Bavarois

20 Capítulo XXV


XXV

- Não, não, não, não... Não me diga isso...

- ...E então, fiz uma pequena bagagem e vim para cá. Foi o único lugar que me passou pela cabeça. Achei que você iria cumprir a promessa.

- Em poucas palavras, você fugiu, Emma...?!

Foi o que pensei. Nenhuma mademoiselle como ela, em sã consciência, ou mesmo em situações normais, iria aparecer na casa de um homem àquela hora e fazer toda aquela cena assim, só por capricho.

- Perdão, Mitchell, eu...

- Não fale nada! Tem idéia do problema que vai ser se seu pai ou qualquer outro nessa cidade descobri-la aqui, na casa de um lord, um homem?!

- Mas é você... Você e o meu pai são...

- O que é ainda pior! Não pode ficar aqui, Emma, eu já disse e repito: não vou casar com você. Nem que minha vida dependesse disso!

Era disso que eu não gostava: essa óbvia cumplicidade entre eles. Aquela Emma Shelser, aparentemente filha de Edward Shelser, dizia que Mitchell já havia prometido antes (supostamente) casar com ela... E, além disso, eles falavam numa espécie de código, como se as paredes tivessem ouvidos e estivessem sendo extremamente cautelosos.

Bem, não que elas realmente não tivessem. Afinal, Mitchell me dispensou dos serviços, por enquanto, e me pediu para retirar-me da biblioteca enquanto ele conversava com aquela mademoiselle.

Mas eu não ia ficar quieta enquanto ganhava um par de chifres!

Como não podia ficar incomodando-os (até porque meu status de “dama de companhia” e “ainda sim, empregada” dos Sunderland me impedia de ir contra essas ordens), decidi uma abordagem mais sutil: colar meu ouvido na porta e ficar escutando-os conversar.

Não que eu entendesse muito, mas estava esforçando-me para isso.

- Por que não...?! Eu prometi que seria uma boa esposa, lembra? Irei agüentar seus hábitos estranhos, seu humor seco... Não lembra que eu disse isso...?!

- Não preciso de uma esposa, Emma. O que eu preciso é de paz. Muita paz para minha mente. – ouvi-o suspirar. – E a senhorita ajudaria nisso indo embora.

Droga, por que eles ficaram em silêncio repentinamente?!

- ...Não posso mais voltar. Se eu não me casar com você, irei ficar sem lugar nenhum.

- O que aconteceu lá, Emma...?

Provavelmente, se eu não estivesse me consumindo de ciúmes, teria achado essa conversa suspeita. Ninguém foge de sua casa, muito menos uma mademoiselle delicada, sem um bom motivo.

E a voz dela estava fraquíssima, como estava quando me agradeceu quando a conduzi até Mitchell, naquela tarde.

- Finalmente?... – eu me perguntava o que Mitchell queria dizer com isso.

- Mesmo assim... Mesmo com isso, eu... Ainda posso ser sua esposa...?

- Eu não me importo com isso. Nem um pouco, acredite. Mas não a quero como esposa, nada pessoal. Nem se eu fosse louco. Mas pode ficar aqui...

ARDA NO INFERNO, MITCHELL SUNDERLAND!, deixei escapar mentalmente. Aquela mulherzinha estava usando do truque mais antigo, passado de geração em geração pelas mulheres: homens são fracos diante de lágrimas femininas. Simples.

- O que está fazendo aqui, Cora?

Pondo a mão em minha boca e impedindo-me de deixar escapar qualquer som de susto, virei-me, assistindo mamãe Irisa erguer uma sobrancelha.

Uma mecha de seus cabelos acobreados caiu-lhe sobre o ombro quando ela moveu-se para mexer em minha franja.

- Ma... Mamãe? O que a senhorita está...?

Ao invés de responder-me, Irisa apenas riu. – Esconda essa marca igual à da porta, ou o senhor Sunderland vai perceber que ficou bisbilhotando.

Suspirei, rendendo-me ao sorriso daquela mulher.

- Tudo bem, mas pare de bagunçar tanto o meu cabelo, mamãe... – sorri também.

