Bavarois

43 Capítulo LII


LII

O céu, antes coberto de uma fina camada plúmbea, foi se tornando cada vez mais espesso, até que as mesmas cavalgavam até o horizonte, onde os olhos alcançavam, enquanto o eco de trovões longínquos, bem como o risco branco que deixavam no céu, avisava que a tempestade carregada não tardaria.

Tão logo cheguei à biblioteca, geralmente onde ele estava nesses momentos, percebi-o compenetrado em uma pilha de papeis.

- ...Mandou me chamar? – sussurrei, cautelosamente, ainda da porta.

- Não fique aí na porta, tola. – ele ergueu uma sobrancelha. – Entre aqui.

Em verdade, só mesmo agora, quando os raios de sol que eram fortes o suficiente para penetrarem o escudo feito de nuvens carregadas e poeira quente correndo pelas com pequenos redemoinhos arredondados já estavam devidamente em seu momento de se pôr, foi que tive tempo de falar-lhe.

Antes disso, senti, era como se aquele dia fosse feito para atrapalhar-nos. Em nenhum momento trocamos mais palavras do que o “eu irei ter uma reunião. Talvez saia depois. Mas prometo que nos falaremos mais tarde” de antes do almoço.

- Ah... Está com fome? – perguntei, baixando os olhos e tentando achar algum assunto. – Posso fazer algo eu mesma para...

Interrompida pelo que pareceu um par de braços enlaçando-me e me tirando do torpor distraído de antes, prendi a respiração. Ao perceber Mitchell fazendo isso, também notei que só contribuiu para minha vergonha.

- Estou com saudades sua. – ele disse, sussurrando-me ao ouvido.

Apesar de minha inércia primária, acabei correspondendo-lhe ao abraço e ao sorriso, igualmente.

- Eu também. – concordei. – Ah... O que estava fazendo que demorou toda uma tarde? Havia alguns homens mal-encarados...

- Parece que uma fábrica em Windle está com problemas. – deu de ombros. – Estávamos discutindo planos para...

- Windle? Aquela cidade perto de Eccleston...? – engasguei.

Eu vi aquela sala imensa afundar como num maremoto num silêncio absurdo e cortante, a ponto de ouvir um som agudo no ouvido, e de incomodar-me com isso. Engoli em seco, percebendo, porém, o que havia feito.

- Ah! Eu interrompi a sua conversa!... – e, sem poder me controlar, corei mais uma vez. – Perdão...

Para minha surpresa, Mitchell pareceu ter entendido meu medo.

- Não coloco meus pés lá, prometo. Só mesmo se for muito necessário. – ele afagou-me os cabelos, como se eu fosse uma criança. – Vamos parar de falar disso, Cora? Parece que você queria desde cedo falar comigo sobre algo mais importante.

- Ah não, por favor, continue me contando o que estava fazendo...

- Não será entediante para você? – encarou-me com desconfiança, como se me sondando para ver se não estaria forçando interesse.

- Nem um pouco. Quer dizer, se não quiser contar dos problemas, eu vou entender, então...

- Tudo bem, eu entendi.

Mitchell sentou-me no divã, aquele mesmo móvel escarlate onde eu o via sempre descansar de suas obrigações, nos primeiros dias de convivência. Encolhi-me, não sabendo se de frio ou da súbita tensão em meu corpo, e sorri ao vê-lo sentar-se ao meu lado.

- Parece que a fábrica está mesmo com sérios problemas, e temem ter de fechá-la se as demissões continuarem neste ritmo... – suspirou. – Aquele covarde do William atrapalhou toda a economia com as suas manobras infantis.

“William” possivelmente, pensei eu, devia ser o rei William IV, que na década de 30 havia deixado o poder.

- Se ela fechar, será um efeito dominó: certamente Windle terá uma crise séria neste setor, e irá se espalhar... Estávamos discutindo as alternativas.

- E chegaram a uma conclusão? – pisquei.

- Injeção de dinheiro, provavelmente. – ele suspirou, cansado. – Se continuar assim, vamos ter que nos encontrar e dar satisfações à rainha Victoria.

A situação era mesmo séria, mas tudo no que consegui pensar (e me senti uma milady fútil e idiota por isso) foi aquilo que deixei escapar, sem querer:

- E vai ter que viajar para Londres, Mitchell?...

