Be Your Hero
29 Nós mudamos
Notas iniciais
POV PIPER
Sabe aquele sentimento de estar no topo de uma montanha no Canadá prestes a participar de uma competição de snowboard e então se lembrar que além de medo de altura você ainda está tocando naquela prancha pela primeira vez em sua vida? Eu o estava tendo.
Estava tudo tão confuso!
As minhas lágrimas ainda caíam e eu permanecia refugiada em cima de uma árvore mesmo que eu morresse de medo de altura. Algo dentro de mim avisava que eu não devia temer de algo tão banal e eu preferira esquecer de tudo á minha volta e pensar numa outra realidade.
Momentos felizes, certo? Não era como se eu pudesse comer ambrósia para esquecer, mas eu procurava lembranças boas.
— Piper, você não pode ser um pouco mais feminina? — Ethan perguntou ao me ver com calças jeans velhas e uma blusa do Aerosmith.
— E qual o problema? Não é como se fossemos pra algum lugar. — ri do desespero dele.
Ethan sacou seu espelho de bolso e de repente eu me encarando meu próprio reflexo.
— Vê? Você e eu somos o casal perfeito. Você é a mais bonita daqui e eu o mais desejado. — ele diz com um sorriso superior.
— E daí?
O fato é que a sua fala havia me dado nojo. Aparência não era tudo, o que importa é a personalidade da pessoa, a inteligência, a bondade e não um simples reflexo.
Por um instante me perguntei o porquê de Ethan ser meu namorado se éramos totalmente diferentes. Não como água e óleo, mas sim tínhamos conceitos diferentes sobre uma mesma coisa.
— Oh minha cara Piper! — Circe riu quando lhe disse que não namoraria Ethan — Já ouviu dizer que opostos se atraem?
— Sim, mas... Ethan não é meu oposto.
— Mas é claro que é! Como explica então a falta de sintonia entre vocês.
— Inimizade? — questionei.
— E por que ele seria seu inimigo? — Circe perguntou interessada demais de repente.
— Eu não sei. — sussurrei.
— Então namore com ele e descubra.
Como num passe de mágica me vi perguntando a mim mesma se essa não seria a ideia do ano.
Não. Aquela não havia sido a pior ideia do ano, definitivamente.
— PIPES?! — ouvi Reyna gritar por mim.
— Aqui. — respondi sem força.
Reyna olhou pra cima até me perceber num dos galhos mais altos da árvore.
— O que você está fazendo aí?
— Pensando.
Ela bufou e encarou a planta como se decidisse algo.
— Eu vou subir, espere um pouco.
Por incrível que pareça vi Reyna subindo a árvore mesmo que aparentasse estar cansada.
— Por que está aí no alto? Pensei que tivesse medo de altura. — ela falou escalando.
— Não faço a menor ideia.
— E você ainda se diz normal! — ela replicou com a fala fraca devido ao esforço.
— Mas eu sou normal!
— Falou a menina que sobe até o topo da árvore sendo que chorou quando teve que visitar o topo do Empire State.
— Lá é alto demais. — explico.
— E aí em cima é subsolo, né?
— Comparado ao Empire State, sim.
E de repente ambas começamos a rir. Aquilo ainda parecia nossa antiga amizade, a verdadeira amizade, e não esse lixo que agora denominamos ser.
Reyna se sentou ao meu lado, porém em outro galho.
— A Annie tá meio estressada ultimamente. Não liga pra ela. — ela sussurrou. Imagino que ela ainda supunha que estava pensando nisso.
— Acho que nós todas mudamos desde que chegamos. — falei.
— Como assim?
— Desde que chegamos á essa ilha e conhecemos Circe parece errado agir como eu agia antes. Quer dizer, quando eu comecei a fazer tudo o que os outros pediam?
Reyna franziu o cenho.
— Tipo seu namorado?
— Isso! — confirmei — Ethan é simplesmente o contrário de mim e não é algo como opostos se atraem.
— Na verdade, isso tá mais para aqueles realities onde transformam animais em civilizados. — ela ri.
— Outro dia ele me perguntou por que eu insistia em usar laranja se aquilo parecia com roupa de presidiário. — falei lembrando do chilique dele.
— talvez sejamos presidiários e o nosso tormento seja aguentar eles.
E novamente uma série de risos prosseguiu.
— Piper, por que você ainda está com Ethan? — ela brincou.
Um flash surgiu na minha mente e eu me toquei que nem eu mesma sabia o porquê de estar namorando Ethan. Afinal, eu não o amava, eu o suportava. Cada detalhe dele me dava certo enjoo por parecer algo artificial até mesmo quando deveria soar natural.
O cabelo cheio de gel para dar ar de galã de novela das sete, o sorriso branco de propaganda de pasta de dente, os olhos intensos num tom raro de castanho, o corpo malhado. Nada daquilo me atraía, nada daquilo me ajudava a fazer com que eu desejasse sua presença.
— Pra falar a verdade, nem eu sei.
— Então, eu te sugiro uma coisa, McLean. — Reyna falou.
— O quê?
— Troque Ethan por uma mula no mercado negro. — ela disse brincalhona.
Seria uma má ideia?

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