Beacon Hills Institute
22 Encontro - Parte III
Notas iniciais
Sala escura. Cheiro forte de pipoca e manteiga derretida. Poltronas de feltro vermelho. Derek analisava todo o ambiente com certa curiosidade, lógico que já tinha ido ao cinema de Beacon Hills, mas já fazia muito anos, provavelmente fora na sua infância e início da adolescência, desde então nunca mais sentiu vontade de se entregar as atividades sociais da cidade. Talvez, Pietro estivesse certo nesse quesito, estava vivendo como um ermitão depressivo, pelo menos até Stiles aparecer. Como ,em tão pouco tempo, aquele pequeno humano conseguiu influencia-lo de tal maneira a fazê-lo a abandonar seu antigo modo de viver? Não tinha resposta para essa pergunta, mas Derek nunca fora alguém para se aprofundar muito neste tipo de coisas, evitava problemas, principalmente aqueles de escala emocional. O que sabia era que podia sentir meu lobo interior abanando o rabo, todo feliz por estar ao lado de Stiles...
Um dedo tocou o meio da testa de Derek, justamente entre as suas sobrancelhas.
— Não pense demais, garotão, acho que você pode sobrecarregar o seu cérebro e aí, BOM! Miolo cerebral para todo lado! — Disse Stiles fazendo uma dramatização com as mãos parecendo indicar a explosão da caixa craniana do lobisomem.
— Isso foi muito nojento... — Reclamou Abraham que estava ao ponto de comer uma pipoca e desistiu do ato, provavelmente tinha imaginado os miolos do Hale se propagando por todo o cinema.
— Oh! Oh! — Pietro, com a boca cheia de caramelo, começou a falar —Sabe o que deveríamos ver no próximo encontro duplo? Filme de zumbi!
— Próximo encontro duplo? — Questionou Derek sem esconder o rosnado. Se tivessem outros encontros, preferia que não ter que compartilhar o seu humano com mais gente. Ainda mais, como poderia fazer as “coisas” que queria? Não que fosse tão pervertido assim... Mas... Tinha suas necessidades e sabia que Stiles também sentia o mesmo. Podia sentir o aroma de sua excitação toda a vez que se beijava e se tocavam. Então, um pouco de privacidade seria preferível.
— Seria fantástico! Adoro filmes de zumbis! — Disse o adolescente ignorando totalmente o olhar contrariado de seu acompanhante — Ainda mais, acho que deve ser o único personagem de filme de terror que de fato não existe...
— Eu não diria isso... — Comentou Aby voltando a comer a sua pipoca.
— He...He... — Stiles deu uma risada nervosa — O que? Vai me dizer que zumbis existem?
— Em teoria, com o encantamento certo e ferramentas adequadas...
— Zumbis não existem! — Cortou Derek — Não devem existir, pelo menos.
— Por acaso estás surdo, Rex? Eu falei “em teoria”!
— Eu escutei o que disse... — Rangeu os dentes para o suposto caçador que parecia mastigar a pipoca em um modo desafiante — Mas isso não significa que...
— O meu santo pai das batatas fritas com queijo! Zumbis existem! — O garoto praticamente gritou, interrompendo a discussão entre os dois rapazes. Um sonoro “ SHHH” foi ouvindo, advindo das outras pessoas que ocupavam a sala indicavam que talvez Stiles tivesse exagerado um pouco no seu entusiasmo.
— E eles comem cérebro? Andam mancando? Dançam a música Triller? — Stilinski iniciou o seu bombardeio de perguntas. Derek lançou um olhar aterrador para o caçador, claramente indicando que tudo aquilo era culpa dele.
— Eu sei lá! — Aby deu os ombros — Eu disse e repito “em teoria” que eu saiba nunca foi de fato tentado. Esqueça o Voodoo, os zumbis ali criados é uma mistura de controle mental e ervas místicas, não criam os verdadeiros zumbis das histórias de ficção.
— Dude! Isso é muito maneiro! — Stiles estava tão excitado com o novo conhecimento que praticamente estava saltando da sua poltrona, Derek resolveu intervir.
— E eu que pensei que seu ser sobrenatural favorito fosse lobisomens... — Soltou um resmungo bastante audível, isso chamou a atenção do humano que soltou uma risada.
— Mas eu nunca disse que lobisomens eram os meus favoritos. — Derek rosnou, não gostando daquela afirmação — Contudo, tenho certeza que um lobisomem, dentre muitos, é meu favorito, sabe quem é? Eu te dou uma dica, o rosto dele parece de alguém que chupou limão! Mas, não que seja algo feio, não! Tipo é algo sexy... Er... Não que tenho algum fetiche por pessoas com cara enfezada! A única cara ranzinza que gosto é a dele e... Melhor eu calar a boca, não é? Já estou falando demais... — Terminou o seu estranho discurso mordendo o lábio inferior e baixando a cabeça, querendo, talvez, ter a habilidade de desaparecer.
