Be Mine - em HIATUS
26 Capítulo XXV - Russian Roulette
Notas iniciais
As my life flashes before my eyes, I'm wondering will I ever see another sunrise?
(Enquanto a minha vida passa diante dos meus olhos, eu me pergunto: verei outro nascer do sol?)
(BPOV)
A escuridão me engolia de tempos em tempos, em sonhos sem faces e pesadelos que são mais frequentes do que eu gostaria.
“Srta. Isabella, acabamos de receber uma chamada de rádio da equipe de segurança que você designou ao sr. Edward... Eles estão sofrendo um atentado a tiros em uma pequena pizzaria e estão presos no fogo cruzado.”
“Aparentemente, o sr. Edward foi atingido, mas ainda não sabemos a gravidade da situação.”
“A equipe está tentando despistar o carro que os segue, mas não sabemos nada sobre o estado do Sr. Edward e seus irmãos, me desculpe.”
Porém, nesse pesadelo, Edward não voltava vivo para mim. Ele retornava dentro de um saco preto e quando eu abria o zíper, seu corpo estava banhado na poça de seu próprio sangue. Eu não conseguia enxergar seu rosto com clareza, mas seus olhos, sempre tão vivos como as esmeraldas mais raras do mundo, fitavam-me estatelados sem suas faíscas características, mostrando-me novamente que sua morte é minha culpa. Eu queria acordar, gritar, tocar em Edward apenas mais uma vez para ter a certeza de que sim, ele voltou vivo daquele atentado, mas meu corpo não correspondia a nenhuma tentativa.
Então, é como se o deus grego Morfeu me puxasse de volta e a escuridão tomava conta de mim. Eu sentia meu corpo flutuando, vagando por um vazio que só me trazia angústia e solidão. Eu gritava, mas não possuía voz, queria abraçar meu corpo para buscar o mínimo acalento possível, mas não conseguia. Eu estava sozinha, atada em mim mesma. Uma prisão que machucava cada pedaço de mim.
“Reneesme? De onde você tirou esse nome, Bella?”
“Obviamente é a junção dos nomes de nossas mães.”
“Sim, eu percebi isso, mas de onde tirou essa ideia desastrosa? É terrível esse nome.”
“Eu gosto. É diferente e empoderador. Homenagem a duas mulheres incríveis que nós dois amamos muito.”
“Sim, amamos, mas não! Nossa filha não se chamará Reneesme. É estranho. Reneé e Esme. Rene-es-me. Não, sweetie. Vamos escolher outros nomes.”
“Que tal Carlie? Mistura de Carlisle e Charlie?”
“É melhor que Reneesme, mas eu tenho uma ideia melhor... Que tal não juntarmos nenhum nome?”
“Você é um estraga-prazeres.”
Eu conseguia ouvir sua risada melodiosa, sentia seu corpo vibrando embaixo do meu conforme ele se divertia com nossa discussão sobre nomes de filhos logo após sabermos sobre a gravidez de Rosalie. Eu amava nossos pequenos momentos. Nós dois deitados juntos no tapete da sala, saboreando um bom vinho e fazendo planos para nosso futuro.
Ah, Edward... Será que poderemos fazer planos novamente? Uma mansão em Upper East Side, dois cachorros correndo pelo jardim juntamente com duas crianças ruivas de olhos verdes. Você descalço, vestido com uma roupa clara de linho, observando nossos herdeiros com um sorriso e me puxando para um beijo apaixonado. Eu agradeceria a Deus todos os dias por essa vida. Ah... Eu agradeceria em todos os minutos.
Deus, por favor, me permita um futuro!
“Olá Isabella, querida Isabella. Como você está? Soube que minha patética ex-esposa foi visitá-la. O que ela lhe disse? Falou sobre meus planos para tirar sua vida? Sobre como eu imagino você deitada em um chão de cimento frio e imundo com um tiro no meio da testa? Ou você acha que será uma morte muito rápida? Talvez atirar em seus dois joelhos, bang... Bang, e depois em seu peito, bang, diretamente nesse coração de gelo que todos dizem que você tem. Ou, talvez, podemos chamar Edward para se juntar a nós... Atirarei nele primeiro, bang, e poderemos mostrar ao mundo que seu coração congelado é quente, tem sentimentos e vai se partir em mil pedacinhos de fogo quando eu o matar na sua frente. Eu aguardo ansiosamente pelo nosso encontro. Até mais, querida Isabella.”