- Então, já que está espionando... – é por isso que eu a adoro. Ela, repentinamente, quase que muda de personalidade! – O que o senhor Sunderland e a senhorita Shelser tanto discutem?

- Ao que parece, ela vai ficar aqui...

- A senhorita Shelser saiu da mansão? Aquela bagagem tem mesmo sentido?

- Bagagem? Ela trouxe mesmo malas...?! – a surpresa... Aquela mulherzinha era mais rápida do que pensei.

- Oh, Deus...

E mamãe calou-se repentinamente. Na verdade, não gosto quando as pessoas por aqui ficam quietas: tudo se torna uma espécie de complô, como se todos fossem aquelas bonecas de porcelana pálidas do quarto de Mitchell Sunderland, e pousassem seus olhos cegos em minhas costas, falando por trás das mesmas.

Todos sabem a verdade, menos eu.

E isso me deixa frustrada e, mais que isso, assustada.

- Bom, vou abrir a porta, minha filha. Ajeite esse cabelo, antes que o jovenzinho perceba que você ficou ouvindo a conversa deles. – sorriu-me Irisa.

- Ah, espere um pouco, mamãe...!

Mamãe abriu a porta de arabescos dourados da biblioteca. Eu escondi aquela marca como pude, e acho que fui bem sucedida, porque os olhares de ambos cravaram-se na governanta, não em mim.

- Mandou me chamar, senhor Sunderland? – ela perguntou, naquele seu tradicional tom polido.

- Sei que isso não é muito comum, senhorita Baker... – ele começou, também naquela sua pose austera de “rapaz extremamente sério que comanda um pseudo-império pessoal”. – ...Mas ao que parece, a senhorita Shelser irá ficar conosco algum tempo, devido a problemas pessoais.

- Oh... – simulou surpresa.

- Espero que isso não lhe cause problemas, senhorita... – a tal Emma Shelser encolheu-se em seu lugar, com um sorriso frágil de boneca.

- Entendido, senhor. Providenciaremos mais um prato para o jantar desta noite.

- Muito obrigado. Ah, a outra senhorita Baker, ali atrás... – e, como imaginei (e estremeci), Mitchell apontou para mim.

Dei um passo a frente. – Senhor...?

- Acompanhe a senhorita Shelser ao seu quarto. Ele será aquele ao lado do meu, para casos emergenciais. O de hóspedes.

O que, até aquela tarde, era meu. Claro, claro, muito conveniente.

ARDA NO INFERNO MIL VEZES, MITCHELL SUNDERLAND!, fuzilei-o em meus pensamentos. Não podia deixar nada transparecer por fora, entretanto. Continuei, assim, com minha pose servil.

- Mas não vamos dormir no mesmo quarto, meu esposo...?! – aquela maldita parecia realmente surpresa.

- Não sou seu marido, querida. – Mitchell deu um sorriso mortiço. – Agora, acompanhe-a, senhorita Cora Baker. Você, Irisa Baker, fica aqui.

Também não gosto daquilo: mamãe e Mitchell dividem uma marca em comum, mesmo sendo um pouco diferentes. Eles têm segredos compartilhados. E quando os dois estavam sozinhos, esses segredos invariavelmente vinham à tona.

Eu nunca gostava de como os olhos azuis do lord Sunderland escureciam de tristeza e de outros sentimentos estranhos quando isso acontecia.

- Por favor, acompanhe-me, milady Shelser. – sorri, entretanto, tentando não parecer extremamente preocupada com a situação.

- Sim... – minha sorte é que aquela mademoiselle é obediente.

Ela ergueu-se da cadeira que, até algum tempo atrás, era meu lugar de direito (acho), e me seguiu, silenciosa, encolhida em seu próprio corpo. Era estranho, mas se algum cão pudesse cheirá-la, iria sentir o medo escapando de cada poro, como as fumaças translúcidas de vapor escapavam dos lábios alheios em uma manhã de muito frio. Até mesmo eu sentia aqueles seus sentimentos influenciando todo o ambiente à minha volta.

Seja lá o que Emma Shelser viu ou ouviu para fugir de casa, foi algo sério. Sério o suficiente para ela ter o mesmo medo nos olhos que Mitchell, quando me contou (sem detalhe algum) sobre a estranha prisão onde passou dez anos.