Bavarois
27 Capítulo XXXIII
XXXIII
- Você nos deixou tão preocupados, Emma, fugindo do nada. Ainda bem que você veio para cá... Se o pior tivesse-lhe acontecido, nem sei o que faria...
Enquanto eu apenas seguia com os olhos aquele homem adentrando o quarto de duas moças, sem nenhuma licença, absolutamente nenhum respeito à situação, eu pensava em como era irônico o quanto eu e aquela mademoiselle da qual tinha tanto ciúmes nos parecíamos.
Edward Shelser não estava preocupado coisa nenhuma. Isso qualquer idiota poderia ver em seus olhos cheios de malícia.
Fiquei surpresa. Que espécie de pai sabe que a filha sumiu e deixa-a sumida, sem dar parte na polícia (mesmo que ele fosse da mesma, ou coisa do tipo...), sem mover pauzinhos, apenas esperando? Era como se ele soubesse exatamente onde ela estaria, com que cara estaria...
- Mil perdões, pai. – Emma Shelser sussurrou, encolhendo-se ainda mais.
Ela nunca me pareceu tão frágil. Era como se ele fosse um gato e ela um rato, e o mais forte estivesse brincando antes de devorar a presa.
- Não acha que está abusando do senhor Sunderland? Devia voltar para a mansão Shelser, onde é o seu lugar.
- Sim... Eu...
Eu sabia como Emma Shelser se sentia.
Também já fui pressionada e posta contra a parede por aquele homem. Ele não fazia nenhum terrorismo físico. Você jamais poderia dizer que ele não foi polido. E era esse o perigo: seu veneno estava nas suas palavras, cuidadosamente pensadas para quebrarem as mais sólidas bases de alguém.
Um misto de poder e veneno. Um orador competente.
Um antagonista digno de palmas.
Eu engoli em seco. Ver o próprio pai encurralando a filha que ele recém vê depois de tantos dias “desaparecida” era assustador e muito triste.
- Afinal, estamos todos sentindo tanto sua falta... – ele continuou, com aquele seu sorriso que tornava sua feição ainda mais assustadora. – Seu irmão Sirius, se ainda fosse vivo, ficaria tão triste ao saber que você fugiu. Não é do seu feitio, Emma... Estou igualmente desapontado.
- Mil perdões... – sussurrou ela, simplesmente.
Percebi que as mãos dela rumaram, como suspeitei, para as costas, tocando-as. A mesma reação que Mitchell tinha, de vez em quando, como se estivesse lembrando-se de algum evento muito doloroso, que remetia diretamente àquela marca.
Ou, simplesmente, lembrando-se do porquê a adquiriu.
Aquilo me foi a gota d’água. Nunca me considerei, de fato, alguém altruísta. Na verdade, eu estava morrendo de medo daquele homem que simplesmente invadiu, como um fantasma, o quarto de milady Shelser e estragou nossa noite.
- Se me permite, lord Shelser... – interrompi-o, bem quando seu corpo já se aproximava da cama onde a filha estava sentada.
Com as mãos apoiando-se naquela bengala negra com a base dourada (que ele obviamente não precisava, então sempre me perguntava se era apenas um toque visual), os olhos negros do homem viraram-se para mim.
Foi como se, repentinamente, ele se lembrasse de que eu também existia. Ou apenas estivesse se guardando para vir falar comigo depois.
Seja como for, eu apressei seus planos: os passos deixaram de ir à direção de Emma Shelser, e foram até mim.
Eu vi o lugar, vi o tempo... Eu soube que ele iria me prensar contra a parede, como Mitchell fizera no banheiro, na tarde anterior, e eu não teria como escapar, presa na armadilha de seu corpo e de seus olhos devastadores. Engoli em seco, contendo uma onda de pânico que me dava ganas de fugir dali.
A luz dourada das velas do corredor iluminava os ombros vestidos num casaco pesado e negro, e eu apenas fiquei olhando aquela parte de seu corpo, incapaz de me dirigir a seus olhos.
Eram como os de um morto. Um espectro assustador.
Intensos demais. Se eu os olhasse, certamente teria pesadelos assustadores pelo resto de minha semana.
- Pois não, senhorita Baker? – ele falou-me.
- Hum... A milady Shelser... Ela... Bem, ela não está causando nenhum problema, senhor. Digo, o lord Sunderland já se acostumou à sua presença. Então, certamente, o senhor pode ficar tranqüilo. Sua filha esteve em ótimas mãos, e com certeza estará por mais algum tempo...
Eu estava mesmo desafiando a autoridade de um lord das Quatro Famílias?!
- ...Ou seja: a senhorita Baker está me dizendo, basicamente, que Emma irá continuar aqui, é isso? – a voz dele foi tão neutra que me chocou. Não pude pensar mais nada coerente, e isso só aumentou meu nervosismo.
Quando ergui meus olhos, temerosa, eu vi aquela figura bem na minha frente.
Consegui, na última hora, entalar o grito na garganta. Ele mais parecia um espírito atormentado. Engolido parcialmente nas sombras do quarto, fundido às mesmas, sua aparência era a mais demoníaca possível.
Eu o vi verdadeiramente como um inimigo daquele momento em diante.
- A-ah... Eu... Na verdade, eu...
