Be Quiet
1 Capítulo Único - Teu silêncio diz muito sobre ti
Notas iniciais
Então, essa história tem um total de 16.000 palavras e ela será um teste. Quero saber o quanto de retorno eu vou ter com ela nesse site e no Nyah, porque tenho um projeto de outras ones que também vão estourar 10k e preciso saber se vocês leriam normalmente.
Quem aqui lê fanfics dos gringos, principalmente no AO3, sabe que lá oneshot pequena é de 7k e já li uma 29k ♥ ah! Melhores dois dias da minha vida urheruehurehu Enfim, gostaria que você me dissessem o que acham, se ficou muito grande, se ficou pequeno (sim, tem dessas), se quiser mais, pois estou pensando em fazer uma da Bela e a Fera sobre eles :v
VAI SER ESTOURO!
Mas antes preciso saber o que acham. O tema é algo que faz tempo que tenho vontade de escrever, e planejo explorar mais sobre, quem sabe uma short?
Bom, sem mais delongas, espero que gostem!
Boa leitura!
[...]
Will estava nervoso com o início das aulas. Havia acabado de se despedir de seus pais na frente da faculdade de Nova Iorque ― NYU para os mais práticos ― e já sentia muita falta deles. Sempre fora muito próximo de seus familiares e ter de se despedir deles foi bem complicado ― além de sua mãe ter chorado mais do que deveria.
Entrou na faculdade radiante e ansioso pelo início das aulas de Enfermagem. Finalmente conseguiria seguir seu tão amado sonho em uma faculdade prestigiosa como NYU. Contudo, naquele exato momento, estava perdido.
Basicamente foi instruído para achar a secretaria e pegar seus horários e o quarto que ficaria, mas não conseguia achar ela. Perguntou para algumas pessoas durante o caminho, mas isso só o fez andar ainda mais em círculos confundindo-o totalmente.
Estava basicamente no centro da faculdade tentando se localizar pelas placas dispostas em uma... Bifurcação? Honestamente Will sequer sabia mais o que estava fazendo. Começou a suar pelo nervosismo. E se não achasse a secretaria?
Qual o problema das pessoas em passar informações corretas?
Suspirou pesadamente enquanto lia a mesma placa de antes que dizia “Secretaria” apontando para a direita, mas ele já havia ido por lá e nada de secretaria.
― Vou precisar perguntar novamente. ― resmungou pra si mesmo respirando fundo e caminhando até um grupo de meninas. Elas riam e conversavam animadamente.
Pigarreou chamando a atenção delas:
― Com licença, saberiam me dizer onde fica a secretaria? ― perguntou ele desesperado internamente, mas conseguiu disfarçar bem.
A moça o encarou por um tempo de cima à baixo antes de sorrir.
― Sim, você segue por aquele caminho e entra no prédio vermelho a esquerda. ― instruiu ela: ― A placa da secretaria foi arrancada novamente semestre passado e ainda não arrumaram.
Ah! Então era isso.
― Obrigado pela ajuda. ― agradeceu seguindo caminho: ― Claro, só podia ser isso. ― resmungou pra si mesmo puxando a mala consigo.
Chegou ao grande prédio entrando nele na sequência. Logo de cara viu “Secretaria” escrita acima de uma porta. Respirou fundo caminhando por ela. Viu várias cadeiras dispostas em frente a um balcão. Atrás deles três mulheres em computadores atendendo alguns alunos enquanto outros estavam sentados.
Estava bem cheio, por sinal.
Uma das secretárias o viu:
― Bom dia, poderia se sentar? Irei chama-lo daqui a pouco. ― pediu ela voltando a falar com a menina a sua frente que assinava alguns papéis.
Will fez o que lhe foi pedido. Sentou-se entre duas pessoas e aguardou as moças atenderam quem precisavam antes de chegar sua vez.
― Bom dia. ― disse a secretária sorrindo amigável.
― Bom dia. ― respondeu.
― Qual seu nome? ― perguntou voltando ao computador.
― Willian Solace. ― disse apoiando os cotovelos no balcão. Ela aquiesceu digitando no computador rapidamente.
― Aqui, Willian Solace. Estudante de enfermagem. ― disse ela aquiescendo: ― Seu dormitório fica no Bloco C, quarto 302.
― Como eu chego lá? ― perguntou Will enquanto espiava a tela do computador. A foto que tirou pra faculdade estava terrível, parecia anêmico.
― É um pouco longe daqui, mas é só seguir reto daqui até a biblioteca. De lá poderá ver os dormitórios. ― disse ela mexendo em alguns papéis: ― Assine isso pra mim enquanto eu atualizo seus dados. ― colocou-os sobre o balcão junto de uma caneta e voltou a digitar algo no computador.
Will assinou o resto do contrato que dizia sobre a chave do dormitório e algumas regras de convivência e normas. Terminou no mesmo momento em que ela parou de digitar e recolheu os papéis.
― Bom, é isso. Espero que tenha uma boa estadia. ―disse a moça.
― Obrigado, er? ― Will sorriu sem graça por não lembrar-se do nome dela. A moça sorriu:
― Juniper. ― respondeu.
Assim ele saiu da sala puxando sua mala com ele. Saiu do prédio encarando o arredor curiosamente. Havia algumas pessoas nas mesas dispostas em frente a ele, numa delas um rapaz loiro com uma pelúcia? Will não soube dizer ao certo.
Contudo ele realmente precisava chegar aos dormitórios e não estava apto a mais uma maratona pelo campus em busca de seu quarto. Andou até o rapaz sentado ao lado de outros garotos rindo.
― Com licença?
― Fala novato. ― respondeu o rapaz com o ursinho.
― Como eu chego até os dormitórios? ― perguntou direto. O veterano o encarou por um tempo arqueando a sobrancelha na sequência.
― Tenho cara de monitor? ― resmungou.
― Não com esse ursinho. ― zombou Will torcendo o lábio em desagrado.
Os amigos do homem começaram a rir da constatação de Will enquanto o rosto do veterano ficava vermelho.
― Eu não sou um monitor pirralho. ― bradou irritado olhando para algo à sua esquerda e sorrindo macabramente: ― Mas aquele garoto de cabelos pretos é! ― falou apontando para a direção de onde olhava.
Will seguiu com os olhos. Viu o rapaz com outras duas meninas sentado em uma das mesas com as bolsas em cima delas e copos de café em mãos. Pareciam se divertir com algo que o rapaz havia dito.
― Ele é monitor? Parece novato. ― comentou Will mais para si mesmo, mas o outro viu claramente.
― O nome dele é Nico Di Angelo e estuda arquitetura. Está no segundo ano. ― respondeu ele: ― Vai lá que ele tem a obrigação de te mostrar o local, não eu.
Assim Will foi chutado para longe deles enquanto o maníaco-por-ursinhos-de-pelúcia falava algo com seus amigos que Will fez questão de não ouvir.
Ele caminhou calmamente até a mesa de madeira onde os três conversavam. Uma delas era uma garota negra de cabelos morenos e olhos caramelos. Tinha um lindo sorriso com covinhas além de ter cara de pelo menos quinze anos.
A outra mulher era mais madura, Will poderia chutar uns vinte e três para ela. Cabelos presos em uma trança de lado e olhos castanho-escuro. Sorria também com o braço em volta de um rapaz da sua exata altura.
Cabelos compridos até os ombros lisos e negros. Roupas totalmente pretas igualmente seus olhos, mas o sorriso era bem contagiante. O tal Nico que o homem-ursinho lhe mandou procurar.
Respirou fundo engolindo a vergonha e caminhou até eles.
― Com licença. ― pediu aproximando-se. Os três se viraram para ele ainda com rostos alegres, mas curiosos: ― Sou Will Solace, sou novo na Universidade. Você é o Nico?
O rapaz o encarou agora menos convidativo. Will ficou tentado a recuar, mas conteve-se. O moreno somente aquiesceu. O loiro tentou esboçar um sorriso.
― Me falaram pra pedir pra você se poderia me mostrar à escola. Disseram que você é um dos monitores. ― explicou Will o mais cordial que pode.
Nico franziu o cenho negando. O Solace arqueou a sobrancelha.
― Está ocupado? Oh! Tudo bem então. ― respondeu esquivando-se da vergonha que estava sentindo. Ia ir embora, mas viu Nico cutucando a mulher de tranças ao seu lado.
Ela o olhou de canto aquiescendo.
― Sou Reyna Ramirez. ― apresentou-se lhe esticando a mão. Will a apertou incerto: ― Eu posso te mostrar a escola no lugar do Nico.
― Sério? ― exclamou contente: ― Adoraria.
A moça lhe sorriu despedindo-se dos outros dois. Will trocou um ultimo olhar com Nico antes do rapaz se virar evitando-o.
― Posso saber quem lhe disse que o Nico era um monitor? ― perguntou Reyna curiosa.
― Um rapaz com um ursinho de pelúcia. ― respondeu Will com a voz arrastada. Não foi muito com a cara dele.
― Octavian. ― bradou ela irritada: ― Ele é um pé no saco.
― Então ele não é monitor? ― constatou Will.
― Não. ― respondeu ela simplesmente: ― Qual seu bloco?
Will pegou o papel abrindo-o com uma mão somente.
― Bloco C. ― respondeu por fim enquanto Reyna o encarava compreendendo.
― Os monitores do Bloco C são Kayla e Lee. Kayla está correndo por ai e o Lee normalmente nunca vem no primeiro dia. ― ela respondeu enquanto eles caminhavam pela faculdade.
― Entendo. Você está há muito tempo na faculdade? ― Will queria manter uma conversa, afinal se deixasse cair no silêncio não conseguiria mais sair dele.
― Há três anos. Estudo Relações Internacionais. ― respondeu ela cordial: ― E você? O que pretende cursar?
― Enfermagem. ― disse Will radiante. Adorava poder dizer que estava estudando Enfermagem.
Era seu sonho desde criança. Sempre quis exercer o trabalho de enfermeiro muito antes de sequer saber o que eles faziam já que pra ele também eram médicos. Will admirava muito os médicos, mas a ideia de ter um contato maior com os pacientes deixava Will extasiado. Ele queria estar o tempo todo com os pacientes, não somente dando diagnósticos.
Sentia que como enfermeiro poderia ser mais próximo deles e isso era o que importava para Will.
― Kayla!! ― bradou Reyna de repente fazendo Will parar de andar ao ver a moça acenando para alguém.
Ao longe uma menina de cabelos loiros, olhos azuis e sardas no rosto apareceu sorrindo.
― Reyna que bom te ver. ― cumprimentou ela: ― Não te vi na reunião dos monitores.
― Acabei de chegar, tive problemas com o avião. ― respondeu dando de ombros: ― Bom esse aqui é seu! Tenho de voltar pra onde estava, divirtam-se.
― O que? ― Will exclamou.
― Espera, Reyna! ― Kayla pediu um pouco desorientada.
― Adeus amores. ― despediu-se sumindo de vista.
Will olhou para a moça curioso enquanto ela suspirava negando com a cabeça. Ela o encarou por longos segundos antes de colocar no rosto o sorriso novamente.
― Sou Kayla. ― falou estendendo sua mão. Will apertou:
― Will.
― Bom, já que você é um dos “meus” deve ser do Bloco C. ― constatou ela: ― Então vou te levar pra lá e explicar algumas coisas que vai precisar saber. ― explicou ela enquanto começava a andar com Will a seguindo.
― Seria bom.
― Pois bem raio de sol, vamos ver qual quarto você está? ― zombou a moça puxando o papel de suas mãos: ― Oh! Vai dividir com o Cecil, ele vai ficar contente em saber que vai ter companheiro esse ano, ficou sozinho ano passado.
― Sério? ― indagou Will tentando pegar o papel de volta, mas sem sucesso: ― Pensei que ter um companheiro era normal.
― Tecnicamente sim, mas o antigo colega dele desistiu e ninguém entrou pro dormitório esses meses. ― respondeu simplesmente guiando-o pelos jardins: ― Por aqui. Preste atenção no caminho, e não confie nas placas.
― Já percebi isso. ― resmungou num muxoxo. Kayla riu:
― Olha, eu estou aqui há três anos e a placa da Secretaria nunca esteve aqui. Acho que roubaram tantas vezes que a faculdade desistiu de colocar outra. ― zombou dando de ombros. Will riu balançando a cabeça descrente:
― Qual a graça nisso?
― Quanto tempo você ficou rodando sem rumo? ― perguntou curiosa.
― Não sei, uma meia hora talvez?
― Ai está à graça. ― ela riu lhe empurrando com o braço: ― Agora vamos voltar ao que interessa: apresentar o campus!
O pegou pelo pulso livre e o puxou até a área aberta. Passaram por um grupo grande de alunos sentados em uma mesa de madeira debaixo da árvore. Todos sorrindo e animados.
― Já tá com paquera novo, Kayla? ― zombou um rapaz moreno, com traços latinos. Tinha o sorriso debochado mexendo com um punhado de ferro que Will não reconheceu.
― Não começa Leo! ― bradou a loira lhe mostrando o dedo: ― Sou monitora, é meu trabalho guiar os calouros.
― Oh! Então é carne nova. ― constatou Leo: ― Depois batemos um papo novato.
Will rolou os olhos, mas riu do rapaz energético. Viu uma moça loira lhe repreender, mas depois seguiu caminho sendo arrastado por Kayla até um ponto mais distante.
