Beautiful Disaster
2 Run
Notas iniciais
Não andei tendo tempo para entrar no pc, e consequentemente não escrevi. Passei a madrugada ontem fazendo esse capítulo, tentando deixá-lo grande para compensar, mas não faço ideia de compensou.
Enfim, eu realmente sinto muito pela demora! Tentarei evitar ao máximo que algo assim aconteça de novo.
Ainda estou me sentindo culpada por deixar a fic parado por tanto tempo, então tentarei postar mais um capítulo no final de semana,se conseguir escrever algo que presta.
Acho que o capítulo pode ter ficado meio estranho em algumas partes, tentarei melhorar nos próximos.
Bom, acho que é isso. Boa leitura!
Hazel Levesque POV
Have heart my dear
We're bound to be afraid
Even if it's just for a few days
Making up for all this mess
Dodds idiota. Diretor idiota. Garoto idiota. Todos naquela escola eram um bando de idiotas. Maldito momento em que acabei parando no meio de todo aquele inferno.
Por que todos naquele lugar pareciam adorar tomar conta da minha vida? Eu já tinha 13 anos, não era mais nenhuma criancinha que precisava de babás por toda parte.
Lavei meu rosto mais uma vez, respirando fundo e deixando o banheiro feminino. O sinal para o almoço deveria tocar logo. Acabei ficando tão irritada com o mini sermão do geniozinho que nem voltei para sala.
O sinal soou, irritante como sempre, e o tumulto logo começou. Os alunos mais novos quase foram pisoteados, mas pareceram sair com vida. Avistei um garoto pálido, de cabelos e roupas pretas contrastantes, deixar minha sala. Enfiei-me no meio da multidão, correndo em direção a ele.
- Nico! — gritei, balançando o braço na tentativa de que ele me visse.
Aos poucos a multidão foi se dispersando, e avistei Nico no mesmo lugar, sorrindo levemente. Franzi os lábios e fui em sua direção.
- Ficou parado enquanto eu era pisoteada por aqueles malucos? Que belo amigo você é! — resmunguei.
- Você é tão dramática. — suspirou. — Perdeu a hora ou andou matando aula de novo?
- As duas coisas. — ri. — Acabei sendo pega pela bruxa da Dodds, arrastada até a sala do cara do vinho e agora tenho uma babá até fora da escola. — cruzei os braços, visivelmente irritada.
- Babá?
- É. Mandaram um garoto cuidar de mim, me ajudar com minhas notas, como castigo por sei lá o que. O problema é que passei dois segundos com ele e já acho que não passa de um geniozinho certinho e insensível.
- Ele deve ter feito algo terrível para ter que te aturar fora da escola.
- Obrigada. — respondi cortante.
Nico riu levemente, dando-me as costas e indo em direção ao refeitório. Comecei a segui-lo em silêncio, ainda emburrada por sua falta de consideração.
- Sabe, você é meu amigo, devia no mínimo xingar esses inúteis comigo! — reclamei.
- Você fica insuportável quando está irritada.
Fechei a cara, ainda o seguindo. Às vezes eu esquecia que Nico também não era nenhum poço de gentileza.
Entramos no refeitório, sem trocar mais palavras, mas fiquei curiosa ao notar uma pequena rodinha próxima a uma das mesas do fundo. Algo parecia errado. Andei apressada em direção a confusão, sendo seguida por uma sombra pálida.
Enfiei-me com dificuldade entre os alunos, maiores e mais velhos do que eu, finalmente conseguindo chegar no centro para enxergar algo. Nico me seguiu em um silêncio estranho, parecendo preocupado.
Quando finalmente pude entender o que acontecia, senti minha voz falhar. Arregalei os olhos, tentando computar tudo.
Um garoto loiro, magro, de maldosos olhos azuis, sorria triunfante. Sua pele branca fazia contraste com a camiseta azul escura que usava. Sua postura era confiante e ameaçadora, parado de braços cruzados, estralando os dedos como se preparasse para desferir mais um soco.
