Bavarois

32 Capítulo XXXIX / Capítulo XL


Notas iniciais
N.A.: "A Canção de Lala" (Lala no Komoriuta) é uma insert song do anime D.Gray-Man. Há uma GRANDE diferença de tempo, mas como é uma homenagem inocente, suponhamos que ela exista lá... XDD *momento "usem sua imaginação"*

XXXIX

Abrindo os olhos devagar, eu só percebi então o quanto doía meu corpo. Porque, afinal, o sono é um invólucro da morte: Morpheus arrasta os homens às profundezas de suas próprias mentes, até um local onde não há dor nem consciência, prazer ou ego. Tudo que há é a escuridão. A doce escuridão.

Um invólucro de morte. Sim, é como morrer. Mas quando novamente se acorda, quando mais uma vez se é tragado para o corpo físico e corrompido... É aí que a dor perde seu significado sacrossanto e passa a ser aquela palpitação que acompanha cada fibra, cada órgão lavado em vermelho-sangue.

Quando abri meus olhos, vi diante de mim o teto. O teto que parecia a boca retorcida de alguma banshee folclórica, repleto de correntes que se retorciam como o corpo de uma hidra alvejada. Eu senti o aroma fétido dos excrementos de ratos e daquele esgoto ou qualquer coisa parecida que acompanhava o canto esquecido do minúsculo quarto.

E então, o rosto delicado precipitou-se sobre mim. – Jovenzinho! Minha nossa, jovenzinho! Está bem?

- I... Irisa...? – gemi, incapaz de falar algo a mais.

Ao tentar erguer minha cabeça, senti uma fisgada no corpo. Começava em meu estômago e parecia emanar e espalhar-se por toda a área. Onde mais doía era nas costas. Um pouco abaixo. Uma dor horrível e grotesca bem ali...

- Não se mova agora! Está muito debilitado!

Ignorando seus apelos, eu fui seduzido por alguma parte altamente sádica de mim próprio. Eu precisava levantar a cabeça, ver com meus próprios olhos que muito pouco claramente conseguiam ver o estrago. Quando consegui erguer-me o suficiente e agüentar pacientemente a dor, pude perceber o estrago. Arregalei os olhos, finalmente me assustando, esquecendo de todo o sangue frio que eu podia possuir.

- Minha nossa... O que...?! – incrédulo, demorou até que eu percebesse o que realmente tinha acontecido. – Esse sangue todo... Veio de mim?!

O chão estava cheio dele. Completamente encharcado de sangue. Minha calça, o vestido de Irisa... Tudo aquilo era o meu sangue.

Imediatamente, a verdade atingiu-me com a força de um aríete.

Eu entendi aquela dor em minha parte inferior. Eu entendi o sangue. Até mesmo a piedade angustiante nos olhos daquela mulher de cabelos acobreados que eu tanto admirava.

- Irisa... O que ele...?! – engasguei com meu próprio pânico. Eu não queria acreditar que aquilo aconteceu.

Tudo que ela fez naquela escuridão que nos devorava aos poucos foi sacudir sua cabeça e puxar-me delicadamente outra vez para que eu deitasse em seu colo, enquanto ela ocupava-se de limpar meus lábios cheios de sangue seco (e, provavelmente, depois me limparia totalmente também).

- Não pense mais nisso, jovem Mitchell... – sussurrou-me.

- Ele... Aquele homem... Aqueles dois... Eles... Eles... – eu não conseguia mais falar sem perceber invariavelmente a gravidade da situação. Agora que eu percebia de onde vinha aquele sangue todo.

- Mantenha a calma, jovenzinho. Fique calmo.

Eu perguntava-me como Irisa podia me pedir para ficar calmo quando eu havia sido violentado por um sádico furioso.

Como ela queria que eu ficasse calmo quando estava preso num quarto minúsculo, escuro e fétido, totalmente sozinho, há três, talvez quatro aniversários? Quando eu sequer sabia quanto mais precisaria ficar ali?

- Quero vomitar, Irisa... Está doendo... – gemi, angustiado. Não agüentava mais aquela consciência. – Eu quero vomitar, por favor...