Será que enquanto eu durmo, alguém está te protegendo Edward? Será que meu coração está seguro? Eu preciso acordar e te abraçar, fazer de meu corpo um escudo para o seu. Mais uma vez essa memória angustiante da ameaça de James... Eu ainda consigo sentir o enjoo que sua voz provocou em mim quando ouvi a mensagem em minha caixa postal. A culpa era minha, eu sabia disso.
Você me perdoa? Você consegue beijar minha testa ternamente e dizer que está tudo bem?
— Doutor, por favor, olhe isso. Ela está chorando... Será que está acordando?
— Aplique uma dose mínima de Midazolam. Vamos deixá-la dormir mais um pouco. Esse estresse todo não vai ser bom para sua recuperação.
Não, por favor, eu não queria mais a escuridão!
Eu não aguentava mais essa solidão.
“Carlisle deu uma ilha de presente a Esme quando comemoraram vinte anos de casamento. É linda, fica no litoral brasileiro, completamente afastada. Tem duas cachoeiras incríveis, trilhas e um lago cristalino... O que acha de viajarmos por uma semana para lá? Descemos no Rio de Janeiro, pegamos uma lancha e em duas horinhas estaremos na Ilha de Esme.”
“Parece perfeito. Quando planeja ir?”
“Que tal no início do próximo mês? Assim consigo pedir para prepararem a casa da ilha para ficarmos o mais confortável lá.”
“Eu tenho uma reunião importante com os acionistas no início do próximo mês... Vamos combinar essa viagem depois?”
“Pode ser.”
Eu deveria ter prestado mais atenção em como sua voz soou fraca e decepcionada... Vamos viajar, Edward. Me leve para a Ilha de Esme. Vamos assistir ao nascer do sol deitados na areia, comer frutas diretamente do pé, mergulhar nas cachoeiras e nos amarmos em cada pequeno pedaço do paraíso. Venha me buscar, me faça sentir o sol mais uma vez.
Minha cabeça começou a latejar e aquele barulho horrível se fez presente mais uma vez. Uma rajada de ar atingiu diretamente meu pulmão e me senti sufocar. Eu queria tossir, mas algo bloqueava a minha garganta.
— Calma, Srta. Isabella. Consegue abrir os olhos?
Minhas pálpebras tremeram e após alguns segundos, um clarão branco me atingiu, me fazendo fechar os olhos após tanto esforço. Eu queria erguer minha mão para arrancar o que estava na minha boca, me sufocando, mas algo estava a espetando e machucando conforme eu a movimentava. Tentei abrir os olhos novamente e a luz branca me cegou sem piedade. Pisquei algumas vezes até conseguir olhar ao redor, conseguindo ver que uma máquina ao meu lado é o que fazia o barulho que provocava o latejar de minha cabeça.
— Srta. Isabella?
Uma mulher vestida com um uniforme simples de cor verde me encarava em expectativa e imediatamente quis tossir novamente, ao sentir que meus pulmões recebiam uma nova lufada artificial.
— A senhorita está entubada, nós precisamos que se acalme um pouco para iniciarmos o processo para remoção do tubo de respiração, consegue me compreender?
Pisquei os olhos uma vez para sinalizar que sim, sentindo que não conseguia mexer a cabeça sem que ela doesse como o inferno. Lágrimas começaram a sair de meus olhos sem o meu controle e percebi finalmente que eu estava internada. Uma placa acima da porta dizia Unidade de Terapia Intensiva.
O que aconteceu comigo?
— Olá srta. Isabella. Sou o Dr. Richard Allen, o médico responsável pelo seu caso, ok? – pisquei mais uma vez em compreensão – A senhorita sofreu um grave acidente de carro e ficou em coma por cinco dias, finalmente conseguimos diminuir sua sedação sem comprometimento de seus sinais. Vamos iniciar o processo para remoção do tubo, o que irá ser bem incômodo e talvez a senhorita apresente dificuldades para falar e deglutir, mas é normal, ok? Avisaremos sua família que está acordada, mas ainda não poderá receber visitas.
