Bavarois
29 Capítulo XXXVI
XXXVI
- ...E por que a milady Emma foi parar naquele mesmo lugar?
Mitchell calou-se, ponderando, antes de me responder de fato: – Eu prefiro não comentar sobre ela nas suas costas. Emma deve te contar, se assim acha que deve. Entende, não é? É um assunto dela, e...
- Não, eu entendo. Eu que invadi a sua privacidade assim, do nada... – sacudi a cabeça, mostrando que não me ofendi nem nada. – Na verdade, eu diria a mesma coisa, se perguntassem isso para mim.
Eu imaginei que, agora, o céu da madrugada devia estar incendiado de um índigo misturado de lilás. A festa acabara não havia muito tempo. Mitchell já me pedira muitas desculpas por não poder ter ficado comigo, mas enquanto isso, pude tomar banho e me preparar mentalmente.
Depois daquela estranha conversa com o cond Shelser, na qual eu descobrira muitas coisas da qual desde sempre desconfiara, me sentia um tanto quanto exausta. Como se aquilo tivesse me roubado as forças.
Mas eu tomara uma decisão, afinal: eu resolvi arriscar.
Por isso, quando Mitchell chegou no quarto e tomou seu banho em silêncio, não me atrevi a fazer-me presente ali. Permaneci em silêncio pensativo, até ouvi-lo perto de mim me perguntando se eu estava com algum problema.
Eu fiz perguntas. No fim, sempre era eu quem lhe questionava. Ele jamais foi além do que eu permitia, ao contrário de mim.
- Provavelmente, você deve estar se perguntando porquê eu pedi para dormir aqui, não é? – eu permiti-me sorrir, encarando-o de repente.
Passando a mão pelos cabelos úmidos, Mitchell sentou-se na sua cama, sem se importar com minha presença.
- Tem razão. Estou curioso mesmo.
- Se eu bem te conheço, você pensou besteiras. – resmunguei.
- Claro que pensei. Oras, você podia conversar comigo e não precisava ser no meu quarto. E agora é madrugada alta, todos dormem... Seria estranho se eu não pensasse besteiras, não acha? – respondeu ele, com aquele sorriso cínico.
No fim, ele tinha razão. Concordei, muito a contragosto. – Então, por que me deixou ficar? – emendei.
- Queria ver até onde isso ia. – respondeu ele, ainda com seu sorriso cínico.
- Ou seja: queria me ludibriar, seu maldito?
- “Ludibriar” é uma palavra tão forte... – com um falso tom de inocência, eu o vi sentar-se mais perto de mim, tensa. – Digamos que eu só queria testá-la.
- Pode acordar dessa ilusão, se acha que eu vou pular em cima de você. Seu convencido! – resmunguei, cruzando os braços.
Para minha surpresa, ele apenas riu.
- Pode não ser hoje, mas eu sei que você irá pular em mim, senhorita Baker. É uma questão de tempo. – e jogou seu cabelo para o lado.
- Seu grande convencido... – suspirei. – Eu não vim aqui para esse tipo de coisa. Vim devolver o voto de confiança.
Agora sim, não tinha mais volta!
Nervosamente, preparei meus argumentos quando vi o rosto dele fazer exatamente o que eu previ: repentinamente mudar a feição de graça para desconfiança, ainda me encarando fixamente.
- O que quer dizer com isso?
- Eu... Tive uma conversa com o cond Shelser, como já sabe... – sei que aquele assunto era tabu, mas precisava tocá-lo. – E... Essa conversa me fez perceber... Eu estive todo este tempo fugindo dos meus problemas. Fingia ajudar você, ouvi os seus lamentos... Todo este tempo, você me foi sincero e eu, uma incógnita. Vim reparar este erro.
Achei graça do rosto de Mitchell, que pareceu demonstrar ainda mais surpresa, de repente.
- Ou seja: você veio aqui para...
- Dividir minha vivência com você. Eu escondi esta história de todos... É o meu pecado particular. Mas... Mas eu acho que você merece ouvi-lo, Mitchell.
Apertando nervosamente as mãos, senti meu rosto esquentar.
- Digo... Se quiser ouvir, claro... Senão, eu posso ir embora, e... E então, desculpe por tomar o seu tempo...
Como suspeitei, minha coragem ainda não era o suficiente para aquele tipo de coisa. Parecia mais fácil falar por horas seguidas com o cretino Edward Shelser do que sequer começar a pensar em contar tudo aquilo para Mitchell.
- Sempre estive curioso para saber sobre você. – ele me disse, contrariando todas as minhas expectativas.
Desta vez, a surpresa foi toda minha. Ergui os olhos e encarei-o, e vi em seu rosto um meio sorriso, sem nenhuma ironia ou coisa do tipo.
- Não tenha pressa. Se for difícil demais, eu posso esperar mais um pouco, e...
- Nem pensar! Vai ser hoje! – eu respondi, antes de deixá-lo terminar aquele “blábláblá” sobre compreensão e etc.
Respirei fundo, mas antes que eu pudesse dizer algo, senti a mão do lord Sunderland em meu ombro (e tive a impressão de ouvi-lo dizer qualquer coisa como “vem cá”), fazendo uma leve pressão para que eu me inclinasse para a direita. Obedecendo-o, percebi que, de repente, eu estava deitada com a cabeça em seu colo.
Quando eu era pequena, Irisa fazia isso comigo, geralmente quando eu tinha pesadelos no meio da noite. Pesadelos com o fogo que consumia tudo.
- Já que é tão teimosa e diz que tem que ser hoje... Quem sabe, assim, fica mais fácil pra você falar. – percebi que ele me deixara com o rosto virado para o cenário. Eu via as bonecas nas prateleiras, a porta que levava ao banheiro fechada, as cortinas escarlates impedindo a visualização do céu noturno; tudo menos o rosto dele.
- Obrigada... – sussurrei em retorno, fechando os olhos, subitamente envolta em uma sensação de estranha paz, mesmo sendo assaltada pelas imagens daquilo que eu ia contar.
- ...Quando quiser. – e, com aquela mão em meus cabelos, e estranhas imagens projetadas através de minhas pálpebras, eu suspirei, deixando que as palavras oprimidas escapassem sozinhas dos lábios.
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