Bavarois

19 Capítulo XXIII / Capítulo XXIV


XXIII

24 de Janeiro.

Neva sobre St. Helens. Amo a temporada de neve. Ela parece a mais pura do ano. Talvez porque seja a neve limpa, sem as impurezas e tristezas de um ano velho. Não posso deixar de sorrir quando vejo a minha janela embaçando diante do frio esmagador da paisagem lá fora.

Só mesmo a neve para me fazer sorrir...

(...) Hoje eu conheci, num jantar organizado pelos Lerwick (que já havia mencionado antes serem aquela família de grandes tolos que fingem ser eruditos), o homem a quem meu senhor deve seu mais profundo respeito: Edward Shelser, o patriarca da família Shelser, que comanda “a lei” de St. Helens.

Quando a sua mão enluvada tocou-me, e seus lábios baixaram em minha mão, assim que o senhor Sunderland me apresentou como sua “dama de honra”, eu senti um calafrio.

Lembro-me de ter ficado de ombros tensos a conversa toda. O senhor Sunderland nunca foi dado a conversas, por isso, permaneceu quieto quase o jantar todo, enquanto todos ao seu redor falavam de assuntos diversos. Eu própria pareci ter mais sucesso que ele: as pessoas dirigiam-se a mim, como se ele fosse um inválido e eu, a sua responsável.

Quando Edward Shelser teve a coragem de dirigir-se diretamente ao meu senhor, o mesmo ergueu sua cabeça de imediato.

Eu vislumbrei brevemente seus olhos azuis. Admito que eles me deixam perturbada. São intensos demais.

Não gostei do que vi.

Meu senhor Sunderland tinha o puro e bruto medo ali.

(...) Algo em mim me alertou de qualquer coisa extremamente errada naquilo tudo. Uma coisa muito podre no reino da Dinamarca, espalhando-se na Inglaterra, na mansão Lerwick...

Mitchell Sunderland tinha medo de Edward Shelser, sem dúvidas quanto a isso.

Mas... Por quê, então?

Se bem que, sinceramente, eu não o culpo disso. Algo naquele homem também me assusta.

17 de Fevereiro.

Não creio ser um lugar agradável de se escrever, sentada numa cadeira com o livro em meu colo, mas o senhor Sunderland rendeu-se à febre, uma extremamente forte, aliás, e eu preciso estar atenta à sua saúde.

A senhorita Irisa esteve aqui há pouco para perguntar pelo nosso senhor. Eu respondi o que o senhor Bursnell respondeu-me: que ele precisava urgentemente de vitaminas. A falta delas no corpo de nosso senhor deixava-o exposto a qualquer vírus ou algo do tipo, dos mais simples aos mais perigosos. Mas o senhor Sunderland recusa-se a tomar as vitaminas. Ele prefere desmaiar, cozinhando em quase 40º de febre (de acordo com o senhor Bursnell).

(...) É estranha a forma como ele pegou esse resfriado fatal.

Meu senhor saiu pelo início da tarde, hoje. Voltou apenas agora a pouco.

Quando o fez, estava alvoroçado. Alguma coisa havia acontecido naquele imenso rasgo de tempo em que esteve fora. Não sei onde ele foi, e preferi não perguntar, respeitando sua privacidade, mas tive receio.

Ele aproximou-se de mim, pôs sua mão em meu ombro e me disse: “Pode arrumar suas coisas e ir embora, se quiser. Eu inventarei uma desculpa e as empregadas não falarão mais disso. Se quiser, pode até mesmo fugir da cidade, e eu ajudarei nisso. Se eu fosse você, bem que faria isso mesmo...”.

E desmaiou.

Meu senhor já estava com a aparência febril antes. Mas achei que fosse daquele nervosismo que transparecia em ondas de seus olhos cianos.

(...) Não gosto disso. Não gosto nada disso.

Tem alguma coisa acontecendo. Eu sinto. (...)

Tenho duas pessoas com quem me preocupar nessas horas, quando meu senhor teima em não querer vitaminas e a sopa.

Devo me preocupar com o senhor Sunderland... E com eu própria.

28 de Fevereiro.

(...) Estou escrevendo da varanda. Uma borboleta pousou há pouco em minha mão. É um sinal de boa sorte.

Notícias alvissareiras, enfim!...

XXIV

Diz a sabedoria oriental que o som das peças de Majong sendo misturadas ou o som do chá sendo servido acalmam os espíritos.

Na verdade, meu quarto (acho) tem uma varanda. Eu nunca a uso, mas ele tem. É uma porta ricamente decorada em detalhes ebúrneos e áureos. Digna de um quarto que, no passado, foi o leito de amor e ódio do casal Sunderland, o quarto que também foi de Victoria, agora apenas outro espectro.

Eu decidi que serviria o chá ali, talvez como uma oferenda ao seu espírito (porque eu ainda tinha medo de dormir naquele quarto).

Passei o dia pensando em Victoria, na verdade. Depois da calmaria, enquanto Mitchell atendia aquelas pessoas e seus negócios, eu ocupei-me em pensar e me manter ocupada. Não que eu tivesse tido algum insight, alguma idéia brilhante... Apenas pensei, chegando à mesma conclusão sempre: algumas peças faltam. E, sem elas, eu não posso resolver esse quebra-cabeças.

