Beard, tea and tobacco.
17 Do you want dinner with me?
Notas iniciais
Leesburg, Virginia – 06 de Outubro.
Confusão! Essa era uma palavra que conseguia definir tudo o que estava acontecendo entre mim e Geoffrey, ou melhor, Sr.Moosen. Por mais que achássemos que as coisas estivessem indo de bem a extremamente bem, não estavam. E de certo modo as coisas só pareceram se complicar mais, quando ele resolveu convidar sua mãe para um almoço, e dizê-la que achava que tinha medo de estar notando como sua vida amorosa com May Belle estava vazia. E segundo ela, realmente estava.
Eu estava perdido no centro de toda aquela situação, que vinha em partes de não saber se eu era de fato o centro, que mais parecia revezar entre mim, May Belle e outra leva de pessoas que faziam parte de nossas vidas. Isso era realmente uma confusão em minha cabeça, e tudo o que queria era que se resolvesse o mais rápido possível.
–Está bem? – Geoffrey almoçava comigo na sala dos professores. – quer dizer, está tão pensativo desde essa manhã. – deu uma mordida no sanduíche de frango, olhando-me por trás dos óculos grossos.
–Sim estou. – sorri, ainda mastigando. – só pensando em algumas coisas. Coisas bobas. – dei de ombros. Podia sentir o calor que refletia da janela e queimava os cabelos castanhos em minha nuca grosseira.
–Coisas bobas. – repetiu com os olhos voltados para baixo, por trás das lentes e da armação. Geoffrey também usava óculos, assim como eu. As lentes eram quase tão grossas e escuras quanto as minhas, e deixavam seus olhos grandes e brilhantes. Esplêndido! Suas pernas estavam cruzadas a luz do sol do meio dia, e o garfo lhe corria até os lábios, fazendo-o parecer um diretor até mesmo no modo de comer.
–Gosto de vê-lo comer. – mudei de assunto. – quer dizer, é engraçado. – sorri de canto, como se tal ação não fosse confirmar meu argumento.
–Engraçado? – o garfo arou no meio do caminho.
–Sim. – pareci sussurrar. – o modo como cruza as pernas e mastiga. Seus óculos e suas roupas. – olhei-o de cima a baixo umas mil vezes. – tudo. Entende? É engraçado. – dei de ombros.
–Você também é. – olhou-me de soslaio. – sabe essa sua mania de usar suéteres e beber chá. Seu cabelo bagunçado e esse seu jeito. – umedeceu os lábios.
–Esse meu jeito? – deixei o sanduíche sobre meu colo, enquanto meus olhos encaravam os seus. – o que tem ele?
–Nada. – deu de ombros. – só é engraçado. – arqueou uma das sobrancelhas de modo que um sorriso se desenhou junto à expressão. Ficou em silencio por um tempo, enquanto o som da minha mastigação quase silenciosa tomava a sala. – você. – falou um pouco alto. – você quer sair para jantar. – falou mais baixo. – hoje à noite. – sussurrou.
–Jantar? Hoje à noite? – umedeci os lábios cheios de migalha de pão. – acho que não posso, desculpe. – espremi os olhos. – tenho de preparar minhas aulas para amanhã.
–Charles. – sua voz soou suave no espaço aquecido que era a sala dos professores. – amanhã não teremos aulas. – comprimiu os lábios quase sorrindo. – por favor, jante comigo. – meus olhos não conseguiam se levantar aos seus. – passe a noite comigo.
–Passar a noite? – engoli em seco.
–Sim. – seus olhos castanhos escuro, piscaram de maneira lenta, derramando todo seu encanto sobre minha resposta.
–Claro. – sorri.
–Ótimo. – ajeitou o cabelo com os dedos. – passo na sua casa as oito.
–Na minha casa? – indaguei exclamativo. – não pode aparecer na porta da minha casa. Se minha mãe te vir ela ira surtar. – tirei os óculos. Geoffrey sorriu, passou a mão por trás da nuca, mordiscando o lábio inferior.
–De qualquer forma, valeria à pena. – deu uma rápida olhada no relógio de pulso, despedindo-se e saindo pela porta.
19h47min
Faltavam apenas treze minutos, e eu estava nervoso demais para não agir como uma criança contando os minutos para seu aniversario. Andava de um lado a outro na pequena cozinha. Segurava entre os dedos uma xícara de chá que fumegava densa, assim como meu nervosismo diante da situação atual.