Caído a sua frente, identifiquei aquele rosto irritantemente familiar. Um garoto alto, bem forte, de cabelos pretos bem curtos e olhos castanhos e puxados. Apesar do corpo musculoso, seu rosto parecia doce e inocente como de uma criança. Seus ombros estavam contraídos e ele fitava o chão, enquanto seus braços tremiam. Uma marca horrível marcava sua bochecha, e suas roupas pareciam sujas de comida, aparentemente alguma das sobremesas servidas.
- Perdedor. Agora notam o que eu digo? Não se enganem pela aparência, ele não passa de um fracote! Um verdadeiro covarde! — o loiro anunciou em alto e bom som. Sua voz era cruel e satisfeita, e com um ar persuasivo incômodo.
Os alunos ao redor se mantiveram em silêncio, parecendo absorver as palavras. Em poucos instantes, o círculo foi tomado por murmurinhos e algumas risadas debochadas. Cerrei minhas mãos em punhos, sentindo meu sangue ferver. O que estava acontecendo? Do que aqueles idiotas estavam rindo? Iam mesmo assistir algo como aquilo com a maior frieza?
Puxei a jaqueta de Nico, apertando com força, o fazendo cambalear para frente. Antes que pudesse protestar, fitei-o com o olhar transbordando de raiva. Ele prontamente se calou, parecendo entender.
- É ele. — falei baixinho, apesar de saber que o tumulto encobriria minha voz de qualquer modo.
- Ele quem?
- O garoto estúpido que encontrei mais cedo, o que tem que cuidar de mim! Faça alguma coisa! — aumentei o tom de voz.
Ele virou o rosto, encarando mais uma vez aquela cena ridícula. O loiro parecia continuar falando sobre algo, que me obriguei a ignorar veemente. O grandalhão apenas continuava lá, caído e assustado, sem esboçar nenhuma reação. Por que ele não reagia?
- O que espera que eu faça? Fique entre eles e pare a briga? — Nico sorriu debochado.
- Exatamente.
- O que? — ele me olhou incrédulo.
- Você é um garoto, dê um jeito!
Antes que ele pudesse protestar, empurrei-o em direção aos dois. Para meu azar, Nico pareceu prever meu movimento, puxando-me pela manga da blusa , fazendo com que caíssemos e rolássemos pelo chão até o centro do círculo.
Minha cabeça recebeu algumas leves pancadas, sendo o suficiente para me deixar tonta, fazendo com que fechasse os olhos por alguns instantes. Assim que os abri, tive uma péssima visão. Eu estava caída de costas no chão, sendo cuidadosamente analisada por um loiro sádico, parado em pé bem em cima de mim. Mordi os lábios, fazendo-o sorrir. Aquilo não podia ser bom.
- Bom dia. — comentou calmamente, quase descontraído. Engoli seco.
- Bom dia. — murmurei.
Ele lentamente foi até meu lado, agachando-se. Seus olhos me fitavam de modo penetrante, como se procurassem uma vantagem. Qualquer coisa que pudesse colocar-me abaixo dele. Senti um terrível arrepio percorrer meu corpo.
- Não creio que te conheça. Meu nome é Octavian. — sua voz continuava calma, esbanjando falsa gentileza. O que ele pretendia?
Juntando toda a coragem que pude, apoiei-me em minhas mãos, erguendo-me de uma só vez e me afastando cambaleante. De um jeito patético, tropecei em meus próprios pés, caindo sentada. Octavian se limitou a dar um leve sorriso, enquanto a multidão se mantinha em silêncio.
O loiro se levantou, voltando a caminhar em minha direção. Olhei ao redor, tentando encontrar um modo de escapar. Nico não estava muito longe de onde eu havia caído, estava sentado, mas parecia totalmente paralisado. Sua respiração estava instável, e seus olhos escuros pareciam enormes.