Sábado, 16h35min
Provavelmente havia se passado uma hora desde que acordei. Eu me sentia grata pela remoção do tubo e das sondas, podendo finalmente estar em uma posição mais sentada, sendo auxiliada por uma enfermeira que no momento penteava meus cabelos enquanto eu tentava tomar água. Minha garganta ardia e queimava, como se um bastão em brasa tivesse sendo enfiado nela, me fazendo engolir com uma careta involuntária. Eu sentia um pouco de fome, mas só de pensar na dor para deglutir, ela se esvaia completamente.
Eu tinha um acesso em minha mão direita, que machucava se eu me mexesse de forma mais abrupta. Sentia meus músculos fracos e estava com medo de levantar da cama para ir ao banheiro e acabar caindo. Meu pé direito estava imobilizado, o que me deixava ainda mais temerosa em sair da minha cama.
— Prontinho, Srta. Swan. Penteei seus cabelos da melhor maneira, dentro de algumas horas a senhorita receberá a visita do fisioterapeuta para ele lhe ajudar a sair da cama e quem sabe, se tudo ocorrer bem, poderei ajudá-la a tomar banho no chuveiro?
Acenei concordando, sentindo o cheiro desagradável de meus cabelos e não conseguindo desejar nada mais além de um banho com urgência.
— Bella?!
Olhei para a porta e vi minha mãe me encarando surpresa, como se uma miragem estivesse à sua frente. Seus olhos azuis encheram-se de lágrimas e ela correu até mim, me abraçando com uma força que eu não sabia que ela possuía. Meus olhos marejavam e eu não sabia dizer se era pela dor ou por receber um abraço da mulher que eu mais amava na vida.
— Meu amor, eu não acredito que finalmente acordou! – ela sussurrou no meu ouvido, me dando beijos na bochecha como quando eu era criança.
— Renée, solte-a. Ela está com dor. – meu pai pediu entrando no quarto de forma cautelosa, como se eu fosse desaparecer se ele piscasse.
— Oh Charlie, como posso soltar nossa menininha quando ela acaba de voltar pra nós?
Charlie a puxou delicadamente para si e me olhou. Seus olhos, idênticos aos meus, expressavam uma tristeza enorme. Seu bigode tremeu e finalmente ele deixou-se chorar, pegando na minha mão.
— Eu sinto muito por tudo isso, Bells... Você não tem ideia do quanto me doeu te ver dessa maneira. Eu não permitirei jamais que você se machuque novamente.
Eu acenei, tentando sorrir, mas sabendo que na verdade era uma careta. Eles sentaram ao meu lado, me mimando e me dando beijos. Dr. Richard entrou após cinco minutos, para observar meus sinais e passar recomendações. Meus pais ouviram tudo com atenção, mas eu não conseguia processar nada, minha mente parecia uma névoa sobre os acontecimentos passados, tudo se dissipava em memórias confusas.
— Infelizmente, terei que pedir que vocês se retirem. Faremos alguns exames complementares e a Srta. Swan precisa descansar. – Dr. Richard pediu, anotando algumas coisas em meu prontuário, carimbando- o logo depois – Liberaremos uma nova visita daqui algumas horas.
Meus pais acenaram concordando e levantaram-se, me deixando um pouco nervosa. Como assim meu horário de visita havia acabado? Olhei nervosamente para a porta, procurando-o.
— Calma, minha filha. Ele virá lhe ver. – minha mãe me disse, me olhando com profundo conhecimento sobre minha ansiedade – Desde que tudo aconteceu, ele não saiu em nenhum momento desse hospital.
Meus pais se despediram e eu fui encaminhada para meus exames, sendo monitorada de perto pelas enfermeiras e por dois médicos intensivistas que descobri fazerem parte de uma equipe designada especialmente a mim.
19h00min
Minha garganta ardia demais e eu comecei a acordar. Não me lembrava em que ponto durante os exames eu dormi, mas parecia que a inconsciência era uma nova constante em minha vida. Mexi-me desconfortável na cama e um gemido escapou involuntariamente.
— Hey sweetie. – uma voz aveludada soou ao meu lado – Deixe-me lhe ajudar.