Contrariando minhas expectativas, tudo que Irisa Baker, aquela estranha empregada dos Shelser, fez foi segurar ternamente minha cabeça, deixando o pano úmido com o qual limpava minha boca quando eu estava desacordado pressionado em minha bochecha.

Ela me olhou tão fixamente que eu estremeci. – Pois faça isso, jovem Mitchell. Vomite. Chore. Pragueje e grite. Pode até mesmo espernear, arranhar as paredes... Ponha tudo para fora. E depois... – suspirou. – Construa um novo “eu”. Um “eu” que não irá se importar com isso. Um “eu” que irá suportar cada loucura imposta no corpo. Um “alguém” que manterá a mente isenta de qualquer sofrimento. Fique sempre distante, construa um enorme muro que nem mesmo o algoz será capaz de transpor. E esse será seu refúgio. O único recanto em que você estará seguro.

...Onde eu havia ido parar? Por que aquele homem que se dizia meu pai me colocou naquele inferno?

- Não há mais nada que você possa fazer além disso, jovenzinho. Eu sei porque já passei por isso assim como você. Eu sei o que é esse sentimento... Este pânico ao ver seu próprio sangue e ao sentir sua própria dor.

Irisa sorriu-me, tão logo terminou aquela frase. Um terno e doce sorriso, tão maternal que me fez achar que ela era mesmo alguma espécie de “segunda mãe” que eu tanto queria ter.

- Por isso... Pode vomitar. Eu estarei aqui para limpá-lo também. Pode pôr para fora, porque depois, você nunca mais poderá fazê-lo. Até o dia em que sair desse lugar escuro e assustador.

XL

Tirando a hora em que acordei, aquele era mais um dia normal para mim. As mesmas cortinas fechadas quando eu me sentava à imensa mesa de jantar, a mesma variedade de frutas e outras iguarias para o café-da-manhã e a mesma pessoa que acompanhava a tudo como uma sombra.

- Permite perguntar-lhe onde está a milady Shelser, jovenzinho? – Irisa Baker perguntou-me, tão logo deslizei meus olhos para a sua figura. – Não a vi hoje.

- Ela disse-me que estava sem fome. Invés disso, Emma foi tocar piano. – resmunguei, enfiando na boca um pedaço de pão, sem maior vontade de comer também (geralmente, eu sentia fome mesmo a cada dois ou três dias. Creio que meu estômago acabou se acostumando com a esparsa alimentação graças ao cárcere).

- ...Aquele seu piano?

- Acredite, eu a detesto naturalmente. Na minha biblioteca, então... – suspirei, derrotado. – Mas o que posso fazer? Ela é filha do meu “senhor”.

Irisa não se deu por vencida. Emendou logo depois da minha frase: – E isso não faz dela menos “objeto” como nós, não é, jovem Mitchell?

Dando de ombros, decidi reatar a conversa inicial. – Emma toca melodias maravilhosas ao piano.

- O senhor está elogiando alguém? – e ela riu. – Estou surpresa com isso, mas... De qualquer forma, para mim, ninguém é melhor no piano do que o senhor, jovenzinho.

- Faz tempo que eu não toco para você, não é, Irisa?

- Muito. – assentiu. – A última vez que o fez... Minha nossa, você ainda tinha vinte anos naquela época. É tempo demais!

Revirei os olhos, divertido. – Só faz dois anos, Irisa.

- Ainda me lembro... Você tocou “A Canção de Lala” e me pediu para cantar.

- É claro que toquei “A Canção de Lala”. Afinal, essa é a canção-de-ninar que você sempre cantava para mim quando eu era pequeno. – assenti, deixando que as recordações viessem sozinhas. – É algo de estimação. Como o bavarois, meu doce favorito... Você também foi quem o apresentou.

