Be Alright
1 Rebeldia
Notas iniciais
1 de julho, 7:45 da manhã, domingo. Rio de Janeiro, Brasil.
A claridade me incomoda, tem areia no meu sutiã. Pérai, areia? Olho em volta e vejo a minha linda Copacabana. Percebo que não estou sozinha, Lucas, Isabela, Daniel, Julia, e mais três pessoas estão comigo. Há garrafas, latas e cigarro pra todo o lado. Como vim para aqui? Tento pensar na noite passada mas não me lembro de nada, apenas pequenas partes... Um bar, cerveja, vodka, música. Me lembro de vir pra praia, mas o que fizemos aqui? Vamos Gabriele, pensa! Há madeira jogada numa pilha também. Uma fogueira! Fizemos uma fogueira, então foi um luau? Lembro que teve verdade ou desafio, me lembro de beijar o Lucas, e de ter que fazer um daqueles garotos, ah você sabe "armar a barraca".
Nenhuma das outras pessoas está acordada, afinal são 8 horas da manhã e devem estar chapados ainda.tenho uma missão, acordar esse povo todo. Levanto, tiro a areia da minha roupa e acordo um por um.
– Vamos Lucas, levanta.
– Não quero ir pra escola hoje mãe.
– Vai deixar seu namorado assim?
– QUE NAMORADO? — disse ele levantando assustado.
– Brincadeira, agora levanta Bela Adormecida.
Todos já estão acordados, despertos e tal... A Isa me disse o nome dos três meninos que eu não sabia quem eram: Giovanni, Victor e Luís.
– Ah meu Deus! O que nós estamos fazendo na praia? Que horas são?
– São oito e meia Ju, a gente dormiu aqui.
– Dormiu? Ah é, to lembrando da noite passada.
– Então depois você me conta. Agora levanta essa bunda gorda e celulitosa daí e me ajuda, tenho que ir embora daqui.
– Tá, mas Gabi, você tem que ir pra casa, não é? Porque a sua mãe...
– AH DEUSES ELA VAI ME MATAR! Ju, eu tenho mesmo que ir!
– Tá, vai lá, eu termino as coisas por aqui.
– Obrigada Ju, você é a melhor! Viu meu celular?
– Tá aqui — disse tirando meu celular do bolso dela — Agora vai, beijos.
– Beijos — gritei porque já estava correndo.
Olha, vou te contar uma coisa, ir correndo de Copacabana até Ipanema não é fácil.. É uma caminhada e tanto, mas me ajudou a pensar nos vários milhões de tipos de castigos que minha mãe já me deu e poderia reutilizar, sabe? Ficar 3 meses sem computador, cancelar a conta do telefone, tirar a televisão do meu quarto, me obrigar a ler um livro chato, tirar meu Ipod, ou pior! Tudo isso junto! Ela já tinha me dito, já tinha me avisado que da próxima vez que eu vacilasse, aprontasse ou sumisse de novo, ela daria um jeito em mim e seria uma coisa da qual eu nunca esqueceria. Olho pro meu celular, já são nove e meia. Tem impossíveis 32 chamadas perdidas, 19 mensagens, tudo isso entra a minha mãe e alguns números desconhecidos, o que eu fiz ontem Deus? Escrevi meu número no banco do ônibus? Rolei o dedo pela tela do celular até que uma mensagem me chama a atenção
"Gabriele Wade Bittencourt, um homem acabou de sair daqui de casa dizendo que você quebrou o carro dele, que história é essa?! Quero você aqui em casa agora!"
Um carro, eu quebrei um carro e não me lembro. Isso é ruim, muito ruim! Minha mãe vai me matar! Pior que isso, ela pode me torturar e depois me matar!
Chego na portaria do condomínio e vejo o Seu Marcos, e o porteiro fofoqueiro já vem de papinho:
– Dona Gabriele, aonde você tava? Sua mãe tá que nem uma louca te procurando já faz um tempão!
– Marcos, ela tá em casa?
– Tá sim, e está mais que brava, tá furiosa!
– Merda, merda, merda. Tá bom Marcos, obrigada! — digo e saio correndo em direção a minha casa.
Quando chego, abro a porta e dou de cara com uma Sueli brava, furiosa, vermelha e eu já disse furiosa?
– Aonde você estava?! Você ficou uma noite desaparecida, quebrou um carro, está com areia no cabelo e na sua roupa toda, com certeza deve estar com uma baita ressaca pela quantidade de vomito que tem nos seus sapatos, não atendeu nenhuma das minhas ligações, não respondeu minhas mensagens. Pelo menos dez meninos já ligaram aqui, e uma menina também! Essa foi a gota d'água! Chega Gabriele, chega! Eu aguentei até onde foi possível, mas agora não dá mais, cansei! Você sabia disso, sabia que se sumisse de novo eu daria um jeito em você, EU TE AVISEI! — Ela despejava as palavras na minha cara, berrando.
– E O QUE VOCÊ VAI FAZER? ME POR DE CASTIGO? TIRAR AS MINHAS COISAS? ME PROIBIR DE SAIR? — Respondi gritando já com lágrimas nos olhos.
– Você é uma irresponsável!
– AH CLARO, EU SOU A IRRESPONSÁVEL POR AQUI? TEM CERTEZA DISSO? VOCÊ VAI TRABALHAR, VAI PRA SÃO PAULO E ESQUECE QUE TEM UMA FILHA. ME DEIXA AQUI SOZINHA, FICA AUSENTE POR SEMANAS E AINDA ACHA QUE PODE ME DAR BRONCAS? É MUITO, MAIS MUITO FÁCIL POR A CULPA TODA EM MIM. A IRRESPONSÁVEL AQUI É VOCÊ, EU SÓ APRENDI COM A MELHOR!
– CHEGA! EU SAIO CEDO TODOS OS DIAS, ME MATO DE TANTO TRABALHAR PARA DAR PRA VOCÊ UMA VIDA DECENTE, PRA PODER COMPRAR AS COISAS QUE VOCÊ TANTO GOSTA, TANTO AMA! SUAS ROUPAS, SAPATOS, SEU CELULAR, IPOD, NOTEBOOK, TUDO! TUDO O QUE VOCÊ TEM FOI COMPRADO COM O MEU DINHEIRO! E ENQUANTO EU ESTOU LÁ, ME MATANDO VOCÊ ESTÁ COM A SUA LINDA BUNDA COLADA NO SOFÁ OU AGARRADA COM ALGUM MENINO, NÃO DANDO VALOR ALGUM AO MEU ESFORÇO! VOCÊ NÃO TEM O MÍNIMO DIREITO DE FALAR ASSIM COMIGO! EU AINDA SOU A SUA MÃE.
– AH, SERÁ MESMO QUE É? AGORA VOCÊ TIRA O MEU COMPUTADOR, MINHA TELEVISÃO, TUDO E ACHA QUE TUDO ESTÁ BEM, MAS NÃO, NADA ESTÁ BEM!
– Quer saber? Esses não irão ser mais os seus castigos, chega de castigos bobos e leves. Está decidido, eu já falei com o seu pai e...
– Perái, você falou com o meu pai? Isso quer dizer que... — Antes que eu terminasse ela me interrompeu, dizendo o que eu tinha mais medo de escutar:
– Isso mesmo Gabriele, você vai se mudar pro Canadá. Vai morar com o seu pai e a família dele.
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