― Bom, as regra sãos simples do dormitório. Nos primeiros dias permitimos que vocês fiquem fora dos quartos até meia noite. A partir da semana que vem o horário de recolher é às dez horas para a semana e uma da manhã no Sábado e Domingo. ― ela explicou gesticulando com as mãos:
― O dormitório é dividido entre meninos e meninas. A direita fica o dormitório feminino e a esquerda o masculino. Nem pense em entrar lá depois das dez horas em qualquer dia da semana. Queremos evitar acidentes. ― zombou ela dando de ombros.
― Quantos acidentes já ocorreram? ― perguntou Will curioso.
― Hm... Desde que eu entrei uns cinco? ― falou com a mão no queixo: ― Essas meninas de hoje em dia tem mais fogo do que eu poderia imaginar.
― Devo dizer que estou chocado.
― Não fique, é normal. ― falou dando de ombros: ― Aliás, eu tenho grandes expectativas em você, raio de sol, então nada de filhos.
― Nada de filhos. ― repetiu ele parando em frente a um grande prédio de vidro: ― É a biblioteca?
― Sim! ― respondeu ela entusiasmada: ― Passo boa parte do meu dia nela.
Will aquiesceu e continuou a seguir Kayla até chegarem a um conjunto de prédios de três andares largos e grandes. Eram ao todo cinco, de A à E.
― Aqui é a área dos dormitórios, o nosso é o C, esse aqui. ― apontou ela soltando seu pulso olhando o papel novamente: ― Bom, só tem isso de informação importante. Toma! ― devolveu o papel: ― Vamos indo?
Will a seguiu dormitório adentro. Logo na entrada tinha uma sala compartilhada já com vários alunos conversando sentados em sofás e cadeiras. Uma televisão e outros eletrônicos dispostos abaixo dela.
Uma musica saia das caixas de som nos extremos das paredes, calma e confortável. Acima deles um mezanino dando acesso à outra parte dos dormitórios com um corredor extenso com várias portas.
Seguiram para a esquerda no corredor começando com os quartos de número 201. Kayla fez caminho até a escada subindo por ela.
― Monitora. ― um rapaz a cumprimentou enquanto descia as escadas: ― Não devia estar do outro lado?
― O meu colega monitor só chega amanhã, até lá eu quem guio os novatos. ― respondeu ela apontando pra Will que estava com um pouco de dificuldades em levar a mala pra cima, mas os outros dois não demostraram perceber.
― Sou Austin. ― cumprimentou o rapaz: ― Estudante de Artes Cênicas. ― complementou.
― Will. Enfermagem. ― falou acenando com a cabeça.
― Bom conhecer você Will. ― respondeu: ― Ah! Kayla, não esqueça da festa de boas vindas essa noite na sala de recreação.
― Sou monitora, eu sei. ― rolou os olhos.
― Venha também Will, não fique só enfurnado no quarto. ― zombou descendo totalmente as escadas.
― Ele é legal, e seu vizinho de quarto. ― ela disse dando de ombros e seguindo para o segundo andar.
Will deu graças a Deus por chegar finalmente no segundo andar e poder colocar a mala no chão. Se arrependeu em ter levado tanta roupa! Seguiram até a metade do corredor passando por algumas portas abertas com alunos conversando e rindo. Primeiro dia e os quartos pareciam uma zona.
Will riu deste fato.
― Chegamos! ― falou batendo na porta: ― Cecil? Está ai?
― Entra Kayla. ― respondeu o rapaz. Ela abriu a porta entrando.
Eram duas camas, uma em cada canto da parede. Logo ao lado da porta de entrada um banheiro. O quarto fazia um recorte do lado direito onde ficava o banheiro, do lado esquerdo a cama de Cecil com a mesa de estudos no pé dela e ao lado um pequeno guarda-roupa. Do lado direito a mesma coisa, mas o guarda roupa encostado na parede externa do banheiro.
Uma janela no centro das duas camas e dois criados-mudos abaixo da grande janela.
Cecil estava sentando na cama com um dos fones no ouvido e o outro sobre o colo. O Celular em mãos enquanto dali Will conseguia ouvir a musica alta do que parecia ser Pop-Rock.
― Cecil? ― chamou ela parando em frente a ele.
O rapaz ergueu os olhos desinteressado, mas assim que viu Will sorriu largo:
― Colega de quarto, maravilha! ― balbuciou levantando-se e indo até ele: ― Sou Cecil Markowitz, mas só Cecil tá bom.
― Will Solace. ― falou apertando-lhe a mão.
― Pode ficar com aquela cama, eu prefiro mais essa. ― falou por fim voltando a se sentar. Kayla bufou:
― Não finja que não estou aqui!
Ele abanou a mão em direção a ela como se a expulsasse.
― Idiota. ― resmungou saindo a passos pesados do quarto: ― Desçam as sete pra nossa festinha de boas-vindas.
― Tudo bem. ― respondeu Will colocando a mala em cima da cama.
― Cecil to falando sério. ― bradou a moça irritada.
― Tá, tá! ― respondeu lhe piscando o olho: ― Vai lá que a Juniper deve estar surtando sem você lá!
― Eu sei, já to voltando. Tchau Will, te vejo à noite. ― falou saindo do quarto fechando a porta.
Will sentou-se na cama de frente ao novo colega de quarto.
― Então? O que você cursa? ― perguntou Will puxando assunto.
― Engenharia Quântica. ― respondeu sem tirar os olhos do telefone.
― Sério?
Ele riu: ― Não, eu curso História. ― respondeu soltando o celular e apoiando-se em suas mãos: ― Mas e você? Tem cara de quem quer ser artista.
― Eu? Nunca. ― falou rindo: ― Vou começar enfermagem esse ano.
― Legal, igual a Kayla! ― comentou interessando: ― De onde você veio?
― Califórnia. ― respondeu Will acomodando-se na cama.
― Longe. Lá tem uma faculdade muito boa, pra que vir pra cá? Na cidade que nunca dorme? ― o sorriso zombeteiro de Cecil deixou Will se graça.
― Melhores opções de emprego.
― Entendo. Bem, melhor você ajeitar as coisas logo... Ou deixar ai e vir comigo pra tomar um café. ― propôs Cecil levantando-se.
Will olhou para suas tralhas em cima da cama por um tempo então suspirou e seguiu Cecil para fora do quarto.
[...]
― Eu não pedi pra vocês dois aparecerem aqui pra festa de boas-vindas as sete? ― bronqueou Kayla assim que os dois voltaram para o dormitório. Já era oito horas e as pessoas já estavam conversando, gritando e se divertindo.
― Só estamos uma hora atrasados, para de ser chata. ― resmungou Cecil.
― Mas o Will é calouro, eu tinha de apresentar ele no começo. ― explicou a moça cruzando os braços irritada.
― Opa! ― exclamou o amigo sorrindo amarelo.
― Seu... ― murmurou ela suspirando em seguida: ― Vem Will, vamos curtir essa festa porque amanhã já começa a pauleira.
― Ei, não roube meu novo amigo! ― bradou Cecil seguindo-os até o sofá vazio sentando-se os três de frente para outras pessoas.
― Will esses são Michael, Chris e Clarisse. ― apresentou ela. Os dois rapazes cumprimentaram, mas a menina somente deu de ombros.
― Então Will, vai fazer o que na faculdade? ― perguntou Michael.
― Enfermagem.
― Eu também! ― bradou Kayla sorrindo.
― Você trouxe ele aqui e apresentou a faculdade e não sabia que ele estava no mesmo curso? ― falou Cecil indignado.
― Esqueci de perguntar, me erra. ― falou cruzando os braços.
― Estou em Engenharia, e Chris e Clarisse fazem Relações Internacionais. ― falou Michael apontado para os amigos ao seu lado ignorando Cecil e Kayla.
― Legal. Todos aqui são deste dormitório? ― perguntou Will encarando o arredor curiosamente. Eram muitas pessoas em um só lugar.
― Não, sempre tem uns intrusos. ― disse ela dando de ombros: ― Clarisse é uma deles. ― respondeu Kayla.
― Meu namorado está aqui, então eu fico onde quiser. ― bradou ela irritada: ― Você não vai começar com seus sermões ridículos vai?
― Eu só fiz um comentário. ― defendeu-se Kayla.
― Um comentário estúpido. ― cuspiu ela nervosa.
― Já entendemos Clarisse, abaixa as pedras. ― resmungou Cecil passando o braço em torno do pescoço de Will: ― Mas vamos falar do que importa, amanhã vai ser tenso pra você.
― Como assim? ― bradou Will não gostando muito do tom de voz dele.
― o trote. ― respondeu Michael: ― Vão pegar você.
Droga!
― Sério? Ainda tem isso de trote? ― resmungou Will repentinamente desanimado.
― Sim, mas não se preocupe normalmente são só tintas e agua. ― garantiu Chris sorrindo amigável.
Will suspirou decepcionado. Achou que tivesse fugido disso. Ledo engano.
[...]
No dia seguinte Will foi bombardeado pelos veteranos de Enfermagem com tintas de várias cores ficando um arco-íris bagunçado de calça e camiseta. Ele e vários outros alunos foram levados todo o caminho até a piscina onde foram empurrados para as águas.
Ouviu alguém reclamando que haviam sujado a piscina de tinta ― parecia o Capitão do time de natação pela jaqueta que usava ― enquanto os veteranos de Enfermagem se desculpavam mesmo sem terem sido honestos.
Will voltou para o dormitório encharcado e lavou-se o mais rápido que pode para poder chegar ao Auditório onde o diretor explicaria algumas coisas aos alunos novos.
A reunião em si foi tediosa, mas Will agradeceu que passaria outro dia sem aula e poderia arrumar suas coisas ― o que ele deveria ter feito no dia anterior, mas caiu na lábia de Cecil ― e poder se organizar apropriadamente.
No outro dia teve sua primeira aula começando logo com Anatomia. Foi somente uma introdução ao curso, sem corpos ou cheiro de formol, somente a introdução da matéria e a parte teórica da anatomia.
Will adorava estudar sobre isso, tinha certeza que se daria bem nas aulas. Biologia também era uma aula agradável, mas Bioquímica iria pegá-lo de jeito. Não era muito bom em química.
No dia seguinte teve suas aulas que eram compartilhadas com alunos de arquitetura, Comunicação e Expressão e Ciências Sociais. Will se sentia um pouco perdido naquelas aulas compartilhadas, mas em pouco tempo já havia feito amizade com boa parte da sala, então mesmo com alunos de outro curso não se sentiu intimidado.
Assim a primeira semana se seguiu. Introduções às matérias e a adaptação dos alunos nos horários novos e na rotina universitária.
Nesse meio tempo conheceu Lee seu monitor. O rapaz era bem alegre e fazia Medicina. Will não sabia de onde ele tirava tempo para ser monitor de dormitório. Pelo que ficou sabendo Lee estava no quinto ano e mal dormia direito antes da monitoria, então mesmo antes de conhecê-lo Will já se preocupou com sua saúde.
Lee achou engraçado e o puxou para sua roda de amigos a qual Will já estava integrado desde o primeiro dia.
― É isso que dá chegar quase uma semana depois. ― resmungou Cecil deitado folgadamente no sofá: ― Perde as fofocas.
― Senta Cecil, tem mais gente que gostaria de sentar ai também. ― bradou Kayla do andar de cima do Mezanino debruçando-se sobre a amurada.
Cecil levantou o olhar para ela:
― Tipo quem?
― Qualquer um! ― respondeu ela irritada.
― Quando o Qualquer Um aparecer avise. ― retrucou virando a página de seu livro.
Will riu da amizade deles.
Mais tarde conheceu Lou Ellen, melhor amiga de cabelo roxo do Cecil. É, Will só se lembrava da cor de seu cabelo mesmo, mas ela parecia ser bem legal.
A semana seguinte foi mais puxada. Anatomia ainda sem corpos, mas a teoria era maravilhosa.
Contudo na aula de Ciências Sociais Will acabou se atrasando e perdendo o lugar que normalmente ficava com seus amigos de sala sendo obrigado a se sentar com um dos alunos de arquitetura.
Foi perceber um tempo depois que era o mesmo garoto que ele havia confundido ser Monitor.
Nico di Angelo.
Ele ficou nervoso na mesma hora. Havia se sentido mal por tê-lo confundido com um monitor, e da forma que o rapaz levou parecia talvez ofendido? Will não saberia dizer.
Decidiu concentrar-se na aula extremamente chata enquanto o professor escrevia algo na lousa. Honestamente Will estaria mentindo se dissesse que havia entendo o que estava escrito na lousa, porque ele não entendeu.
Tinha uma boa visão até, mas aquela letra era do cão!
Virou para o lado vendo Nico copiar sem problemas em uma letra de forma perfeita. Ele parecia concentrado no que fazia colocando o cabelo atrás da orelha todas as vezes que ele começava a atrapalhar sua visão.
Will achou fofo.
― Nico? ― chamou ele baixo para que somente ele ouvisse. O rapaz o olhou curioso: ― Pode me dizer o que está escrito ali? ― perguntou Will apontando para a lousa e no exato ponto onde queria.
O moreno seguiu o olhar e depois voltou a encará-lo. Mordeu o lábio nervoso antes voltar à atenção para o caderno novamente. Will franziu o cenho ofendido. Ele iria ignorá-lo desse jeito? Assim sem mais nem menos?
Um tempo depois Nico empurrou seu caderno na direção de Will apontando para a palavra que ele queria. Escrita em letra de forma na caligrafia perfeita de um arquiteto Will descobriu que aquele garrancho era na verdade “indivíduos” que Will tinha certeza de ter lido Instindos ou algo do gênero.
Ele aquiesceu para Nico que prontamente voltou a copiar da lousa evitando contado com um loiro intrigado. Ele realmente o respondeu, mas o voto de silêncio com certeza foi o que o deixou um pouco confuso.