Edward se aproximou e finalmente pude o ver. Sua face estava pálida, como se não visse a luz do sol há meses, círculos escuros estavam abaixo de seus olhos e ele estava visivelmente mais magro. Seus braços me apoiaram enquanto me puxavam para si e eu pude sentir seu delicioso cheiro, me deixando inebriada. Seu toque era gentil, enquanto ele me acomodava nos travesseiros e me deixava mais sentada na cama. Seus dedos escovaram gentilmente meus cabelos, passando depois pelos cortes cicatrizando em meu rosto e nos pontos em meu queixo.
— Eu te amo. – ele sussurrou como uma oração. – Eu te amo tanto.
E suas lágrimas se confundiram com as minhas próprias conforme ele beijava meu rosto com uma devoção palpável. Ele beijou todos os machucados, minhas pálpebras, a ponta de meu nariz, minha testa e, por último, com uma delicadeza que eu nunca havia visto em minha vida, meus lábios.
— Eu pensei que fosse te perder. – ele confessou – Quando eu vi seu coração parando, o meu também parou. Eu morri com você e voltei à vida quando seu coração bateu novamente. É a pior imagem que tenho gravada em minha memória. Não me deixe novamente, Bella.
— Jamais. – minha voz saiu rouca e dolorida, me fazendo chorar um pouco mais. Falar doía, mas eu precisava – Eu te amo.
Edward subiu na cama, tomando cuidado com os fios e meu pé imobilizado, me abraçando e cantarolando a canção de ninar que ele havia feito para mim. E foi ali, nos braços do homem que eu mais amava na vida, que eu tive, finalmente, uma boa noite de sono.
Terça-feira, 11h40min
— Você não sabe a felicidade que sinto quando te vejo comendo com tanto apetite. – Edward disse risonho.
— E você não sabe a felicidade que sinto em finalmente poder comer comida de verdade.
Renée e ele riram um pouco de mim, enquanto eu devorava meu almoço. Era simples, filé de peixe e legumes ao vapor, tudo com o tempero característico de Siobhan. Por dois dias eu só pude tomar caldos e sopas sem gosto algum servidos pelo hospital.
— Depois que você comer, posso te levar para passear pelos corredores do hospital. – ele propôs.
— Iuupi – respondi ironicamente – Que tal só andarmos um pouco pelo quarto mesmo? As pessoas ficam nos encarando e eu realmente não quero que mais nenhuma enfermeira fique suspirando por você, Edward.
Ele revirou os olhos, mas sorriu torto para mim, fazendo com que eu fosse aquela a suspirar.
— Alguma novidade sobre James? – questionei – A polícia falou algo?
Renée se remexeu desconfortável em sua poltrona e Edward fechou o semblante.
— Ainda estão o procurando. – ela me respondeu brevemente.
— E?
— E é isso, Isabella. Eles ainda não o acharam. – Edward me respondeu friamente – Preocupe-se com sua recuperação e esqueça James por enquanto. Nós estamos cuidando disso.
Estreitei meus olhos na direção dos dois que simplesmente resolveram me ignorar e começaram a conversar entre si sobre a nova ultrassonografia de Rose. A barriga dos recém-completados quatro meses começava a despontar, mas infelizmente o bebê deixou suas perninhas cruzadas não permitindo que seu sexo fosse descoberto.
Resolvi deixar no canto de minha mente a falta de informações que eu tinha sobre o Hathaway. Charlie não me falava nada, mas às vezes eu conseguia o escutar conversando com alguém no telefone enquanto eu dormia. Mas, sempre que ele percebia que eu já estava acordada, cortava o assunto e desligava a ligação. Edward simplesmente ignorava todas as minhas perguntas, mudando de assunto bruscamente. Jasper fora nomeado o CEO interino e quando conseguia uma brecha para me visitar, eu estava mais interessada nos assuntos da Swan Company do que em perguntas sobre James.
A imprensa havia começado a pesquisar a fundo sobre meu acidente, principalmente porque depois que eu acordei no sábado e uma nota médica foi liberada sobre o assunto na noite do mesmo dia, nada mais foi dito sobre mim pelo Mount Sinai ou pela agente de Relações Públicas da SC. Aparentemente, alguém da polícia havia vazado a informação sobre o possível envolvimento do Hathaway em meu acidente, o que rendeu uma grande matéria de primeira página no The New York Times de segunda, um Charlie completamente furioso e uma corrida para abafar qualquer rumor. De alguma forma, meu pai conseguiu envolver Victoria em uma visita surpresa hoje pela manhã, com uma foto dela conversando com Rosalie no corredor do hospital sendo vazada para a imprensa.
