Bavarois

56 Capítulo LXVII / Capítulo LXVIII


LXVII

Engolindo em seco com a confirmação verbal, senti minha cabeça girar ainda mais, e pensei estar me afogando debaixo de toda aquela chuva.

- Por... Que...?

- Ora. – para meu espanto, Edward Shelser sim quem parecia surpreso. – Não acredito que não saiba!

Apesar da surpresa e de estar até mesmo conversando comigo, ao invés de procurar-me por baixo de meu vestido, ainda sim, o cond apertava meu pescoço, imprimindo cada vez mais força. Logo, comecei a ver pequenos pontinhos dourados dançarem no meu campo visual, enquanto achava que ia morrer antes de descobrir o porquê daquilo.

- Não sei... Não sei de quê...? – perguntei, quase engasgando com o pouco ar que me restava intacto nos pulmões.

- Se pretendia mesmo casar com o Mitch, como uma lady Sunderland, devia saber... Não acredito que ele omitiu-lhe isso! – o homem replicou. – É tão vergonhoso saber da história por minha boca.

Do que diabos ele estava falando?...

- Essa sua marca... – tentei falar, mas a cada segundo era uma tarefa mais e mais difícil. – O senhor também é uma “propriedade”, afinal. Mas... De quem...? Os Shelser não são os únicos que...

- Está errada. Não fomos nós quem começamos isso. – Edward me respondeu, excepcionalmente sério, dessa vez. – Fomos obrigados a continuar uma criação que não é nossa.

Acredito que minha consciência tenha escorregado mais um nível, porque agora eu via um borrão parcialmente dourado e azulado diante de mim, onde devia estar os orbes assustadores de Edward Shelser.

Indiferente à minha agonia, ele começou a falar. Sua voz reverberou lá no fundo de minha alma (mas, ao menos, ele parou de tentar me violar, mesmo continuando a apertar meu pescoço).

- Antigamente, e isso data da fundação de St. Helens, três famílias foram as responsáveis por isso: Lerwick, Bursnell e Sunderland. Então, as três encarregaram-se de cuidar deste lugar e os arredores. Os Lerwick encontraram a si próprios nos grandes avanços industriais... Os Bursnell adquiriram uma afinidade com a área médica... E os Sunderland cuidavam da manutenção da lei. As três famílias ficaram conhecidas como a Grande Tríade, e prosperaram por anos.

Com uma pausa aparentemente calculada, Edward Shelser continuou aquele seu solilóquio, com um sorriso mortiço:

- Então, num dia pacato, uma grande revolução... Uma tomada de poder.

Com os pulmões queimando em busca de ar, ainda sim, minha mente vagou. Sim. A Melancholic Afternoon do ano de 1598 (enquanto alguns ainda achavam que era provavelmente em 1603).

- Era uma família apenas. Apoiada por interessados em derrubar a vigência da Tríade, essa família tentou tomar apenas para si todo o poder, centralizá-lo absolutamente, atendendo às demandas de uma pequena parte de cidadãos. – suspirou, como se estivesse exausto apenas de lembrar daquilo. – É claro que essa família não conseguiu. Ou esse dia não seria chamado de Melancholic Afternoon. Pode imaginar o que aconteceu com essa família...?

Meus conhecimentos de história limitavam-se até ali. Nada mais sobre aquela infame tentativa me era familiar.

Neguei, com mais veemência do que planejei, os olhos injetados de pânico.

- Ela conseguiu o que tanto queria: o poder. E, assim, a tríade tornou-se As Quatro Grandes Famílias.

- ...Essa família que tentou centralizar o poder era... – engasguei com aquelas palavras, incapaz de acreditar em como a verdade esteve diante de mim o tempo todo e eu, simplesmente, não a pude enxergar. – ...Os Shelser?

O cond Edward assentiu pacientemente.

- A Tríade construiu uma mansão para a nova família poderosa. Uma mansão exatamente no centro de uma cidade cujos pontos mais conhecidos formam um pentagrama se vistos do céu. Minimamente planejado. E fez um brasão especial para essa família, um brasão que indicaria essa vergonha, mesmo que quase ninguém soubesse do que se tratava; e obrigou-os a carregar sempre tal infâmia.

O pentagrama que indica os Anjos Caídos”.

Os Nephelim, os descendentes dos Anjos que envergonharam Deus”.

- Como a protetora da Lei, na época, a família Sunderland guiou os passos dos Shelser em seu julgamento. E, além de ter decidido isso, adicionou uma punição extra: toda e qualquer geração dos Shelser iria sofrer a punição por ter, um dia, ousado erguer a mão contra “Deus”. A punição que Deus dedicou a Cain; aos Anjos Caídos. A suprema punição.

Como um soco no estômago, a imagem de uma caverna assombrosa e tétrica, como o útero da própria Gaia, assaltou-me a mente. Uma prisão preenchida de olhos vazios, do som de água caindo.

...A prisão. A eterna solidão. O isolamento absoluto; o preço que Deus dedica àqueles que lhe erguem a mão.

