Bavarois

31 Capítulo XXXVIII


XXXVIII

Creio que a oração “quando o mundo se apaga” devia mesmo ser levada mais a sério pelos outros. Num segundo, eu estava enxergando o quarto em toda a sua grandeza; aquelas cortinas eternamente fechadas e da cor do sangue, o tapete tão macio que mais parecia uma raridade da capital. Eu via as bonecas e seus olhos cegos de porcelana na parede, e até mesmo ouvia o som do pouco vento que conseguia achar espaço soprar e fazer bruxulear as velas.

No outro segundo, eu já não vi mais nada disso. Tudo que consegui divisar foi o que pareceu ser um fraque de pessoas nobres, e em seguida, um par de braços enlaçou meu corpo e, junto com ele, minha consciência, fazendo até mesmo meu senso de realidade balançar um pouco.

Pelo que pareceu um tempo de breves segundos, milésimos preciosos, eu percebi o que estava fazendo: eu estava abraçando a mim própria.

Enfim, eu havia percebido o que deixara há tanto tempo lacrado: eu ainda sentia pena de mim própria. Nunca havia superado, de fato, aquele dia de fogo e pecados expiados. E, ultimamente, aquela vida, aquela mansão, as pessoas que a rondavam... Tudo estava apenas contribuindo para que eu me lembrasse cada vez mais, para que eu me abominasse mais.

Mas permaneci firme como sempre. Quando você tem uma vida quebrada, há coisas que instintivamente aprende. Uma delas é isso, camuflar a dor...

Eu sabia que Mitchell também sabia fazê-lo. Apenas era de uma forma um pouco diferente da minha (tudo bem, ou totalmente...).

Entretanto, tal qual ele também fizera comigo, naquele momento em que eu tive coragem pela primeira vez, desde aquele dia, em verbalizar em alto e bom som tudo aquilo que um dia abateu-se sobre mim... Algo em mim quebrou. E quebrou de uma forma que aquela estranha barreira que eu naturalmente construía também desmoronou.

Mitchell Sunderland pôde tocar num lugar da minha alma que nem mesmo Irisa Baker tocou. E ele soube disso.

Talvez por isso estivesse me abraçando enquanto eu, pateticamente, chorava. Sinceramente, nunca poderia dizer quando o choro começou. Mas poderia diferenciá-lo de todos os outros: este vinha de dentro. Vinha das profundezas, daquele recanto de mim que ainda acreditava que eu era uma pecadora infame.

Como uma criança, eu abraçava a mim própria. Sempre fiz isso, na verdade. Ninguém nunca tocou verdadeiramente em minha alma, naquele ínfimo lugar que fazia toda a diferença e, por isso, eu sempre suportei sozinha. Ninguém sabia que Cora Baker possuía tal história.

Eu era apenas uma empregada que foi achada pela governanta e adotada pela mesma, encontrada em péssimas condições, com um sorriso inicialmente tímido e assustado e que, aos poucos, foi adquirindo um pouco mais de confiança naquele ambiente totalmente novo. Eu era apenas a Cora Baker, a ajudante que sorria mesmo tendo um histórico misterioso. E, nas sombras, longe dos olhares alheios, de vez em quando desmoronava em silêncio.

Longe de mamãe Irisa, de todo e qualquer animal ou humano.

Foi assim quando Edward Shelser, pela primeira vez, mencionou os “Clayworth”, na carruagem, quando eu voltava do mercado. Quando cheguei na mansão Sunderland, pálida e sem rumo, eu pedi um tempo. E, naquele tempo, desmoronei só mais uma vez.

O fato de eu estar em St. Helens era algo simbólico. Eu me livrara de Eccleston, da história de pecado e culpa. Eu me livrei de ser uma “Clayworth”, uma criança amaldiçoada que enlouquecera o pai e trouxera a ruína da família. Eu estava num ambiente novo, com pessoas novas, um novo nome... Tudo era novo, e eu necessitava abandonar tudo que, até então, tinha construído.

Enterrei bem fundo em minhas memórias tudo aquilo e deixei que Irisa Baker fosse minha nova mãe. A mulher que tanto se parecia com Ceres Valerie, minha mãe de verdade. Eu deixei que ela plantasse em mim uma tênue semente de esperança, que me fizesse sorrir e me sentir verdadeiramente acolhida. Todos os empregados da casa, na verdade, foram gentis demais para mim. Eu sempre me senti estranhamente desmerecedora de tamanhos tratamentos...

Mas, agora, St. Helens não era mais meu “escudo”. Eu estava invariavelmente suja pelo pecado mais uma vez.