–Charles Ocean. – minha mãe cruzou o corredor, adentrando a cozinha. – sente-se em um desses bancos, ou espere seja lá quem na varanda, mas não fique gastando meu piso de madeira andando de lá para cá.
–Desculpe, estou nervoso. – sentei-me próximo ao balcão.
–Ainda acho que está exagerando. – passou o guardanapo sobre os ombros. – creio que não seja a princesa a t buscar em casa, ou estou errada? –arqueou a sobrancelha.
–Não, não é a princesa. – suspirei.
–Então por que o nervosismo?
–Não sei. Talvez esteja um pouco nervoso com sua reação. – dei de ombro, como se não soubesse o real motivo para tal nervosismo.
–Não se preocupe comigo. – abanou a mão em minha direção. – não tenho mais idade para brigar com suas namoradinhas.
–Não é nenhuma namoradinha. – disse de imediato. – são apenas negócios, e nada, além disso. – beberiquei um gole do chá. Antes que pudesse dar mais uma olhada no relógio, escutei ao lado de fora o som suave do carro estacionando. O cinza brilhou pela janela, refletindo a luz da lua, minha mãe andou até a janela, afastando a cortina a fim de enxergar.
–Quem é a garota que consegue ter um carro desses com um salário de professora? – não tirou os olhos do vidro escurecido do outro lado do gramado.
–Já disse que não é uma garota. – busquei o casaco no gancho ao lado da porta de entrada.
–Não, você disse que não era uma namorada. – rebateu.
–Nenhuma das duas. – sai até a varanda, sendo acompanhado por minha mãe. Geoffrey logo saiu do carro, estava usando um terno que se parecia com um daqueles modelos de 1960 marrons. Seus sapatos eram bonitos, mas não combinavam com o terno e todo o resto. Seu estilo era extremamente engraçado naquela noite. – Sr.Moosen. – fiz um gesto de cabeça como cumprimentá-lo.
–Sr. Ocean. – pude ver um pequeno sorriso ao canto de seus lábios. – Sra.Ocean. – sua voz se dirigiu firme até a senhora parada na varanda.
–Olá Sr.Moosen. – minha mãe soou como se dissesse “o que faz na minha porta!”
–Bela noite, não? – indagou.
–Claro. Ótima. – cruzou os braços.
–Muito bem. – comprimiu os lábios em um sorriso. – Sr.Ocean? Pronto para ir? Os outros professores estão a nossa espera. – corcovou as sobrancelhas.
–Claro. – ajeitei o casaco sobre meu antebraço. – podemos ir.
20h23min
Os garfos batiam nos pratos e as facas ao canto, reluziam as luzes amareladas das lâmpadas. Geoffrey estava sentado a minha frente com o cotovelo sobre a mesa, olhava algo em meu rosto, enquanto um sorriso saltava sobre seus lábios rosados. Eu fingia não vê-lo, mas olhava de soslaio vendo a expressão boba em seu olhar.
O restaurante era um daqueles que não eram muito conhecidos. Os garçons eram inexperientes, e a iluminação horrível, mas segundo Geoffrey a comida fazia tudo aquilo fazer a pena, e por algum motivo eu acreditava nele e em toda sua recomendação de pratos e bebidas. Não demoramos a pedir um prato de nome complicado, alemão, e uma garrafa de vinho branco, meu preferido.
–É estranho vê-lo bebendo vinho. – sorriu por trás da taça.
–Poe quê? – desci a taça até a mesa pesada.
–Não sei, talvez por que na maior parte do tempo te vejo bebendo chá.
–Entendo. – dei um gole no vinho. – sabe, acho que as coisas não poderiam estar melhores.
–Talvez. – sorriu. – poderíamos estar em casa, abraçados, na cama.
–Na cama. – sorri abaixando os olhos. Um dos garçons logo se aproximou, trazendo consigo um casal. A mesa ao lado parecia estar preparada para eles. De soslaio conseguia ver o vestido vermelho da mulher corpulenta, e a silhueta masculina com um terno risca de giz escuro.
–Obrigado. – o homem agradeceu firme. Geoffrey passou seus olhos sobre os meus, dando um sorriso tímido.
–O que acha de pedirmos sobremesa? – indagou ao que eu assenti. – muito bem. — virou-se para o garçom ao lado. – com licença. – chamou. O garçom virou-se parando como uma porta giratória. Da mesa em que estávamos sentados era possível ver o outro casal, que também pareceu nos ver.
–Geoffrey? – indagou a mulher sentada ao lado. May Belle.
Fale com o autor