Be natural
1 Be natural — capítulo único
Parecia não haver tranquilidade naquele horário de almoço. Logo quando Fenneko pensava que poderia enfim largar seu celular para comer algo sólido, a presença de alguém parecia querer toda a sua atenção, chamando seu olhar para cima como um imã, porém a figura que a encarava do outro lado da mesa mais parecia uma tempestade carregada de relâmpagos.
Talvez essa fosse uma boa analogia para o nervosismo dele.
— Ei, tem como você ficar calmo Haida?
A hiena suspirou, bebendo de seu café enlatado com mais ênfase. Uma cena comum para ela, quase como um seriado sendo reprisado diversas vezes em um canal aleatório.
— Você sabe que eu não consigo. Não quando estou perto dela.
"Ela" porém, não estava ali naquele momento mas estivera minutos antes e Fenneko por sua vez, largara mão de querer comer algo não tirando os olhos de seu celular.
— Por isso não consegue dar um passo adiante. Me admira a sua força de vontade, depois do fora que levou.
Um riso rouco se fez ouvir na pequena distância que os dividia, enquanto ele coçava a nuca, pensando no quão impossível seria deixar de sentir o que nutria por Retsuko. Era algo tão natural quanto respirar e já estava frisado em seu cerne, de uma forma que seria difícil de apagar. Uma emoção pulsante e insuperável, fazendo dele um completo apaixonado por alguém que não retribuía esse sentimento de forma equivalente, sequer era capaz de reconhecê-lo.
Mas ele já esperava pela rejeição. Devido ao péssimo momento em que seu nervosismo desmedido decidira se declarar à ela mas, ainda assim, a forma como ele falara de seus sentimentos...
Haida ainda tinha muito o que aprender.
Não só em como se declarar propriamente mas também, a conhecer melhor aquela por quem seus olhos se atraíram.
— É difícil, principalmente trabalhando com ela na minha frente. Todos os dias de todas as semanas de todos os meses.
— Você é realmente um idiota e a Retsuko também, por não perceber o quão apaixonado por ela você é.
— E você poderia se incomodar menos com isso, Fenneko.
O tom de voz dele mudara ao pronunciar o nome da raposa de orelhas grandes.
E aquilo a irritara completamente.
— Eu só quero que você seja corajoso e deixe de ser um babaca apaixonado! Me incomoda de te ver na manguaça sempre que ela sofre com algum problema. Você não muda e muito menos ela! É ridículo ter que assistir meus dois amigos nesse empasse!
Para Haida, não era algo inédito ver a raposa se sobressaltar sobre seus sentimentos mal velados mas de alguma maneira, aquelas palavras o pegaram de surpresa. Fenneko não estava apenas incomodada com ele, mas também com aquela a quem ele tanto se dedicava.
Logo Fenneko que odiava se prender a outros que não fossem ela mesma.
E ter impressões corretas, porém frívolas sobre esses outros.
— Me pergunto se ela realmente merece alguém tão dedicado quanto você.
Pelo jeito ele conseguira uma boa amiga.
Uma que se importava verdadeiramente com ele.
— É, as vezes eu também me pergunto isso.
A lata de café vazia, fora descartada no lixo reciclável.
Enquanto aquela breve conversa rondara seus pensamentos ao longo do dia.
Não era como se ele não se perguntasse isso com frequência mas em se tratando de sentir e agir, a primeira opção parecia muito mais simples que a segunda e por mais que ele desejasse que algo incrível acontecesse, nada parecia mudar sua situação atual. Mesmo que tentasse começar uma conversa com Retsuko, seu sistema nervoso parecia entrar em pane. As poucas palavras que saíam de sua boca eram tão desconexas, que ele se questionava o motivo de ter tentado novamente.
E seu motivo sentava a sua frente todos os dias, no setor de contabilidade.
Atrás de dois monitores, acompanhado do som de teclados sendo massacrados por segundos de minuto.
Por mais que a impressão fosse a de estar aos pés de um monte muito alto enquanto ela, se encontrasse no topo.
Francamente, se alguém lhe desse moedas a cada tentativa ele poderia comprar um baixo novinho em folha!
