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1 Aisha Beaumont


23 de Setembro

O som ritmado da música soava em meu ouvido, enquanto o cheiro de cigarro e álcool invadiam meu olfato. Mexia meu corpo tentando extravasar tudo e chegar ao transcendental.

Vez ou outra olhava ela, Charlotte Albuquerque. É hoje que quero que aconteça. Minha amiga está dançando lindamente com seus movimentos graciosos, um sorriso aberto despontando em sua face. Fixo meu olhar no cabelo, ah, aqueles fios de ouro que tenho tanta vontade de acariciar, estão num tom diferente — vermelho — por conta da iluminação.

Tomo mais um gole da minha ice e me aproximo um pouco mais. Quando Charlotte finalmente me enxerga fazemos passos juntas. Mais músicas, mais músicas.

Depois que acaba o terceiro som, estamos bem relaxadas. Coloco mais bebida na minha garganta, pois agora necessito de coragem líquida.

Dou-lhe um leve beijo na bochecha, uma mão no ombro dela. A garota está estática. Me arrisco e coloco minhas duas mãos em seu ombro, e deposito um leve selinho em seus lábios macios.

Nossas línguas começam a se tocar, e tudo se intensifica. Mãos vão para a cintura, para a nuca, para os seios, para as bundas...

Charlotte me empurra abruptamente:

—Você está bêbada, nem sabe o que faz — ela fecha os olhos com força — Miguel não vai gostar. Devemos parar — diz cautelosa, e ao que parece, arrependida por ter deixado de tocar meu corpo.

Balanço a cabeça afirmativamente, enquanto tomo mais da minha bebida. Reparo que é possível que ambas estejamos coradas agora, será que... estamos sentindo vergonha? Não é possível, ou é? Char (como prefiro chama-la) é lésbica assumida desde muito, muito, tempo. Ela não devia se constranger ao me beijar, certo? Estava muito bom para ela parar assim.

Iria tirar satisfações e perguntar para ela o que Miguel tinha haver com esse nosso pequeno momento de prazer.

—Eu preciso ir... — Charlotte declara acanhada, como se fosse um cachorrinho abandonado.

Ela vira as costas e, quando se vai, ainda estou olhando a abertura do vestido nas costas dela.

Sabe o que é engraçado? Faz um ano que me apaixonei por Charlotte e, desde então, não há espaço no meu coração para outras pessoas.

Quando gostamos de alguém é algo muito bizarro! Nos preocupamos em cuidar de outro, em transmitir todo o amor que sentimos e nunca, nunquinha, queremos que se decepcionem conosco.

Também, devo admitir, gostamos de ter pensamentos libidinosos de madrugada com o ser-humano em questão, onde realizamos todas nossas fantasias sexuais.

Agora o que Miguel tem haver com isso? Será que...? Não, não é possível que isso tenha se espalhado dessa forma!

24 de Setembro

Estou com uma puta ressaca. Que merda! Mesmo assim, agarro o telefone e disco o número:

—Olá Aisha — a garota me cumprimenta.

—Você gostou de ontem Char? — indago, esperando ouvir alguma perversão ou algo que indicasse nosso amasso de ontem.

—Ah... a cerveja estava ruim — ela comenta.

—Bem, não era sobre isso que estava querendo conversar — reviro meus olhos — digo, você comprovou que eu beijo muitíssimo bem ontem, não é?

—Beijo? Que beijo? — ela trata do assunto com surpresa — nada aconteceu.

Penso rapidamente e afirmo:

—Realmente, só estou zoando você um pouquinho.

Mas acredito, de verdade, que a tristeza em minha voz confirmou o quanto aquilo não era para ser engraçado.

Nos despedimos e desligo o telefone.

É isso que dá manter mentiras, atrás de mentiras, atrás de mentiras. Acontece essas coisas não muito agradáveis.

Todavia, se ela está fingindo que teve amnésia eu também posso. Amnésia é um bom jeito de não lidar com coisas complicadas, como, por exemplo: sentimentos.

Me jogo na cama e encaro o teto por alguns minutos, dou risadas agora.

É melhor rir do que chorar, bem, pelo menos é o que costumam falar por aí.