Prólogo:

Eu lembro daquele dia em que fui salva.

Cada segundo, cada mínima hora dele, e de todos os outros antes deste estão marcados a ferro e fogo na minha memória.

Lembro-me de como o céu plúmbeo derramava lágrimas difusas, esbranquiçadas, que refletiam como pedacinhos de vidro os primeiros raios de sol do fim de ano gélido da Inglaterra. Uma camada de gotas delicadas parecia o vapor do verão, sufocando gentilmente toda e qualquer esperança.

O chão a minha volta tinha cheiro de excrementos e sangue. Minha roupa estava úmida e pesada, e até mesmo meu próprio corpo custava a me obedecer.

Eu conseguia divisar minha perna em meio aquele amontoado de tecido sujo que me cobria, e ela estava repleta de pequeninas manchas arroxeadas, espalhadas, formando quase que um desenho secreto, uma marca de pecado. As manchas de sangue seco pareciam obstinadamente desejosas de quererem cobrir essas marcas.

As paredes gélidas daquelas casas, onde eu estava pateticamente escorada, sem nenhum lugar a mais onde apoiar as costas, ainda espreguiçavam-se, enquanto os tímidos sons da vida despontavam com o sol.

Quando eu entreabria os lábios rachados e feridos, uma nuvem difusa de névoa formava-se e logo desaparecia, engolida pelo orvalho e o cinza-pálido do céu.

Eu tinha a ligeira impressão de que, se chorasse, minhas lágrimas congelariam antes de chegarem ao meu queixo. Meus dentes batiam, numa melodia incessante e irritante, enquanto meu corpo sucumbia ao frio das roupas e da paisagem úmidas.

Perguntava-me se iria morrer logo...

E, mesmo com frio, eu ainda sentia a quentura do sangue, aquele líquido viscoso e com cheiro de “metal salgado”. Estava tão quente em contato com minhas roupas pesadas e molhadas que eu pensava que morreria de choque térmico.

Ao fechar os olhos, pude sentir todos os músculos de meu corpo relaxando. Não lembrava de ter adormecido de forma tão tensa, como um animal acuado. E tudo aquilo, somado aos ferimentos do meu corpo, era um fardo grande demais para um corpo delicado e franzino de pré-adolescente. Eu precisava desesperadamente dormir de verdade, num lugar quente e com cheiro de tecido limpo.

Ouvi um barulho, passos na neve fofa, e imediatamente, a claridade tímida do sol não mais me iluminou. Formou arcos bizarros, formas que eu não identificava, riscos indecifráveis que mal tocavam no chão, e se tornavam um banho de luz ebúrnea nas costas daquela pessoa.

Uma mulher estava parada, inclinada, me olhando fixamente nos olhos.

Eu baixei meu ombro, respirando de forma descompassada.

Imediatamente, imaginei o pior; qualquer coisa, menos que aquela era uma pessoa inofensiva e de olhos verdes pálidos, como se tivessem roubado a cor das árvores da floresta dos contos-de-fada dos livros envelhecidos que costumava folhar, muito antigamente. Olhos verdes e gentis.

- Oh, meu Deus!... – ela exclamou, tocando meus cabelos. Seu toque mal produziu reação em mim; meu corpo estava totalmente amortecido de frio e dor. – Minha criança, está tudo bem...?!

Com um esforço sobre-humano, eu neguei. Nada estava bem. Meu corpo latejava devagar, saboreando cada esgar de dor que eu produzia, e a enxurrada de chuva fina, o misto das nuvens carregadas e das lágrimas de orvalho vertendo da manhã, faziam todo meu corpo tremer, incontrolável, num frio frenético.

- Pobrezinha... Não consegue falar...?

Novamente, eu neguei. Aquela moça parecia com mais pânico que eu. E, no fundo, eu a achei engraçada naquele instante.

Um estranho contentamento, uma palpitação incômoda, nasceu no meu peito. Eu quis falar e pedir ajuda, quis simplesmente segurar a barra de sua saia e pedir para ela ficar comigo para sempre. Eu estava sozinha e com frio. Precisava daquela mão cálida que eu não podia sentir nos meus cabelos.

- Vamos arrumar um médico, está bem? Fique calma, sim... – aquilo mais parecia um mantra para ela própria. – Qual é o seu nome, minha pequenina...? Consegue falá-lo...?

Minha cabeça estava tão enevoada quanto a rua gélida. Uma densa névoa tão ebúrnea quanto o céu deitava-se sobre as ruas da cidadezinha. As casas envelhecidas pelo tempo e pela umidade desapareciam facilmente, engolidas pela bruma.

Fiz um sinal para que ela aproximasse seu ouvido de meus lábios. Enquanto isso, todo meu corpo parecia querer cooperar na extenuante tarefa de, ao menos, falar-lhe meu nome.

Um nome que eu não recordava direito, um nome escondido, soterrado em meio a tantas outras lembranças.

Um único alento que poucos pronunciaram, num número de vezes tão seleto que eu própria não podia recordar.

Seu rosto quente aproximou-se do meu, e eu pude notá-lo melhor, agora que ele não parecia tão desfocado. Era branco, simétrico, e seus olhos verdes denotavam ainda mais aquela palidez angélica. Seus cabelos eram cacheados, sedosos, até seus ombros, e era como se cobre líquido tivesse se derramado ali e tingido suas madeixas daquela cor exótica para sempre.

Aquela mulher que me achou, naquele dia de chuva e desespero, parecia-me, naquele instante, um anjo. Uma santa.

E quando seu ouvido ficou bem perto de minha boca, eu expirei mais uma vez aquela nuvenzinha efêmera de brumas, que logo confundiu-se com o ar e desapareceu naquela manhã monocromática.

- Cora... – sussurrei. Minha voz estava rouca e falha. – Eu sou... Cora...