- Então, as prisões subterrâneas construídas em sua casa... – sussurrei. – Eram feitas para os próprios moradores...?

Vita brevis breviter in brevi finietur,

Mors venit velociter quae neminem veretur,

Omnia mors perimit et nulli miseretur”.

Quando Shelser pronunciou-me aquele memento mori num latim perfeito, pausadamente, saboreando o gosto amargo e enegrecido de sua própria punição, foi como se um par extra de mãos apertasse meu pescoço. O pouco ar que me restava pareceu-me insuficiente para minha exclamação.

Aos poucos, à proporção de minha inconsciência, enfim tudo ia fazendo sentido. O ódio impensável que ele nutria, a marca nas costas de todos, o silêncio absoluto de funcionários da mansão Shelser, a própria estrutura das Quatro Famílias... Como uma flor, tudo abria-se à minha compreensão.

A vida é curta e, de forma curta, acabar-se-á,

A morte vem rapidamente e não respeita ninguém,

A morte destrói a todos e não tem piedade alguma”.

- É claro... – eu tossi de leve, quando tentei rir de minha própria ignorância. – Por isso, Alrick Sunderland levou Mitchell para você...

Erguendo uma sobrancelha, percebi que Edward estava divertindo-se em ver meu próprio pânico salpicado da surpresa de um mistério que ia se encaixando e fazendo sentido, depois de tanto tempo. O sabor da descoberta.

Ele certamente envenenou meus olhos, pois os dele estavam cheios de gozo sádico por me ver assim.

- Para esconder o filho bastardo e indesejado, qual o melhor lugar para fazê-lo? Em câmaras subterrâneas construídas justamente para punir e manter os traidores... As impurezas... Dá-lo a você foi apenas uma formalidade necessária... Foi um ato impensado de cond Sunderland... – continuei, cada vez mais sentindo que tudo fazia sentido, enfim. – Ele deu o filho ilegítimo que, mesmo assim, devia ser aquele que comanda. E o deixou para ser comandado...

- Alrick sabia que havia terminado no momento em que gerou um bastardo. A tradição estava acabada.

- Que espécie de tradição...? – sussurrei.

- Como Guardiões da Lei, os Sunderland, no passado, prendiam pessoas e marcava-nas com o símbolo dos Prisioneiros. Mais tarde, este símbolo passou a ser o brasão Shelser. Isso foi quando... Eles deram a nós o cargo de Guardiões da Lei. Era uma parte da punição. – ele falava, e cada vez mais eu sentia ódio vindo de sua voz. Um ódio que não era direcionado a mim. – Todos que não forem o primogênito devem morrer. Toda e qualquer geração dos Shelser deverá sofrer a punição de Deus.

Mais uma vez, a compreensão...

Uma regra que passou de geração para geração. Um segredo de alta classe, velado, sabido apenas pela ex-Tríade”.

- Quando o cond Sunderland morreu... É claro... – e meus olhos arregalaram-se, subitamente em polvorosa, assim como o resto de meu corpo. – É claro... Dessa vez, você estava sob o comando. Mitchell era uma “propriedade” sua... Ele não tinha direito nenhum de ir contra você, porque, como um bastardo, não foi treinado para levar adiante a tradição. A filha legítima morrera com o senhor Alrick... Mitchell, na verdade, fez parte disso no nível mais frágil...

As palavras escapavam sozinhas.

Eu estava entre maravilhada e apavorada. Nunca, jamais, imaginei que algo daquele tipo estivesse acontecendo bem debaixo do nariz de todos; um segredo milenar, do qual ninguém jamais desconfiou.

- Você os matou? – questionei-o, enfim. Não seria surpresa se Shelser respondesse que sim: só provaria que ele o fez para acelerar seu plano.

- Não. – ele sacudiu a cabeça, sem nenhum sorriso, dessa vez. – Um golpe do destino pelo qual estou agradecendo até hoje os tirou deste mundo.

- ...Alrick cometeu o pior de seus erros ao mandar Mitchell para você. – frisei.

- De fato, ainda hoje, é difícil aceitar que foi aquele imbecil quem marcou minhas costas. Com meu próprio brasão. – um riso amargo e cruel brotou de sua garganta; um riso que, até mesmo, encheu-me de pena.

- Afinal, você queria apenas paz, não é isso...?

Edward Shelser sempre me pareceu tudo, menos um humano. Uma sensação que eu tinha o tempo todo com Mitchell, no início. Era uma criatura imensa, assustadora, que fazia questão de conquistar pelo medo, que rondava sua presa e jamais desistia de uma boa caça.

Mas, com aquela história, eu vi uma segunda face sua, algo que, talvez, nem o próprio soubesse. Ou, quem sabe, que apenas ele sabia.

- Sim... Tão logo os únicos Sunderland que ainda podiam fazer algo contra você morreram, tudo o que sobrou foi Mitchell, que certamente teria que subir à superfície para ser o novo Patriarca. Mas a lavagem cerebral de dez anos que você fez deu certo, e ele jamais iria contra uma ordem do senhor. – arfei. – Tudo o que precisava fazer era maltratá-lo. Uma vingança por tudo que a família dele fez, mesmo que ele sequer tivesse culpa ou consciência disso. E as outras famílias jamais iriam poder ir contra os Shelser, que ocuparam um nível muito mais alto que o delas na “cadeia alimentar”... Elas só podiam ficar quietas.