Normalmente as pessoas respondem verbalmente quando fazem esse tipo de pergunta, mas esse fato parecia não se encaixar em Nico. Tentou disfarçar a curiosidade, mas sempre que percebia estava encarando Nico pelo canto de olho.
A aula acabou e imediatamente Nico fez seu caminho para fora da sala. Will respirou fundo conversando um pouco com seus amigos enquanto iam para a aula seguinte.
[...]
Algumas horas mais tarde tiveram novamente uma aula conjunta com a turma de arquitetura. Por algum motivo que Will não soube dizer acabou sentando-se ao lado de Nico novamente.
Desta vez evitou perguntar-lhe qualquer coisa, mas no caso a professora tinha uma letra legível. Nico parecia tenso ao seu lado, mas Will não soube dizer o porquê. Apoiou a mão no rosto enquanto a professora explicava a matéria de Comunicação e Expressão.
Will começou a ficar ansioso novamente. Balançou as pernas nervosamente enquanto tentava focar na aula. Se estava incomodado com o voto de silêncio de Nico? Sim ele estava e muito. Queria saber se ele havia deixado o rapaz magoado de alguma forma ou irritado, mas aparentemente não receberia uma resposta verbal.
Sentiu sua manga ser puxada e olhou para Nico que apontava para um caderno com uma frase escrita:
“Pare de balançar a mesa”
Will franziu o cenho, mas depois suavizou o olhar.
― Desculpe. ― pediu envergonhado. Nico negou lhe esboçando um sorriso pequeno. Voltou a olhar para frente: ― Você ficou chateado comigo por causa daquele dia?
Nico voltou a olhá-lo um pouco chocado. Negou com a cabeça algumas vezes. Will franziu o cenho:
― Certeza? ― insistiu ele.
O rapaz rolou os olhos, mas mais uma vez aquiesceu. Will torceu o lábio, mas concordou. Todavia não parecia que eles estavam de boa.
[...]
Will sentou-se ao lado de Kayla na grama do jardim. Ela lia um livro sobre anatomia humana a qual ele só veria alguns anos à frente. Cecil estava deitado em seu colo dormindo enquanto Austin conversava algo com Lee.
Ele puxou os joelhos encarando as pessoas passando periodicamente por eles para chegar à cafeteria. Viu aquela mulher de cabelos trançados que havia lhe prometido mostrar a universidade, mas que no final desistiu da ideia o passando para Kayla. Junto dela um rapaz asiático de grande porte e a linda menina negra de mãos dadas com ele.
Reyna o pegou observando e sorriu amigável. Ele retribuiu o aceno. Atrás dos três um grupo maior com risadas e brincadeiras provenientes do latino passou. Seu nome era Leo pelo que Will se lembrava.
Junto deles Nico estava ali ao lado de um rapaz alto de óculos. Nico sorria para alguma coisa que ele lhe disse rolando os olhos na sequência, parecia até mesmo uma mania própria dele. Seus olhos se encontraram por breves momentos. Nico pareceu surpreso com o breve contato visual, mas acenou para Will que retribuiu sentindo seu rosto queimar.
Desviou o olhar para o lado flagrando Kayla olhando-o curiosamente.
― Oh! Eu vi isso. ― zombou ela enquanto Will afundou o rosto ainda mais nos braços envergonhado.
― Viu o que? ― perguntou desentendido.
― Vai querer que eu diga em voz alta? ― provocou recebendo um grunhido do Will em resposta.
― Na verdade não. ― admitiu: ― Eu só estou um pouco confuso com ele.
― Sobre?
― Eu tentei conversar com ele durante as aulas, mas eu só recebia acenos ou expressões faciais. Às vezes ele escrevia. ― falou num muxoxo: ― Acho que ele está ressentido de mim por causa da questão da monitoria.
― Ele não se importaria com isso. ― garantiu Kayla: ― Ele não te responde por outro motivo.
Will olhou para ela melhor ficando mais ereto:
― E qual seria?
Kayla arqueou a sobrancelha como se fosse obvio: ― Ele é mudo. Se falasse ai sim teria algo de estranho.
Will sentiu-se ruborizar ainda mais. Havia tentado falar com ele na ultima aula e isso só levou a frustração do seu lado e desconforto do Nico. Agora entendia o voto de silêncio. Não era um voto, era condição.
Ele não poderia respondê-lo.
Afundou o rosto nos braços grunhindo frustrado. Kayla riu ao seu lado.
― Sou estupido. ― resmungou.
― Normalmente nós não associamos uma mania estranha das pessoas à deficiência Will. É normal que você tenha pensado que ele não ia com a sua cara ao invés de pensar que ele poderia ser mudo. ― constatou a moça descendo a mão para os cabelos de Cecil afagando-os. O rapaz soltou um som prazeroso de seus lábios aprovando o carinho: ― Você disse algo desrespeitoso?
― Nunca! ― respondeu ele.
― Então não tem com o que se preocupar.
Will aquiesceu voltando a fitar a frente. O grupo já tinha passado faz tempo, mas Will ainda continuou a encarar o local. Ele estava envergonhado e queria muito poder falar com ele e se desculpar, mesmo não tendo motivo pra tal.
[...]
A semana passou rápido. Will foi alugado por Kayla para estudarem anatomia juntos. Claro que ele teve dificuldades em entender alguns conceitos já que o livro de Kayla era mais avançado que o seu, mas conseguiram se adequar bem um ao outro.
Ela tinha uma forma boa de explicar as coisas e o pouco que Will sabia ele compartilhava ― a sorte é que ele estudava sobre isso desde a infância, então não era cem por cento desinformado. Passaram boa parte das manhãs de aulas vagas na biblioteca estudando para várias coisas em si.
Vez ou outra Lee os acompanhava. Por estar no sexto ano de medicina ele conseguia ajudar em muitas coisas, mas nenhum dos dois ― Will e Kayla ― conseguia retribuir o favor. Cecil nunca participava das horas de estudo deles, mas um dia Will precisou de ajuda para entender sobre a teoria de Darwin de uma forma mais profunda e Cecil foi de muita ajuda.
O fim de semana chegou rápido e com ele mais uma festa em outra das casas ali. Esta monitorada por Perseu Jackson, Capitão do time de natação da universidade. Pelo que Will sabia ele estudava Oceanologia e estava já no terceiro ano do curso.
Contudo Will não estava com vontade de festas, bebidas e pessoas roçando nele a cada minuto. Preferiu então ficar no quarto sozinho ouvindo musicas pelo fone enquanto lia um pouco do livro que havia pegado na biblioteca.
Acabou adormecendo com o livro no colo e acordando somente no dia seguinte ainda sozinho no quarto. Cecil não havia voltado e Will não sabia se se preocupava com o amigo ou se deixava como estava. De toda forma levantou-se pra tomar um banho e despertar.
Pegou alguns poucos pertences seus e saiu para a cafeteria perto da biblioteca. Precisava de cafeína urgentemente. Entrou na cafeteria praticamente vazia para um domingo de manhã. Pediu o café e sentou-se em uma das mesas recolocando seus fones de ouvido.
― Nico para de ser besta! ― Will ouviu uma menina dizer. Levantou o olhar na mesma hora vendo Nico e a menina morena entrarem no café.
Estava com as mesmas roupas pretas de sempre, mas os cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo mal feito. Ele sorria enquanto gesticulava algo que Will não soube identificar.
Provavelmente estava encarando demais, pois logo depois Nico o encarou. Will sentiu-se ficar tenso com o olhar do moreno em si. Nico esboçou um sorriso amigável, mas Will desviou o olhar pegando seu café e saindo do estabelecimento antes que ficasse louco.
Não conseguia olhar para o Nico depois daquela “gafe” digamos assim. Mesmo ele repetindo para si mesmo e Kayla reforçando de que não havia sido nada ele continuava sentindo-se terrível.
Respirou fundo assim que estava longe da cafeteria. Tomou um gole de seu café e começou a andar novamente em direção ao seu quarto. Aquela altura Cecil já deveria ter voltado. Suspirou enquanto pensava na semana seguinte.
Pediria desculpas e sumiria com a aflição que sentia.
[...]
A semana seguinte começou agitada. Na aula de anatomia foram levados até o laboratório onde havia alguns corpos em formol. O cheiro era forte causando em Will uma dor de cabeça instantânea, mas diferente de algumas colegas que desmaiaram ou vomitaram conseguiu ficar a aula inteira suportando aquele cheiro terrível.
Não tinham permissão de mexer nos corpos no primeiro semestre, mas o professor poderia lhes mostrar um pouco da anatomia humana mais de perto, sem tocar claro.
O professor passou trabalhos sobre os ossos humanos que Will deveria estudar para a semana seguinte e mesmo antes de começar já imaginava seu cérebro torrando por decorar duzentos e seis ossos.
E então a aula de Ciências Sociais chegou e Will respirou fundo controlando a ansiedade. Fez questão de chegar um pouco atrasado para poder se sentar com Nico. Havia perguntado sobre ele para alguns colegas e todos disserem que ele normalmente sentava sozinho, mesmo tendo uma amiga na sala junto dele.
Sendo assim quando chegou minutos depois do começo da aula ― com o professor ainda fora da sala ― sentou-se ao lado de Nico e o cumprimentou com um aceno. O rapaz não retribuiu.
O professor entrou na sala e começou a aula tediosa e insuportável. Fora, é claro, a escrever no quadro com aquela letra monstruosa. Will sequer dignou-se a tentar entender o que estava escrito, ele se viraria depois com livros na biblioteca.
Encarou Nico de soslaio que copiava na lousa avidamente. Will respirou fundo abrindo seu caderno. Escreveu no caderno com a melhor letra que conseguiu ― levando em conta que só garranchos saíam de seus esforços ― e empurrou o caderno até ficar ao alcance de Nico. O rapaz olhou curiosamente:
“Desculpe, não quis ser desrespeitoso aquele dia, eu não sabia”.
Nico encarou a folha por um tempo antes de responder com a mão esquerda. Will não havia reparado que ele era canhoto até aquele momento.
“Não precisa se desculpar, eu não ligo”.
Will sorriu aliviado. Pegou o lápis escrevendo mais coisas.
“Se importa se conversarmos um pouco por aqui?”.
Mais uma vez Nico encarou o papel curioso. Olhou Will nos olhos arqueando a sobrancelha. Pegou sua caneta mais uma vez.
“Você sabe que eu sou só mudo, certo?”.
Will aquiesceu rindo.
“Sim, mas assim é mais difícil do professor nos pegar”.
Nico negou com a cabeça, mas o sorriso singelo presente.
“Ainda não enxerga a lousa?”
“Nah! Já desisti de entender a letra dele”.
“Você se acostuma”.
Nico voltou-se para seu caderno copiando da lousa algumas coisas. Will sequer se deu ao trabalho de tentar. A aula passou rápido, mas a conversa deles parou naquele ponto, mas vez ou outra trocavam olhares amigáveis.
O sinal tocou para a troca de aula. Os dois saíram juntos para a próxima aula com Will resmungando no ouvido de Nico sobre como a aula era chata. O moreno somente deu de ombros, mas lhe dando um olhar cumplice.
Separaram-se na porta do prédio cada um para sua próxima aula do curso. Horas mais tarde, quando tiveram aula compartilhada sentaram juntos novamente, desta vez mais acostumados com a presença um do outro. Nico foi quem puxou assunto desta vez.
“Por que saiu correndo da cafeteria no domingo?”.
Will leu a frase corando na mesma hora. Mordeu o lábio pegando seu lápis e escrevendo a resposta que saiu no mínimo ilegível.
“Estava envergonhado. Achei que tinha te deixado magoado de alguma forma aquele dia”.
Nico arregalou os olhos encarando Will. Negou com a cabeça levantando as mãos, mas logo depois as abaixou suspirando. Pegou a caneta e começou a escrever.
“Solace, entenda, eu não fiquei chateado. Quantas vezes vou ter de repetir? Você não sabia, e eu sei que foi o Octavian que te mandou falar comigo. É graça dele, não se preocupe”.
Will leu, mas ainda assim parecia incerto, Nico não soube mais o que escrever para deixa-lo menos inseguro, contudo pensou em algo melhor.
“Vem passar o intervalo com a gente. Vai ver que está tudo bem”.
― Eu? ― perguntou Will um pouco chocado. Nico aquiesceu convicto: ― Seus amigos não se importam?
Nico negou.
― Tudo bem então. ― respondeu Will sorrindo de orelha à orelha. Nico baixou o olhar ainda mantendo o sorriso bobo no rosto.
Quando acabou a aula saíram juntos para o jardim. Will se virou ao rapaz enquanto caminhava:
― Posso fazer uma pergunta indiscreta?
Nico o encarou incerto, mas permitiu:
― Você nasceu mudo ou ficou assim?
O rapaz fez um rápido sinal com as mãos que Will não soube identificar.
― Como?
O moreno abaixou as mãos fazendo uma feição pensativa em seu rosto. Torceu o lábio antes de levantar o dedo indicador.
― Você nasceu assim? ― reforçou Will. Nico concordou: ― Oh! Entendi. Isso que acabou de fazer com as mãos era Libras? ― Mais uma vez ele assentiu: ― Legal!
Will sorriu intrigado. Sempre achou Libras uma forma de comunicação incrível e sempre teve vontade de aprender. Repreendeu-se mentalmente por ter ignorado as aulas no ensino médio, conseguiria se comunicar melhor com Nico.
