Be Afraid
9 Capítulo 09 - Meu treinamento, seu arrependimento.
Notas iniciais
Bella teve mais duas sessões com Heide e Eleazar notara melhoras no comportamento da sobrinha, ele finalmente começava a pensar que ela estivesse esquecendo a ideia de aprender a lutar, bem, isso até certa noite, após o jantar, quando ele a deixou brincando no quarto e foi tomar banho.
Ele ouviu um grito e saiu do banheiro vestindo o roupão e capturando sua arma.
— Bella! — Correu até o quarto da pequena que não estava brincando como ele achou.
Ela estava de frente para o guarda-roupa e com os ombros encolhidos, Eleazar olhou para o chão e viu que o travesseiro que Bella deixou de usar – imaginou ele – como “saco de areia” estava caído ao lado dela.
— O que houve, Bella? — Ele se aproximou e tocou o seu ombro, fazendo-a se virar para ele. — O que...? — Seus olhos caíram sobre as mãos dela e notou que os nós dos dedos sangravam. — Deus! O que houve? — Colocou a arma no chão e segurou suas mãos. — O que você fez, Isabella?
Ela levantou os olhos para ele, as lágrimas banhavam seu rosto pela perda dos pais e pela dor que pulsava em suas mãos.
— Eu estava socando o travesseiro e — começou a se explicar enquanto Eleazar a puxava pelo pulso até o banheiro — ele caiu, mas eu continuei socando — fez uma careta de dor quando a agua fria lavou suas feridas —, socando o guarda-roupa.
— Por que você fez isso? Já não conversamos, Bella? — Ele enxugou suas pequenas mãos em uma toalha e a olhou dentro dos olhos. — Para agora com isso.
— Não. — Revidou com raiva, mas Eleazar não se intimidou, tratava com crápulas o dia todo, não seria sua sobrinha de sete anos que lhe imporia ordem. — Se você não quer me ajudar não se intromete. — O empurrou e saiu correndo, mas no meio do corredor ele a puxou pelo braço.
— Já chega, Isabella. Eu já cansei disso.
— Me solta.
— Presta atenção, mocinha. Eu que mando aqui, você vai obedecer a mim. Eu tenho sido muito complacente com você, mas agora chega.
— Você não manda em mim, não é meu pai! Você não ‘tá fazendo nada pra fazer eles pagarem pelo o que fizeram. — Disse tentando se soltar, mas não conseguiu e acabou dando um tapa no rosto de seu tio, frustrada, e ele a largou com o choque.
Bella deu um passo para trás e colocou as mãos na boca, aterrorizada com o que fez.
— Tio — voltou a chorar —, desculpa, eu não quis machucar você. Desculpa — começou a soluçar desesperada.
Eleazar a fitou e sentiu a mesma necessidade de chorar. Ele não sabia o que estava fazendo, droga! Estava uma bagunça sua vida e automaticamente estava causando bagunça na vida de Bella. Ele estava perdido.
Por fim ele a puxou para um abraço que ela aceitou de bom grado. Eles não eram de ter contato físico, mas aquela situação pedia por isso.
— Eu não sei o que faço com você, Bella, achei que você estivesse melhorando. Heidi me garantiu que houve melhoras no seu quadro. — Desabafou, se separando um pouco do abraço apenas para olhá-la. Ele sabia que qualquer um o consideraria um louco pelo o que estava prestes a fazer, mas não estava conseguindo mais lidar com aquela situação e nem ver Bella se machucando e com sua supervisão ele ficaria mais calmo.
Ela era uma criança, mas poderia passar algumas atividades para ela fazer que a manteriam mais segura dessa ideia de se defender.
— Escuta, eu vou te ajudar, ‘tá bom? Mas você vai fazer o que eu disser, nada além disso, você me ouviu? Se você me desobedecer eu paro de te ajudar e juro que te amarro, Isabella.
Bella sentiu seu coração bater mais rápido.
— E-eu prometo. — Ela jogou os braços em volta do pescoço do tio e o abraçou novamente. — Obrigada, obrigada. — Continuou a chorar.
De repente Eleazar notou que aquilo que ela pedia não era só um capricho, ela estava realmente chorando de gratidão, aquilo – aprender a se defender – era realmente importante para Bella, era tão importante que ele não tinha noção do significado que sua ajuda tinha para ela.
— E da próxima vez que você encostar um dedo em mim eu o arranco fora, entendeu? — Ele disse sorrindo e a apertando mais contra seu corpo.
Era tão bom tê-la em seus braços, saber que ela estava em segurança, saber que talvez essas atividades que ele passaria para ela pudessem aproximá-los, talvez até a ajudassem a superar a morte dos pais.
Ele contava com isso.
~*~*~
Eleazar trabalhou com Bella sua resistência física, flexibilidade e força – entre a lição de casa e o banho para dormir – com atividades que, para Bella, eram idiotas.
Mas foi com brincadeiras que seu tio achou a forma perfeita para ambos terem o que desejavam: ela treinava e ao mesmo tempo brincava como, por exemplo, de subir e descer o playground que tinha no prédio várias vezes e ela admitia que ficava bem cansada quando seu tio aumentava a velocidade das batidas da corda para ela pular e que sentia um pouco de dor quando ele trabalhava com ela a flexibilidade, fazendo-a se esticar com brincadeiras como twister ou quando ele a fazia carregar seus pesados livros de um cômodo para o outro pra que, segundo ele, ela criasse um pouquinho de musculo “naqueles braços raquíticos”, ela riu na primeira vez que ele falou isso – e foi como música para os ouvidos dele –, mas depois da décima vez perdeu a graça.
Felizmente, depois de mais algum tempo de convivência, as coisas estavam melhor. Eles haviam se habituado a nova rotina e a presença um do outro. Bella continuou se consultando com Heide e a psicóloga assegurou a Eleazar que ela estava superando a morte dos pais, que ainda tinha algumas coisas que a preocupava, mas que ela estava indo bem e isso o deixava extremamente feliz.
Ele começou a entende-la melhor também, crianças poderiam ser bem difíceis quando queriam, mas Bella parecia se superar. Seu jeito era único, ele precisava se habituar a ela, mas ela também parecia estar se habituando a ele.
Um de seus momentos favoritos juntos foi na sua primeira apresentação na escola em que ela interpretou Wendy em Peter Pan. A professora de teatro mencionou com Eleazar que Bella era a melhor aluna que tinha em anos e só tinha sete anos – com certeza se ela quisesse seguir a vida de atriz se daria bem, pois ela tinha o dom –, aquilo encheu Eleazar de orgulho e a peça foi fantástica, todos aplaudiram de pé e elogiaram muito sua menina.
Depois da apresentação ele a levou para comerem fora, Tânia havia ido também e, por um breve momento, Bella conseguiu ver naquele jantar uma pequena ponta de algo chamado felicidade.
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