Beatlaculous

3 For no one


Notas iniciais
SINOPSE: Um encontro bem improvável entre Gabriel Agreste e Mestre Fu revela a dor por que o estilista passou ao ser abandonado pela mulher. MÚSICA: FOR NO ONE Your day breaks, your mind aches, You find that all the words of kindness linger on, When she no longer needs you. She wakes up, she makes up, She takes her time and doesn't feel she has to hurry, She no longer needs you. And in her eyes you see nothing, No sign of love behind the tears cried for no one, A love that should have lasted years. You want her, you need her, And yet you don't believe her, when she says her love is dead, You think she needs you. And in her eyes you see nothing, No sign of love behind the tears cried for no one, A love that should have lasted years. You stay home, she goes out, She says that long ago she knew someone but now he's gone, She doesn't need him. Your day breaks, your mind aches, There will be times when all the things she said will fill your head, You won't forget her. And in her eyes you see nothing, No sign of love behind the tears cried for no one, A love that should have lasted years.

Da rua era possível ver dentro do bar. E lá dentro, sentado ao balcão, estava ele. Um homem de porte elegante e modos polidos. Teria a aparência impecável – roupa alinhada, sapatos brilhando, cabelo milimetricamente cortado −, se não fosse pelo seu rosto. Sua expressão misturava cansaço de noite mal dormida, três doses de uísque, inchaço de choro copioso e um quê de medo. Do que teria medo? Não se sabe. Talvez medo do amanhã, talvez do ontem. Aquele homem choroso, derrotado, não parecia ser nem metade do que um dia já foi. Era como se tivesse uma sombra sobre sua cabeça(*). Aquela alma parecia perdida e carecia de um resgate.

Foi exatamente o que chamou a atenção do outro homem: bem menor, bem mais velho, bem menos fino, nem um pouco alinhado com sua camisa florida e calças curtas, seu cavanhaque pontudo e seu cabelo oleoso. Um homenzinho oriental que transpirava paz e tranquilidade. Tudo o que o outro claramente não tinha. Esse senhor não costumava frequentar a ambientes como o desse bar, mas tendo visto o desespero estampado naquele rosto, não poderia se fazer de rogado. Queria ajuda-lo.

− Com licença. – disse o homem menor, se aproximando cautelosamente do maior, enquanto com um gesto de mão negava o atendimento do bar tender que lhe oferecia atenção. – Eu não pude deixar de notar sua dor. Gostaria de poder ajuda-lo. Posso fazer algo pelo senhor?

− Não acho que qualquer pessoa possa me ajudar, senhor. Mas agradeço seu esforço. – disse o mais jovem, que parecia não querer contato.

− Não quer nem mesmo conversar? Sou ótimo ouvinte, mas péssimo conselheiro. Por isso me resguardo na posição de ouvir, sem muito falar.

O homem alto manteve-se olhando para o nada por um tempo. Mas sem sequer olhar o outro, simplesmente começou a falar.

− Minha esposa desapareceu. Ontem.

− Oh! Eu sinto muito.

− Obrigado. Mas o pior é que meu filho está arrasado! Hoje ele tentou conseguir de mim alguma informação para desvendar o desaparecimento dela. Me perguntou o que a polícia sabia até agora, se o sequestrador deu algum sinal, deixou alguma pista.

− Desculpe-me perguntar, mas o que você faz aqui? Por que não está com seu filho?

− É que eu precisava de um lugar para me esconder(*). – Agora ele olhava para baixo, notavelmente constrangido. − Eu não tive coragem de encará-lo, de dizer que sua mãe não foi sequestrada. Ela simplesmente fugiu... de mim.

− Você pretende contar ao seu filho que a mãe sumiu por vontade própria?

− Sim, pretendo. Mas como justifica-la sem tornar a imagem dela ruim para o menino? Não posso. Até então ela era uma mãe carinhosa e zelosa.

− E como esposa?

− Maravilhosa. Até sua mudança repentina. Foi rápido e muito breve o período em que a notei diferente. Era uma mulher que mal raiava o sol já pulava da cama bem disposta, com mil ideias na cabeça. Mas ultimamente ela acordava e se arrumava sem pressa, como se não se importasse com nada. Totalmente o inverso.

− Só mudou contigo?

− Sim. A nosso filho abraçava como se o fosse perder. Mas sempre foi assim. Eram unha e carne. Já comigo... De mim, não precisava mais para nada.

− Entendo. – O pequeno homem coçava a barba, como se analisasse cada palavra.

− Não muito tempo antes, estávamos felizes. Mas nos últimos dias dela em casa, seus olhos não mostravam nada. Nenhum sentimento. Estava tomada de um vazio inexplicável.