O rapaz sorriu puxando-o pela manga da camiseta indo até seus amigos. Will ficou tenso ao se aproximar deles. Sentado na mesa estava Perseu Jackson. Os olhos verde-mar analisando-o curiosamente. Ao seu lado uma menina loira sentada no banco com a cabeça no colo do rapaz que lhe fazia cafuné. O sorriso que se formou no rosto do Jackson fez Will estremecer:
― Nico tá de amigo novo? ― zombou ele. A moça lhe deu um beliscão na perna.
Nico sorriu rolando os olhos. Fez um rápido sinal com as mãos tirando risadas do outro.
― Rude. ― resmungou Perseu olhando Will na sequência: ― Sou Percy Jackson, amigo de infância do Nico.
― Will Solace, vizinho de carteira. ― apresentou-se sentando ao lado do Nico. Percy desceu da mesa acomodando-se ao lado da moça e de frente pra eles.
― Ah! Então você é o Will. ― comentou divertido. Nico o olhou horrorizado.
― Er... Sim?
― Ignore ele Will. ― disse a loira: ― Sou Annabeth Chase, namorado deste aqui. ― falou apontando para ele.
― “Deste aqui?” ― comentou Percy: ― Assim você me ofende.
Nico rolou os olhos ainda envergonhado. Cutucou Will lhe mostrando um bloquinho de notas com “São estúpidos, mas legais” escrito. Will sorriu concordando. Nico escreveu mais coisas no caderninho.
“Normalmente eu falo em Libras, não escrevo, mas vou te fazer uma exceção”.
Will arqueou a sobrancelha. Nico também o fez como se dissesse “Já estou fazendo muito, trate de aprender Libras”.
― Agradecido. ― zombou.
Depois de um tempo mais pessoas apareceram. Assim que Will percebeu isso já estava no meio do enorme grupo que ele viu no primeiro dia na faculdade.
― Willian! Como vai? ― perguntou Reyna sentando-se na mesa perto dele.
― Vou bem. ― respondeu.
― E como está o curso? ― continuou apoiando os braços na mesa.
― Vai muito bem, estou adorando! ― respondeu radiante.
Nico soltou uma risada que pra Will mais parecia um... Grunhido? Ele não soube identificar bem o som, mas sabia que Nico ria pela expressão facial. O rapaz fez alguns sinais com as mãos. Reyna rolou os olhos enquanto os rapazes riam.
― O que você disse? ― perguntou Will desconfiado.
Nico escreveu “Não importa” e uma carinha piscando.
― Injusto. ― Resmungou ele cruzando os braços e fingindo irritação. Nico somente rolou os olhos. Will já havia perdido as contas de quantas vezes ele já fizera isso só naquele dia.
“Dramático”, Nico escreveu.
― Acho que não nos apresentamos. ― disse o rapaz loiros de óculos que Will viu com Nico na semana anterior: ― Meu nome é Jason, e está é a minha namorada Piper.
― Prazer. ― respondeu ela.
― Eu sou Leo! ― disse o latino: ― Estou surpreso que o Nico tenha te deixado conversar com ele. Ele é um cú quando quer.
O sinal com os dedos que Nico mostrou Will reconheceu.
― Eu sou Frank. ― apresentou-se ao rapaz com traços asiáticos. O sorriso era amigável, mas o porte do rapaz deixava Will um pouco em dúvida.
― Agora que acabaram as apresentações vamos ao que interessa. ― Perseu disse sorrindo maldosamente: ― Will qual sua orientação sexual?
― O QUE? ― Bradaram Jason e Piper ao mesmo tempo.
― Perseu! ― bronqueou Annabeth lhe dando um tapa no braço, o que só arrancou mais risadas do moreno.
― Discrição não existe pra você! ― disse Reyna decepcionada balançando a cabeça.
Will estava roxo de vergonha. Queria sair correndo de perto daquele garoto. Nico puxou sua manga lhe mostrando o caderno.
“Não responda! Não é da conta dele!”.
Nico parecia incomodado, Will percebeu, e um pouco vermelho. Ele aquiesceu ajeitando-se no banco.
― Vamos trocar de assunto ― pediu Hazel: ― Você faz Enfermagem, certo? Desde quando quer ser enfermeiro?
― Desde criança, eu acho. ― respondeu Will: ― Eu sempre achei que ser enfermeiro era mais interessante que ser médico.
― Oh! Uma opinião bem diferente. Por que? ― perguntou Annabeth curiosa.
― Eu sinto que os enfermeiros são mais próximos dos pacientes que os médicos. ― respondeu Will: ― Como se tivessem mais contato, já que médicos dão mais diagnósticos do que atenção o tempo todo. Enfermeiros estão sempre ali, por perto.
― Verdade, mas não significa que Médicos não estão sempre presentes. ― complementou Jason.
― Sim, mas com menos contato. ― reforçou o rapaz. Jason concordou.
― Certo, mas fa― Annabeth tapou a boca de Percy antes que ele disse algo indevido.
― Você já falou demais hoje, cabeça de alga. ― repreendeu ela. O rapaz rolou os olhos.
― Bom não sei vocês, mas eu estou morrendo de fome. Vou pra cafeteria. ― avisou Hazel levantando-se. Frank o fez também.
Nico cutucou Will “Quer ir também?”.
― Na verdade quero sim, preciso da minha dose diária de Café. ― respondeu ele levantando-se com Nico.
Reyna e Leo fizeram o mesmo.
― Vão todos nos abandonar? ― resmungou Percy: ― Legal de vocês.
― Sem drama Percy. ― falou Reyna afastando-se do grupo: ― Vou para o dormitório. Preciso pegar um dos livros que deixei por lá. Até mais tarde.
― Eu vou voltar pra sala. O intervalo vai acabar. ― Leo despediu-se e saiu acompanhado de Reyna.
Nico fez um sinal com as mãos afastando-se. O grupo se despediu deles dois e ambos caminharam até a cafeteria. Hazel e Frank foram na frente. Nico pegou o bloco de notas: “Não tem aula mais tarde?”.
― Tenho sim, mas daqui à uma hora. ― respondeu Will: ― Mas e você?
Nico escreveu no papel: “Eu tenho só uma aula depois do almoço. Ai tenho o resto do dia livre”.
― Legal! ― exclamou Will sorrindo voltando a olhar pra frente: ― Então podemos tomar café e conversar tranquilamente. Minha aula é perto da Cafeteria.
Nico concordou e seguiram para o estabelecimento. Assim que entraram pediram as bebidas. Will pediu algo salgado enquanto Nico foi diretamente nos bolos.
― Isso não é doce demais pra essa hora da manhã? ― perguntou Will arqueando a sobrancelha.
Nico chacoalhou a mão desinteressado. Will riu e sentaram-se em uma das mesas do lado de fora da Cafeteria. Achou estranho os outros dois terem se sentado distantes, mas talvez quisessem um tempo sozinhos no final das contas. Will tomou um gole generoso do café sorrindo para o sabor amargo. Encarou Nico que bebia do café concentrado encarando a paisagem da Universidade.
Parecia imerso em pensamentos, mas os sentidos bem mais aguçados que os de Will o perceberam encarando. Cruzaram olhares curiosos. Nico arqueou a sobrancelha inquisidor.
― Só olhando. ― respondeu sincero Will desviando o olhar envergonhado por ter sido flagrado.
Mordeu um pedaço do salgado que havia pego.
Nico empurrou o caderno para frente fazendo Will ler o que continha nele.
“Não disse que queria conversar? Depois eu quem sou o Mudo”.
Will levantou o olhar soltando uma risada surpresa.
― Ah, então você zomba de si mesmo? Isso foi errado. ― ele comentou, mas a risada só aumentando. Nico sorriu para a cena dando de ombros: ― Ok então, vamos começar pelo básico. Você é daqui mesmo?
Nico negou puxando bloco de volta.
“Sou da Itália, mas moro aqui desde os meus dez anos”. Escreveu ele com um meio sorriso.
― Então é italiano? Que legal. ― comentou Will: ― Veneza?
Nico aquiesceu.
“E você?”.
― Califórnia. ― respondeu o loiro: ― Ainda não estou muito acostumado com esse frio todo.
Nico franziu o cenho.
“Frio? Aonde?”. Zombou piscando-lhe o olho. Will lhe mostrou a língua entrando na brincadeira.
Deu outro gole de seu café.
― Eu sempre tive vontade de estudar aqui, mas era difícil entrar nesse tópico com a minha família. ― explicou Will encarando Nico que prestava total atenção nele: ― Digamos que somos muito próximos. Eles sempre acharam que eu iria pra UCLA, mas quando falei desta eles ficaram meio chateados.
Ele ficou em silêncio depois disso encarando seu café que saia vapor pela única passagem na tampa. Ele sentia falta da família. Eram uma família de três, com muitos familiares presentes aqui e ali, mas eram unidos.
Sua mãe era uma cantora de barzinho, mas muito talentosa. Seu pai era modelo de uma revista pequena da região, mas com os dois juntos conseguiram dar uma boa vida ao Will. Ele gostava da vida humilde que levavam na California.
Amava as comidas de sua mãe, mesmo que cozinhar com certeza não fosse sua melhor habilidade; gostava das noites de chuva onde se juntavam na sala com violões e microfones e faziam uma maratona de musicas bregas, mesmo Will sendo péssimo cantando.
Sentia falta desse contato familiar, mas sabia que esse era o sentimento de crescer, de desapegar. Contudo não deixava de ser doloroso e sentir saudades.
Sentiu o toque gélido de Nico em seu braço o fazendo olhar para frente. No caderno havia algo escrito.
“Eles amam você. Esteja onde estiver”.
Will arregalou os olhos pela surpresa olhando Nico que sorria para ele. Mordeu o lábio segurando uma risada boba.
― Eu sei. ― respondeu desviando o olhar, mas sem retirar o sorriso do rosto: ― Obrigado.
“Minha irmã se formou aqui, virou meio que a “universidade da família” Nico escreveu “Hazel também quis entrar aqui. Acho que no final é questão de escolhas, sejam elas baseadas em nossos pais ou não”.
― Hazel é sua irmã? ― perguntou Will surpreso. Nico confirmou: ― Não sabia. São bem... Hm...
“Diferentes?” Nico escreveu mostrando o caderninho em mãos.
― Basicamente.
Abaixou o caderno enquanto escrevia: “Somos filhos de mães diferentes. Minha mãe a acolheu quando ela tinha trezes anos e sua mãe faleceu. Achamos que minha mãe se recusaria a cuidar dela, mas estávamos enganados”.
― Que gesto bonito. ― comentou Will.
Nico concordou, mas não escreveu mais nada sobre o assunto.
“Estou cansando de escrever. Trate de aprender Libras logo”. Ordenou cruzando os braços e torcendo o lábio.
― Eu sei, eu sei! Vou aprender, prometo. ― respondeu Will rindo nervoso.
O sorriso de Nico sumiu gradualmente desviando o olhar para as pessoas que passavam. Will ficou tentando a perguntar, mas resolveu que talvez devesse deixar por isso mesmo. Encarou o relógio em seu pulso.
― Só tenho mais dez minutos. Melhor eu terminar aqui. ― falou tomando outro gole do café deixando o copo de canto junto ao prato vazio.
Nico aquiesceu.
― Vou indo. Nos vemos depois? ― perguntou Will levantando-se da cadeira. Nico concordou num sorriso fraco.
Will pegou seu telefone entregando para ele. O moreno encarou o aparelho para depois fitar o Will.
―Ca-caso queira conversar por telefone melhor me passar o numero. ― comentou desviando o olhar na sequência.
Maldita vergonha!
Nico sorriu pegando o telefone e digitando seu numero nele e devolvendo.
― Legal. Agora tenho mesmo de ir. ― falou afastando-se: ― Até depois!
Nico acenou de volta. Will virou-se para frente encarando o celular e o novo numero gravado e enviando uma mensagem para ele também ter o seu. Sorriu com o apelido escrito com o número.
O nome Neeks combinava bem com ele.
[...]
― Então quantos ossos temos na mão? ― perguntou Kayla deitada na cama de Cecil segurando o livro de anatomia.
― Deixe eu pensar. ― Will crispou os lábios tentando lembrar dos vários ossos que estudara horas antes: ― vinte e cinco?
― Béh! Errado. ― falou ela: ― São vinte e sete ossos em cada mão. Will você estudou mesmo?
― Eu errei por dois Kayla. ― comentou ele indignado.
― Você acabou de deixar alguém defeituoso isso sim. ― replicou ela: ― São vinte e sete ossos. Oito do capo, cinto do metacapo e quatorze falanges.
― Certo. ― suspirou Will pegando o livro das mão de Kayla e olhando a imagem.
― No capo temos oito ossos: Semilunar, Escafóide, trapezoide, trapézio, capitato, uncinado, pisiforme e piramidal. ― falou Kayla sem sequer olhar no livro.
― As formas geométricas que você falou até vai, mas o resto? O que é um escafoide? ― resmungou Will desolado. Kayla apontou pro livro.
― Este.
― Há-há. Engraçada você. ― zombou ele rolando os olhos: ― Eu vou demorar muito pra decorar isso.
― Eu só disse oito. Tem mais dezenove. ― zombou Kayle bocejando: ― Isso cansa.
― Estudar cansa? Sim. ― concordou Will respirando fundo: ― Bom vamos tentar de novo.
Sentou-se em sua cama novamente folheando o livro enquanto Kayla fechava os olhos relaxando um pouco. O telefone de Will vibrou o fazendo olhar para o aparelho curiosamente.
Pegou entre as mãos sentindo borboletas no estomago ao ver o numero do Nico no visor.