Ainda mais distante, pude avistá-lo também. Aquele maldito garoto. Ele continuava no mesmo lugar, mas agora tinha o rosto erguido, direcionado para mim. Sua boca estava entreaberta e seus olhos estavam presos a meu rosto. Medo. Confusão. Gratidão. Culpa. Eu não conseguia entender. O ar vindo dele parecia uma mistura de sentimentos sem nexo.
Logo fui tirada de meus pensamentos, de um modo nada agradável. Senti um dedo fino e frio encostar em minha testa, seguido por um leve peteleco. Octavian estava agachado na minha frente, muito mais perto do que um dia eu desejaria.
- Quando alguém se apresenta, você deve fazer o mesmo. — explicou com deboche, enrolando um de seus dedos entre meus cachos. Senti repulsa. Queria empurrá-lo. Socá-lo. Tirá-lo de lá. Não queria aquela proximidade. Não queria que encostassem em mim.
Respirei fundo. Eu precisava de controle. Não podia por tudo a perder. Não por causa de alguém como ele.
Tentando manter-me calma, ergui uma das mãos, prendendo seu pulso e o jogando para longe de meu rosto. Sua expressão perdeu toda calma em questão de instantes.
- Não toque em mim. — declarei calma, porém firme.
O loiro me encarou possesso. Seu rosto se contorcia em caretas horríveis e seus olhos pareceram escurecer. Jurava que podia ler seus pensamentos através deles. Milhares de maneiras de me torturar bem ali.
- Você é bem atrevida, não? Atrapalha meus assuntos e ainda tem a ousadia de me destratar assim. Garota burra.
Em um movimento brusco, ele juntou meus dois pulsos, prendendo-os com uma de suas mãos. A outra contornou meu rosto, parando em meu queixo e erguendo-o, deixando nossos rostos a centímetros de distância. Senti seu hálito gelado tocar minha pele, fazendo-me tentar recuar, mas ele me manteve bem presa.
- Vamos fazer o seguinte. Você me diz seu nome, e por hoje eu te deixo em paz. Que tal? É uma oferta e tanto. — sussurrou.
- Por que meu nome te interessaria? Apenas me solte. — retruquei, em um tom ainda mais baixo.
- Eu não preciso ter um motivo. Apenas fale de uma vez e agradeça por eu não bater em garotas. Mesmo as estúpidas como você.
Tive que morder minha língua para não retrucar. Eu conhecia aquela expressão confiante em seu rosto. Já havia a visto milhares de vezes, nos mais diversos rostos, e nunca acabava bem. Respirei fundo mais uma vez.
- Hazel. — murmurei derrotada. Já podia sentir meu sangue fervendo mais uma vez. Precisava sair dali antes que perdesse o controle, independente do preço.
- Boa garota.
Cumprindo o acordo, ele libertou minhas mãos, logo depois meu queixo. Suspirei aliviada, enquanto o observava levantar e cruzar os braços, sorrindo mais uma vez, parecendo se direcionar para a multidão. Como uma posição de vitória. Uma salva de palmas se iniciou lentamente, enquanto o círculo foi se dissipando aos poucos. Nojo. Desprezo.
Octavian. O que era ele afinal? Por que conseguia me perturbar tanto? Por que todos o ouviam e aplaudiam? Eu queria espancá-lo. Queria humilhá-lo na frente de toda aquela escola, apenas para ter o prazer de ver aquele maldito sorriso sumir. Mas não podia. Precisei repetir isso mentalmente algumas vezes, até sentir segurança de me levantar sem correr atrás dele para ter minha vingança.
Assim que fiquei de pé, Nico veio correndo em minha direção. Seu rosto mostrava puro medo e culpa.
- Hazel, eu... Desculpe. Você está bem? — perguntou afobado.
- Sim, não se preocupe. Você ficou com medo, não é nada demais. Não devia ter te obrigado a fazer algo assim. Foi loucura. Eu é que te devo desculpas. — admiti.
