Bavarois

53 Capítulo LXIV


LXIV

Edward Shelser nos olhou de cima a baixo, com aqueles seus olhos oblíquos e de aparência puramente felina.

- Victoria fez isso em você? – perguntou, com um sorriso tedioso. – Estou verdadeiramente surpreso que ainda esteja vivo, Mitch. Quatro tiros? Ou foram cinco? Minha nossa, ela praticamente descarregou a arma em você...

Rondando-nos, como um abutre a esperar sua comida morrer definitivamente, divertindo-se em vê-la agonizar, o cond continuou seu monólogo.

- Não me surpreende que tenham saído. Nunca achei mesmo que a senhorita Barrington tivesse chance contra você, apesar da vantagem absurda. – deu de ombros. – Uma pena, sabe? Realmente, uma pena... Vic parecia tão boa para ser a que cuidaria dos negócios. Agora, preciso achar outra pessoa para isso. Que coisa, isso vai dar tanto trabalho!

Enquanto ele falava, eu só agarrava-me a Mitchell, perguntando-me quando aquilo iria acabar.

- Ao menos, Victoria já estava morta mesmo. Um problema a menos. Agora, só precisamos cuidar de você, não é, Mitch? – e, para minha raivosa surpresa, Edward tocou com a ponta do florete nas costas dele. – Deve estar doendo bastante... Você está sangrando como um animal de abate, sabia? Pergunto-me até quando conseguirá manter a consciência.

- Por favor...

Com uma voz de quem parecia prestes a quebrar, Mitchell pronunciou-se, quando eu achei que nenhum de nós podia mais falar:

- Por favor, ao menos, deixe-me largar Cora em um lugar abrigado. Ela não pode ficar debaixo dessa tempestade.

Edward Shelser ponderou por instantes que pareceram intermináveis.

- ...Pois bem, leve-a. – e, então, abriu-nos passagem.

Esforçando-se além dos seus limites (e isso qualquer um poderia facilmente deduzir), Mitchell ergueu-se, ainda comigo em seus braços (apesar de meus protestos mentais para que me largasse, mas que nada iriam adiantar se verbalizados), passamos por Shelser, que nos olhava atentamente, como um carcereiro cuida de um prisioneiro de perigosíssimo.

Concentrei-me em alguma coisa que não fosse aqueles seus olhos perturbadores. Como, por exemplo, a chuva que continuava caindo como lágrimas da madrugada, quando a noite colorida de índigo profundo sequer deixava as nuvens escuras mostrarem-se, mesmo com as mesmas cobrindo o brilho da maioria das estrelas, aqueles pontos intrigantes que, quando pequena, eu achava serem vaga-lumes que voavam realmente alto.

Caminhamos lentamente, enquanto eu me encolhia mais em seus braços, procurando um pouco de calor e pensando em como poderia fazer para absorver aquela sua doença por osmose e ajudá-lo.

Infelizmente, meus pensamentos não duraram muito. Foi o tempo de ver, ao longe, um borrão indistinto, vagamente parecendo algo sólido.

Assim que, porém, divisei a carruagem perdendo-se em meio à bruma das chuvas, fui surpreendida com Irisa Baker, aquela que chamei de “mãe” por cinco anos.

Ela veio correndo até nós, e em seus olhos li o mesmo medo que vi em meus próprios (ou, pelo menos, senti). Seu vestido de passeio, naquele velho e nostálgico tom esverdeado, estava maculado pelo que parecia serem manchas de profundo vermelho escarlate, como sangue coagulado, e continuava traçando seu caminho, arrastado pela água abundante da tempestade.

Mitchell soltou-me, visivelmente surpreso assim como eu.

- Mamãe! – corri até ela, sem importar-me com o quão errado era perder tempo com aquelas sentimentalidades em um momento como aquele.

Aparentemente, ela também não se importou com a razão, pois me abraçou com tal intensidade que me lembrou de meu primeiro castigo, há tempos, quando as empregadas ainda tinham nojo e até certo receio de minha presença ali (não que todas elas tenham, hoje em dia, mudado sua opinião a meu respeito. A mãe de Angeline é uma prova viva disso).

- Minha nossa, tive tanto receio de que estivesse... – a ouvi, em meio ao seu próprio alívio, mesmo não prestando o mínimo de atenção para suas palavras.

Parecia até mesmo que eu havia ficado por anos naquele lugar; com um desespero quase infantil, tentava relembrar-me de como era o calor aconchegante dos braços de uma mãe protegendo um filho de um pesadelo.

- O que aconteceu, mãe?... – questionei-a, tão logo voltei àquele mundo.

- Por que está com sangue no vestido, Irisa? – ouvi Mitchell perguntar, logo atrás de mim. – Ou melhor: é de Emma?