[19:45] Neeks: Eu realmente achei que você fosse mais falante.
Will sentiu-se corar. Escondeu o rosto em sua mão soltando sons inteligíveis. Kayla soltou uma risada sentando-se.
― O que foi Will? ― perguntou ela curiosa.
― Nada. ― respondeu ele ainda com o celular em mãos. A moça encarou o aparelho sapeca arrancando-o de suas mãos: ― Espera!
― Ah! Eu sabia! ― bradou ela animada: ― Você gosta dele não é? Vai admite!
― Eu? Não Kayla não gosto dele. Nos conhecemos tem somente duas semanas e só ontem que realmente nos falamos de verdade. Não tem como gostar de alguém rápido assim. ― explicou ele como se fosse óbvio, mas o rubor em seu rosto não ajudava muito.
― Sei. Acredito. ― zombou ela: ― Afinal de contas não sou eu que fico todo vermelho quando o Nico está por perto.
― Não seja ridícula. ― reclamou Will, mas ainda sentindo o calor em seu rosto: ― Eu estava envergonhado por antes, só isso.
― Will nós dois sabemos que não tinha acontecido nada. ― falou a moça gesticulando com as mãos, uma delas ainda com o celular: ― E não precisa gostar de querer namorar ou coisa do tipo. Você achou ele interessante e seu corpo reage a isso meu bem.
― Eu já disse que não é nada disso. ― resmungou Will esticando-se para pegar o celular de volta. Kayla permitiu.
― Só estou dizendo o que vejo. Mas bem, se quer mentir pra si mesmo que seja. ― levantou-se da cama indo até o quarto: ― Vou descansar um pouco, hoje à noite vamos ao laboratório.
― Há essa hora?
― Quem cursa enfermagem tem de ficar a disposição do professor vinte e quatro horas por dia e você sabe disso. ― explicou a moça: ― Boa noite. Tenha uma boa conversa com o seu boy.
― Kayla!!
A moça riu deixando Will sozinho. Negou com a cabeça suspirando. Abriu novamente a conversa.
[19:52] Will: Desculpe a demora, Kayla roubou meu celular. Não tenho muito assunto atualmente.
Escreveu ele deixando o telefone de lado. Pegou o livro voltando a encarar o esqueleto de uma mão humana com os nomes escritos ao lado. O telefone vibrou outra vez:
[19:53] Neeks: Não tem problema. Atrapalho?
[19:53] Will: Nem um pouco. Só estou tentando memorizar os ossos das mãos, mas não está muito fácil.
[19:54] Neeks: São 27 certo?
Will encarou o visor do telefone um tempo.
[19:56] Will: Certo... Como você sabe disso?
[19:56] Neeks: Não é óbvio?
― Não, com certeza não é. ― resmungou Will pra si mesmo caindo na cama com o telefone em mãos.
[19:57] Will: Nem um pouco eu diria.
[19:57] Will: Mas então já tem projetos para fazer? Soube que os veteranos já começam o ano com trabalhos.
[19:58] Neeks: Já temos sim, mas por enquanto estamos estudando sobre conforto então temos um condomínio pra projetar.
[20:00] Will: Parece complicado. O que seria conforto?
[20:01] Neeks: É a incidência do sol e sombra durante todos os dias do ano.
[20:02] Will: Ok, isso é coisa de louco.
[20:03] Neeks: E decorar os 206 ossos do corpo não é?
Will sorriu com isso.
[20:04] Will: Touché!
[20:05] Neeks: Tem aula amanhã?
[20:05] Will: Sim, mas só a tarde.
Nico demorou a responder deixando Will curioso. Cecil entrou no quarto arrastando os pés e jogando-se na cama. Will riu disso sentando-se.
― Dia difícil? ― zombou Will. Cecil resmungou algo abafado pelas cobertas. O loiro rolou os olhos: ― Não vi você de manhã, o que anda fazendo Cecil?
― Segredo. ― falou ele virando o rosto pro Will: ― Afinal a Kayla estava aqui?
― Sim, como você sabe? ― perguntou Will desconfiado.
― Minha cama está fedendo a formol. ― zombou ele mostrando a língua. Will caiu na gargalhada.
― E-ela va-vai te matar. ― falou Will entre as risadas.
― Nah, ela está acostumada com isso. Aliás ela sempre cheia a formol mais pro final do semestre. ― constatou Cecil: ― Prepare-se amigo, vai acontecer com você também.
― Mal posso esperar.
― Vou tomar um banho. ― falou o rapaz levantando-se arrastado da cama.
Will aquiesceu voltando para o telefone.
[20:10] Neeks: Quer tomar café da manhã com a gente na cafeteria?
Will encarou o visor do telefone um tempo. Ele queria comer com ele amanhã? Por quê? Não evitou de sorrir para isso, claro.
[20:14] Will: Claro! Não tem aula amanhã?
[20:15] Neeks: Não temos aula de quintas.
[20:16] Will: Sortudos.
[20:16] Neeks: Então, como vai o estudo de Libras?
― Oh! Merda! ― exclamou Will: ― Esqueci disso.
― Que foi Will? ― perguntou Cecil do banheiro.
― Nada, relaxa!
[20:17] Neeks: Esqueceu, certo?
[20:18] Will: Não tem provas quanto à isso!!
[20:19] Neeks: Não duvide de mim, Solace.
[20:20] Will: Longe de mim.
[20:21] Neeks: Vou sair agora. Até amanhã as oito.
[20:22] Will: Até o/
Bloqueou o celular deitando-se na cama. O sorriso em seu rosto não sumia por decreto nenhum. Não iria dar o braço a torcer pra Kayla, mas que ter sido convidado por Nico para tomar café com ele com certeza o deixou bem feliz.
As borboletas em seu estomago estavam ouriçadas e Will ainda não tinha certeza exata do porquê.
[...]
― Bom dia Will! ― cumprimentou Hazel acenando para ele. Nico estava ao seu lado.
― Bom dia Hazel.
Andou até eles sentando-se na cadeira. Nico fez um aceno com a cabeça.
― Ansioso para mais um dia? ― perguntou Hazel animada.
― Ah, sim? ― respondeu ele incerto.
Nico arqueou a sobrancelha.
“Sim ou não Solace?” perguntou ele em forma de sinais, mas Will não entendeu como sempre. O rapaz fez uma careta e em seguida mais movimentos.
― Nico disse que era pra estar craque na Linguagem de Sinais. ― falou a moça rolando os olhos. Nico fez outros: ― E que não quer escrever hoje.
― Ai complica. ― resmungou Will abaixando a cabeça em desistência.
― Força Will! – falou a moça.
― Bom vou pedir algo pra comer. Já pediram? ― perguntou Will.
― Já sim.
― Então já volto.
Quando Will retornou a conversa se estendeu por um tempo. Nico gesticulava algumas poucas coisas, mas a maior parte do tempo ficou quieto acenando ou aquiescendo. Mesmo parecendo um pouco complicado de se comunicar com ele Will achou incrível a facilidade que ele teve em comunicar-se com Nico mesmo sem ele dizer nada.
Claro que quando ele fazia os movimentos de Sinais ficava mais perdido que tudo, mas estava fluindo e isso animou Will.
Depois disso começaram a andar juntos. Toda quinta tomavam café da manhã juntos e quase sempre almoçavam com o povo, mas no final do dia só restavam eles dois. Aos poucos foi ficando cada vez mais fácil de conviver com Nico.
Will começou a aprender A linguagem de Sinais e aos poucos foi se familiarizando com os movimentos de cada sinal, tanto que não precisava mais que o Nico escrevesse tanto no caderno como antes, mas ainda não dominava Libras.
Depois de cinco meses de convivência já compartilhavam intimidade o bastante para Nico estar neste momento deitado na cama de Will lendo um livro enquanto loiro estudava para uma prova de Bioquímica a qual ele tinha certeza que iria bombar.
Resmungou pelo que foi a vigésima vez naquele dia chamando a atenção de Nico para ele. Apoiou a cabeça no livro desolado.
― Essa matéria me odeia. ― disse num muxoxo.
Ficou assim por um tempo até sentir o travesseiro acertando-o no ombro. Levantou-se no susto encarando Nico que estava com uma cara de poucos amigos.
“Estou falando com você tem tempos. Olha pra mim ok?” sinalizou o amigo irritado. Will sorriu sem graça. Às vezes esquecia que Nico era mudo e que precisava olhá-lo para conseguir entender o que dizia.
― Desculpe, o que disse?
“Disse pra pedir ajuda ao Leo. Ele entende de Química” repetiu Nico pausadamente para Will conseguir compreender.
― O Leo? Sério? ― perguntou Will debochado.
“Ele faz engenharia mecânica, mas muitos projetos que ele já construiu usaram de química” reforçou o rapaz.
― Hm. ― balbuciou Will encarando o caderno novamente: ― Vou pensar nisso. Como está o projeto do condomínio?
Nico bufou “Terrível. Os gabaritos não encaixam de forma alguma” resmungou cruzando os braços na sequência.
― Posso ver um dia desses? ― pediu Will.
Nico encarou o rapaz aquiescendo duas vezes.
― Bom! Vai me inspirar a estudar, já que arquitetura é um curso de gente maluca! ― ralhou Will recebendo um sinal obsceno de Nico: ― Você parece educadinho, mas tem uma boca suja.
Nico rolou os olhos.
“Suas expressões não servem para mim, sabe disso né?” Comentou Nico.
― Falar que tem mão suja fica estranho. ― Will riu da ideia. Nico sorriu negando com a cabeça.
“Volta a estudar, Raio de Sol” zombou ele em tom de ordem.
― Ok, mandão!
Will parou por um momento pensando um pouco na situação. Nico era diferente das outras pessoas, e se lembrava do que Octavian havia feito naquele dia mesmo sabendo que Nico era mudo. Virou-se para o amigo:
― Nico?
O moreno o encarou:
― Você se dá bem aqui? Quero dizer, as pessoas te tratam bem na Universidade?
Nico o encarou por um tempo. Respirou fundo gesticulando:
“Sim e não. Eu sofro bullying em boa parte do tempo”.
Oh! Isso pegou Will com a guarda baixa.
“Não é porque estamos na Universidade que todos são adultos e param de ter preconceitos. Afinal os maiores preconceituosos são os adultos” gesticulou abaixando os olhos e mordendo os lábios em desagrado.
― Octavian é um deles? ― perguntou Will ligeiramente irritado.
“Um de muitos. Na verdade fiquei feliz que você me tratou bem depois de saber. Considero isso uma vitória pessoal”.
― Nunca iria te tratar mal por ser mudo! ― trovejou Will ofendido.
Nico o encarou por um tempo antes de sorrir:
“Agora eu sei”.
[...]
― Vocês estão bem próximos! ― comentou Kayla sentada do lado dele na Cafeteria. Nico estava fazendo os últimos ajustes no projeto e não pode almoçar com ele.
― Sim, o Nico é bem legal. ― respondeu Will sorrindo grande.
― Oh! Será que agora eu recebo um “sim estou apaixonado” ou vou ter que te bater até sair da sua boca? ― perguntou a moça arqueando as sobrancelhas.
Will ruborizou olhando a amiga:
― E-eu não... Kayla! ― reclamou ele tapando o rosto com as mãos.
― HÁ! Eu sabia! ― bradou a moça chamando a atenção das pessoas ao redor: ― Você gosta dele!
― Calada Kayla. ― reclamou tapando sua boca com as mãos: ― Sim eu gosto dele ok, admito. Agora fica quieta.
A moça sorriu afastando as mãos de Will de seu rosto.
― Quando vai contar pra ele?
― Não vou. ― respondeu simplesmente desviando o olhar.
― Por que não? ― indagou curiosa.
― Não acho que ele goste de mim da mesma forma que eu gosto dele. ― admitiu encolhendo-se no lugar.
― É sério isso? ― falou Kayla descrente: ― Ele é super a fim de você. Fala sério, todo muito já percebeu.
― Mentira. Porque o único que deveria perceber não o fez, então não importa. ― Will cruzou os braços sobre a mesa: ― Ele não iria querer nada comigo Kayla, e você pode falar o que quiser.
A moça suspirou:
― Pois bem, não direi nada. Mas não deixe a oportunidade passar Will, ele não vai esperar pra sempre. ― ela disse tomando um gole do suco.
― Ele nem está esperando. ― sussurrou pra si mesmo mordendo o lábio inferior.
[...]
Nico encarou o telefone pela décima vez no dia. Havia terminado os retoques do projeto e ido ao quarto de Hazel passar um tempo com ela enquanto terminava seu trabalho sobre Topografia.
Esperou uma mensagem do Will o dia todo, mas não recebeu nada além de um “Boa sorte” de manhã.
Não sabia o quão obvio estava que ele gostava do loiro, mas queria ter certeza que era recíproco antes de tentar algo, mas toda vez que encarava o visor do telefone e o via sem nenhuma mensagem dele sentia suas esperanças murchando.
― Mande algo pra ele Nico. ― falou Hazel sem encará-lo.
Nico suspirou puxando os joelhos na altura de seu rosto. Ele queria, mas e se estivesse abusando e mandando mensagens demais? E se Will não respondesse? E se...?
― Para de pensar tanto Neeks, só mande algo. ― reforçou a irmã virando-se a ele: ― Olha, você só vai saber se perguntar, não perca nenhuma chance.
Nico não respondeu, mas desbloqueou a tela do telefone. Encarou o contato e respirando fundo digitou algo.
[15:30] Neeks: Quer tomar um sorvete? Já terminei o projeto.