Fechei os olhos, deixando escapar um suspiro, quando ele segurou minha mão.

- Não. Por enquanto, não pretendo fazê-lo. – e depois de uma pausa, possivelmente calculada, segurou-me as duas mãos nas suas. – A não ser que você queira ir.

Não podendo deixar de rir, dei-lhe um amigável tapinha nas costas.

- Para a sua sorte, eu gosto daqui. Não quero nenhum vestido da última moda nem um perfume direto de Paris. – sorri.

Mitchell acompanhou-me no riso. – Mas é mesmo a mulher perfeita! Como nunca a descobri antes?

- Talvez porque você estivesse um pouco ocupado com a Victoria.

Percebi o exato instante em que ele parou de rir, mas jamais soltando minha mão. E então, seus lábios curvaram-se outra vez naquele sorriso jocoso de lord irritante, bem como as sobrancelhas arquearam-se, irônicas.

- Você está fedendo a ciúmes, Cora. – ele insinuou.

Fechei a cara. – Que bom que consegue ver algo que está estampado bem na sua frente. Já é um grande avanço.

Percebi o silêncio de Mitchell, embebido em sua própria concentração divertida, enquanto eu revirava os olhos, esperando o impacto.

- Deixe-me ver se entendi...

Entre a pausa calculada, pigarreou. – Está com ciúmes do fato de eu ter ido ao cemitério hoje e tê-la “esquecido”?

Balancei a cabeça. – A desculpa das fábridas de Windle deu certo. Não estou brava por ter me “esquecido”. Não sou intransigente a esse ponto. Agora, só resta me explicar sobre o cemitério.

- Ora, problemas caseiros. Que seria da vida sem esse tempero? – ele riu.

- Isso não tem graça. – resmunguei. – Eu esperava que, ao menos hoje, você tivesse a decência de me acordar, ao menos...

Aparentemente, não perdendo o espírito esportivo por nem um segundo (fato este que, confesso, irritou-me parcialmente, ao mesmo tempo que me divertia), Mitchell apenas suspirou, como se compreendesse subitamente a situação, e tocou em meus cabelos, brincando com uma mecha deles por entre seus dedos.

- Minha querida, você estava dormindo tão bem que fiquei receoso de fazê-lo.

- ...Quando eu acordei, você não estava lá. – sussurrei, baixando os olhos. Estava me comportando como uma criança mimada; e não gostei disso. – Tive de saber pela Irisa que tinha saído.

- Aquela fofoqueira... – resmungou, divertindo-se com o meu rosto de profunda descrença ao vê-lo sequer ter a decência de guardar os comentários para si (pelo rosto, muito provavelmente fez isso só para me ver irritada).

- Ela só me falou para onde você foi. Eu quem, pela lógica, percebi o que...

- Cora, Cora... – ele suspirou, soltando meu cabelo. – ...Saiba que eu posso ser várias coisas, um louco excêntrico, um bastardo mal-agradecido, mas estuprador e necrófilo são duas que eu jamais serei, nem se minha vida dependesse disso.

Não pude evitar e acabei rindo. – Nem te imagino como um necrófilo!

- Por que diabos eu seria um se tenho... Por exemplo, uma bela noiva me esperando apenas para ficar com ciúmes de mim? – e abraçou-me, sorrindo.

- Não pense que te perdoei com isso. – resmunguei.

- O que? Ainda não?! – suspirou, voltando a pegar minha mão. – Certo, dê-me mais uma chance.

Balancei a cabeça, com um sorriso no rosto. – Mais uma chance.

Ouvi ao longe o som das primeiras gotas, brilhantes e pesadas, caindo como moedas ao chão. Mitchell ajoelhou-se diante de mim, como num príncipe de contos infantis, enquanto o som da chuva ricocheteava o teto da mansão, golpeando as estruturas com força.

- Se eu prometer não fazer mais nada disso... – ele me disse, com um sorriso e segurando minha mão, beijando-a em seguida. – ...Você me perdoaria?

- Com algumas condições. – fiz-me de irritada, apesar de que já nem estava mais sentindo isso.

- Pois as fale, my fair lady.

Tirando minha mão dali e limpando-a no vestido, simulando igual asco por aquele ato (o que arrancou um riso dele), suspirei, na melhor pose de lady mimada e cheia de vontades que podia fazer.

