Bavarois

8 Capítulo IX / Capítulo X / Capítulo XI


IX

Noite do terceiro dia de cárcere.

Se existisse alguma espécie de termômetro para medir a raiva, a minha estaria no topo, e possivelmente, o mercúrio derramaria. Mitchell Sunderland, não sei porquê diabos, resolveu sair.

Ele nunca sai. Raramente, na verdade. Em todos os meus anos de trabalho aqui, posso contar nas mãos quantas vezes ele o fez. Nem mesmo em reuniões importantes das quatro famílias ele comparece. Sempre ouço pelas ruas que sua figura inspira medo e respeito, mas principalmente uma admiração sem explicações, porque ele é misterioso. E, bem... Eu concordo, em parte.

Mas, então, ele saiu e decidiu caminhar. E, claro, sua “dama de companhia” Cora Baker devia estar com ele neste momento.

Simplesmente resignei-me a acompanhá-lo, em silêncio.

Caminhamos pelas ruas com uma fina camada de neve. Mitchell Sunderland, então, mostrou-se alguém com talento napoleônico para ser irritante (como se já não estivesse fazendo isso sempre). De propósito, me fazia caminhar nos lugares com mais pedrinhas, com mais elevações, e ria-se quando eu tropeçava vergonhosamente. Nem preciso mencionar que chegou a ter convulsões de riso quando eu caí e molhei meu vestido de saídas na parte de trás.

Vermelha de raiva e vergonha, eu engoli um palavrão e continuei segurando-lhe o guarda-chuva. Sim, porque o principezinho não saía sem ele.

Não bastasse ser suficientemente branco como um fantasma, ainda queria manter aquela aparência anêmica de enfermo! Às minhas custas, porque quem tinha que lhe segurar o guarda-chuva e manter os braços erguidos por longos períodos, por causa da diferença berrante de alturas, era eu!

Fizemos várias paradas pelo caminho, algumas delas ridículas, outras em lojas caríssimas, onde os donos dos estabelecimentos me olhavam com um misto de pena e surpresa (a fama de cretino dele é realmente grande). Uma delas, em especial, ainda me intriga. Ele me ordenou comprar um imenso pão, suficiente para alimentar crianças por vários dias, e começou a esmigalhá-lo.

- O que está fazendo, senhor? – eu perguntei, calculadamente com o tom mais polido que podia.

- Partindo o pão, boneca. Você é retardada? – ele ergueu uma sobrancelha, com um rosto que beirava a inocência irônica. Morra, Mitchell Sunderland!

Sua mão encheu-se de migalhas e, então, elas voaram, em diversos ângulos, caindo algumas perto de nossos pés, outras mais distantes. Várias pombas, a maioria absoluta brancas da cor da neve, rodearam e bicavam-se umas as outras para conseguirem um pouco mais daquele alimento fácil.

Mitchell ficou muito tempo naquele ato de esfacelar o pão e dá-los aos pássaros, sem se importar com olhares alheios para nós. Eu baixei os olhos, ainda com o guarda-chuva a postos, em sua cabeça, protegendo-o de um sol que mal aparecia.

Perdi a noção do tempo quando estávamos no um quarto do alimento.

Quando, enfim, ele amassou o último pedaço e jogou-o no chão, atrás de seus pés, e as pombas todas voaram para ali, mais uma vez brigando por aquele último e imenso pedaço, nós voltamos ao nosso trajeto original e desconhecido por mim.

- ...O senhor também gosta de pombas? – perguntei, tentando manter uma conversa decente com ele, talvez apenas para não morrer de tédio.

- Eu detesto pombas, bonequinha. – me disse, como se aquilo fosse muito óbvio. – Como você é bobinha.

Mitchell Sunderland, você é simplesmente insano...!

Minha segunda afirmação sobre meu senhor de comportamento distorcido. Era a mesma coisa com as bonecas.

Ainda tento entendê-lo. Juro que ainda tento.

X

Eu fico me perguntando... Por que eu quero tanto a sua companhia? Já não disse a mim mesmo que havia aprendido a lição com Victoria...?

Por que diabos eu quero tanto a sua companhia?

Só está comigo a dois dias, mesmo que se mostre habilidosa em tudo, inclusive em me suportar. Mas... Apesar disso... Ela é só uma boneca.

...Só uma boneca, como todos os outros. Então, por que?

XI

- Senhor Sunderland?

Assustei-me ao vê-lo parado na porta do quarto. Quando chegamos na mansão de novo, eu estava tremendo de frio, e ele também. Mitchell Sunderland é conhecido por ter hábitos estranhos ou nada usuais de alguém de sua posição. Um deles é recusar ajuda nos banhos. Ele mesmo banhava-se, colocava suas roupas e tudo o mais. Nenhuma empregada jamais vira seu corpo. Repentinamente, sem nem me esperar ou me dar ordens, desapareceu em seu quarto e não abriu mais a porta.

Quando ele a fechava, era sinal de que eu não podia entrar. Aquele era seu mundo particular, seu mundo vermelho e negro, e cheio de olhos vazios de bonecas. Era um mundo distorcido e solitário, como a sua própria figura.

- Não ouvi o senhor entrando... – sussurrei, pondo a mão no peito e dando um passo para trás. Seu rosto não me agradou.

Alguma coisa em seu rosto traía totalmente a imagem que eu tinha dele até chegarmos na mansão.

Ele estava estranhamente tranqüilo. Até falou comigo, surpreendentemente, num tom distante, controlado. Parecia mesmo um herdeiro quase normal, mesmo que ainda tentasse me fazer cair pelas pedrinhas no caminho.

Agora, naquele instante, ele estava tudo, menos normal...

Mitchell aproximou-se de mim, sem aviso. Não estava cheirando a bebida, e eu respirei aliviada por isso. Retesei-me quando ele me tocou no rosto. Não era como ele sempre fazia, com aquela ironia embutida. Por algum motivo, aquele era um toque sério, assustador.

- Me pergunto porque deixei você dormir aqui hoje... – ele sussurrou.

- Hã...? – atordoada, minha respiração começou a falhar.

- Devem ser seus olhos, Cora... Eles me encantaram desde a primeira vez que os encarei, sabia...?

O tom dele estava tão rouco que eu temi que estivesse doente.

Pensando nisso, toquei, hesitante, em sua testa. E deixei escapar uma exclamação surpresa ao perceber o calor que emanava dali.

- Mitchell! Você está ardendo em febre!

Se eu não estivesse tão assustada, poderia ter notado que havia dito o nome dele, sem nenhum respeito, e que ele havia feito o mesmo.

- Febre? – sussurrou, parecendo divertir-se com aquilo. – É mesmo... Nós saímos hoje... A febre...

Senti-me tendo um déjà-vu extremamente desagradável.

O corpo pesado e inerte de Mitchell Sunderland caiu sobre mim mais uma vez. Assustada, tentei segurá-lo, mas tudo que fiz foi amortecer sua queda.

A roupa dele estava folgada, e permitiu-me ver um pouco de suas costas brancas. Havia uma estranha marca. Uma linha numa cor que eu não conseguia identificar direito se era o índigo da noite ou o negro das profundezas do mar. Aquela linha entrelaçava-se com outras, formando um desenho que sua camisa não me deixava ver.

Eu já havia visto esta marca em algum lugar.

Essa mesma marca em outras costas.

Repentinamente, meus olhos arregalaram-se, surpresos. Cheguei a, inconscientemente, apertar mais o corpo febril daquele homem loiro em meus braços. Eu sabia que já havia visto aquela marca antes.

...Mamãe Irisa a tinha também.