As imagens embaralhavam-se em minha mente, enquanto um pensamento cada vez mais forte de que eu precisava respirar direito me assaltava.

- Por isso, quando você fez o trato com Victoria, só estava fortalecendo a si próprio... Continuaria, provavelmente, a tradição, é claro, mas sem mais receber ordens de ninguém. Daria um novo conceito a ela. E eliminaria para sempre a linhagem Sunderland... Sim, e então, você teria a paz... Enfim, a paz.

Edward Shelser riu, afrouxando só um pouco o aperto em volta de meu pescoço. Uma golfada de ar súbito entrou por minhas narinas, fazendo-me tossir várias vezes.

- A senhorita é muito observadora. – comentou. – Já pensou em trabalhar para a Polícia? Iria ser ótima em seu cargo.

Apenas um humano.

Uma criança quebrada e imperfeita, que cresceu em um sofrimento muito maior do que eu sequer podia imaginar.

Cresceu sabendo que era parte de um sistema imponente, imutável...

- Mas, a senhorita esqueceu-se de uma coisa. – e olhou-me nas partes baixas.

Como se tivesse dado-me um potente soco no estômago, as palavras histéricas de Victoria Barrington rasgaram meus tímpanos.

- ...Eu estou carregando um herdeiro. – e a observação venceu qualquer força que me restava.

- E isso eu não posso permitir. – sorriu-me.

Suspirei, sentindo-me milhões de vezes mais pesada que o normal.

- E não há nada que eu possa fazer para contornar a situação...?

- Só morrer com esse feto. – concluiu.

- Bem...

Fechei os olhos, numa pose sacrossanta de quem se entrega ao destino que viesse, a dor ou o prazer. Mas minha mente caminhava por sinuosos labirintos de raciocínios, interligados, todos visando a auto-proteção.

Quando senti o calor do corpo de Edward Shelser aproximando-se de mim, ainda de olhos fechados, como uma alavanca, joguei meu corpo para frente, e abri a boca o máximo que podia. Logo, meus dentes encontraram a pele macia que eu tanto queria. E, num desespero que parecia não me pertencer, cravei meus dentes no pescoço do cond.

Por um instante, pensei que era algum monstro gótico devorador de pessoas, mas nem por um milésimo de segundo deixei de mordê-lo. Já sabia que ele iria se mexer tão logo a dor começasse a invadi-lo, mas a ferocidade com a qual tentava me tirar dali era incrível. Forcei-me a permanecer, mesmo sentindo o gosto de sangue abundante invadir minha garganta.

Só quando recebi um violento soco no rosto é que, enfim, abandonei-o. E pude ver o pescoço vertendo o líquido escarlate, em jatos grotescos. Cuspi o sangue que ainda restava, sentindo o estômago revirar ao lembrar que havia, como uma vampira, bebido um pouco do mesmo.

- Sua... PUTA! – ele bradou, tão cheio de fúria que eu estremeci.

- Não...!

Tentei fugir uma vez mais, mas desta vez, suas duas mãos fincaram-se em meu pescoço. Debati-me, mas num ritmo muito mais rápido, minha visão foi turvando.

...Como devia ser, se eu não tivesse matado meu pai antes.

Tudo que vi antes de perder a consciência foi o jorro de sangue de seu pescoço. Segui-o e, uma última vez, perscrutei o cadáver de Mitchell, fustigado incansavelmente pela chuva.

LXVIII

Dez minutos. Não, eu não iria esperar dez minutos para vê-los morrer.

Foi o que disse para mim mesma. Morrer era uma alternativa, patética, porém possível; ficar parada é que não era.

Já bastava Matt. Eu aprendera o bastante com isso.

Para minha surpresa, ao chegar ali, desenhado sob a luz de um raio e a cortina etérea de chuva, Edward Shelser esganava minha “filha”.

Ele sangrava como uma besta pelo pescoço.

Na boca de Cora, sangue. Eu compreendi de imediato o que ela havia feito, e senti-me orgulhosa de cada um daqueles três, que puseram tanto esforço em derrotar aquele último mal.

...Desta vez, eu devia acabar com tudo.

Tateei meu cabelo, e encontrei, por uma sorte que algum deus piedoso lançou sobre mim como um raio de luz, um novo enfeite de cabelo.

- Irisa Baker... – ele sussurrou, incrédulo.

- Em desvantagem, não é, cond Shelser? – perguntei-lhe, num tom neutro.

Com passos decididos, aproximei-me cada vez mais dele. Em nenhum momento, seu corpo imenso saiu de cima de Cora.

- Espero que não se importe, meu senhor... – disse eu, abrindo um caloroso sorriso, mesmo debaixo de uma chuva gelada. – ...Mas vou vingar Matt, está bem?

O vestido de Cora manchou-se totalmente de vermelho.

Assim como meu enfeite de cabelo...