- Sim. A Emma vai ficar aqui, sim.
- Mitch!...
Ao ouvir aquela voz, meu coração quase parou. Como se minhas preces fossem milagrosamente atendidas graças a alguma entidade realmente bondosa, a silhueta de Mitchell desenhou-se na porta agora totalmente aberta.
- E você não devia ficar saindo do salão e entrando nos quartos alheios. Não é nem um pouco educado, lord Shelser. – completou, olhando-o fixamente.
Era impossível não notar que Mitchell, na verdade, estava como eu: lutando com uma quantidade absurda de demônios apenas ao dirigir àquele homem as suas palavras. Eu sempre via, nessas horas, o tamanho do poder misterioso que Edward Shelser tinha sobre Mitchell Sunderland.
- Perdão, lord Sunderland. Acho que acabei me perdendo... – sorriu, cinicamente, deixando claro que sabia o que estava fazendo.
Minha vontade era a de correr aos braços dele e soluçar como uma criança, mas eu fiquei parada ali, muito perto de Shelser. Provavelmente, Mitchell deve ter percebido ao menos o óbvio medo estampado em mim, porque deu um passo quarto adentro e respirou fundo.
- Edward, por favor, saia daí. Vamos para o salão.
“Por favor”. Aí estava algo que ele não usava sequer formalmente.
- Hum... Estou exausto da burocracia. – ele deu de ombros. – Além disso, eu a senhorita Baker estávamos tendo uma conversa tão agradável.
Agradável? Era tudo, menos isso.
- Estou te pedindo, lord Shelser. Deixe as senhoritas em paz.
Ele pareceu achar graça naquilo. – Cavalheirismo e Mitchell Sunderland não combinam muito, sabia?
Mitchell estava sendo cauteloso, eu sentia.
Perguntei-me do quê ele tinha tanto medo. Por que precisava de tanta cautela com aquele homem, mesmo que ele fosse obviamente assustador?
Havia muita coisa que queria encaixar-se, mas precisava de uma confirmação, talvez uma pequena réstia de luz para entrar no quebra-cabeça e montar-se.
- Além disso... – ele continuou, atraindo a atenção de todos. – ...Eu tive uma visão notável há pouco: o diário da falecida senhorita Barrington. Não foi esse diário dado como desaparecido, roubado ou algo do tipo?
Acho que qualquer um que soubesse da situação gelaria. Eu, ao menos, congelei totalmente, até prendendo a respiração.
- Ah... – Emma suspirou. Provavelmente, percebendo que aquele erro era todo por sua culpa (o que, apesar de cruel, era em parte verdade).
- O diário não tem nada a ver. A cena do crime era aquela. – Mitchell continuou, chegando perto do lord. – Agora, vamos lá. Logo, vão perceber que saímos do salão, Shelser. Vamos descer, deixe-as aqui, em paz.
- Eu gostaria de falar com você, Mitchell. A respeito de disciplina, sabe...
- Papai!...
No segundo seguinte, aquela mademoiselle tão frágil estava agarrando-se ao braço dele, bem perto de mim. O pânico em seus olhos foi algo que eu nunca tinha visto antes: foi como se ela estivesse tentando salvar Mitchell de alguma espécie de sentença de morte.
O próprio lord Sunderland estava totalmente paralisado, beirando a incredulidade e o medo. Sim, eu vi medo ali. Da mesma forma que, antigamente, Victoria também via.
E com a mesma pessoa.
- Deixe, Emma... – tocando nos ombros dela e afastando-a do pai, Mitchell deixou-a seguramente distante daquilo. – Eu não me importo de falar com seu pai. Ele tem mesmo razão.
- Mas... Mas...
Meu Deus, mais parecia que Mitchell fora condenado à forca ou coisa pior.
- E-eu vou!
Quando percebi, tinha dito aquilo. Talvez, porque eu senti o quanto Mitchell me pareceu uma criança indefesa naquela hora. Eu lembrei dele me contando sobre seu passado, de como sentiu medo, de como foi indefeso e nunca teve ninguém. E, naquele momento, era como se Edward Shelser fosse mesmo uma personificação de todo o mal, e eu estivesse tomando suas dores.
- Cora!... – mas o lord Sunderland não gostou da minha reação automática.
- O senhor Shelser queria falar comigo antes, e...
- É verdade. Mitchell e a Emma atrapalharam nossa amigável conversa. – concordou ele, cinicamente.
Eu estremeci, sem que tivesse controle sobre meu corpo.
Deus, o que eu estava fazendo? Dando-me de presente aos leões?
- Cora, por favor... – ainda ouvi a voz da milady Shelser tentando demover-me daquela idéia que eu também achei absurda, mas não podia ver o medo que vi nos olhos azuis de Mitchell outra vez, caso ele fosse a “vítima”.
Ele estava totalmente impotente. Como um pai que confisca o brinquedo, sem que o filho possa fazer nada.
- Cora... – ele só repetia meu nome, derrotado.
- O senhor e eu precisamos terminar nossa conversa, senhor Shelser. Sua apresentação aqui no quarto foi muito imprópria. Podemos ir para a varanda, que tal?
- A varanda. Ótima sugestão, senhorita Baker.
Eu sorri.
E tudo em mim soube que eu estava perdida.
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