Beast And The Harlot
4 Quarto ato: Paz
Notas iniciais
Minhas aulas na faculdade voltaram, assim como toda a minha rotina. Passo meu "tempo livre" fazendo trabalhos e, além de tudo, consegui um bloqueio criativo imenso. Não me perguntem como eu consegui escrever este capítulo, porque eu sinceramente não sei; os astros devem ter se juntado para me mandar forças, porque nem uma frase sequer eu conseguia elaborar.
Me perdoem ): A culpa estava me corroendo a alma aqui, e eu sei que não sou digna de nenhum dos comentários que vocês me enviaram. Nunca vou parar de pedir desculpas, então acostumem-se HIAUEHAIUEHUAIHEUIAHE E nossa, muito obrigada por todos os reviews. Fico tão feliz quando os leio! Também demorei para respondê-los, então estou duplamente em débito com vocês. >
A propósito, o capítulo está bem fraquinho porque eu não consegui pensar em nada melhor. Mais uma vez, desculpem ): Vou começar a fazer despacho para afastar esse bloqueio criativo dos infernos e escrever mais.
No mais, enjoy it.
E DESCULPA MAIS UMA VEZ ;____________________;
Quarto ato: Paz
She is a dwelling place for demons.
“Para ser sincero, nem eu mesmo sabia o que se passava naquela cabeça de rato.” Brian soltou uma gargalhada curta, cheia de saudade. “Lembro da vez em que nós estávamos fazendo umas imagens para colocar de cenas extras para nosso DVD... Estávamos andando em um lago, todos nós, e do nada o Jimmy começa a gritar que nem um corno ensandecido. Quando demos por nós ele estava perseguindo um pato e gritando ‘caralho, olha o tamanho desse pato, meu Deus, venha cá seu pato do caralho!’”
“Um... Pato?” A meretriz achou graça. O homem riu do tom curioso da mulher.
“Sim, um pato. Aquele cara era muito estranho.”
Eles possuíam todo o tempo do mundo. Enrolados nos finos lençóis, pareciam duas existências que descobriram os prazeres da vida pela primeira vez. Mesmo sabendo que aquele ato teria conseqüências, a besta e a meretriz completavam os três dias de confinamento em um quarto de hotel, ignorando completamente a realidade que os envolvia do lado de fora. Realidade? Ora, para eles a vida não passava de um mero borrão, um simples fragmento do que já se fora. Sua realidade, agora, encontrava-se entre quatro paredes, na penumbra de um quarto iluminado pelo último filete do pôr-do-sol. Abusavam dos serviços que o hotel oferecia, ignorando sempre os horários determinados para cada refeição e pedindo-as uma hora ou duas antes ou depois. Achavam engraçado o rosto do homem que sempre os servia, visivelmente emburrado para com a petulância daqueles dois clientes. Gargalhavam como duas crianças travessas quando fechavam a porta, trocando olhares cúmplices de quem guardaria aquela imagem pelo resto de uma vida. Não fazia sentido lembrar da hora que o sol nascia ou que se punha, que haviam mais com o que se preocupar a não ser com o quarto que os abrigavam. Brian já não ligava mais para o celular que reclamava a cada quinze minutos e a meretriz não queria saber dos clientes que deixara esperando enquanto estava com sua besta. Ver o dia raiar e cair na presença um do outro era infinitamente mais importante do que aquilo, eles concordavam.
Com a cabeça sobre a barriga lisa da meretriz, Brian parecia se encontrar em outro plano. Um plano mais bonito, onde apenas as mãos da mulher existiam e acariciavam seus cabelos lenta e amorosamente. Quando o silêncio predominava entre ambos, contentavam-se apenas em ouvir a respiração um do outro e lembrar que, sim, existiam. Lá estava ela, banhada em todos os seus mistérios e desejos; lá estava ele, descobrindo que precisava da força dela para viver. Não sabiam a quanto tempo estavam ali, os dois, ouvindo e contando histórias que lhes pareciam mais fáceis de se lembrar. Agora a meretriz sabia um pouco mais da vida de Brian: O nome de seus amigos, apesar de não se lembrar da maioria. O nome de sua banda, mesmo que pareça ligeiramente difícil de se pronunciar. Algumas músicas. Um pouco de sua infância, de sua carreira, de sua forma de enxergar a vida. Agora Brian era uma peça que começava a ser decifrada na vida da mulher, e isso a agradava tanto ao ponto de fazê-la esquecer dos homens com quem havia marcado uma noite de prazer. Contara-lhe pouco sobre sua vida, apenas detalhes simples como onde passara a infância, se ainda tinha pais ou onde morava. Mesmo com o pouco que sabia, Brian sentiu-se feliz por saber ao menos mais um pedacinho da vida de sua meretriz.
“Sabe...” A voz rouca e fraca de Brian tomou o silêncio. “Acho que Jimmy estava certo, no final das contas.”
A meretriz não respondeu, dando espaço para que a besta continuasse.