Abrindo caminho, Irisa deixou-nos ver o interior da carruagem que, possivelmente, os havia trazido até ali.

Emma Shelser sempre me foi uma pessoa a quem atribuí muitas imagens. Uma mademoiselle delicada, uma vingadora impassível, uma mulher admirável. Mas jamais um esboço de consciência. Tinha a camisola de sono manchada de vermelho, e muito me lembrou as poucas ilustrações feitas a punho de possessos por demônios.

O líquido derramava-se a ponto de eu acreditar que aquilo não podia ter saído apenas dela (quase o que senti com Mitchell, que ainda tinha sangue vertendo das feridas abertas a balas). Com um horror que apenas piorava a cada minuto a mais que passava naquele lugar, aproximei-me com vagar, como se o mundo ao meu redor tivesse, repentinamente, desaparecido também, engolido pela cortina líquida.

- ...O que houve? – sussurrei, incrédula.

- Ela ainda está respirando. – Edward Shelser falou, antes que mamãe Irisa pudesse dizer, talvez, a mesma coisa. – Infelizmente, não consegui acertar nenhum ponto realmente vital. Mas, sem tratamento adequado, creio que Emma morrerá, logicamente.

Surpresa, uma vez que já nem me lembrava da presença dele ali, virei e permiti-me encará-lo. Aqueles mesmos olhos negros como a madrugada nos observava com um brilho velado de diversão.

- Estou fazendo o possível para estancar, mas... – assentiu minha “mãe”.

- Então, isso será rápido. – foi o suficiente para Mitchell decidir-se. – Rápido o suficiente para podermos cuidar de lady Shelser.

- Mas, Mitchell...

É claro que eu não era idiota. A vantagem estava absurdamente óbvia: o cond Shelser tinha o corpo desprovido de qualquer arranhão ou mácula. Apenas molhado de chuva. Enquanto seu inimigo, uma pessoa que ele viu crescer no ventre escuro de sua mansão, era um homem de saúde abalada e completamente exausto e machucado. Não duraria mais que cinco minutos nas mãos de um espadachim habilidoso que, provavelmente, o havia ensinado a lutar.

Qualquer pessoa saberia disso. E diria que era um suicídio aceitar aquela batalha. Uma covardia sem precedentes; mesmo assim, em nenhum momento isso foi proferido por nenhum deles.

- Cora tem razão, jovenzinho... – Irisa também tentou demovê-lo da idéia.

- O florete que Emma usou... Senhorita Baker, poderia dá-lo ao Mitch? Não gosto de perseguir pessoas desarmadas. – ele abriu um sorriso cordial.

Senti a respiração de mamãe Irisa pesar no mesmo instante, enquanto eu pensava em como desejava, naquele momento, ter alguma espécie de poder divino e direcionar os raios que caíam ao longe para o corpo alto e arrogante daquela pessoa, e vê-lo tornar-se uma pilha de ossos carbonizados diante de mim.

Mas, mesmo sendo minha vontade, naquele momento eu era apenas uma ex-prisioneira, ameaçada de morte caso a vitória fosse de Edward Shelser e frágil demais, ainda mais com ambos os braços quase que inutilizados.

Irisa também não podia oferecer maior resistência. Mitchell parecia permitir, com um leve sinal de seus olhos, que ela lhe desse a espada e deixasse aquela loucura continuar, enquanto fazíamos “vista grossa” e agíamos como princesas presas na torre mais alta, esperando o salvamento de um príncipe encantado.

Que ridículo!, suspirei, desejando acabar comigo mesma por tamanha inutilidade (afinal, não importa como, a culpada por eles estarem ali era eu mesma).

Pateticamente, fiquei parada quando a mulher que me criou por tanto tempo passou por mim, indo até a carruagem e pegando no chão da mesma o metal molhado de chuva. Era um florete normal, daqueles que eu via quando ela e Mitchell treinavam esgrima.

Até onde me constava, porém, uma arma daquelas não podia ser usada de forma letal, até por sua própria confecção, que negava este propósito. Mas não podia subestimar a capacidade de Edward Shelser de transformar qualquer coisa em arma.

Irisa Baker atravessou a cortina de chuva que cada vez mais me pareciam pequenas agulhas líquidas a perfurar de forma invisível, porém dolorosa, o corpo. E descobri, além de tantas outras coisas, que um braço esfaqueado e chuva gelada não combinam nem um pouco. A dor estava se tornando insuportável.

- Muito obrigado. – ele acrescentou, tão logo a segurou nas mãos.

No segundo seguinte, estendia-a a Mitchell, que mantinha os olhos fixos nos dele, encarando-o odiosamente como eu, segundos atrás.

- Mais uma coisa: importa-se de fazermos isso nos jardins temporais?