Enviou e no mesmo momento arrependeu-se. Grunhiu nervoso afundando o rosto dos joelhos. Ouviu Hazel rir ao seu lado, mas a ignorou. O telefone tocou na mesma hora o fazendo abrir a mensagem instantaneamente.
[15:30] Sunshine: Eu topo o sorvete! Agora?
Nico sentiu seu coração palpitar forte. Mordeu o lábio segurando um sorriso bobo.
[15:31] Neeks: Sim, nos encontramos na Cafeteria.
[15:31] Sunshine: Já estou aqui, é só vir.
Nico respirou fundo levantando-se. Gesticulou para Hazel que ia sair recebendo um “Boa sorte” da irmã. Foi até seu quarto pegar a carteira e saiu para a Cafeteria. Estava nervoso e não sabia se era por conta de ter chamado ele ou por seu cérebro gritar repetidamente que aquilo era um encontro.
Por Deus não era!
Certo?
Saíram para o sorvete naquele dia, mas foi a mesma coisa de sempre deixando Nico ainda mais apreensivo. Will parecia gostar dele, todos os sinais demostravam isso desde as primeiras vezes que conversaram, mas Nico não tinha certeza.
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[...]
― Bom então deixa eu ver se entendi, está me dizendo que o Quíron lhe deu um oito no trabalho porque você o respondeu mal? ― perguntou Percy duvidoso.
― Tenho certeza. Meu projeto estava perfeito, até minha mãe conferiu Percy. ― garantiu Annabeth negando com a cabeça.
― Ou você errou algo e nem mesmo sua mãe percebeu. ― disse Leo como se fosse o óbvio. Will tinha de concordar com esse fato.
― Impossível. ― recusou ela negando com a cabeça.
“Annie um oito está ótimo, eu não tiro mais de seis nos projetos dele” comentou Nico desinteressadamente.
― Isso não é bom Neeks. ― falou Will negando com a cabeça. Nico deu de ombros.
“Normal, acredite” gesticulou.
Cecil apareceu por trás de Will abraçando-o pelo ombro. O loiro soltou um pequeno grunhido pelo susto. Nico pulou ao seu lado encarando Cecil desconfiado.
― Cecil! ― bradou Will respirando fundo recuperando-se do susto. Ouviu Percy e Leo rindo.
― Will, como anda a vida? ― perguntou acariciando seus cabelos. O rapaz resmungou algo inteligível espantando o amigo de cima de si. Nico torceu o lábio olhando para o outro lado.
― O que está fazendo por aqui essa hora? Normalmente você não acorda cedo de Sexta. ― indagou Will virando-se para o amigo.
Cecil sentou-se entre ele e Nico de costas para a mesa. Will rolou os olhos enquanto o amigo indiscreto ajeitava-se no banco. Ouviu Percy dizendo algo sobre “intrometido”, e desta vez ele concordava com o Jackson.
― Na verdade estou fugindo da Kayla. ― disse ele por fim ganhando a atenção de Will.
― O que você fez? ― perguntou arqueando a sobrancelha.
― Por que eu tenho de fazer algo pra ela se irritar comigo? ― replicou Cecil. Will meneou a cabeça, ele tinha um ponto: ― Mas caso eu tenha feito algo me ajudaria a limpar a sujeira?
― O que você fez? ― insistiu Will agora preocupado.
― Nada, o problema nem é a Kayla. ― disse Cecil dando de ombros.
― Então qual é?
― Lee.
Will virou-se tão rápido ao amigo que sentiu o pescoço estalar. Arregalou os olhos em choque.
― Você irritou o Lee? Que merda você fez? ― bradou Will perplexo.
― Hm, acho que você deveria ver ao invés de eu falar. ― concluiu o amigo levantando-se do banco.
Will o seguiu com os olhos antes de suspirar e pegar suas coisas. Virou-se a Nico:
― Vem comigo? ― perguntou esperançoso. O moreno aquiesceu levantando-se também.
― Opa, vamos também! ― disse Percy puxando Annabeth para fora da mesa com ele. Leo também o fez: ― Algo me diz que é alguma coisa imperdível.
Will rolou os olhos e seguiu caminho com Nico ao seu lado e Cecil alguns passos à frente. Assim que chegaram a frente do Bloco C Will tentou mais uma vez saber o que Cecil fizera.
― Bom, eu estava tentando replicar o gás mostarda da guerra sabe? ― comentou Cecil dando de ombros.
Will parou no lugar olhando estupefato.
― VOCÊ O QUE? ― Bradou sem saber como reagir. Nico estava no mesmo estado. Os amigos mais atrás não ouviram a conversa, mas agora estavam calados e interessados.
― Hey, eu não machuquei ninguém no processo, juro. ― falou ele levantando as mãos na defensiva. Will aquiesceu mais calmo: ― Só nosso quarto.
― Vo― Will sequer conseguiu completar a frase. Nico gesticulou algo abismado, mas o rapaz não tinha muita experiência com Libras pra entender possíveis palavrões.
Sem olhar para o colega de quarto seguiu diretamente para o segundo andar da ala masculina. Assim que chegou ao corredor e viu o rastro de algo amarelo no chão saindo de seu quarto quis verdadeiramente chorar ali mesmo sem nem mesmo ver o estrago.
Percy passou por ele dando tapinhas em seu ombro indo até o quarto. Nico o seguiu, logo depois Will. Percy parou em frente ao quarto perplexo.
― Cara, isso ta bem mais mostarda e muito menos gás. ― comentou ele cruzando os braços: ― Mas o estrago tá terrível.
Will grunhiu aproximando-se de Percy. Nico soltou um som inteligível enquanto Will ficou em choque com o quarto amarelo. Inteiramente amarelo. Cecil parou ao lado dele.
― Bem acho que dá pra recuperar. ― comentou o amigo sorrindo sapeca.
Will retirou a mochila das costas: ― Nico, segura pra mim. ― pediu ele enquanto o moreno pegava a alça da mochila.
― Opa, calma ai amigão! ― falou Cecil dando dois passos para trás: ― Achei que fosse da paz.
― Achei que fazer gás mostarda fosse proibido! ― replicou o loiro.
― Não tem regra na faculdade que dita isso.
― NÃO PRECISA DE UMA! ― Bradou Will inconformado.
― Ah! Aí está você. ― Cecil perdeu a cor de seu rosto no momento em que ouviu Lee atrás de si. Até mesmo Will ficou tenso com o olhar do rapaz.
― Ah, Lee, como vai?
― Sabe, acordar logo de manhã com algo explodindo no andar de baixo quando eu estou a TRÊS DIAS SEM DORMIR NÃO É NADA BOM! ― Bradou Lee fora de si. Cecil encolheu-se no lugar: ― Will!
― Sim?! ― respondeu na mesma hora, sua voz subindo uma oitava.
― Eu não tenho nenhum outro lugar pra você ficar enquanto Cecil limpa essa bagunça sozinho. ― comentou Lee preocupado: ― Esse ano todos os quartos estão ocupados.
―Ah isso não é problema. ― comentou Leo passando o braço no pescoço de Lee: ― Nico mora sozinho no dormitório, Will pode ficar com ele, certo amigo?
Will olhou para Nico que aquiesceu sem pensar duas vezes. O rapaz sentiu-se grato mil vezes pelo amigo.
― Então pegue suas coisas lá dentro. ― Falou Lee dando uma espiada no quarto: ― Se algo sobreviveu lá.
Will soltou um resmungo entrando no quarto.
― É melhor começar a rezar Cecil. ― falou Lee com a voz tenebrosa. Will correu para dentro encarando o mar amarelo que estava seu quarto.
Abriu o guarda roupa e ficou feliz em ver que tudo estava em ordem lá dentro.
― Sorte que guardo meus livros aqui. ― comentou para si mesmo pegando uma mala na parte de baixo do guarda-roupa colocando algumas peças de roupa e os livros que usaria na semana.
Entrou no banheiro pegando o necessário para ficar alguns dias com Nico e saiu do quarto. Cecil e Lee haviam sumido, agora sobrando somente Nico, Percy, Annabeth e Leo.
― Vamos? ― disse Percy enquanto puxava Annabeth pela mão.
― Ainda estou intrigada. Como ele conseguiu fazer esse gás mostarda? ― comentou Annie fazendo uma careta.
― Não era gás aquilo, com certeza. ― falou Leo: ― Ele usou a combustão errada, se tivesse usado outro elemento químico quem sabe.
― Por favor fique longe do Cecil. ― Pediu Will suplicante. Leo o encarou ofendido:
― Eu não vou ensinar ele a fazer um gás mostarda. ― defendeu-se.
― Bem, independente disso vamos logo pro dormitório, preciso começar o projeto do meu teatro o quanto antes. ― disse Annie. Nico gesticulou com as mãos algo que Will supôs ser um “Já?” e mais alguma reclamação por detrás.
Foram em direção ao Bloco A. Annie e Percy foram para um lado e Leo disse ir para a cafeteria encontrar-se com Calipso. Nico e Will seguiram caminho para o quarto 113. Nico abriu a porta e entraram nela.
O quarto era bem arrumado. Os livros nas prateleiras muito bem organizados. A cama com o lençol esticado perfeitamente, mas a mesa de estudos destruía a harmonia de tudo. Will riu da zona que era sua mesa.
Fazia jus ao estilo bagunceiro dos arquitetos.
― Por que não usou essa cama pra outra coisa? Afinal você não tem um colega de quarto. ― perguntou Will colocando sua mala em cima da cama.
“Não preciso dela pra nada, e no caso de alguém aparecer ela está disponível” Nico gesticulou, mas Will não entendeu a maioria dos gestos por terem sido feitos rápidos demais.
― Ah sim claro. Super concordo. ― falou rindo nervoso. Nico rolou os olhos: ― Ei! Eu estou tentando tá. To estudando bastante, até vídeo aulas estou vendo.
Nico bateu palmas pra ele mostrando na sequencia os polegares.
― Esses gestos eu conheço. ― disse convicto. Nico gesticulou um “Não são gestos de Libras”, mas deu de ombros sentando na cama.
― Por que você está sozinho? Ninguém apareceu pra dividir com você? ― perguntou Will acomodando-se na cama exatamente igual a sua.
“Eu pedi para a faculdade me disponibilizar um quarto sozinho. Ninguém vai aparecer pra dividir comigo” gesticulou Nico devagar.
― Por que? ― insistiu Will curioso. Nico suspirou gesticulando:
“Ninguém iria querer dividir o quarto comigo. Além do que não deve ser fácil dividir o quarto com alguém como eu certo?” o sorriso do moreno era forçado, e Will balançou a cabeça discordando.
― Você só é mudo Nico. Não tem nenhuma deficiência que o torne dependente de alguém. Talvez ter um colega fosse bom. Eu não me importo de ficar aqui com você, mesmo se não falar comigo nenhum “a”. ― explicou Will calmamente.
Nico ruborizou desviando o olhar para outro lado. Will sorriu da reação do rapaz. O encarou por um tempo antes de Nico olhá-lo curioso.
― Você tem cocegas? ― perguntou Will do nada.
Nico arregalou os olhos afastando-se ligeiramente do rapaz. Will tomou isso como um sim. Mordeu o lábio avançando ameaçador. Nico mal teve tempo de fugir até sentir as mãos ágeis de Will fazendo-lhe cocegas na barriga.
Nico ria de uma forma única. Mesmo sem som algum o rosto de puro divertimento deixava Will extasiado. Seus olhos semi abertos com algumas lágrimas aglomerando-se em seus olhos. Suas mãos tentando segurar os pulsos do Will em vão.
Alguns sons inteligíveis saiam de seus lábios fazendo o sorriso de Will aumentar. Um tempo depois ele parou dando espaço para Nico respirar. Os dois tinham um sorriso bobo no rosto, mas um deles bem mais cansado que o outro.
Nico mostrou-lhe o dedo do meio fazendo Will rolar os olhos.
― Deveria rir mais, Neeks. ― falou o loiro sentando-se melhor ao lado do moreno que tentava recuperar o fôlego sentando-se do lado dele.
Nico o encarou de soslaio negando.
― Por que? É divertido te ver sorrindo deste jeito.
“Alguns sons estranhos saem quando eu rio. Não gosto da minha risada”.
Will sorriu amorosamente: ― Eu gosto.
Nico arregalou os olhos encarando-o pasmo.
― Acho fofa. Não precisa sair som pra eu achar legal em te fazer cocegas. Suas expressões faciais são o suficiente. ― respondeu o amigo dando de ombros.
Nico o encarou por um tempo sem saber o que responder, mas sentiu suas maçãs do rosto arderem.
“Maluco”
― Talvez um pouco. ― respondeu ele: ― Bom, posso fazer cocegas sempre que quiser?
“Só se quiser tomar um soco depois” gesticulou ele arqueando a sobrancelha.
― Não me bateu antes.
“A primeira vez a gente releva” respondeu convicto.
― Deve ser bem legal morar com você então em. ― zombou Will rolando os olhos: ― Vou segurar seus braços na próxima vez que quiser te fazer cócegas.
Nico arqueou a sobrancelha sorrindo sapeca.
“Seria bem romântico, em?”
Will não soube onde enfiar a cara depois disso.
[...]
Morar com Nico tinha suas vantagens, uma delas é que ele poderia ver o amigo todos os dias, principalmente quando ele dormia. Will não admitiria em voz alta, mas estava apaixonado por Nico ao ponto de não se cansar de admirar sua feição serena ao dormir.