“Quero dizer, sobre a vida. A vida é muito curta. Por mais que se tenha dinheiro, mulheres ou coisas deste tipo, ela vai acabar e você só vai levar as boas coisas que conseguiu dela. Aquele cara aproveitou a vida ao máximo...” Sua voz fora embalada pela saudade e pelo orgulho. “É muito difícil aceitar que ele se foi.”
“Eu sei.” Não, ela não sabia. Mas não conseguia se imaginar fazendo outra coisa senão acalentá-lo naquele momento. “Você é forte, Brian. Qualquer pessoa que conviva contigo pode dizer, e ele principalmente. Essa dor vai passar e você só conseguirá lembrar das coisas boas que viveram juntos.”
A besta encarou a mulher, vislumbrando apenas a silhueta de seu rosto na penumbra do quarto. Gostaria que o mundo parasse de girar naquele momento, apenas para que pudesse aproveitar mais daquela sensação tão gostosa que era ter alguém lhe amparando. Não estava acostumado com isso. Era sempre o mais forte, aquele que precisava agüentar a dor para confortar aqueles que sofriam tanto quanto ele. Assim fora quando Jimmy partiu. Não se permitiu fraquejar para que seus amigos pudessem ser acalentados, mesmo sabendo que não teria a sorte de encontrar alguém que fizesse o mesmo. Sorriu ao pegar-se pensando no quanto a vida dava voltas e mais voltas. Se antes ele não conseguia se imaginar precisando pegar a força de alguém emprestada, agora ele não conseguia sequer pensar no que faria se sua meretriz não estivesse ali.
E ele sentiu, em seu coração, algo que não sentia a muito tempo. Aquela coisa estranha que chega de repente, num clarão, e que toma-te aos pouquinhos sem nem ter pedido licença. Lembrou-se de uma Michelle que não existia mais e de todas as outras mulheres que tivera em sua vida. Eram lindas, ele recordava, mas era curioso reparar no quanto apenas uma única mulher parecia ser a junção de todas as outras. Michelle, Laura, Amanda, Jessica, Gisele, Mariana, Kate, todas as qualidades que se encontravam na mulher cujo nome imiscuía-se oculto no meio de tantos outros. Todas as mulheres que tivera unindo-se na única mulher que ele jamais poderia ter. E porquê não tê-la? O que faziam naquele momento, senão pertencer um ao outro? Embolados nos lençóis de um hotel qualquer, sem destino, sem desejos; a besta e a meretriz, apenas, dividindo daquele sentimento tão assustador e prazeroso que os tomava.
Brian sentou-se sobre a cama, fazendo com que a meretriz se queixasse baixinho. Apalpando todos os bolsos de sua calça, deu-se por satisfeito apenas quando encontrou o pedaço de papel que havia esquecido ali. Ergueu-se e caminhou até o interruptor para acender as luzes, enquanto a meretriz cobria os olhos acostumados com a escuridão. Também sentiu-nos doloridos, mas ignorou aquilo e voltou para a cama.
“Comecei a trabalhar nesta música há alguns dias. É para o Jimmy.” Ele desdobrou o papel, estendendo-o para a meretriz. “Não tem muita coisa ainda, mas creio que possa fazer algum sentido um dia.”
A mulher ensaiou sua melhor expressão de inteligência, mas no fundo sabia que não o havia enganado. As quatro frases e as palavras soltas que flutuavam por cima da pequena folha pareciam dizer alguma coisa, mas a meretriz não conseguiu discerni-las de imediato. Só conseguia pensar no homem tão frágil a sua frente, que partilhava com ela sua dor e seus anseios. Precisou de seguidos instantes para que pudesse assimilar o que a junção de sílabas no pequeno papel queriam dizer, e admirou-se com a profundidade e carinho que aquelas palavras continham. Sorriu ternamente. Apesar de fisicamente assustador e sem sentimentos, sua besta possuía um coração tão frágil quanto o mais caro dos cristais. E ela, diga-se de passagem, estava se deliciando em descobrir tanta coisa por seu...
Quem?
Seu amor, uma voz lá no fundo respondeu.
“Eu nunca escrevi nenhuma música.” Brian continuou, e a meretriz aliviou-se por constatar que ele ainda não sabia ler pensamentos. “Quer dizer, ajudei os caras a compor algumas coisas e fazer alguns arranjos, mas quem ajudava mais eram o Zacky, o Jimmy e o Matt. Eu nunca sentei e parei para escrever uma música. Essa é a primeira... Acho que o Jimmy ia gostar de vê-la.”
A letra de sua besta era disforme, mas mesmo assim possuía beleza. Os sinais de sua depressão estavam evidentes naquele pedaço de papel: A tinta da caneta forçada – raiva -, as manchas escurecidas sobre o papel – lágrimas, tristeza – e o amassado tão minucioso que não poderia ter sido causado pelo tanto tempo dentro do bolso de sua causa – incompreensão. E como se a morte não passasse de uma miragem ao longe, a meretriz encarou sua besta com um misto de compaixão e tristeza no olhar. Queria dizer a ele muita coisa, mas não sabia exatamente o quê. Pensou em ajudá-lo a dar continuidade àquela música, mas sabia que isso era algo que apenas ele poderia fazer. E sabia que ele conseguiria, apesar de todos os sentimentos ainda confusos que se apoderavam do homem.