Nico sorriu de canto, parecendo aliviado ao me ver bem e falante como sempre. Estava pronta para sugerir que finalmente fossemos comer alguma coisa, agora que o refeitório já esvaziava, quando finalmente o notei ali. O grandalhão continuava no chão, com o rosto roxo, fitando-me perplexo.
Lembrei-me de nossa "discussão" e de como eu oficialmente o odiava, mas esses sentimentos pareceram ir se dissipando enquanto olhava em seus olhos. Calmos. Puros. Tristes.
Fiz um sinal com a mão para que Nico nos desse espaço. Ele prontamente pareceu entender, indo em direção a fila do almoço.
Em passos lentos, e um tanto hesitantes, aproximei-me do garoto, agachando-me de frente pra ele.
- Você está bem? — perguntei preocupada.
Sua boca se abriu algumas vezes, sem parecer conseguir emitir algum som. Frustrado, ele assentiu.
Não pude deixar de sorrir. Por mais idiota que fosse, alguém como ele não podia ser de todo mal. Não quando preferia se machucar em uma briga do que agredir alguém. Não com aqueles olhos.
- Fico feliz. — murmurei baixinho. — Quer que eu te leve a enfermaria?
- O sinal já vai bater. — sua voz saiu dessa vez, bem fraca. — Não precisa perder seu tempo comigo.
- Oh, por favor! Você já sabe que não sou grande fã de aulas. Ou já se esqueceu, geniozinho insensível? — provoquei brincalhona.
- Desculpe. — murmurou, encolhendo-se um pouco mais.
- Por?
- Eu te fiz chorar.
Seu olhar se voltou para suas mãos, que mexiam incomodadas sobre suas pernas. Era estranho, mas de algum modo, era como se realmente se importasse com aquilo.
- Eu não choro. — disse simplesmente.
Ele abriu a boca para argumentar, logo a fechando quando o censurei com o olhar. Queria esquecer aquilo. Jamais teria acontecido. Era mais fácil. Sem explicações complicadas, envolvendo coisas que não queria me lembrar.
O sinal soou mais uma vez. Não me preocupei em dizer para Nico que não voltaria para sala, ele já estava acostumado com minha ausência. Por outro lado, precisava ir logo para a enfermaria, antes que Dodds me pegasse lá e me fizesse ouvir mais um de seus discursos.
- Vamos, grandalhão. — chamei brincalhona, levantando-me.
- Grandalhão? — resmungou incomodado, também se levantando, com um pouco de dificuldade.
- É. Eu... Bem, esqueci seu nome. E você é alto, forte. Quer dizer, você já deve saber disso. — dei de ombros.
Ele me olhou confuso, como se eu fosse a criatura mais curiosa de todo o universo. Um leve sorriso se formou em seus lábios, o que me fez sorrir também. Era doce e espontâneo.
- Frank. — apresentou-se brevemente.
- Frank. — levei um dos dedos até a boca, pensativa. — É fofo. Acho que combina com você. — decidi, sorrindo.
As bochechas dele coraram levemente, deixando-me satisfeita. Talvez pudesse ser divertido tê-lo por perto. Ou pelo menos, bem mais suportável do que havia imaginado.
Sem dizer mais nada, agarrei a manga de sua camiseta e comecei a puxá-lo em direção a enfermaria. Não consegui fazê-lo mover um músculo, mas por sorte ele cooperou, caminhando ao meu lado.
Senti seu olhar desviar em minha direção algumas vezes enquanto passávamos pelos corredores, me deixando curiosa. Fiquei tentada a perguntar se havia algo errado, mas já começava a entender seu jeito. Eu só o deixaria desconfortável, sem conseguir resposta nenhuma.
Logo chegamos na enfermaria, para nosso azar, totalmente vazia. Bufei frustrada, direcionando-o até uma das camas e indo em direção a uma maleta de primeiros socorros. Era só uma pancada, eu podia cuidar daquilo.