No Twitter e em outras redes sociais, as pessoas especulavam que jamais uma Swan seria vista conversando amigavelmente com uma ex-Hathaway se realmente James estivesse envolvido em meu acidente, mesmo estando divorciados. Graças à família de Victoria, gigantes na indústria da mídia, a foto circulou com mais rapidez do que prevíamos e eu me perguntava quantos favores Charlie estava pedindo.
Eu ainda tinha um depoimento marcado para hoje à tarde e minha segunda sessão de terapia com uma psicóloga de confiança. Eu tinha sido completamente contra a terapia, mas no domingo à tarde eu estava com Emmett enquanto Edward havia ido descansar, quando a enfermeira entrou para me checar e sem querer derrubou o prontuário no chão, fazendo um barulho alto, que agiu como um gatilho para mim. Eu comecei a gritar e chorar, me encolhendo na cama. Eu tremia como se estivesse presa em uma nevasca e alguns flashes do acidente vieram à minha mente, fazendo meu monitor apitar mais do que deveria. Emmett me abraçou, tentando me confortar e só me acalmei de verdade depois de ser sedada pelo Dr. Richard. Acordei duas horas depois, com meus pais e uma psicóloga ao lado.
Na primeira sessão, a Dra. Gianna Frassati fez perguntas simples, porém todas com a intenção de me conhecer melhor. Falei bem pouco sobre a minha infância e minha adolescência, focando mais em meus gostos e preferências. Ela parecia imparcial e plácida, apenas anotando pequenas coisas em seu estúpido caderninho e me encarava com um sorriso que parecia grudado em seu rosto. Ao contrário do que eu imaginei, ela não forçou perguntas íntimas demais e também não especulou sobre minha família ou sobre os Cullen, o que foi um ponto positivo para ela. Quando se despediu de mim, questionou-me se eu estava confortável em continuar com nossas sessões e me surpreendi respondendo que sim.
Estar mais de uma semana no hospital estava me deixando ansiosa e angustiada, mesmo que tendo passado cinco dias desacordada. Eu não aguentava mais as enfermeiras, os médicos, o acesso em minha mão, os exames rotineiros e as paredes irritantemente brancas. Meu quarto estava cheio de buquês de flores com cartões de “melhoras” que eu queria queimar, já que haviam sido mandados por pessoas que não se preocupavam comigo, mas sim com a política da boa vizinhança e em agradar a poderosa Swan.
O celular de Edward soou e ele se desculpou, lendo a mensagem e pedindo licença para sair do quarto. Renée se aproximou de minha cama, recolhendo a bandeja móvel e passando a mão em meus cabelos de forma doce.
— Bella, já pensou no que fará quando os médicos lhe assinarem sua alta? – ela perguntou – Pensei que poderíamos passar alguns dias no Rancho Swan, o que acha? Você sempre gostou de ir para lá quando criança, passar horas cavalgando e cuidando dos cavalos.
— É uma boa ideia, mãe. – respondi, me ajeitando na cama – Há anos não vou ao Rancho e seria bom me distrair um pouco sobre tudo o que aconteceu. Acho que irei comentar sobre isso com a Dra. Gianna e ver o que ela acha, apesar de saber que ela deve concordar com tudo que me afaste da Swan Company por algum tempo. – cuspi as últimas palavras com escárnio.
— Não fará mal a você se manter afastada por mais um pouco, não há pressa alguma para você voltar para a empresa.
— Há pressa para mim, mãe. – eu disse, olhando para ela e vendo-a recuar um pouco.
— Falaremos sobre isso depois, Isabella.
Seu tom de voz estava áspero e a forma como pronunciou meu nome inteiro deixou bem claro que não era apenas a Dra. Gianna que pensava que estar afastada o máximo possível era o melhor. O silêncio imperou no quarto após nossa pequena troca de farpas e eu sabia que o clima tenso poderia ser cortado com uma faca. Renée decidiu aguar as flores que estavam em alguns vasos e eu quis revirar os olhos. Eu detestava aquelas estúpidas flores.