Não se sabe por quanto tempo ficaram ali, se encarando e perdendo-se nos olhos um do outro; castanho sobre castanho, banhados na penumbra do quarto que os abrigava. Não, não os abrigava. Abrigavam-se um ao outro, sendo o amparo que ambos precisavam naquele momento. Ele, por ter perdido Jimmy. Ela, por vê-lo triste. E ambos numa harmonia meio incongruente, meio mórbida e irreal, mas mesmo assim uma harmonia. Era assim que funcionavam, portanto, assim seria.
Brian começou a escalá-la lentamente, alcançando uma das pequenas mãos da meretriz e tirando de lá o papel. Depositou-o sobre uma das escrivaninhas sem tirar os olhos da mulher que permanecia imóvel abaixo de si, ansiando por qualquer movimento que ele viesse a ter. A besta alcançou o rosto da meretriz com o seu próprio, e ela fechou os olhos ao sentir o nariz dele roçando no seu, numa carícia tão simples, mas tão completamente deliciosa. Era bom, ela constatou. Ficaram assim por alguns minutos, um perdendo-se na respiração quente do outro, na vontade louca de beijarem-se e confirmarem aquilo que há muito tempo já se era sabido: Eram um. Dois em um. A perfeita combinação.
O beijo que se seguira fora lento e caloroso, diferente de tudo aquilo que haviam tido desde que se conheceram. Brian a tocava como se ela pudesse se partir a qualquer momento, e a meretriz entregava-se àquela nova sensação como se jamais tivesse nascido para outra coisa. E quando o homem desceu as mãos tatuadas para desabotoar-lhe o sutiã, ela sentiu o que nunca mais pensara sentir: O nervoso da primeira vez. Durante toda a sua vida havia feito sexo com homens de todos os tipos e todos os gostos, mas nunca havia feito, de fato, amor. E ali estava ele, bem em sua frente, beijando-lhe e acariciando-lhe como se nada mais no mundo fosse mais importante. Sentia-se excitada, mas nada se comparava à felicidade e à paixão que sentia naquele momento. Levando-se em consideração todas as contingências que os envolviam, aquilo parecia uma mistura muito, muito perigosa; entretanto, a meretriz não se importava. Se fosse se arrepender depois, pelo menos teria na consciência a lembrança daquela existência que a fizera descobrir sentimentos enterrados dentro de si. Do homem que amava. A besta com alma de salvador.
Brian acariciou-lhe os seios com lentidão exagerada, fazendo-a suspirar a cada toque. Gostava de sentir a respiração entrecortada da meretriz em seu rosto, e quando desceu para tirar-lhe a calcinha, quase pudera vê-la tremer. Já a havia visto nua tantas vezes, mas nunca se cansaria de redescobrir o corpo daquela em especial. Havia algo de diferente naquela vez, algo que ele não conseguia explicar – e nem tentaria, diga-se de passagem. Palavras eram inúteis quando se tratando daquela mulher.
Ajoelhou-se sobre a cama, sem tirar os olhos de sua meretriz, e começou a despir-se conforme sua ansiedade aumentava. Queria possuí-la, queria amá-la, queria fazê-la sentir a gratidão que ele sentia. Gratidão... Sim, ela o havia salvado. Mas Brian não estava ali apenas por sua gratidão. Eram todos os sentimentos do mundo misturados em um único ponto, traduzindo-se no brilho dos olhos de sua meretriz. Jogou o punhado de roupas no chão e deitou-se mais uma vez sobre ela, beijando-lhe suavemente o pescoço antes de penetrá-la da forma mais carinhosa que um dia tratara uma mulher.
Aquilo era tão mágico, pensou a meretriz. Se antes ela se achava perdida no mundo, hoje descobrira um local para si. Sentia-se completa, amada, feliz como nunca antes. Abraçou Brian com ternura, sentindo seu rosto quente sobre o seu próprio e cruzando as pernas nos quadris dele, de forma que a distância se reduzisse mais ainda. Suspiros e gemidos e corações acelerados pareciam formar uma melodia curiosamente bela, e quando ambos chegaram ao clímax, nenhum dos dois se separou. Permaneceram ali, abraçados, perdendo-se e encontrando-se nos olhos um do outro como se houvessem esperado toda uma vida para chegar àquele momento.
“Obrigado.” Sussurrou a besta, a voz rouca e baixinha fazendo com que os pêlos da meretriz se arrepiassem. “Obrigado por ser o que é e por estar aqui.”
“Sou eu quem devo te agradecer... Obrigada, Brian. Obrigada por existir.”
Ele a beijou mais uma vez, a última vez naquela noite.
E adormeceram assim, abraçados, constatando que o paraíso poderia sim existir.
Um pequeno pedaço de paraíso.
Aquilo era mais do que o suficiente.
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