Bavarois
40 Capítulo XLVIII
Notas iniciais
XLVIII
Eu estive com ele quando sorriu pela primeira vez. Estive com ele quando me lançou o primeiro olhar aliviado. Presenciei sua inteligência além do comum ao me recitar uma página inteira de um livro (a ponto de eu tê-lo pego escondida apenas para conferir). Estive com ele quando me recitou poemas, quando conversou sobre sua mãe, quando chorou por saudades da mesma... Eu ouvi tudo dele. Sua história, seus medos, seus gostos, esperanças. Acompanhei de perto seu corpo crescer, o sugar daquela inocência infantil que ainda retinha-se em seus olhos. Sim, eu estive com ele por “toda a sua vida”.
Mesmo assim, peguei-me pensando se realmente foi uma boa idéia a de deixá-lo sozinho com minha outra criança.
Sim, porque eu também convivi por muito tempo com aquela garota. Pode ter sido a metade do tempo que tive com ele, mas, ainda sim, foram dias preciosos, dias nos quais a considerei uma parte de mim própria, sangue de meu sangue. Também estive com ela quando chorava por causa de pesadelos indizíveis. Estive com ela quando sorriu pela primeira vez. Quando me chamou de “mamãe” pela primeira vez, e das lágrimas que nasceram em seus olhos acastanhados quando isso aconteceu. Estive com ela quando aprendeu a ler a primeira palavra, quando teve a menarca, e quando arranjou a primeira amiga, a pequena Angeline.
Eu os considerei meus próprios filhos.
...E, agora, de repente, percebo que eles apaixonaram-se. Fico imaginando: o que será que devo sentir neste momento? Felicidade? Surpresa? Repreensão?
Mesmo assim, se meu coração devesse responder sinceramente à esta questão, ele escolheria “alegria”. Aquelas crianças mereciam serem felizes mais do que tudo. Afinal, eu via em seus olhos as suas perdas. Via todos os fragmentos de vida que jamais tiveram e sonhavam em ter refletidos em seus orbes, cada uma com uma intensidade diferente, mas tão diáfana e etérea que eu precisava me esforçar para retê-las em mim e não as perder num piscar de olhos.
Dei-lhes a “chave”. Que fizessem o que quisessem de suas vidas. Como a “mãe”, minha única reação seria sorrir diante daquele destino tão irônico e agradecer aos céus por finalmente atender minhas preces:
“Dê a felicidade a Cora Baker”. “Dê a felicidade a Mitchell Sunderland”.
“É só o que peço, Senhor”.
A maternidade é mesmo algo muito estranho. Não há nenhuma explicação que possa se aproximar da sensação tão cálida e refrescante, como pôr os pés em um lago fresco no verão, de ter seu próprio ego renegado em prol de outrem.
Percebi-me abandonada à penumbra da noite que rapidamente ia se tornando madrugada. As estrelas brilhavam como moedas no fundo de um poço. Uma fina e etérea camada daquela eterna cerração que cobria St. Helens precipitava-se, escovando a cidade e seus fios diáfanos e quase incolores.
Uma brisa gelada e levemente úmida lambia meu rosto, fazendo-me aproveitar a sensação momentânea de frescor, da certa liberdade que me permiti sentir. Percebi as vidraças embaçadas, e vi que seria uma madrugada gelada e, possivelmente, uma alvorada e manhã ainda mais frias.
Invés de pensar em reforçar meus cobertores, com nostalgia, lembrei-me de que também era uma alvorada cinzenta e gélida a daquele dia.
Procurei qualquer palavra que pudesse dizer ao vento, e pedir para que ele a carregasse até você. Tive o pressentimento, não saberia dizer porquê, de que algum dia, você voltaria para mim, de alguma forma, e que eu levaria eternamente a lembrança de seus toques num estranho, numa pessoa odiosa, em imagens que não me pertenciam, sem saber se eu era digna disso.
...E imaginei se minha pequena Cora também sentisse isso.
Eu ainda tenho um pavor inexplicável por sabê-lo ceifado pela raiz, Matthew.
Assim como ainda me sinto culpada por saber o que estou fazendo. Ainda não consegui sublimar e me iludir de que estou sendo uma boa mãe. Apenas uma mãe.
Matt... A verdade é que eu queria um filho seu, e não ser mãe pelo sangue de outra pessoa.
Mas eu já não posso mais.
Com essas mesmas mãos que agora estou encarando, eu arruinei qualquer possibilidade de meu útero poder carregar uma criança.
Não queria ser uma Baker. Nunca quis ter esse sangue amaldiçoado.
Queria mesmo ser uma Ackart. Irisa Ackart. Lembra-se? Escrevemos nosso nome de casados numa árvore. Até mesmo o nome de nosso casal de gêmeos hipotéticos (mas que tornaríamos reais tão logo nos casássemos). Como era mesmo o nome deles...? Blair e Blake, não era?
Incrível como minha mente, talvez como uma forma sutil de autopunição, tenha feito-me esquecer aos poucos todas essas inocências que um dia tivemos.
O tempo passa tão rápido, meu bem. Já estou com trinta e um anos!
Parece que foi ontem que eu era uma jovem inocente de treze ou quatorze.
Eu te levei a morte, Matt. Por minha causa, porque você insistiu em me tirar daquele antro de barbáries onde eu fui criada e fundida, você foi acusado de pecado. Um pecado indelével e imperdoável.
...Eu te matei, Matt. Mesmo que indiretamente.
Mas eu, a grande pecadora, não morri. Como eu queria ter morrido com você... Assim, nos casaríamos lá no céu. Ou, então, eu ficaria olhando por você, porque não tenho certeza se pessoas como eu mereçam o céu. Mas eu sei, sem dúvidas, que você está lá.
É muita arrogância de minha parte pedir que olhe por mim, quando eu causei a sua morte, mas, às vezes, é o meu maior desejo.
Quantos anos você teria, se vivo, Matt? Trinta e seis? Ou já seriam trinta e sete? Cinco anos de diferença. Aquelas crianças também têm exatamente essa diferença de idades.
Coincidências demais...?
...Nós teríamos nossos próprios filhos e nossa própria vida, sem precisar viver em função de nenhuma das Quatro Famílias. Que tipo de vida estava ali, estendendo-se bem diante de nossos olhos, e escapou por entre nossos dedos tão rápido e facilmente que sequer percebemos, meu bem...?
Sabe, Matt... Poder ter sido mãe daquelas crianças por anos e anos foi, sim, meu maior prazer. Nunca posso dizer que me arrependi disto.
Mas, a verdade é que eu não queria ter... Eu queria mesmo era ter sido mãe das suas crianças.
Mas isso já é um sonho impossível demais.
Afinal, você já está descansando em paz. Muito longe de mim.
Fale com o autor