Voltei a seu lado, sentando-me e colocando a maleta entre nós, enquanto a vasculhava.
- Você sabe o que está fazendo? — perguntou apreensivo.
- É possível.
- Não parece confiável. — murmurou.
- Você se preocupa demais. Não é como se fosse algo grave. — resmunguei.
Joguei a maleta no chão, decidindo que nada ali me seria útil. Resolvi tratar o mínimo necessário. Peguei uma das gazes caída, indo direção ao banheiro e molhando-a levemente. Corri de volta para a cama em que Frank se encontrava, limpando com cuidado seu pescoço e seu rosto, sujos de comida.
- O que aconteceu afinal? — acabei perguntando, despreocupada.
- Esbarrei em Octavian e derrubei o almoço dele. Ele não ficou feliz. — murmurou. — Mas não é como se fosse a primeira vez que isso acontece. Na maioria das vezes nem há um motivo.
- Octavian parece um doce. — debochei, tentando insistentemente tirar uma mancha de sua camiseta. Ele parecia incomodado, mas se manteve imóvel.
- Você acha? — murmurou em um tom de voz indecifrável.
Finalmente terminei de limpá-lo, olhando para seu rosto. Suspirei cansada.
- Ok, se vai andar comigo, é melhor que eu te apresente uma boa e velha amiga. O nome dela é ironia. Somos inseparáveis. — expliquei.
- Ironia. — ele repetiu baixinho, parecendo sem graça. — É um prazer. — resmungou.
Ri baixinho, voltando a me levantar e tendo mais uma brilhante ideia. Comecei a vasculhar os armários, em busca de algum pano ou algo que pudesse enrolar gelo. Parecia ser o melhor que podia fazer por ele.
- Hazel. — chamou timidamente.
- Sim?
- Ele te machucou?
Encontrei um bom pano bem na hora, quase fazendo uma dancinha da vitória, virando-me brevemente para Frank.
- Octavian?
- É.
- Não. Eu sou durona, não se preocupe. Ele não vai me assustar assim tão fácil. — sorri confiante.
Antes que pudéssemos continuar nossa breve conversa, a enfermeira entrou, parecendo assustar-se com nossa presença. Apontei rapidamente para o machucado no rosto de Frank, fazendo-a lançar um olhar compreensivo. Sem perguntas, ela prontamente se direcionou até a caixa de primeiros socorros caída no chão, arrumando-a, enquanto encarava alguns objetos pensativa.
Caminhei despreocupada, sentando-me ao lado do grandalhão. Ele me encarou de um modo estranho, como se tentasse processar algo complicado.
- O que foi? — perguntei baixinho, sem conseguir me conter.
- Nada. — ele fez uma careta.
Não consegui entender sua reação, só me levando a entender que seu machucado devia estar doendo. Olhei rapidamente para a enfermeira, que já havia arrumado a bagunça que eu havia feito, e parecia entretida enquanto analisava algumas pomadas. Rapidamente ela pareceu escolher uma, caminhando até mim e a estendendo, dando um sorriso discreto.
- Ele é seu amigo, certo? — perguntou gentil.
- Acho que podemos dizer isso. — dei de ombros.
- Bom. — assentiu. — Poderia cuidar dele por mim? Não é nada demais. Apenas passe a pomada no machucado e ele logo deverá ficar bem. Parece algo bem superficial, perto de como Frank já veio para cá.
Arregalei os olhos. Ela a conhecia, até mesmo lembrava seu nome. Aquele lugar era enorme, aquilo não podia ser comum. Quantas vezes aquele garoto havia estado lá?
- Tudo bem. — aceitei, pegando a pomada de sua mão. — Vou cuidar dele.
- Obrigada. — agradeceu, logo voltando seu olhar para Frank. — Eu realmente sinto muito por não poder lhe dar a devida atenção hoje, mas estou com alguns problemas. Preciso ir para casa.