Após longos minutos sem uma única palavra ser proferida no quarto, Edward retornou, porém meu pai o seguia logo atrás e os dois estavam com semblantes fechados, o que acendeu um alerta em mim.
— O que aconteceu? – questionei assim que eles fecharam a porta.
— Capturaram o Hathaway. – meu pai informou, sentando-se na poltrona onde antes minha mãe estava – A polícia o encontrou na floresta que contorna a rodovia, escondido em um pequeno chalé abandonado. Ele havia encoberto a entrada da trilha com alguns galhos e folhas, mas com a ventania que teve por esses dias, tudo saiu do lugar e os policiais conseguiram achar. – ele suspirou, passando a mão no cabelo, completamente frustrado – O chalé estava com parte de sua estrutura destruída, já que estava abandonado há muito tempo. James foi encontrado desacordado, porém com vida. Ele estava em estado de hipotermia, desnutrido e desidratado e quando os policiais o recolheram ele apenas murmurava palavras sem sentido, com seu nome saindo da boca dele algumas vezes. Ele foi encaminhado a um hospital sob escolta e depois será transferido para uma prisão temporária enquanto aguarda julgamento.
— A polícia conversou conosco e disse que eles terão que anunciar a captura de James e os motivos para isso. – Edward explicou, sentando-se na beirada da cama e segurando minha mão – A imprensa vai saber sobre o que aconteceu e infelizmente não haverá como barrá-los. Seu nome estará atrelado com o dele a partir de hoje. Haverá muita especulação, pois conseguimos que tudo corresse em segredo de justiça, mas saberão que o que aconteceu com você foi culpa dele.
— Tudo bem, eu não me importo. – falei, olhando para os nossos dedos entrelaçados – O importante é que ele está preso.
— Você deveria se importar, Isabella. – meu pai proferiu, em uma voz baixa, me olhando taciturno – Tudo o que aconteceu foi culpa de sua irresponsabilidade, de sua arrogância e da sua soberba.
— Charlie! – minha mãe o repreendeu, se aproximando dele – Aqui não é a hora e nem o momento.
— Isabella já está com planos de retornar à SC assim que ela colocar os pés para fora desse hospital, então creio que ela está pronta para essa conversa. – ele cravou seus olhos em mim e havia um brilho de decepção que me gelou os ossos – Bella... Por quê?
— Porque eu sou uma Swan. – eu respondi calmamente, mesmo sentindo uma angústia ao perceber o olhar de todos para mim – Você tem ideia do que isso significa, pai? – questionei, respirando fundo para afugentar as lágrimas que eu não queria verter – Eu ouço desde os meus quinze anos de idade o quanto as pessoas duvidam de mim. “Ela só vai assumir os negócios da família porque a irmã é bonita demais para isso e o irmão não se interessa pelo poder”. “Ela é só uma fedelha mimada brincando de ser gênio”. “Ela não tem a beleza de Rosalie, então teve que se esforçar para se destacar de algum jeito”. “Ela nunca será Charlie Swan”. “Com certeza essa história de QI alto foi plantado na mídia para ela ter alguma chance no mundo dos negócios”. — eu cuspi as palavras que eu tanto escutei por quase dez anos – Todas as vezes em que eu entro em alguma reunião do conselho, eu tenho que ver a cara de quase metade dos acionistas se revirando em desgosto por me ver ali. Os funcionários, no meu primeiro ano como CEO, mandavam relatórios porcamente escritos para me testar e ver se eu tinha o mínimo de entendimento sobre o funcionamento da empresa. Quando eu lançava meus comentários e pedia por correções, eles nem se davam ao trabalho de esperar sair da minha sala para debocharem de mim. Por diversas vezes eu ouvi dos concorrentes que eu estava ocupando a cadeira mais alta da SC apenas como um passatempo até que Jasper quisesse assumir. Até mesmo nossos parceiros de negócios me tratavam como uma secretária, achando que eu ia às reuniões para repassar tudo para você ou para Jasper. – eu confessei, apertando o lençol com minha mão para extravasar a raiva. – Foi só vestindo essa armadura de soberba e arrogância, como o senhor diz, que eu consegui que eles me temesse. Respeito? Isso eu jamais consegui. Mas toda vez que eu chego em algum lugar, eu gosto de ver que eles tem medo de mim e do que hoje eu represento e que eu posso não ser a Swan que eles queriam, mas aquela que eles tem que engolir com um sorriso falso no rosto. A Swan Company é minha e isso eles jamais irão tirar de mim.