Ele estava morrendo de amores, mas tinha medo. Nico era engraçado, divertido além de vir de uma família rica. Nico havia explicado para ele que seu pai era dono de uma empresa de Casinos e que sua irmã mais velha, Bianca, havia cursado Administração para assumir os negócios do pai.
A empresa era internacional, e a casa que Nico morava era incrível ― não havia visto pessoalmente, só por fotos. Sempre que pensava nisso sentia que sua paixão por ele era boba, que Nico não lhe daria bola ou que não seria bom o bastante.
Sempre que esses pensamentos apareciam sentia-se terrível por prender Nico a si. Com certeza o amigo diria que não tinha nada demais, mas Will não acreditaria, afinal de contas era somente a verdade.
Will não tinha nada de especial, e Nico? Podia não ser perfeito, mas era incrível demais para ele.
Durante o tempo que ficou com Nico no quarto tentou evitar muito contato, mas por algum motivo Nico insistia em ficar sempre próximo, fazendo piadas bobas e o fazendo rir sem parar.
Depois que Will lhe pediu para que risse mais Nico o fazia com mais constância, porém só perto dele, quando estavam sozinhos no quarto. Fora dele não se permitia isso. Will sentia-se especial com esse gesto.
Mesmo não sabendo se deveria ou não sentir-se assim.
Por Deus como estava odiando sentir-se daquele jeito.
[...]
Nico não sabia mais o que fazer. Ou Will era extremamente lerdo ou extremamente burro. Ele queria acreditar na primeira.
Quantos sinais ele havia dado, quantas vezes havia insinuado coisas e mesmo assim Will nada fazia ou dizia, no máximo ruborizava. Estava quase esfregando na cara dele que estava apaixonado, mas mesmo assim poderia não dar certo.
Suspirou pesado abaixando seu livro de materiais ecológicos e virou-se a Will. O rapaz dormia profundamente na cama agarrado ao travesseiro. Nico sorriu amorosamente. Estavam morando juntos há três dias, mas parecia que sempre estiveram compartilhando o quarto.
Era tão estranha a forma como ele sentia-se perto do Will. Era como centenas de borboletas brigando em seu estomago; era como seu pequeno e particular raio de sol. Nico não sabia explicar, mas sempre que estava perto de Will sentia seu coração aquecer-se e uma vontade imensa de abraça-lo a toda hora.
Respirou fundo descendo cuidadosamente de sua cama caminhando até Will. Agachou-se na sua frente encarando sua face dorminhoca. Os lábios entreabertos com metade do rosto afundado no travesseiro. A respiração controlada e calma.
Nico mordeu o lábio passando os dedos delicadamente por seus cabelos. Will soltou um sorriso apreciando o gesto. O moreno continuou o carinho ouvindo o pulsar de seu coração em seus ouvidos.
Queria beijá-lo ali mesmo, mas sabia que era errado abusar do rapaz enquanto dormia. Respirou fundo encostando seus lábios em sua testa.
Aquilo o estava consumindo, pouco a pouco. Precisava resolver a questão entre os dois e rápido.
[...]
Will ficou no quarto com Nico por quatro dias antes de voltar para seu dormitório. Cecil pediu desculpas e disse que havia limpado tudo, mas o cheiro de mostarda não saia. Will não se importou com isso.
Nico estava agindo estranho com ele desde os dias que dormiu no seu quarto. Não um estranho ruim, mas as insinuações estavam cada vez maiores e Will sentia-se perdido. Era muito obvio o quão inseguro ele podia ser e sabia disso muito bem, mas ainda sim ele não conseguia se fazer entender.
Nico estava de verdade gostando dele? Era recíproco?
Esse sentimento bom de se sentir amado de volta era incrível. Claro antes de sua insegurança destroça-lo impiedosamente. Você não é o bastante, não é importante. É só um amigo que Nico conseguia conversar com mais facilidade. Só isso.
Sem paixões envolvidas...
Certo?
[21:32] Neeks: Vamos no parque no final de semana?
[21:33] Will: Parque? Tem algum na cidade?
[21:33] Neeks: Sim. Como estamos perto das férias de inverno pensei que seria legal dar uma relaxada.
Will sorriu animado.
[21:34] Will: Quero sim!
[21:34] Neeks: Ótimo. Saímos da Universidade as dez. Passamos o dia lá!
[21:34] Will: Combinado. Vamos de metro?
[21:35] Neeks: Algo bem melhor. Tenho de ir, Boa noite Raio de Sol ♥
Will grunhiu escondendo o rosto em seus braços. Mordeu o lábio respondendo-o.
[21:36] Will: Boa noite :*
― Ele me chamou pra ir ao parque. ― falou Will para Cecil que via algo no celular.
― Oh! Finalmente alguém está dando o primeiro passo. ― comentou o amigo rindo sapeca.
― Estou nervoso, e se for só como amizade? ― cogitou Will deixando o telefone no criado-mudo.
― Se você me vier com esse papo de “ele não gosta de mim” faço outra bomba mostarda, e desta vez coloco dentro do seu guarda-roupa. ― ameaçou Cecil apontando-lhe o celular.
― É só questão de me precaver ― falou ignorando a ameaça do amigo: ― E se não foi o que estou pensando?
― Então faça ser! ― exclamou o amigo: ― Seja aquilo que nasceu para ser.
― Gay?
― Isso era óbvio, mas eu digo sobre masculinidade. ― ressaltou Cecil: ― Você é homem, mostre isso. Faça gestos românticos. Segure sua mão.
― Não posso fazer isso, seria como calá-lo. ― rebateu Will sério.
― Will foi só uma hipótese. ― ressaltou o amigo rolando os olhos.
― Ridícula por sinal.
― Ok, eu vou dormir que ganho mais. ― resmungou deitando-se na cama ainda mexendo no celular.
Will respirou fundo deitando-se também.
[...]
Will arrumou o cabelo pelo que foi a quinta vez naquela manhã. Era ridículo se aprontar todo pra ir a um parque de diversões, mas ele queria pelo menos impressionar um pouco o moreno, claro que vestido com jeans, tênis, camiseta e uma jaqueta laranja não é a melhor vestimenta para impressionar.
Respirou fundo sentando-se na cama nervoso e ansioso. Mexia as pernas pra cima e pra baixo canalizando a ansiedade.
[11:30] Neeks: Estou no estacionamento.
Will mordeu o lábio sorrindo abobado. Pegou suas coisas e saiu do quarto. Caminhou até o estacionamento dos dormitórios. Sentia como se milhares de borboletas alçassem voo em seu estomago. A ansiedade era imensa, não sabia o que pensar ou como agir naquele parque. Pouco a pouco parece que conseguia disfarçar cada vez menos, tanto que até mesmo Lee percebeu, e olha que o rapaz é um morto-vivo.
Chegou ao estacionamento parando abruptamente no lugar. Nico estava encostado em uma moto com o celular em mãos. Usava uma calça preta Skinning, uma camiseta de manga comprida com “Caos is what killed the dinosaurs, darling” escrito em branco. Seus cabelos estavam soltos e compridos cobrindo parcialmente seus olhos focados na tela do telefone.
Will puxou o ar encantado. Droga, como ele poderia ser tão charmoso assim? Engoliu em seco e foi tentando controlar o nervosismo ao aproximar-se dele. Nico levantou a cabeça encarando-o nos olhos sério, como se esperasse espantar alguém somente com o olhar, mas então seu rosto suavizou tornando-se um sorriso amoroso.
O coração de Will falhou uma batida.
“Bom dia Will” cumprimentou Nico desencostando-se da moto.
― Bom dia, Neeks! ― falou mordendo o lábio: ― Então... Vamos de moto?
Nico arqueou a sobrancelha pegando dois capacetes e lhe entregando o vermelho.
“Sim” gesticulou após entregar-lhe o seu. “É mais rápido.”
― Esse esquema da moto, parece até um encontro. ― zombou Will rindo nervosamente arrependendo-se na sequência.
Puta merda, qual o meu problema? Repreendeu-se mentalmente. Nico colocou o capacete ainda com a viseira aberta.
“Quem disse que não é?” respondeu o moreno piscando-lhe o olho e fechando a viseira. Subiu na moto ajeitando-se nela.
Will arregalou os olhos em choque. Ele entendeu aquilo certo? Não, com certeza não. Nico não iria flertar com ele assim sem mais nem menos. Certo?
Certo.
Nico assobiou chamando-lhe a atenção.
“É pra hoje?” gesticulou impaciente. Will suspirou colocando o capacete. Sim, ele não está flertando comigo, certeza absoluta.
Sentou-se na moto segurando na lateral da camiseta de Nico timidamente. O rapaz virou a cabeça ligeiramente para trás segurando suas mãos com delicadeza e as colocando em seu abdômen. Will prendeu o ar ficando tenso sentindo Nico reagir ao seu toque.
Nico soltou seus braços e esticou-se para frente pegando o guidão da moto. Deu partida na moto e começaram a ir em direção à saída da universidade. Como era próxima ao estacionamento não demoraram muito para chegarem à rua.
Nico acelerou na curva fazendo Will apertar os braços em volta de si afundando seu rosto em suas costas. Sentiu Nico rir. Fechou os olhos um pouco apavorado. Nunca havia andado de moto antes, e aquilo estava sendo aterrorizante, mas em parte incrível.
O rapaz manteve uma velocidade moderada até chegarem ao estacionamento do Parque. Desceram da moto retirando seus capacetes.
“O que achou?” gesticulou Nico curioso.
― Incrível! ― respondeu ainda sentindo suas pernas tremerem: ― Há quanto tempo você pilota?
Nico pareceu pensar enquanto ajeitava os cabelos bagunçados pelo capacete. Estavam bem bagunçados, e Will perguntou-se se estava no mesmo estado. Discretamente passou a mão nos cabelos.
“Desde os meus dezesseis, eu acho” respondeu dando de ombros “Não sou novo de carta, se é o que pensa”.
― Nem passou pela minha cabeça. ― admitiu: ― Eu só dirijo carro, mas não é lá essas coisas.
“Deixe que eu julgue isso, Raio de Sol” puxando Will para a entrada Nico sorriu para ele. Soltou seu pulso “Já tenho os ingressos”. Mostrou-os aumentando ainda mais o sorriso animado.
Will permitiu-se rir junto. Só de ver ele feliz já o fazia ganhar o dia.
[...]
Andaram em vários brinquedos do parque, a maioria deles radicais demais para o gosto do Will. De montanha-russa foram em quatro, uma mais emocionante ― ou aterrorizante, depende do ponto de vista ― que a outra. Havia alguns brinquedos que giravam tanto que Will se viu enjoado só de assistir de longe, mas estava se divertindo.
Nico estava bem animado ― nem parecia ser o mais velho dos dois ― o puxando de lá pra cá. Pararam lá pelas duas da tarde para almoçarem. Nisso foi uma sessão de conversas constrangedoras sobre a escola e os “micos” que passaram nela.
Will ouviu sobre como Nico era tratado por ser mudo, que mesmo tendo vários amigos ao redor sempre sofreu bullying pelas pessoas pensarem que só por ser mudo automaticamente se torna surdo e cego. Que não escuta as ofensas, as brincadeiras e as piadinhas de mau gosto, ou não vê os gestos. Ele disse que quando criança muitas vezes chegava a casa chorando sem saber o que fazer, pois se sentia como o errado. Will odiou saber disso.
Ele aprofundou sobre sua amizade com Percy e Jason, que os dois sempre estiveram com ele não importava o momento ou circunstância; nem idade ou distância. Eram primos, mas antes de tudo eram irmãos. Will sorriu com isso, da mesma forma que Nico o fez.
Seus movimentos eram tão leves, tão doces falando sobre os dois. Will se sentia encantado por isso. Os olhos dele brilhavam orgulhosos.
Quando voltaram à ativa foram direto para o carrossel ― Will desafiou Nico por um algodão doce ― e em seguida às barracas de jogos. Will odiava admitir, mas era péssimo em todos os tipos de jogos que ali tinham. Mira? Nem uma bolinha de papel no lixo ele tinha capacidade de acertar. Força? Nico era mais forte que ele pelo menos uns cinco pontos como o jogo mostrou.
Nico era ótimo em mira e conseguiu ganhar na maioria das barraquinhas de jogos. As prendas foram várias, mas ele resolveu dar elas às crianças que passavam pelas barracas de mãos vazias. Will sorriu do ato, mas confiscou uma das pelúcias pra si.
Foi escurecendo e Will havia tentado a todo custo fugir da Casa Mal-assombrada, mas Nico parecia ter esperado escurecer para puxá-lo pra fila.
― Eu odeio você! ― resmungou na fila. Nico rolou os olhos.
“É tudo falso Will. Para de drama”.
― Não é drama, é questão de eu não conseguir dormir a noite e ter de me empoleirar na cama do Cecil. ― falou Will hipoteticamente... Não que tenha acontecido isso antes.
Nico fechou a cara torcendo o lábio.
― Aquele cara ta falando sozinho? ― perguntou uma pessoa um pouco distante deles, mas alto o suficiente para chamar a atenção de Will. Virou-se pra eles.
― Qual o problema dele? Ridículo. ― zombou outro soltando uma risada debochada.
― Parem com isso, acho que o amigo dele não fala. Vi ele fazendo sinais com as mãos. ― defendeu uma garota com eles repreendendo-os.
― Um amigo mudo? Que bosta. Deve ser um porre. ― comentou outro tirando risadas dos rapazes.
― Trabalho a mais.
Will mordeu o lábio irritado. Voltou a olhar para Nico que o encarava sério. Sustentou seu olhar antes de Nico respirar fundo abaixando a cabeça evitando seus olhos. Will ficou tenso com sua reação.