- Não se desculpe. — ele murmurou timidamente. — Como você mesma disse, não parece nada demais.
A enfermeira nos lançou mais um sorriso doce, pegando sua bolsa de cima de um dos balcões e nos deixando sozinhos. Apesar de toda sua calma, seus olhos pareciam triste. Não pude deixar de imaginar que tipo de problema a estava obrigando a deixar o trabalho. Apesar de um idiota, o diretor era bem rigoroso com a presença de seus funcionários, como Dodds sempre gostava de resmungar o tempo todo. Senti uma vontade estranha de correr atrás dela e abraçá-la. Dizer que eu entendia, seja lá o que fosse. Eu sabia o que era a tristeza, a preocupação, o medo. Eu conhecia cada simples emoção em seus olhos. E talvez por isso, os lia com tanta facilidade, assim como os de Frank.
Frank. Lembrei-me que ele continuava do meu lado, voltando a olhá-lo. Pensei em tentar retomar nossa conversa, mas não senti como se fosse obter alguma resposta. Sem dizer nada, abri a pomada, colocando um pouco na ponta de meu dedo e, com muito cuidado, aproximando de seu rosto. Do modo mais delicado que pude, passei o remédio sobre o machucado, sentindo-me a maior inútil do mundo ao sentir seus ombros se contraírem pelo contato dolorido.
Finalmente, para nosso alívio, terminei meu serviço desagradável. Ele sorriu de lado, como em um agradecimento silencioso.
- Então, e agora? Esperamos o próximo sinal? — perguntou.
- Você eu não sei. Eu só quero dar o fora daqui o mais rápido possível. Na primeira brecha, vou embora. — comentei com um sorriso satisfeito, cruzando os braços.
- Você realmente odeia esse lugar, não é?
- É claro que odeio! O diretor é um bêbado mal humorado, a coordenadora uma verdadeira bruxa, e até um loiro sádico anda frequentando aqui, com uma própria torcida enorme que o aplaude por respirar. Esse lugar é ridículo! — revirei os olhos.
- Eu sei que não é exatamente o paraíso, mas você podia ao menos tentar. — retrucou. — E não saia inventando apelidos para Octavian. Não pode acabar bem.
- Tentar o que? — arqueei a sobrancelha. — E eu não tenho medo do mini astro. Sem a plateia, aposto que não passa de um fracassado. Ou melhor, mesmo com ela. — sorri debochada.
- Se esforçar, Hazel. Ir bem nos estudos, pra tentar sair logo daqui. — suspirou. — A sua falta de bom senso também já está começando a me preocupar. Não tente arranjar problemas desnecessários. Como você mesma já descreveu, esse lugar é um inferno por si só.
Descruzei os braços, jogando-me para trás, caída atravessada na cama, com a cabeça pendendo no ar. Sorri como uma criança, fechando os olhos.
- Estudos, notas, se esforçar. Você pensa demais nisso. Precisa relaxar mais ou acabará louco, geniozinho. Quanto a Octavian, eu já arranjei um problema com ele, não? Não sou do tipo que escapa de problemas. Prefiro deixá-los divertidos.
- Sua ideia de diversão parece assustadora.
Sentei-me novamente, arrumando meus cabelos, mais bagunçados que o normal.
- Talvez um pouco de medo saudável te faça bem. — sugeri.
- Medo saudável? — ele fez mais uma careta estranha.
-Sim. — levantei da cama, estampando um sorriso enorme. — Tenho uma proposta.
- Proposta?
- É. Vamos dar o fora daqui. Podemos desperdiçar nosso tempo em algo mais interessante do que ter algumas aulas chatas que não servirão para nada.
- Eu não vou matar aula. — disse firme.
