Beatrice
1 Beatrice
Notas iniciais
Enquanto ela caminhava a passos lentos com a corda na mão, momentos de sua vida passavam como um filme pela sua cabeça. A neblina densa a fazia sentir-se como se estivesse nas nuvens – fria, flutuando sem rumo e graças à maldita seja ciência, puxada para o chão rapidamente apenas sendo uma questão de tempo para que ela chegue ao chão e morra.
Com uma corda nas mãos ela tinha uma lembrança antiga como aquele seriado de televisão que costumava ver com sua irmã mais nova, Sofia, muito antes de ela morrer naquela infeliz tragédia com aquele terrorista há dois anos antes, a partir daquele dia Beatrice Sullivan nunca mais foi a mesma pessoa... Ah! Esse era o nome dela, Beatrice. Ela sempre gostou do nome, Sofia a invejava pelo nome que a irmã tinha.
A antiga lembrança fora de quando tinha dez anos e tomou sorvete de Blue Ice pela primeira vez – a partir daquele dia, sorvete de chocolate nunca mais. Beatrice permitiu-se enfim, sorrir... Há quanto não sorria? Ela perdera a conta. Nem sorrisos sarcásticos ela enviara a sua mãe ou seu pai.
Ela sentia frio com seu casaco fino de veludo escuro, a neblina surgira de repente e isso nem a surpreendera mais. Uma fina chuva caia em seu rosto pálido, seus cabelos castanhos da cor do chocolate estavam bagunçados e despenteados, havia sombras ao redor de seus olhos... Depois da morte de Sofia nunca mais dormira bem... Não sem as canções infantis que cantava com a mais nova antes da hora de recolher. A garota simplesmente largara a mochila com todo o seu material escolar no chão, após rasgar folhas e folhas de cópias e cópias, rabiscar sua agenda, quebrar lápis e largar toda a sua raiva e frustração com tudo e todos, ela se foi com uma corda em mãos.
Beatrice Sullivan adquirira há pouco uma mente suicida que ninguém ousava compreender. Afastara-se das amigas. Já não tinha tanto apetite. Beatrice sentia-se sozinha quando os pais saiam de casa... A mãe ia trabalhar e o pai apenas dizia, mas voltava caindo de bêbado com uma garrafa de vidro em mãos, com aquele líquido maldito fedorento e forte que dava náuseas em Beatrice. Ela riu, estava exatamente idêntica a aqueles personagens de filmes dramáticos e depressivos em que o protagonista sempre morria no final.
Ela já zoara tanto aqueles personagens com sua mãe ao lado, sua irmã ao lado, seus amigos e até seu pai quando ainda era o mesmo homem que tirara as rodinhas de sua bicicleta. Nenhuma vez ela já pensara que acabaria como aqueles personagens.
– Você olha para o céu... – cantarolava a morena, com a voz rouca e um sorriso fraco no rosto. – A lua lhe cobre com um véu. As estrelas sorriem para nós...
Engraçado como se lembrava da estúpida música que sua irmã cantava. Acho que Beatrice tentava acalmar a si mesma. Nunca cortara os pulsos, nunca pulara de uma ponte... Beatrice resistia à morte firmemente desde a morte de Sofia. Lembrou-se de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali. Quando cortou os longos cabelos e sua mãe pirou de vez. Quando caiu de bicicleta e ralou o joelho...
Ouvia ela o barulho das sirenes ao longe, em algum lugar um incêndio começava... O cheiro da fumaça deixava tudo pior para Beatrice, ela sabia que não deveria fazer isso, e não apenas porque sua psicóloga lhe disse que era irracional, sua mãe dissera, seu professor, seu melhor amigo... Ele viria, ela tinha certeza, creio que seu nome era Charlie... Ela sempre achou o nome muito fofo, sempre achara ele fofo. Ela já lhe disse que o amava, naquele dia, naquela manhã mesmo... Há algumas horas apenas.
Tudo o que sua mente queria era recuar, voltar para casa e ver a cena que sua mãe faria quando descobrisse o que Beatrice fez com o material escolar. Ela seria internada de novo... Foi um erro dizer a sua mãe que Beatrice costumava a ouvir vozes e que isso a assustava. Foi internada e mesmo assim não resolvera nada, odiava os dias que passou naquele mundo branco onde pessoas morriam e nasciam todo dia, onde a noite e sozinha, na hora de dormir, Beatrice ouvia aquelas vozes.
– As estrelas sorriem para nós. Quando não nos vemos sós. – ela riu da música. – Irmãzinha nanica, quero que me deixe em paz... – ela riu de novo, aquela parte fora ela que inventara. – Mas não conseguiria lhe deixar para trás... – Sofia completava. – O vento canta no nosso ouvido, contando coisas que ninguém sabia. Histórias que heróis, eles viviam...
