiente para acreditar que eu estava sendo sincera.
- Arrumando encrenca já na primeira aula, tadinha de você. Não vai aguentar nem até o final do bimestre com o eterna-TPM ali. — Uma garota loira que se sentava ao meu lado falou, seu sotaque britânico acentuando a acidez do comentário.
- Oh, Deus, acho que vou desistir da escola e virar caixa de supermercado.
- Não se preocupe, com o tempo você se acostuma à tirania. Qual o seu nome mesmo?
- Victoria.
- Prazer, Rebekah.
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