Fiz uma recapitulação de tudo. A marca nas costas de mamãe Irisa e de Mitchell tinham diferenças, para começar.

Arrastei das profundezas da memória a única imagem que obtive de mamãe Irisa e sua marca. Ela era, em princípio, igual. O mesmo pentagrama e hexagrama sobrepostos, e os mesmos ciclos em intervalos simétricos, com escritas no meio.

Mitchell tinha “Malos Spiritus Sigillent”.

Então, por que mamãe Irisa tinha “De Temeto Dios Tukos”?

A memória é, sem dúvidas, algo muito traiçoeiro. Mnemosine, provavelmente, foi uma titânide cruel. Foi com muita dificuldade (e um pouco de sorte, admito) que eu consegui transcrever as inscrições gregas para a escrita latina, mas... Infelizmente, não fazia idéia do que significava a frase.

E, quando percebi, já era a hora do chá. Mitchell era um verdadeiro bretão nesse sentido: cinco e meia, nem mais nem menos.

Não houve tempo de pesquisar mais nada. E todo o resto permaneceu apenas como teorias obscuras em minha mente.

A verdade é que essa frase não me saía da cabeça. Eu tinha apenas teorias, mas nada que sustentasse nem mesmo a mais fina verdade. E, também... Quem melhor que ele para me dizer isso?

- ...Ei, do que vocês falavam, você e aqueles senhores? – perguntei. Sim, eu achei que devia ter me saído melhor naquilo. Definitivamente, a falsidade não era um dos meus atributos.

- Aqueles dois? – eu o vi deslizando a xícara delicada de chá para o pires. E o vi cravar seus olhos em mim. – Nada demais, acho. Só uma coleção de assuntos chatos que eu já prevejo, até, quando os encontro.

Respirei fundo. Preparar o terreno, eu tinha de fazer isso.

- Quando a mamãe Irisa tinha um dia difícil, eu fazia uma massagem nela. – sorri-lhe, me levantando de onde estava sentada. – Certamente deve ser desagradável essa parte de ser um “patriarca”. Gostaria de uma?

- Me oferecendo uma massagem, Cora?... – Mitchell ergueu uma sobrancelha, e me brindou mais um daqueles risinhos irônicos. – Está querendo alguma coisa?

Ignorando-o, apenas para não iniciar nem uma briguinha de brincadeira ou uma séria (quem sabe), ergui-me da cadeira de aparência tipicamente gótica e caminhei até ele. Pus as mãos em seus ombros e, de imediato, senti uma enorme tensão.

Mitchell tinha segredos demais, principalmente alguns envolvendo a minha presença: e eu sabia que, naquela rigidez, tinha um pouco daquilo.

- Que horror! Como consegue se mover sem estalar seus ossos até quebrarem?

Aparentemente me ignorando, ele continuava com seu riso irônico. – ...Dependendo do que você quer, eu posso até dar.

Inclinei-me, até encará-lo de perto.

- Você adora isso, não é? Essas frases dúbias. – soergui igualmente uma sobrancelha, e ficamos nos olhando por bons minutos.

- Confesso: gosto muito. Principalmente quando as uso com você. A sua face corando é algo fora de série. – erguendo a mão, eu vi que ele desejou tocar-me no rosto. Sorri. Eu gostava quando Mitchell fazia isso. – Com licença...

- Por que pede licença para algo que é seu? – deixei que meu corpo comandasse minha vontade, e vi-me aproximando-me mais de seu rosto.

Como eu pensei, a memória é algo muito cruel.

Ela grava e nos faz evocar com exatidão muitas coisas. Eu estava fazendo isso agora. Evocava em minha mente o prazer em sentir o calor de seu corpo aproximando-se do meu, ou quem sabe sua mão deslizando delicadamente pela minha maçã do rosto.

Mas a memória engole outros detalhes tão importantes quanto, nos fazendo experimentar tudo de novo, num ciclo eterno. O estranho temor que antecedia o roçar de lábios, o torpor que desvanecia e envolvia cada pedaço da mente...

Definitivamente, a memória é uma entidade má.

Tão má que, por um momento, eu esqueci-me de que devia sondar o terreno, de que ainda pensava em “De Temeto Dios Tukos”.

- Não cansa ficar de pé? – ele me perguntou, perto de meu ouvido, quando conseguiu abandonar meus lábios.

- Você adora me provocar, não?... – sussurrei-lhe de volta, achando aquilo engraçado. Até algum tempo atrás, iríamos preferir nos matar a protagonizar aquilo.

- Mais do que frases dúbias.

Ouvi duas batidas na porta. Foi o suficiente para que Mitchell me segurasse com uma pressão gentil pelos ombros e me afastasse de seu lugar, pegando a xícara e umedecendo os lábios com chá outra vez.

Logo, em questão de segundos, bem diante de meus olhos, ele praticamente se transformou: adquiriu de novo a postura arrogante de um lord.