− Mas ela disse algo que justificasse?

− Ela disse algumas coisas soltas. Conheceu alguém há tempos, mas essa pessoa foi embora. Não sei se foi um amante ou se ela falava de mim e de eu ter mudado ao longo de anos. Disse que eu matei o amor dela. Que para mim o amor era um jogo(*). Não sei até agora o que fiz de errado.

− Ela ao menos se despediu?

− Não. Tentei conversar e ela se negou. Mas na noite anterior eu a vi chorando. E aquelas lágrimas não eram por mim. Eram por ninguém. Sem qualquer sinal de amor.

− Amor que deveria durar pra sempre, né?

− Sim. Mas não durou.

O velho queria tirar aquele homem daquela situação. Afinal ele tinha um filho para criar e dar assistência, não poderia ficar para escondido, ainda por cima bebendo em um bar. Mal conhecia aquele homem, mas sabia que aquele não era seu estado normal.

− Olhe, como posso chama-lo?

− Gabriel.

− Olhe, Gabriel, como eu disse, não sou bom conselheiro. Mas acho que você deveria ir para casa, cuidar de seu filho. Estando perto dele saberá o melhor momento e a melhor forma para lhe dizer a verdade sobre sua mãe. Sei que de você não partirão palavras ruins sobre ela, pois é possível notar que no fundo você ainda a ama. Inspire-se nesse amor para conversar com seu filho. E mantenha o foco no amor de seu filho pela mãe para respeitar suas lembranças.

Gabriel ouvia aquele pequeno e frágil homem falar e sentia o peito se aquecendo. A nuvem negra sobre sua cabeça se dissipava e, mesmo com palavras simples de um conselho óbvio, sua mente clareava. Não parecia um conselho, mas um encanto, pois cada palavra o tocava como um gongo – forte e ressonante.

− Achou que vou mesmo.

− O senhor tem como ir para casa? Precisa que chame um táxi? – o velho indagou.

− Vou ligar para meu motorista. – Gabriel fez um sinal para que o atendente lhe trouxesse a conta.

− Aguardo contigo. Quero ter certeza que estará bem.

− Não é necessário. Meu motorista está a apenas dois quarteirões daqui. Logo chegará.

− A vida irá conduzir o senhor e seu filho ao consolo de suas almas. Esse acontecimento vai deixar cicatrizes, mas antes a dor e as feridas podem levá-los a caminhos errados e mudar o destino de sucesso de vocês. Cabe ao senhor conduzir o jovem pelo melhor caminho e a cuidar de si e dele nesse caminho. Torço para que seu coração encontre conforto e sua mente, clareza.

Era estranha a sensação de tranquilidade que Gabriel experimentava agora. Mas desde o dia anterior não se sentia tão bem. Estava mais leve, como se pudesse voar, mas nunca sentiu seus pés tão fincados ao chão. Era um chamado à realidade o que aquele senhorzinho estava lhe proporcionando. E ele não podia estar mais agradecido.

− Sabe, o senhor não é tão mal conselheiro como disse. Obrigado, senhor...

− Todos me chamam de Fu.

E assim, o velho deixou o bar e Gabriel para trás. Enquanto caminhava, uma pequena criaturinha verde sai de dentro de sua bolsa e põe-se a conversar:

− Mestre, porque fez tanta questão de conversar com aquele estranho? Tínhamos outras coisas para fazer.

− Sim, Wayzz, tínhamos. E uma delas nós fizemos. Estávamos assegurando o destino de um futuro portador de um Miraculous .

− Como assim, Mestre?

− O filho desse homem está predestinado a ser um herói. Mas para tanto ele deve estar no caminho correto. Depois de perder a mãe, se ele também perder o pai, quem sabe em que condições estará para receber seu Miraculous?

− Então essa conversa fez parte de um plano maior, para o futuro?

− Sim, amigo Kwami. Salvar esse homem, não deixa-lo beber mais, nem desviar seu caminho, tudo irá poupar algum sofrimento que poderia levar um futuro herói a se tornar um potencial vilão. O mundo não precisa de mais vilões.

− Muito sábio, Mestre.

− Agora vamos. Temos uma padaria para visitar e mais pais para aconselhar.

Notas finais
(*) esses trechos fazem referência a música Yesterday, também dos Beatles. Muito triste e bonita, se encaixa direitinho nessa fic também. Eu sinceramente acredito que não foi por acaso que Marinette e Adrien ajudaram o Mestre Fu e mereceram seus Miraculous. Acho que eles eram destinados a tê-los.