Ainda não era seu limite. Sua mente ultimamente tem estado tão vazia, Beatrice perdia lentamente a vontade de estar naquele mundo, com aquelas pessoas que nunca acreditavam nela, que ignoravam o que ela sentia... Rangeu os dentes de raiva, como odiava aquelas pessoas ignorantes, sociedade ignorante que falava em ajudar ao próximo e no dia seguinte a desprezava dizendo que era louca, estúpida, idiota, doente, estranha...
O que mais irritava Beatrice: Ela não era a única.
– Vamos irmã, me mostre um sorriso. – cantou. – Eu não posso dormir hoje sem isso. As estrelas sorriem para nós. A lua brilha para nós... Quando não nos vemos sós.
Ignorava as vozes ao seu redor, sussurrantes e distantes.
Vou me livrar disso hoje... Estranhamente ela se sentia feliz em caminhar para a morte, afinal de contas, a vida lhe desprezara o bastante e Beatrice não conseguia resistir. Ela iria fugir, ser covarde, virar uma lembrança e ser esquecida com o tempo... Mas estaria livre.
Lembrou-se de quando brincava de boneca, e de brigas bobas com Sofia. Lembrou-se de Alice, sua amiga que costumava dizer que via duentes, a única que não viera com todos os hábitos clichês e estúpidos quando Sofia morreu... Ela não disse que sentia muito, ela agiu normalmente e Beatrice agradeceu por isso. Alice a viu chorar, sorrir... Estava com saudades. Desde que se mudara para aquela pequena cidade no fim do mundo, não teve mais contato com a amiga, com ninguém. Mudou-se no inicio do ano, ela lembra, conheceu Charlie que foi algo para sustentar sua vida naquele mundo.
Charlie era a única coisa boa para ela naquele mundo, mas ela teria que dizer adeus.
Beatrice chegou a uma árvore-forca, irônico. Ela subiu pelos galhos com a agilidade de um esquilo, pendurou-se como um macaco fazia, ela riu de novo, riu enquanto lagrimas desciam pelo seu rosto. Sua irmã a costumava comparar com um “macaquilo” – junção de macaco com esquilo, a nova raça que Sofia criara.
Beatrice estava de pé em um grosso galho, demorou até encontrar equilíbrio e quase caiu duas vezes e riu mais ainda.
Enquanto amarrava a corda em um galho mais alto, ela se lembrou da criança de que roubara a corda, a criança começou a chorar, ela lembra, mas isso a deprimiu... Beatrice fez um colar de corda e botou ao redor do pescoço e esperou de olhos fechados.
Lembrou-se de quando ela e Alice corriam até o carrinho do sorvete ou brincavam de pega-pega com os duendes que Beatrice fingia ver também. Lembrou-se do enterro da irmã, em que teimara em usar azul claro ao invés de preto: “Mas Sofia não gosta de preto! Ela prefere azul!” e por fim ela foi com um vestido azul claro de bolinhas que Sofia tanto amava... Dizia que Beatrice parecia uma princesa com ele... Quantas vezes rejeitou o comentário?
Várias, ela sabia.
Mais lembranças: Quando caiu seu primeiro dente e ficou zangada quando a fada do dente lhe deixou apenas um dólar. Quando quase se afogou na piscina da sua tia Jenna. Quando seu cachorro, Parker, morreu. Até lembranças mais dolorosas como quando sofreu nas mãos de umas meninas em uma festa ou quando se viu como refém de um cara em um shopping. Ou sua primeira tentativa de suicídio por pura raiva de todos...
Agora ela estava morrendo porque simplesmente não sentia que tinha uma razão para viver, não tinha nenhum valor pela vida, estava se encontrando em um estado em que já estava morta... Há uma semana. O mais triste para ela era que ninguém percebeu.
– Beatrice! – ouviu a voz de Charlie abaixo de si e sorriu.
Lagrimas e lagrimas brotaram de seus olhos e um sentimento de felicidade imenso se expandiu pelo seu coração. Agachou-se como se fosse pular para ver ele de novo.
– Beatrice! Por favor, desça daí! – ele implorava, com desespero nos olhos verdes, seus cabelos castanhos encaracolados com uma franja. Ele estendia a mão para ela. Beatrice sorriu para ele e tocou sua mão.
– Eu sabia – ela murmurou alto suficiente para que ele ouvisse. – Sabia que você viria.
Ele disse seu nome mais uma vez, era tudo o que ela precisava ouvir. Beatrice Sullivan pulou como mais uma incompreendida por todos e por tudo. O colar da corda ficou mais apertado em seu pescoço e então ela morreu e podia ouvir no fundo de sua cabeça, em seus últimos segundos naquela vida, a voz do mundo lhe dizendo adeus.
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