Meu pai manteve seus olhos abaixados, fitando o piso branco como se esperasse memorizar cada ranhura dele. Eu conseguia ouvir o choro baixo de minha mãe e eu não queria ver em sua face o sentimento de pena. Edward se manteve ao meu lado, me encarando preocupado, talvez se perguntando como nunca tinha ouvido falar sobre isso.
— Bella... – meu pai começou, mas ainda sem achar as palavras – Como você nunca nos contou isso?
— Porque esse nosso mundo foi feito pelos homens. Para os homens. Você não ia entender e a primeira coisa que faria seria vestir sua armadura de pai e de cavalheiro e me resgatar, gritar com todos que eu deveria ser respeitada e isso só me faria parecer uma fedelha mimada como já comentavam. Eu precisava caminhar com meus próprios pés... Afinal, não foi para isso que você me criou?
— E James? O que realmente aconteceu para você tomar a atitude de comprar a empresa dele e desmantelar de forma tão brutal?
— Após nossa reunião, onde ele partiu para cima de mim e jurou vingança, ele começou a me assediar através de e-mails e ligações impertinentes. Ele até mesmo conseguiu meus contatos pessoais e mandava fotos de mim andando na rua, assim como fotos de todos ao meu redor como uma forma de me coagir a assinar o contrato. – eu fechei os olhos me lembrando da primeira foto de Edward que ele me mandou, feliz e tranquilo em um almoço com Alice e Jasper durante um dia qualquer da semana – Eu sabia que ele teria seus bens executados pelo banco rapidamente, já que a Goldman Sachs não brinca em serviço, ainda mais com uma dívida próxima a um bilhão de dólares. Eu me vinguei dele, da forma como ele me assediava e tentava chantagear. Eu não daria brechas para ele conseguir recuperar o que era dele e recuperar suas condições para realmente conseguir cumprir o que estava prometendo. – eu suspirei, cansada, sentindo aquele peso sair dos meus ombros – Eu só não contava que ele usaria os poucos milhões que lhe restaram para vir atrás de mim com tanta voracidade. Pensei que derrotado e na lama, ele pegaria seus trocados e viveria uma vida mais calma em algum país mais adequado ao seu novo status social.
— Uma mente tão passional e emotiva quanto a de James jamais poderia ser compreendida por uma mente tão racional quanto a sua, Bella. – minha mãe comentou – Sentimentos bons nos guiam para muitas ações, mas sentimentos ruins nublam nossos sentidos e nos fazem cometer atos que nunca imaginaríamos. James com certeza se deixou cegar pela raiva e pela vingança.
Meu pai apenas acenou com a cabeça concordando e havia um brilho desconhecido em seus olhos. Culpa, talvez?
— Por que mesmo sabendo que James possui uma mente doentia eu ainda continuo com esse gosto de culpa em minha boca? – ele falou tão baixo que por um momento eu pensei estar alucinando – Eu creio que tudo isso poderia ter sido evitado se eu tivesse intervindo antes.
— Intervir? – eu cuspi a palavra como se fosse ácido – A Swan Company é minha, papai, não havia no que o senhor intervir.
— Sim, ela é sua. – ele concordou – Mas eu nunca deveria ter lhe dado o controle da SC da maneira como eu lhe dei.
— Eu lutei por ela, pai. A empresa é minha porque eu tive que lutar por ela até mesmo contra meu próprio irmão.
— E esse foi meu erro. – ele afirmou, fechando os olhos e passando a mão nervosamente pelos cabelos.
— Erro? – eu perguntei, sentindo a dor escorrer por minha voz – A SC deveria ter sido de Jasper, não é? Você nunca quis que ela fosse minha.
— Pelo contrário, Bella. Eu sempre soube que seu lugar era comandando a empresa da família. Meu erro foi ter lhe feito acreditar que não era merecedora dela e ter lhe colocado em uma disputa ridícula com Jasper por causa disso. – Charlie respondeu com pequenas lágrimas em seus olhos – Eu queria fazer Jasper acreditar em si mesmo, mas acabei fazendo com que você duvidasse de si. Eu errei com ambos e sinto muito por isso.