Desta vez, descarregando tudo em Mitchell Sunderland, aquele que devia ser o meu senhor. Eu queria me controlar, e estava tentando realmente parar, mas o pranto era algo automático. Depois que a primeira lágrima escapou da forçada prisão, as outras rebentaram em bando, e eu não as pude mais conter.

Não que eu não soubesse que aquilo, muito provavelmente, ia acontecer. Eu só não imaginei quão longe iria.

Surpreendi-me ao não enxergar mais nada em minha frente além daquela estranha pele translúcida que exalava um aroma quase que macio. Aquele estranho calor que emanava do abraço que estava recebendo.

Aquela era a minha permissão...?

- Eu já sabia.

Um pouco surpresa (apesar de uma parte de mim, talvez a mais fantasiosa, já desconfiar daquilo), quem sabe até minhas lágrimas não tiveram mais a inspiração para deixarem-se escapar. – Como você...?

- Já disse, boneca. Um monte de vezes. – sussurrou-me ele, e percebi que seus lábios estavam colados à minha orelha. – Seus olhos.

Não tive nada para falar. Simplesmente fiquei quieta, remoendo aquela frase.

- Pode ser que eu não soubesse tudo com estes detalhes, mas... Já imaginava que esse tipo de coisa acontecera. – continuou. – Esses olhos sempre me contaram.

Ainda tentando recuperar a compreensão que me fora roubada, só pude debilmente sussurrar-lhe: – Quando...?

- ...Desde o primeiro segundo em que a encarei.

Sem que eu tivesse controle, a recordação daquele dia devorou-me outra vez aos poucos. Lembrava-me do bafo úmido da temporada das chuvas, dos raios de sol que formavam uma cortina vaporada por entre os espaços do corredor sem quadros. E, principalmente, lembrava do chão gelado contra minhas costas, quando caímos das escadas, e do corpo quente dele, causando-me um verdadeiro choque térmico.

Até então, eu lembrava que nunca havia sido encarada com tamanha intensidade. Eu engoli em seco, porque tive mesmo a impressão de que aqueles orbes cianos que me fizeram perder dentro deles estavam lendo minha alma. De fato, eles estavam. O tempo inteiro estiveram, mesmo que jamais pudessem sugar os detalhes. No fundo, eu sempre exalei pecado, nunca pude escondê-lo totalmente.

- Foi por isso que você...

- Não só por isso. Mas confesso que ajudou.

Deixando de abraçar a mim mesma, naquele ato de piedade desnecessária, eu deixei que minha mão, ainda trêmula, abandonasse meus ombros para tocarem, timidamente, a mão de Mitchell. Senti-lhe retesar-se por breves segundos, quase indeléveis, e então, ouvi-o suspirar diretamente contra meu rosto.

- Perdão... – sussurrou-me outra vez. Tantas outras vezes eu o ouvira falar disso, e até desconfiava: mas só agora obtia a confirmação. Ele estava se desculpando pelo mesmo que eu me desculpei, quando ouvi sua estória: por ter chegado tarde demais para poder mudá-la e consertar os estragos.

- A culpa não é sua. – devolvi.

- Mesmo assim... Eu a envolvi onde não deveria. Tudo porque fui enfeitiçado pelo brilho nostálgico destes olhos acastanhados. – era estranho, mas naqueles momentos, eu parecia ver-me ainda mais frágil do que ele. – Eu a envolvi num mundo de podridão, quando você recém saíra de outro... E, agora, já não posso mais a devolver à normalidade. Eu realmente... Sinto muitíssimo. E sei também que isso não é o suficiente, mas é tudo que posso oferecer...

Deixando que todo o impacto das suas palavras me atingisse, causando uma nova onda de alvoroço que produziu novas lágrimas, eu suspirei. E achei que fosse partir-me quando o fiz.

- Não me importo com isso. – sacudi a cabeça, encolhendo-me diante daquilo que me passou pela mente. – Em vez disso... Você deveria estar... Com nojo... E me expulsar... É o mais normal...

Recordei-me tarde demais das reações de Mitchell Sunderland nestas horas. Como o esperado, ele procurou meu rosto úmido de lágrimas que eu tanto escondia naquele abraço em mim própria e no abraço dele também, e me obrigou a encará-lo, segurando minha face com as duas mãos.

Desejei baixar meus olhos tão logo eles se encontraram com aquela imitação perfeita de um oceano azul puríssimo, mas Mitchell não me deixou fazer isso, segurando firmemente o meu rosto, como quando fazia quando percebia que eu queria desviar o olhar.

- Nojo? Por que eu sentiria nojo de você e a expulsaria, Cora? – perguntou-me, no típico tom sério que empregava em situações assim.