Qualquer pessoa que nos visse conversar estranharia o fato. Mitchell Sunderland, o grande líder da família Sunderland, conversando amenamente sobre fatos corriqueiros e com uma intimidade impressionante com uma simples governanta de origens duvidosas. E a mesma empregada tinha modos totalmente distantes dos aceitáveis: dava conselhos, intrometia-se, participava muito abertamente da vida do senhor... Era quase como uma parente. Totalmente inaceitável para os padrões conservadores dos reles mortais.

Mas ninguém iria compreender a profundidade do laço que unia aquela mulher e eu. Na época, eu era um moleque assustado de seis anos. Irisa Baker era uma empregada de 15 anos e totalmente rebelde para seus padrões, que se apiedou daquele mesmo moleque.

Aquela mulher esteve presente em toda a minha vida naqueles dez anos de cativeiro. Ela cuidou de meu corpo e de meu coração. Impediu-me de enlouquecer, e eu era-lhe muito grato por isso. Tanto que prometi que tiraria a ambos daquele inferno tão logo conseguisse a sonhada liberdade. Eu tinha quinze anos quando isso finalmente aconteceu. Ela, já uma mulher de 24. Tão logo me estabeleci como “patriarca” Sunderland, Irisa Baker tornou-se a governanta da mansão. Eu cumprira minha promessa, e via com satisfação aquele seu sorriso que antes ela não tinha.

- Hum... Jovem Mitchell?...

Eu sorri para mim próprio, bebericando a xícara de chá fumegante. Sabia que, quando Irisa começava com aquele tom cauteloso, era porque tinha uma pergunta série e totalmente previsível a fazer.

- Pois não? – dei-lhe corda, é claro.

- Permite-me perguntar-lhe algo...? – Irisa e sua maldita cautela!

- ...Você sabe que não temos rodeios entre nós, meu amor. – apelei, rindo, para a frase mais clichê e infame de todas, que faria quem quer que estivesse ouvindo (se houvesse) ficar com os cabelos em pé imaginando uma relação indecente e pecaminosa entre senhor e empregada (apesar de eu só dar de ombros para isso e dizer que essa pessoa estava imaginando coisas com a Baker errada). – Pergunte qualquer coisa, a qualquer momento.

Pigarreando para voltar ao momento sério, eu diria, minha governanta aproximou-se um pouco mais da mesa:

- Permite-me perguntar onde está Cora? Afinal, ela não está aqui com o senhor, acompanhando-o, como é o seu dever (e como eu estou fazendo).

- A Cora? – bingo! Meu sorriso aumentou exponencialmente, como uma criança que saboreia antecipadamente o gozo da vitória. – Ah, cara Irisa... A senhorita Cora ainda está dormindo.

- Dormindo esta hora?! – tal qual previ, a pergunta era pateticamente previsível e sua reação à resposta ainda mais.

- Ela teve uma noite agitada ontem, Irisa. Deixe-a descansar.

Bem, aos que conheciam o significado de “noite agitada”, saberiam que se tratava do fato de ter enfrentado Edward Shelser (e eu preferia não me lembrar desta cena, para o bem de minha saúde mental) e, na mesma madrugada, ainda ter me contado sobre tudo que queria ter esquecido e que a levou a ser “Cora Baker”.

Se não fosse a voz chocada de minha governanta, possivelmente eu teria sido traído por minha própria consciência e voado outra vez àquela noite, quando ela dormiu em meus braços e eu pude observar-lhe a face plácida e adormecida. Percebi naquele instante quão diáfana ela era.

Parecia até mesmo uma criança quando dormia (senti-me, admito, até um pouco pedófilo. Mas só um pouco...).

- No... Noite agitada? – se eu pudesse rir, já estaria fazendo-o, só de ver a palidez de morte e susto no rosto dela. – Vo-você disse “noite agitada”, Mitchell?

- Ora, vamos, Irisa. – passei a mão pelos meus fios dourados, numa pose de total convicção e orgulho, saboreando o gosto da pressão psicológica. – Nós dois sabíamos que era questão de tempo até isso acontecer. Ninguém resiste aos meus galanteios de príncipe encantado.

Irisa Baker pareceu empalidecer ainda mais.

- E-ela está dormindo... Minha Cora está dormindo no seu quarto?!