Eu podia jurar que o silêncio no quarto conseguiria ser cortado por uma faca de tão denso que ele se tornou. As palavras de meu pai afundavam em minha mente como uma âncora, tentando destruir sentimentos há muito construídos por mim.
Edward se remexeu ao meu lado e só então eu fui notar que ele ainda estava ao meu lado, segurando minha mão e me observando como se tentasse ler minha mente.
— Bella... Isso tudo é muito difícil para todos nós. – ele começou, procurando as palavras certas – Erros foram cometidos no passado e no presente, mas nenhum deles contava com a presença de um lunático como o Hathaway.
— Edward tem razão, Charlie. – minha mãe se pronunciou, passando o braço pelos ombros de meu pai e beijando seus cabelos – Somos pais, mas somos humanos. Isabella não poderia ser tão perfeita não é mesmo? Assim como Rosalie e Jasper. Eles errarão, assim como nós erramos... Só precisamos estar ao lado deles, os guiando e os acolhendo quando necessário. – ela suspirou e me olhou – Agora só precisamos estar unidos como uma família e não como um conselho de diretoria para passarmos por mais essa turbulência em nossa vida. Você está viva minha filha, ao nosso lado, e é só isso o que importa no final... Nós iremos superar juntos isso.
(POV James Hathaway)
Eu não queria deixar a luz do sol entrar pela janela, mas a enfermeira insistia que eu precisava de um pouco de vitamina D, por isso ela sempre abria as cortinas e deixava que por pelo menos uma hora eu recebesse alguns poucos raios solares. Eu sentia que ela se vangloriava por fazer o que queria, na hora que queria, sem se importar com os meus nãos. Eu conseguia ver seu sorrisinho de lado, debochado, compartilhado com o guarda que ficava sentado perto da porta me observando.
Idiotas.
Eu senti o metal frio da algema cortando meu pulso conforme mais uma vez eu tentava passá-lo pela pequena argola que o circulava. Eu investia nisso por pelo menos vinte vezes a cada hora. A frustração que crescia em mim só não era maior do que a frustração em saber que Isabella continuava viva e de que eu havia sido tolo o suficiente para ser capturado.
“E quem disse que você tem talento para algo além de encher a cara e foder garotas estúpidas?”
— Cala a boca. – eu pedi em um sussurro.
— O que foi, Hathaway? – o guarda me perguntou de mau humor, colocando a mão sem disfarçar por cima do coldre.
— Nada, senhor.
Voltei a olhar pela janela e eu desejava que os raios de sol queimassem e derretessem a maldita algema, enquanto novamente eu torcia meu pulso.
— Não adianta, Hathaway. – o guarda falou, desembrulhando um chiclete despreocupadamente e o jogando em sua boca – Você não vai conseguir se soltar, então pode parar com esse barulho infernal de metal se mexendo a cada maldito segundo.
Eu o ignorei, remexendo novamente o pulso e sentindo pequenas lágrimas querendo se formar.
“Isso mesmo, moleque, pode chorar. Você jamais será nada além de um moleque chorão.”
— Cala a boca.
— Pare de testar minha paciência, garoto. – o guarda falou bravo, quase cuspindo o chiclete no chão.
“Esse moleque vive acabando com a minha paciência, Vivian! Tira ele daqui!”
— CALA A BOCA! – eu gritei.
“Só mais duas horas... Só mais um pouco, James, querido.”
As lágrimas vieram com força e eu me remexi mais ainda na cama, tentando livrar a mão da algema para limpá-las de meu rosto.
“Você não é homem o suficiente nem para comandar a empresa da sua família, quem dirá para fazer algo contra mim.”
“Como sempre você sendo meu maior fracasso”.
“Aguente só mais duas horas, ok?”
— CALEM A BOCA!
Eu me lembro apenas de me agitar mais ainda, gritando a plenos pulmões para aquele desgraçado calar a boca e logo vi a enfermeira de sorriso debochado entrando novamente, dessa vez com uma seringa na mão e a entrada para um sonho sem sonhos. E sem pesadelos.
And then I get a scary thought that he's here means he's never lost.
(E então eu tenho um pensamento perigoso, já que ele está aqui é porque ele nunca perdeu)
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