E assim, Haida mais uma vez se via de volta a estaca zero. Já se faziam cinco anos que eles trabalhavam juntos no mesmo setor. Cinco anos que ele passara a nutrir esses sentimentos tão significativos por ela e de forma alguma ele conseguia sucesso em convidá-la para um café, dirá um jantar, ele chegara ao ponto de nem ao menos se preocupar mais com a resposta! Seu único anseio era conseguir dizer algo a Retsuko, fazer com que ela o visse de verdade.
Pensando bem, talvez essa fosse a solução prática para o seu dilema amoroso.
Como ele queria que Retsuko o visse?
Até aquele momento eles eram apenas colegas de trabalho, ele pouco a conhecia e era provável que ela também não tivesse muita ideia de seus gostos e desgostos mas talvez ele realmente estivesse indo pelo lado errado na intenção de fazer seus sentimentos se tornarem reais. Haida queria a aprovação dela. Queria a atenção de Retsuko. Desejava que ao menos, ela pudesse ouvi-lo dizer mais uma vez e dessa vez de uma forma mais compreensível, aquilo que sentia por ela.
A verdade era a que guardar o que sentia por tanto tempo já não estava fazendo bem a ele.
Fazia menos bem ter de vê-la todos os dias.
Com um problema ou outro, sem nem conseguir fazer algo para ajudá-la de fato.
Em dado momento ele pensou em seguir em frente.
Mesmo a vendo todos os dias, ele tentou colocar tudo aquilo que sentia em algum lugar e seguiu em frente.
Mas não foi algo duradouro.
Mesmo com pessoas o criticando sobre tal decisão, Haida não conseguia se ver desistindo de Retsuko tão facilmente, ele poderia não ter o que sentia retribuído mas ao menos, queria conseguir fazer com que ela o enxergasse de verdade.
Então quando a viu na cafeteria, contando os centavos para conseguir algo para o almoço, ele se colocou a frente, comprando uma das marmitas que Anai sempre deixava a postos naquele horário do dia e mesmo quando ela recusou seu gesto, ele apenas maneou com a cabeça — lutando ao máximo para não implodir — perguntando o que havia acontecido para ela não ter dinheiro para o almoço. Era algo simples mas era um começo.
Retsuko não dissera com todas as palavras mas parecia que ela havia conseguido uma dívida muito grande em um jogo de realidade virtual.
Ele quase riu desse inconveniente porém se conteve, o olhar dela dizia o quão frustrada estava por isso.
— Então o que acha disso, enquanto você não tiver dinheiro eu pago o almoço para você.
As orelhas dela pareceram saltar.
— Haida, eu não posso aceitar isso!
— Sem problema, depois você me paga.
— Não! Isso é errado, eu não posso me aproveitar de você só porque gastei demais, não posso fazer isso com um amigo!
Amigo?
Retsuko o enxergava como um amigo?
Por cinco anos, ele se fez crer que ela o via apenas como mais um colega de trabalho e todo esse tempo ela o considerava como um amigo?
O céu existia!
— Então se eu fosse um estranho, você aceitaria?
— É claro que não, deixe de ser idiota.
— Se eu sou um amigo para você, então me deixe te ajudar oras! 'Pra quê que eu sirvo então?
Ela encarou a marmita por mais alguns segundos e abriu a tampa. O cheiro da comida fora decisivo para que ela desse uma resposta afirmativa, balançando a cabeça para cima e para baixo várias vezes, enquanto devorava o conteúdo que tinha no pote e um sentimento de contentamento se apossava do peito de Haida.
Aquela não fora uma declaração falha, ele não levara um fora mas ali estavam os dois, dividindo uma mesa e conversando sobre o quão bom era o tempero de Anai.
No final do dia nem metade de suas expectativas foram supridas, mas só de saber que ele não era um completo estranho para Retsuko já valia tanto.
E era claro que ele comemoraria esse grande passo em um bar ao lado de sua fiel escudeira.
— Um brinde! Ao bobo apaixonado que deixou de ser bobo!
Afinal, se ele bebia pelas derrotas, era mais do que justo beber pelas vitórias.
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