- Irisa! Você devia ter visto (se bem que tenho a ligeira impressão de que, como mãe adotiva, você já tenha visto mesmo)! Ela tem idade e carinha de criança, mas que corpo! Já é uma mulher de verdade!

Abri o maior sorriso que pude, quase que nostalgicamente voltando aos tempos de quando eu era um moleque aprisionado e sorria daquele mesmo jeito quando ela me contava de como o sol estava brilhando por entre as nuvens de chuva ou de como a neve parecia fria e macia ao toque.

E minha diversão apenas aumentou quando eu a vi empalidecer ainda mais, puxar uma cadeira sem pedir-me permissão nem nada e sentar-se, derrotada, como se tivesse recebido uma notícia de gravidez ou morte na família.

- O senhor... Deflorou a minha filha... Minha pobre e inocente Cora...? – gemeu, transtornada. Eu (quase) sentia pena dela.

- É claro. Eu certamente a peguei para mim porque fiquei encantado com os seus olhos. – o tom claro de ironia estava fazendo até mesmo eu querer rir. Afinal, foi exatamente por isso que eu a “peguei para mim”.

- M-mas... Jovem Mitchell... O senhor tem 22 anos, meu Deus... E minha pobre Cora tem apenas 17... É jovem demais... – pondo as mãos sobre as faces, Irisa mais parecia uma criança confusa (imagem que, mais uma vez, me fez querer rir). – S-se ela engravidar... Se acontecer com ela o que aconteceu comigo... Então, como é que ela vai assimilar tudo iss...

- Não vai acontecer nada disso. – interrompi-a, antes que minha “segunda mãe” começasse com aquela sua mania irritante.

Irisa Baker podia parecer muito perfeita, mas tinha aquele maldito defeito: quando não podia mais se controlar, ela deixava que toda a insegurança viesse à tona, e o resultado não era nada agradável. Pelo contrário, me entristecia muito, como se eu próprio tivesse sido ferido.

Não iria permitir que ela causasse tanto mal a si própria, e por isso, pigarreei, decidindo acabar com a tortura (uma pena...).

- Cora Baker não vai ter o mesmo destino que você, Irisa. – repeti pacientemente, esticando minha mão até tocar na dela, aquela sua mão que continuava firmemente em sua face pálida, uma vez que sua cadeira era aquela ao meu lado. – ...Até porque eu não dormi com ela.

Talvez atingida pelo mesmo aríete que eu, minha governanta arregalou os olhos, entre o choque e o alívio.

- O senhor não...?!

- Não, senhorita. Ainda não. – e ergui uma sobrancelha, com um novo riso irônico nascendo nos lábios.

Para minha diversão, ela também ergueu uma das suas. – Como assim “ainda não”? Está pensando mesmo em deflorar a minha criança, que eu cuidei com amor e carinho por todos estes an... Espere um pouco! Isto é quase incesto! Eu cuidei de ambos!

- Não seja ridícula, Irisa. Sabe que eu não fico deflorando donzelas a torto e a direito, como um tarado! – eu ri. – É por isso que fiz toda essa brincadeira. Tinha mesmo um assunto sério que eu queria tratar com você também.

- ...Assunto sério?

Quando era eu quem falava sobre “assuntos sérios”, eles nunca eram agradáveis. Ou eram sobre minha rotina extenuante e os altos e baixos de ser um chefe de uma das Quatro Famílias de St. Helens ou era sobre nosso passado, aquele que ainda deixava migalhas de pão, como num conto infantil, até hoje em nossos olhos e ouvidos.

- Como a senhorita Cora Baker tem uma origem desconhecida, estou partindo do pressuposto de que você é a responsável legal e mãe dela. – suspirei. – Quero fazer tudo certo, não simplesmente deflorá-la, como você tanto teme. Se eu for fazer isso, será só desse jeito: quero pedir a mão de sua filha em casamento primeiro, senhorita Baker.

Bingo! Irisa empalideceu ainda mais, ao ponto em que eu achei (divertindo-me muito) que ela fosse desmaiar.