Fechou os olhos por alguns instantes antes de puxar folego:
― Se te incomoda tanto eu posso parar de falar. ― disse Will em alto tom chamando a atenção do grupo e de Nico que o encarou horrorizado.
“Não preciso falar” gesticulou ele timidamente para Nico. O moreno ficou sem reação. “Não sou muito bom, mas tenho treinado com Hazel”.
Nico continuou parado o encarando em choque. Abriu um sorriso grande colocando a mão na boca segurando as risadas bobas que saiam por seus lábios. Will sorriu junto dele. Os olhos de Nico brilhavam de orgulho.
“Um pouco lento, mas os movimentos estão bem feitos”. Admitiu Nico “Mas vamos ficar quietos por um momento”.
“Por que?” perguntou Will curioso e um pouco preocupado. Será que Nico não gostou do que ele fez?
“Nossas mãos vão estar ocupadas.” Respondeu pegando timidamente a mão de Will segurando-a sem entrelaçar os dedos, mas as emoções que afloraram em Will foram tantas que parecia até que tocava em brasa.
A mão de Nico era macia e fria contra a sua pele quente e suada. Will mordeu o lábio envergonhado, mas retribuiu o aperto das mãos.
A porta do brinquedo abriu entrando o grupo da frente e os dois. Quando ela fechou-se atrás deles Will aproximou-se automaticamente do moreno pelo susto apertando consideravelmente sua mão.
O loiro sentiu Nico rindo contra seu corpo.
[...]
Nervosismo era pouco para descrever o que Nico sentia naquele momento. Quando segurou na mão de Will antes de entrar no brinquedo chegou a pensar que ele fosse afastá-lo ou algo do tipo, mas foi o contrário.
Ele aproximou-se, e mesmo depois de deixarem o brinquedo Will demorou uns bons minutos para perceber que ainda estavam de mãos dadas. O moreno admitia que havia ficado com dó do Will quando entraram. Ele gritou várias vezes, e outra, parecia que iria destroçar sua mão de tanto apertá-la.
Contudo ele não ligava. Era incrível a sensação do calor da mão do rapaz na sua. Um pouco calejada e áspera, mas confortável. Parecia como um porto seguro para Nico, mal prestou atenção na casa mal-assombrada. Só tinha uma coisa em mente: Quero segurar a mão dele sempre que quiser.
Respirou fundo na fila do refrigerante. Will havia pedido uma coca mais cedo e agora que estavam quase indo embora resolveram parar para comprar algo. Mordeu o lábio olhando para trás sobre seu ombro.
Will estava encostado na parede sozinho mexendo em seu celular. O tempo estava frio e o vento castigando aqueles desprotegidos. Por sorte o rapaz estava com sua não chamativa jaqueta laranja.
Nico rolou os olhos para a roupa florescente dele. Estava charmoso e ajudava a acha-lo no meio da multidão, mas ainda sim... Laranja?
Aproximou-se da moça apontando para o refrigerante no cardápio. A atendente o encarou estranho antes de ir buscar os pedidos. As sobrancelhas franzidas lhe dava um ar desconfiado. Nico evitou incomodar-se com isso.
Pagou pelas latinhas e foi em direção ao Will. O loiro estava distraído com o celular e não viu Nico aproximar-se encostando a latinha gelada em sua bochecha o fazendo pular pelo susto. Soltou um grito abafado afastando-se.
Nico sorriu grande tremendo os ombros enquanto uma risada ousava escapar por seus lábios, risada a qual sempre odiou, mas por algum motivo Will gostava.
O loiro torceu o lábio.
― Engraçadinho. ― falou ele recompondo-se, mas o rubor em seu rosto continuou ali: ― Me dê isso.
Nico entregou para ele, mas quando Will pegou a latinha não a soltou. O rapaz arqueou a sobrancelha curioso.
Nico respirou fundo encarando-o nos olhos por longos minutos. Sentiu seu rosto esquentar enquanto aproximava-se lentamente de Will. O loiro sorriu envergonhado pegando sua latinha.
― Vamos nos sentar?
O moreno desviou o olhar por alguns segundos antes de encará-lo uma segunda vez, neste caso quem o olhava era Will.
Sustentaram o olhar um do outro antes de Nico arfar aproximando-se relativamente bem de Will. O loiro ficou tenso, mas não se afastou. Nico retirou a latinha da mão de Will deixando na mesa sem cadeiras ao lado deles.
O segurou pela gola da jaqueta aproximando seus rostos. Quando sentiu a macieis dos lábios de Will sentiu como se seu mundo desabasse diante de seus pés, e decidiu que valeu a pena ter esperado.
[...]
Will não sabia explicar o que estava acontecendo ali, mas com os lábios de Nico contra os seus não soube como reagir ou o que fazer. Nunca havia beijado antes. Nico enlaçou seu pescoço guiando-o calmamente no beijo doce e tímido deles.
O loiro entregou-se ao beijo deixando-se levar pelo instinto. Passou o braço pela cintura de Nico aproximando-o timidamente de si. Afastaram-se um pouco com Nico arfando contra seus lábios ferventes.
Will soltou um sorriso.
Eles se beijaram. Ele, Willian Solace havia beijado Nico di Angelo. Se ele acreditava nisso? Definitivamente não, mas ali estava ele abraçado com o rapaz de olhos fechados e um sorriso tão lindo no rosto que Will teve vontade de abraça-lo para sempre e numa mais soltar.
Nico abriu os olhos encarando-o por um tempo antes de se afastar o bastante para conseguir gesticular.
“Faz tempo que quero fazer isso.” Nico estava calmo e tímido ao mesmo tempo.
― Quanto tempo? ― perguntou Will aéreo.
“Desde a primeira vez que nos falamos, eu acho.” Respondeu ele desviando o olhar “Eu acabei contando para o Percy que tinha achado um rapaz interessante na sala e ele fez aquela papagaiada toda.”
Will soltou uma risada lembrando-se da pergunta inconveniente.
“E você?”
Mordeu o lábio tenso. Ele queria beijar Nico desde o começo? Sim, queria muito estar com ele, beijá-lo e poder abraçar a toda hora. Queria poder estar como estavam naquele momento, mas deveria dizer?
― Eu...
Nico franziu o cenho preocupado. Will pigarreou.
― Sim, eu queria também já tem um tempo. Não sei dizer quanto, mas sim queria. ― respondeu sem encará-lo: ― É só que... Eu gostar de uma pessoa incrível como você? Idiotice minha não?
Nico o soltou puxando seu rosto para frente delicadamente. Seus olhos estavam arregalados. Afastou as mãos.
“Do que está falando?’
― Você é uma pessoa incrível Neeks. O que ia fazer perdendo seu tempo comigo? ― respondeu respirando fundo na sequência.
“Não ia perder tempo. Ia aproveitar com uma das pessoas que mais me importo na vida.” Falou ele sério “Que quero ficar com você, não importa onde ou como. Eu quero isso Will, e tenho me segurado tanto para não acabar falando nada.” Parou um momento antes de gesticular “Quero abraça-lo igual fizemos agora pouco. Isso não basta pra você entender o que sinto por você?”.
Will ficou sem palavras e boquiaberto. “O que sinto por você?”
― Eu não entendo. ― murmurou Will com seu coração a mil: ― O que você quer dizer com tudo isso?
Nico olhou-o sério. Will parecia frágil a seus olhos. Assim sendo Nico andou até ele puxando delicadamente seu rosto em suas mãos selando seus lábios em um doce e singelo beijo.
Will ficou tenso ao sentir novamente os lábios de Nico nos seus, mas relaxou deixando-se ser guiado pelo moreno. Separaram-se mantendo os rostos próximos. Nico acariciou sua bochecha olhando-o nos olhos antes de se afastar e fazer um movimento com as mãos que fez o coração de Will falhar uma batida.
“Eu amo você”
Will ficou em choque. Aquela frase com certeza não era algo que ele esperava tão logo. Amava Nico demais, mas pensar que o rapaz retribuía o sentimento? Nunca imaginou isso.
― Você... Me ama? ― perguntou Will incerto. Nico aquiesceu sorrindo: ― Eu? Mas por quê?
Nico franziu o cenho confuso:
― Eu não tenho nada de especial. Como alguém como você poderia gostar de mim? ― sussurrou abaixando o olhar.
Nico puxou seu queixo para ele com o olhar amoroso e sereno. Roçou seus lábios outra vez antes de gesticular:
“Eu amo você por você ser quem é. Você é especial Will, não precisa ter feito coisas incríveis ou vindo de uma família rica. Seu jeito de ser é o que o torna incrível. E eu amo você por isso. Não seja tão inseguro, não há motivos para isso.”
Os movimentos das mãos de Nico foram delicados e suaves. Will conseguia sentir em cada movimento o carinho que Nico transmitia em suas palavras mudas. Will sentiu seu coração se apertar enquanto seus olhos ardiam e as primeiras lágrimas desceram.
Nico arregalou os olhos assustado. Will soltou um sorriso:
― Eu amo você também. ― respondeu mordendo o lábio enquanto as lágrimas continuavam a descer: ― Amo demais.
Nico sorriu abraçando-o afundando seu rosto na curvatura de seu pescoço. Will o segurou pela cintura apertando-o com medo que sumisse.
A felicidade em seu peito era imensa, queria sentir mais disso, mais deste carinho. Ele nunca pensou que se sentir amado era assim tão maravilhoso.
Ele não precisou que as palavras fossem ditas verbalmente. Aqueles símbolos ficaram gravados em seu peito.
Foi talvez a melhor e mais incrível declaração que Will já recebeu, e ansiava por mais e mais.
E outros “Eu te amo” apareceram, um mais especial que o outro.
Até que outra palavra tornou-se mais incrível, mas estava Will gostaria de guardar para si. Já que com ela Nico o conquistou completamente.
Com sua forma silenciosa de amar.
Notas finais
Se gostaram me indiquem temas: Contos de fadas, AU's mais comuns, os menos comuns, e vamos brincar com essas ones imensas ou short-fics ♥
Ah, claro, se viu algum erro me avise porque revisei 10x e pode ser que tenha passado algo, já que são 16-fucking-mil palavras.
Queria explicar um pouco como eu vejo os personagens, acho que ainda não fiz isso, nem em PaP. Então deixa eu falar um pouco desse Will inseguro que vocês viram. Texto longo, se preparem.
Para mim Will é o inseguro da relação. É o que vai duvidar do seu valor, é aquele que vai ter de ser lembrado por Nico sempre que é amado pois a insegurança dele seria imensa. Sim, eu li o mesmo livro que vocês e mostra o Will todo cheio de si e que mantem o Nico no chão, mas se vocês leram o mesmo livro que eu sabem que o Will só consegue curar pessoas. Nada além disso. Diferente de seus irmãos que sabem cantar, tocar, curar e ainda por cima são bons no arco e flecha (tudo junto), acham mesmo que ele não seria inseguro? Justamente pela forma que o Rick abordou o Will nesse pouco contato é que eu tenho certeza absoluta que ele é o inseguro dos dois.
Ele que vai pensar quando um paciente morrer "A unica merda que sei fazer é curar, e nem isso faço direito" e todo o seu medo, a sua certeza de ser inferior aos seus irmãos, de precisar se protegido por não saber lutar, de sempre ficar para trás como curandeiro vai vir a tona. E isso eu quis passar pras minhas histórias com o Will. Ele pode ser só sorrisos, mas aquele que mais sorri é o mais quebrado por dentro.
Não é a toa que a maioria das histórias que você lê o Will de alguma forma tem algo quebrado dentro dele. Nunca é 100% feliz, e sempre é um sentimento de inferioridade. É automático nosso escrever ele dessa forma, pois para mim foi como o Rick o retratou.
Agora o Nico? Sim, ele também é inseguro. Tem o medo da rejeição, o medo de perder quem ama e por isso se afasta. E é inseguro por causa de sua perda, da "traição" do Percy e coisas do tipo, mas entre os dois não acho que o Nico seja o mais inseguro, pois a partir do momento em que ele e Will firmaram uma relação, seus amigos o aceitando como é, ele conseguiu vencer a insegurança quase 100%. Agora, o Will? Não.
Will é o mais inseguro, não Nico. E por isso eu acredito que ao longo do relacionamento deles eles invertam de papéis. Onde o Will se sente quebrado e Nico o coloca pra cima.
Nessa fic ele é feliz sim. "Ah ta muito OC" ele só ficou daquele jeito sombrio porque a Bianca morreu. Nessa fic ELA TA VIVA! Ele não era sombrio por ser filho de Hades, e sim pelo Luto. Tem pessoas que nunca se recuperam do luto, e o Nico é uma dessas pessoas. Aqui na fic Bianca e Maria estão vivas.
Deixem ele ser feliz ;)
Então a relação deles eu acredito ser de apoio mútuo.
E por causa dessa relação deles que eu tenho medo pelo Will. Pois Hades disse que todos os seus filhos são fadados à infelicidade. O que dá a entender que nenhum filho, nunca, conseguiu ser feliz e ele gostaria que Nico fosse a exceção.
E se ele não for?
E se o Will morrer em TOA? Ou terminarem, ou qualquer outra coisa? E se o Nico não conseguir ser feliz? Isso é uma frase de HDO se não me engano, mas eu temo por ela. Os deuses não iam jogar isso solto se não tivesse um peso real. E se?
Eu temo pelo Nico e pelo Will.
Bom, essa é a ideia geral.
Mais um texto imenso, mas faz parte. Espero que tenha entendido o meu Will e o meu Nico.
É isso. Grandes beijos, obrigada por ler.
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