- Oh, por favor! — fiz um biquinho. — Não seja tão responsável, é tão entediante! Por causa do seu lindo castigo, que ainda desconheço o motivo, vamos ser obrigados a passar um bom tempo juntos, provavelmente até o final do ano. Seria melhor se realmente pudéssemos nos dar bem, certo?
- Eu não sei. — ele balançou a cabeça. — Você fala como se as coisas fossem simples, mas não são. Quando tento agir certo, tudo acaba dando errado. Tenho até medo de imaginar o que aconteceria se já não começasse agindo bem.
- De acordo com minha lógica, as coisas dariam certo. É o oposto, certo? — sorri convencida.
- Não exatamente. -revirou os olhos. — É mais um: não importa o que eu faça, acabará dando errado.
- Então, talvez seus conceitos de certo e errado não sejam assim tão bons.
- O que quer dizer? — ele me encarou confuso.
- Eu te explico no caminho. — sorri vitoriosa, tentando fazê-lo levantar.
- Hazel, eu não posso!
- Vamos! — choraminguei.
- Não!
- Eu escuto aos seus sermões idiotas, que tal? Até mesmo te deixo tentar me ensinar alguma coisa.- sugeri, voltando a cruzar os braços. — É a melhor oferta que vai receber.
- Vai se esforçar?
Estava prestes a negar aquela ideia ridícula mais uma vez, mas seus olhos pareceram quase brilhar. Eu queria tirá-lo dali de qualquer modo. Não aguentaria voltar para a sala, e precisava ter alguém por perto, para me impedir de fazer mais uma de minha besteiras após situações desconfortáveis. Só precisava distraí-lo, e não teria com o que me preocupar.
- Como quiser. — forcei um sorriso.
Precisei piscar alguns trilhões de vezes até finalmente acreditar que Frank estava se levantando e me acompanhando até o portão de saída, que por sorte e descuido se mantinha sempre aberto.
- Tem alguém na sua casa essa hora? — perguntei.
Frank olhou rapidamente para seu relógio de pulso, negando com a cabeça. Sorri vitoriosa.
- Ótimo, é pra lá mesmo que vamos! — declarei entusiasmada.
- Não sei se é uma boa ideia. Não faço ideia de quando minha avó voltará para casa. — resmungou preocupado.
- Não se preocupe, eu sei pular janelas em casos de necessidade. — dei de ombros. — Agora, sem mais desculpas, certo? Guie o caminho, grandalhão.
Recebi em resposta um misto entre uma careta e um sorriso, mas para minha surpresa, nenhuma negação, o que já parecia um grande avanço vindo do geniozinho pessimista e insensível. A lista de adjetivos só tendia a aumentar.
Transformar meus problemas em algo divertido. Era o que minha mãe havia me ensinado quando criança, o modo mais simples e leve de se viver. E era o que havia resolvido fazer naquela situação também. Só não esperava que Frank pudesse facilitar as coisas tanto assim.
Olhei-o de canto de olho, sorrindo ao ver que ele fazia o mesmo. Certinho. Responsável. Calmo. Incapaz de machucar uma mosca. Meu verdadeiro oposto. Não pude evitar que uma faísca de esperança voltasse a nascer em mim.
Se alguém podia me salvar, talvez fosse ele. Ninguém mais parecia ser tão doce ou paciente como Frank. Ninguém jamais havia me aguentando por tanto tempo sem parecer a beira de um colapso. A pergunta que me assombrava era se eu realmente deveria ser salva, ou até mesmo se conseguiria um dia admitir que talvez precisasse de sua ajuda. Seria uma ferida e tanto pro meu orgulho estúpido.
Aquele idiota, preocupado que alguém como Octavian pudesse me machucar. Ele realmente não fazia ideia das coisas pelo que eu já havia passado.
Notas finais
Acho que algumas partes podem ter ficado bem vagas e um pouco confusas, mas logo já começam a explicar algumas coisas.
Próximo capítulo volta a ser POV do Frank, sempre alternando entre os dois, como acho que já disse.
Até o próximo capítulo!
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