O Hale rolou os olhos, mas não pode esconder um pequeno sorriso se formando em seus lábios.
— Owt! Isso foi fofo! — Disse Pietro.
— Cada um com seus gostos, por mais estranho do que eles sejam. — Acrescentou Abraham criticamente.
Derek iria dar uma resposta à altura, mas o apagar das luzes indicando que o filme iria começar o impediu de fazê-lo, na verdade, devia aproveitar a escuridão e colocou o braço ao redor dos ombros de Stiles, o trazendo mais para perto de si, adorou ver que o garoto não se opôs ao gesto, pelo contrário, se apoio totalmente no outro, se acomodando preguiçosamente.
Pietro podia ver muito bem o que estava acontecendo com o casal número 1, já que vampiros tinham uma perfeita visão noturna, não pode negar que sentira um pouco de inveja. Derek sendo todo romântico com o humano... Mirou de relance Abraham que comia as pipocas e fitava a tela do cinema com desinteresse. Será que poderia... Quem sabe...
— Não no primeiro encontro, sangue suga. — Respondeu o caçador como se tivesse adivinhando o que se passava na cabeça do vampiro, bem que não precisava ser um gênio para concluir aquilo.
Pietro soltou um grande suspiro se sentindo rejeitado... Bem que, na verdade, não precisava acelerar as coisas. Com o tempo Aby iria cedendo e seriam um casal mais açucarado do que suas deliciosas jujubas.
Algo quente o tocou. Estava sobre a sua mão. O vampiro olhou para a braço e teve que conter uma exclamação de pura felicidade que seria muito semelhante a um grito de uma fangirl ao ver o seu ídolo diante de si... Abraham estava segurando a sua mão! No primeiro encontro! Isso é um grande avanço!
— Idiota... — Resmungou o caçador, mesma na escuridão Pietro podia ver com facilidade o rubor de seu rosto.
~~**~~
— Por que todos os filmes antigos são sempre tão melodramáticos... Tipo, cara... O monstro sempre se dá mal! — Reclamou Stiles cruzando os braços, o filme tinha acabado e todos se direcionavam para as saídas.
Derek, apesar da péssima representação do que seria um lobisomem, tinha gostado do filme. Para muitos a mordida era uma dádiva, pois ao se transformar ganha habilidades fora do comum, contudo, também pode ser vista como uma maldição, estaria susceptível a outros fatores e leis que os humanos nem ao menos imaginavam. Ao se tornar um lobisomem não significava que terias liberdade, existem territórios, alcateias, a hierarquia... E agora que a sociedade humana sabe da existência destes seres, deve-se agregar ainda mais leis e responsabilidades. Tolos são aqueles jovens que buscam fugir para o mundo sobrenatural para escapar de seus problemas, acaba só criando novos.
— Eu achei interessante. — Disse o caçador ao fim — Bem que as técnicas empregadas na caçada não foram as mais adequadas.
Lógico que Abraham iria focar nessa parte do filme.
— Você iria gostar do filme do drácula, afinal, o seu suposto antepassado aparece nele. — Falou Pietro todo risonho. Derek logo notou o motivo de todo aquele sorriso bobo, o jovem caçador ainda segurava a mão do vampiro, mesmo após saírem da sala, pelo visto Abraham ainda não tinha notado o fato para a felicidade de Pietro.
— O verdadeiro Abraham Van Helsing nem era considerado um grande caçador, era um estudioso, para muitos um excêntrico da época, foi o seu filho, Abraham Van Helsing II, meu tataravô que começou, verdadeiramente, o legado da família. — Explicou em um tom cansado — Talvez, o primeiro Van Helsing nem quisesse ser um caçador, só estava curioso em relação ao mundo sobrenatural, nem sempre devemos tratar o que não conhecemos usando a violência e o temor. Um verdadeiro guerreiro pensa bem antes de empunhar sua arma. Pelo menos é o que eu acho.
— Oh! Como sempre, Abraham Lincoln faz ótimos discursos! — Disse Stiles dando um tapinha de leve no ombro do amigo. Aby chegou até forçar um sorriso.
Derek nunca chegou a pensar muito sobre como deveria ser um clã de caçadores, na verdade, sempre pensou que todos eram um grupo de aficionados por aquele jogo grotesco de perseguir, capturar e empalhar criaturas, sendo os seres sobrenaturais apenas uma adição em sua coleção e fetiche sangrento. Mas a verdade é que essa visão era carregada de preconceitos, sua mãe muitas vezes tinha explicado que tão pouco os seres místicos eram santos, muitos se utilizavam de suas habilidades para causar sofrimento a outros, sendo o principal alvo os humanos, o único ser vulnerável a essas forças que para eles eram desconhecidas, os caçadores foram criados como uma forma de proteger e muitos tinham um código de conduta. Humanos e seres sobrenaturais, bons e maus, existem em ambas realidades. Abraham não parecia ser alguém que Derek devesse temer, podia cheirar o medo do garoto quando começava a falar de sua família, o garoto sabia muito bem esconder suas emoções por trás de uma máscara de indiferença, mas não pode ocultar o seu cheiro, tão pouco os batimentos cardíacos.