- Não ouviu a porta, boneca? Vá atender. – ordenou-me, com um aceno de cabeça, ainda bebericando do líquido morno.

Com a cabeça parcialmente enevoada, demorei a perceber o que ele queria dizer. Mas logo percebi, com algum esforço: hora de voltar aos velhos papéis, aqueles que encenávamos ao mundo à nossa volta, que não fazia idéia daquela situação, no mínimo, estranha na qual estávamos enrodilhados.

- S-sim senhor... – engoli em seco.

Ajeitando minha roupa (era mais um gesto automático), caminhei até a porta do quarto. Provavelmente, Mitchell avisara que estaria tomando chá ali. Do contrário, ninguém bateria.

- Pois não? – perguntei, assim que abri a porta.

Para minha surpresa, mamãe Irisa estava ali. Ela me sorriu calidamente, do jeito que uma mãe sorri para a filha quando a encontra, mesmo em serviço.

Eu devolvi o seu sorriso, com uma pontinha de culpa por esconder o que eu estava fazendo, na verdade, em vez de trabalhar.

- O senhor Sunderland tem uma visita urgente, senhorita. – ela me disse, apontando uma figura diminuta com um aceno de sua cabeça.

Definitivamente, eu nunca iria me acostumar com aquela fala tão formal de mamãe, como se fôssemos estranhas. Ser governanta, de fato, tinha seus altos e baixos; autocontrole podia ser tanto um quanto o outro.

- Ah... Por favor, senhorita, me acompanhe. – eu pedi, identificando aquela pessoa atrás de mamãe Irisa. – Obrigada, senhorita Baker. – e tentei imprimir o máximo de formalidade naquilo.

- Muito obrigada... – ela disse. Sua voz era quebradiça, delicada e extremamente baixa. Exatamente como imaginei para alguém com aquela aparência.

O que faz uma mulher a essa hora fora de sua casa?, perguntei-me, já sentindo um certo desconforto.

Ela não parecia uma mulher da vida. Aliás, era tudo, menos isso.

Na realidade, ela mais tinha uma aparência diminuta e delicada de uma mademoiselle criada entre quatro paredes protegidas. Sua pele parecia ter roubado o brilho translúcido da lua que avançava no céu à medida que o sol ia adormecendo no horizonte. Suas feições eram finas, desenhadas firmemente sob cabelos cacheados e curtos, negros como o ébano.

Seus olhos, cuja cor me pareceu um estranho cor-de-mel, ou talvez um castanho claro, estavam fixos no chão enquanto caminhávamos, os lábios que emitiam um fraco vermelho natural fremindo um contra o outro.

Ela trajava um vestido longo, e eu não podia ver seus pés. Mas ouvia o som de seu salto alto. O vestido era azul-escuro, descendo desde os joelhos até o fim em camadas de babados da mesma cor. As mangas iam até o cotovelo, e seguiam o mesmo esquema. Um lenço branco completava a figura, dando um ar de graça quase que virginal. Uma típica mademoiselle, concluí.

Então, o que uma moça de família faz aqui?!, continuei me perguntando.

Impressão minha ou eu estava com ciúmes...? Não, era ridículo!

- Senhor Sunderland... – chamei-o, apesar de ter visto Mitchell me acompanhando com os olhos (insondáveis) quando abri a porta da varanda. – Esta senhorita deseja...

- Mitchell!... – e, então, a cena mais antológica de todas desenrolou-se diante dos meus olhos, sem que eu acreditasse.

Aquela garota cabisbaixa ergueu seus grandes e expressivos olhos cheios de emoção na direção de meu senhor, e correu até ele. Como se fosse uma donzela desamparada, não havia outra comparação melhor.

Eu o vi largar a xícara, assustado, e até vi quando a garota prostrou-se diante da cadeira dele, pegando sua mão, sem maiores explicações. Eu vi a face dela e a dele, vi as emoções de ambos, e então...

Vi aquela mademoiselle estranha pôr a mão dele sobre seu seio.

ARGH!, e esse foi o som de surpresa que eu deixei escapar, apenas por pensamento. Forcei-me a ficar imóvel; se eu me mexesse, possivelmente iria acabar matando alguém.

- Consumaremos nosso casamento agora? Ainda hoje? Ou prefere amanhã? – ela disse-lhe, séria, e sem tirar a mão dele dali.

...Certo, definitivamente, eu estava com ciúmes.

E, também, a ponto de estraçalhar um certo lord de cabelos loiros e sua mão que não saía daquele lugar da anatomia daquela total estranha, enquanto a dita cuja agarrava-o a céu aberto.

- Senhorita Shelser, a senhorita perdeu o juízo...? – Mitchell simplesmente perguntou. O rosto de total descrença era algo só meu: ele estava sério. Sério demais para alguém com a mão no seio de uma dama.

Mas, então, a surpresa: ele falara “Shelser”? A mesma família Shelser de onde saíra o senhor Edward, aquele homem que me enchia de medo?...

- Preciso me casar com o senhor, Mitchell. Agora!

...Não, definitivamente as coisas podem piorar. Sempre.