- Ainda pergunta? Olhe pra mim, Mitchell. – tive vontade de secar aquelas lágrimas, mas permaneci imóvel. – Eu sou impura e indigna. Fui violentada, matei meu próprio pai, queimei minha casa, fugi da minha cidade... Sou complicada e estranha. Além disso, sou apenas uma empregada. Por que ficar com alguém assim quando se pode ter uma milady delicada e inocente, sem nenhum trauma ou coisa fora do lugar? É idiotice permanecer comigo quando você pode buscar algo melhor.

Contrariando todas minhas expectativas, eu o vi rir. Foi algo rápido e bastante contido, até, mas foi um riso.

- Então você acha que a virgindade é um parâmetro? Que ela é a condição para se amar alguém? – e, então, ele ficou repentinamente sério. – Pois eu não acho isso.

Engoli em seco, sem nada para poder-lhe dizer.

- Tanto faz o que você é. Pode ser até uma princesa das Índias, isso não me interessa. E também não ligo para a sua falta de hímen, para tudo que aconteceu no seu passado... Isso é besteira. – não sei porque, mas parecia que Mitchell tinha uma estranha fascinação pela minha testa. Afinal, estava sempre a beijando ou encostando a testa dele ali. Foi o que ele fez agora, me deixando ainda mais surpresa. – Eu não te amo na condição de você ser virgem e estar aqui para satisfazer o meu ego quando eu perceber que sou o seu “único”. Eu a amo por causa disso... Por causa do que você é. Bom ou ruim, isso tudo é a “Cora Clayworth” pela qual eu me apaixonei. E isso nem mesmo a pior de suas revelações vai mudar.

- Você é... Idiota...?!

Na verdade, eu quem estava me sentindo excepcionalmente idiota. Não conseguia mais parar de chorar. Sentia-me uma “mulherzinha”, e isso, desde a infância, sempre me causou um certo asco.

- Eu estou te dando a chance de escapar de mim... E você me diz que quer continuar comigo... – gemi. – Você é idiota, “Mitchell Harpper”...?!

Abrindo seus olhos e os pondo diretamente em contato com os meus, o mesmo segurou com o que parecia ser ainda mais ternura meu rosto.

- Se ser idiota é poder continuar assim... – suspirou. – ...Sim, eu sou muito, muito idiota mesmo, boneca.

Aquilo era muito mais do que eu jamais pensei receber um dia.

Deixei, com um leve estremecer de meu corpo, que ele secasse as lágrimas teimosas que continuaram ali com aqueles estranhamente gentis beijos. Fechei os olhos, no que pareceu ser uma curiosidade de ver até onde aquela sensação podia reverberar e um estranho medo.

- Por isso... Eu vim aqui... – sussurrei-lhe, enquanto ainda estava no meio de sua compenetrada “tarefa”.

- Hum?

- É por isso que pedi para dormir com você... – encolhi-me, repentinamente fustigada mais uma vez com o peso das lembranças que vieram de uma vez só. – Isso tudo... Ainda me dá medo... Eu achei que me sentiria segura se ficasse aqui... Porque já sou grandinha demais para pedir colo a Irisa...

Instintivamente, deixei que meus braços envolvessem-no pelas costas, até que eu sentisse as macias elevações que eram as cicatrizes de chibatadas.

- ...Então, Cora Baker veio pedir colo para mim? – e, por incrível que parecesse, não me irritei com aquele seu tom jocoso. Nem fiquei envergonhada por, atualmente, ele estar sem camisa alguma (e eu só percebera isso agora...).

- Só confio em você pra isso.

Assim, no segundo seguinte, eu senti os braços dele envolvendo-me carinhosamente, do mesmo jeito que eu fazia. Deixei minha cabeça repousar em seu ombro até que minha respiração normalizasse.

- Vou protegê-la. Mesmo que eu esteja dezessete anos atrasado, agora que eu posso fazer isso, o farei com toda as minhas forças. – o lord Sunderland devolveu-me, naquele seu tom rouquenho e muito baixo, próximo ao meu ouvido. – Protegerei-a até mesmo disso... Dos pesadelos.

- ...Mitchell.

Ao contrário do que alguma parte de mim pensou, não houve paixão física, não houve beijos e nem nada do que eu temia, no fundo. Aquilo permaneceu assim, com aquela atmosfera estranhamente abençoada até o fim. Mesmo quando eu abracei-me nele, tão logo ele deitou-se ao meu lado, e eu permiti que me abraçasse também. Não passou dos limites que pareciam ditar-me um doce sonho.

E eu pude dormir pela primeira vez uma noite verdadeiramente sem pesadelos.