— E agora? Vamos comer o que? Eu voto por uma pizza de chocolate! — Pietro quebrou o clima nebuloso que se instaurou no grupo.
— Mais comida? — Aby o fitou surpreso, afinal vira como Pietro devorou todas as guloseimas que comprara.
— E eu que pensei que vampiros gostassem só de sangue... — Stiles estava surpreso pela a quantidade de açúcar que aquele rapaz consumia, será que essa era uma característica dos vampiros? Serem doidos por açúcar!
— Sangue é necessário, lógico, mas em pequenas quantidades diárias, são como micronutrientes essenciais, sabe? Fora isso podemos comer tudo, o problema é que não temos um paladar como vocês humanos, não conseguimos sentir tantos sabores diferentes e em geral tudo parece ser o mesmo gosto para nós. Sabores fortes como o doce, apimentado e o salgado, isso conseguimos identificar, principalmente quando a comida está mergulhada em condimentos!
Bem, isso explicava o fascínio do vampiro por doces, em parte, pelo menos.
— Podemos sair para comer alguma coisa... — A fala de Stiles foi interrompida ao notar mais alguém saindo da outra sessão de filme.
— O filme foi interessante, não é?
— Para falar a verdade, nem notei muito o filme...
— E o que ficou fazendo a sessão toda?
—Er... Bem... Fiquei vendo você... Digo...Droga, isso soou estranho, não é?
— Bem... Soou um pouco sim, mas... Foi um estranho fofo.
O mistério do desaparecimento de Scott foi solucionado. O seu suposto melhor amigo tinha saído também em um encontro e nem ao menos avisou... Mesmo que, Stiles também não tinha informado sobre seus próprios planos.
Opa... Isso vai gerar um problema.
— Stiles? — A voz de Scott tinha abandonando o jeito meio leso e inseguro que falava com Alisson para um tom irritado e rosnoso (será que existia um adjetivo assim? Bem que para os lobisomens, rosnar era mais que uma ação era um modo de ser!).
— Oi, Scotty! Que coincidência, não? — Disse exibindo uma risada nervosa.
— Aby? — Alisson fitou o seu amigo caçador e esse logo notou que ainda estava segurando a mão de Pietro e imediatamente soltou.
— O que você está fazendo aqui? — Inqueriu Scott, todavia seu olhar não estava focando no seu amigo e sim em Derek.
— O que achava que vim fazer aqui? Dançar salsa? Lógico que assistir um filme com os meus amigos. Tipo, eu poderia até convidar você, mas ultimamente está difícil de te encontrar, ne?
Scott não respondeu, continuava mirando Derek e esse devolvia o olhar. Algo estava acontecendo aqui.
Abraham inspirou fundo e por fim soltou um longo suspiro.
— Alisson, sabe aquela vez que, durante uma reunião dos clãs dos caçadores, você foi tomar banho e percebeu que seu cabelo tinha ficado loiro por que alguém colocou água oxigenada em seu Shampoo? Pois é, fui eu!
Isso parece ter sido o suficiente para quebrar o transe entre os dois lobisomens.
— Como é que é?! — A garota, que antes parecia ser bastante contida, assumiu um semblante totalmente novo, algo que fez até Stiles tremer, bem que na verdade que o adolescente não deveria ser um bom espécime de comparação, tendo em vista que até uma barata poderia o fazê-lo tremer de medo... Ainda mais no escuro e sendo aquelas baratas voadoras. Enfim, Allison estava assustadora e ponto final.
— Você fez isso por eu ter ganhado na competição de arco e flecha? — Inqueriu ela avançando na direção do Van Helsing.
— Talvez eu tenha feito para rir da sua cara quando saiu gritando feito uma louca do vestiário... Nua!
Alisson foi a primeira atacar, desferiu um golpe que foi logo contido por Abraham. Outros golpes foram seguidos, socos, pontapés, parecia uma exibição ao vivo de algum filme de Jackie Chan... Tudo aconteceu muito rápido, mas no final, os dois caçadores tinham se afastado e estavam sorrindo.
— Empate de novo. — Disse Aby.
— Eu ainda não acredito que você fez aquilo com o meu cabelo... Bem que, depois eu roubei a sua roupa do vestiário e troquei por outra, toda rosa. Foi muito fofo de ver.
— Aquilo foi humilhante! Meu tio ainda tem fotos guardadas lá em casa!
— Foi hilário!
Ok... Aquilo fora estranho. Pelo visto, havia uma espécie de amizade/rivalidade entre aqueles dois adolescentes mestres nas artes marciais. Scott estava meio abobado, talvez não tinha visto aquele lado meio que selvagem de sua querida Alisson, Pietro, por outro lado, parecia estar planejando conseguir as fotos do evento.
Pelo menos o confronto entre os dois lobisomens fora adiado, por enquanto...
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