- Vou resumir minhas exigências numa só: se amanhã não acordar ao meu lado, farei greve. – virei o rosto e encarei-o de canto de olho, cruzando os braços. – Você sabe do quê.

Igualmente simulando a expressão mais surpresa e afrontada de todas, ele me fez rir ao encostar sua testa em meu joelho, como se fosse um pobre coitado.

- Como...?! Você não faria isso comigo! – teatrou, no tom mais dramático possível. – Sei que não é cruel desse jeito!

- Pois saiba que minha crueldade não tem limites. – sorri. – Sou uma mulher, esqueceu? Naturalmente tirana.

- ...Argumento irrefutável. – sorriu também.

Porém, ao tocar outra vez em minha mão, apenas por aquele toque percebi que já não estava mais brincando. E, de fato, quando o encarei, os olhos de alfazema estavam sérios, com aquele mesmo brilho hipnotizante.

- Não vai me proibir de visitar Victoria? – arriscou.

Neguei em silêncio, acariciando-lhe os cabelos dourados. – Se você não fizer isso, quem o fará? Seria imbecilidade proibi-lo de ir.

- No próximo ano... – ele sussurrou-me. – Gostaria de ir comigo?

No próximo ano, pensei, com um sorriso que escapou sem que eu tivesse controle sobre isso, já seremos casados.

- Se me permitir, gostaria muito...

Mitchell ergueu-se um pouco, e ainda sim teve de inclinar-se levemente para tocar-me a testa com a sua, enquanto sua mão acariciava meu rosto.

- Obrigado. – disse-me, a voz suave como uma carícia. – Achei que fosse me matar, mas parece que a peguei em bom humor.

- ...Para a sua sorte. – e, afinal, aquela brincadeira não acabara.

Ele sorriu. – Está com fome, Cora?

- Hum? Já vai jantar? – ergui a sobrancelha, surpresa com a constatação. Ainda era, acredito, cedo para isso.

Beijando-me de leve nos lábios e fazendo-me invariavelmente corar, Mitchell acariciou meu rosto mais uma vez.

- ...Estou com saudades sua. – repetiu-me a frase de quando nos encontramos, há algum tempo atrás.

- Seu grande...

- Termine essa frase quando eu estiver torturando-a de novo. – calou-me, pondo o dedo sobre meus lábios.

Congelei, não sei se de temor ou de expectativa. Mas logo, com um sorriso, já estava passando o polegar por seu rosto.

- Você não ousaria.

- Acredite, eu já fiz muito me controlando para não ousar aqui mesmo.

- ...E por que se controlou?

- Não teste meus limites, mocinha. Sabe que não sou um exemplo de auto-controle. – avisou-me, o mesmo sorriso jocoso renascendo nos lábios.

Simulando o rosto mais inocente que conseguia, pus a mão sobre a boca, entre a surpresa e o medo virginal. – Vai mesmo me torturar...?

- E nem preciso de uma câmara nos subterrâneos para isso.

Antes que eu pudesse devolver-lhe à altura aquela provocação, Mitchell beijou-me com aquela mesma fome apaixonada de ontem, fazendo meu corpo, lentamente, relembrar-se da sensação de ter as mãos dele passeando pelo mesmo.

Quando me ergueu em seus braços, deixando a biblioteca em questão de segundos, tive de rir.

- O que vai fazer comigo?... – perguntei-lhe, ainda mantendo aquela teatrada pose de virgem indefesa.

- Bem... – ele também sorriu. – Muitas e muitas coisas, na verdade.

- Sei que vou me arrepender disso, mas poderia dizer-me que tipo de coisas são essas?

- Quer mesmo que eu conte? A surpresa é melhor.

A chuva deixava um rastro de som e fúria. E, com um olhar que desde então me persegue, Mitchell encarou-me, depositando-me em sua cama.

- ...Eu te amo. – sussurrou-me no ouvido, mordiscando o lóbulo em seguida.

Tanto eu quanto ele já sabíamos disso. Estava sempre escrito em nossos olhos, desde o início; entretanto, quando posto em palavras, sempre tem o poder de trazer lágrimas aos olhos.

- Eu também... – devolvi-lhe.

Baixei os cílios, os olhos e sorri, seguramente. — Faça o que quiser comigo.

E Mitchell fez.