O cond Shelser riu, me fazendo perceber, com certo atraso, confesso, que aquela, provavelmente, devia ser alguma piada interna utilizando a nomeação dos lobos do cérebro.

- Quer poupar os olhos das senhoritas de sua morte lenta e desagradável? – perguntou, acariciando a lâmina manchada de sangue como a um infante.

- Algo do tipo. – deu de ombros.

- Não vejo nada de mais nisso. Claro que podemos. – ele também o fez.

(O código de honra bastante rígido de alguém tão sem escrúpulos, pela minha imagem mental pintada até agora, de um homem como Edward Shelser... Definitivamente, aquela era a madrugada das surpresas. Ele estava tratando suas presas com algo que classifiquei parcamente como respeito. Torto e estranho, mas era uma espécie de respeito, sem dúvidas).

- ...Um momento.

Com passos vacilantes, acompanhei, parada onde estava, Mitchell ir até aquela Emma num estado lastimável e trocar rápidas palavras com ela (e, pela minha rápida olhada, ela pareceu corresponder brevemente a ele). Seu peito subia e descia numa respiração irregular e fraquíssima.

Logo em seguida, percebi-o caminhar até mim. Não gostei do que vi: sangue e exaustão. Essa imagem era convertida em palavras como “Morte”, “Derrota” e “Fim” em minha mente. Palavras que me assustavam, pois anunciavam, como um profeta sem compaixão, o fim de tudo. A morte da qual Victoria Barrington tanto falava.

Tive um dejà vú familiar quando ele me abraçou. Foi como se o mundo derretesse e se transformasse apenas em uma lembrança longínqua. Lá, muito distante de meu pânico e seus braços, a chuva continuava caindo e enfraquecendo-o cada vez mais. Sim, eu sabia muito bem disso; mesmo assim, só tinha o desejo de permanecer daquele jeito para sempre, se possível. Esquecer da noção de perigo e da ameaça de morte.

Escondi o rosto em sua camisa encharcada e quis sussurrar para que não fosse para lá. Mas seria infantilidade demais de minha parte impedi-lo. Muito mais coisas estavam em jogo, além de minha segurança ou do tempo que corria para Emma: era até mesmo uma questão de libertação. Enfim, o escravo estava enfrentando seu senhor. Eu entendia tudo aquilo. Entendia que era para me proteger, para preservar-nos, mas...

- Não vá, por favor... – agarrei-me à sua roupa, suplicando.

- Preciso ir. – ele devolveu, acariciando-me os cabelos.

Eu já não esperara nenhuma resposta diferente, na verdade. Ao menos, deixei que seu carinho se estendesse ao máximo, fechando os olhos com força enquanto imaginava se aquele seria nosso último momento.

- ...Por favor. – voltei a falar-lhe, e já nem sabia mais porque implorava.

- Espere-me aqui, sim? – Mitchell disse-me, próximo a meu ouvido, enquanto eu sentia seus braços cingirem-me com mais força. – Prometo que vou tirá-la daqui.

- Bem, Mitch... Vamos lá? – Edward Shelser falou, destruindo com um só tom de sua voz o mundo solitário que eu havia construído. – Vai ser mais fácil que tocar piano te matar se continuarmos debaixo dessa chuva, com você já altamente enfraquecido desse jeito. E eu quero ter alguma diversão.

Mamãe Irisa segurou-me pelos ombros enquanto o calor úmido da pele de Mitchell Sunderland desaparecia de meu contato. Tentei agarrar sua camisa uma última vez, mas fui mal-sucedida nisso. Tudo que me restou fazer foi baixar os olhos, ouvindo os passos de ambos desaparecerem.

- ...Vamos confiar no futuro. – mamãe disse-me, abraçando-me com um cuidado que me pareceu feito para não machucar ainda mais meus braços.

Talvez apenas alguns segundos tivessem se passado.

Ou, talvez, milhares de anos.

Minha mente, ainda frenética, não acompanhando em nada a exaustão de meu corpo, recordou-se aquele momento desesperado de pouco tempo atrás.

Aquele abraço reconfortante, a sensação de que nunca mais se repetiria.

E a voz de Mitchell sussurrando-me “prometo que vou tirá-la daqui”.

Não. Definitivamente, não.

Aquilo estava errado.

Não devia ser isso o que dizer. Devia ter sido “prometo que sairei vivo daqui e vamos voltar juntos para casa”.

A verdade esbofeteou-me com a força de um animal selvagem, como se minha mente fosse um amontoado de peças de dominó caindo uma a uma.

...Mitchell sabia que não ia voltar vivo.

Ele sabia que iria... Morrer.

Tudo que queria era me livrar de Edward. E, literalmente, morrer tentando.