Bavarois

38 Capítulo XLVI


XLVI

Despontavam as primeiras reações realmente conscientes de minha mente quando o diálogo delas já estava no fim.

- ...Ele vai ficar bem?

- Agora que devidamente suturado, vai.

- Alguma contra-indicação? Recomendações?

- Acredito que ele vá ter uma leve fotofobia pelas próximas horas. Também, pelo efeito do anestésico e da perda de sangue exagerada, será bom privá-lo de sons muito altos. Ele vai ter algumas tonturas, acredito. Por isso, sem agitações nem movimentos bruscos. – numerava, enquanto eu ouvia sem necessariamente processar nada daquilo. — ...E dê-lhe as vitaminas, senhorita Baker.

- É claro, eu providenciarei tudo isso, milady. Muitíssimo obrigada.

- ...Não há de quê, senhorita.

Elas mais me pareciam silhuetas macilentas desenhando-se nas sombras sem permissão e avisos prévios. Mamãe Irisa ainda tinha os cabelos da cor do fogo, tão exóticos quanto os meus, e estes eu via de longe, mesmo imersa naquele meu torpor. A outra moça era-me mais estranha.

Lembro-me de tê-la visto entrar apressada, com uma maleta médica, e suas roupas e pose altiva alertaram-me de se tratar de uma nobre bem instruída. Uma mulher que praticava medicina. Tantas raridades cercavam-me, a começar por Emma!

Ela estava enfronhada num belo vestido branco (que eu notei ainda estar impecável, e me perguntei, momentaneamente, o que ela fazia para mantê-lo assim costurando pessoas esvaindo-se em sangue), e deu-me a impressão de ser um anjo esculpido em brumas, a mesma impressão que tive de Irisa Baker pela primeira vez.

- Catherine Bursnell.

- Hã?...

Levantei os olhos para encarar os orbes tão verdes quanto o vestido que eu ainda tinha no corpo. Mamãe estava sorrindo para mim, oferecendo a mão para ajudar-me a me erguer. A médica já havia ido embora (meu Deus, eu realmente me distraio com uma facilidade enorme em horas assim...).

- Lady Bursnell é uma grande médica. – comentou, talvez por perceber meu olhar distraído sobre ela. – O lord Sunderland só confia nela para tratá-lo.

Uma idéia irônica sobre o fato de tantas mulheres (estranhas) sempre rondarem Mitchell (que parecia não dar a mínima para elas ou para o fato) me fez rir, mesmo que só mentalmente.

- E ela sabe de...? – repentinamente, as palavras fugiram-me. Era um assunto tão delicado que eu não tinha noção de como iniciar.

- ...Não saberia responder. – suspirou mamãe. – Não entendo as regras exclusivas das Quatro Famílias. Talvez jamais as entendamos.

- Mamãe...?

- Sim?

Engoli em seco. Se falar sobre os segredos de St. Helens já era uma difícil missão, tocar naquele assunto era muito pior. – E quanto à lady Emma...?

Percebi, envolta ainda naquele pântano de confusão, que Irisa Baker ficara tão tensa quanto eu.

- Irá voltar a sua casa, Cora. E eu não sei de nada, a partir daí...

Não era necessário ter um instinto infalível de mulher para perceber o negrume que se abatia sobre o futuro de Emma Shelser. Ela foi levada, depois do acesso de fúria momentânea e imediatamente controlada de seu pai, o cond Edward, calmamente, com ele pegando em seu pulso. Em nenhum momento ela proferiu um contra-ataque, nem mesmo reagiu.

Era como se já soubesse que aquilo fosse acontecer. Como se tivesse, enfim, se rendido e percebido a idiotice que fizera. Acreditei que ela percebera, de alguma forma, que não havia mais jeito de encobrir aquele seu “crime”, de ficar escondida nas sombras da mansão Sunderland.

Senti pena dela. Sozinha no ninho do inimigo, tachada de “traidora”...

Quando a vi saindo pela porta do quarto, enquanto Mitchell sangrava sem tréguas, eu pude ver nos olhos dela uma réstia de si mesma, um pálido e fraquíssimo eco de solidão e de perda.

Sentei-me àquele vão da janela, esperando qualquer notícia, ou pelo menos, esperando que minha mente voltasse ao ritmo normal.

Tudo, enquanto isso, mais se assemelhou a fragmentos dispersos num tear.

- Quer entrar, Cora?

- Mamãe?!... – soergui a sobrancelha. Eu me lembrei, sem querer, do dia no qual conheci Mitchell. Mamãe Irisa implorou fervorosamente para que eu jamais me aproximasse dele e, agora, estava até me incentivando.

- Como sua “dama de companhia”, Cora, é seu dever ir ter notícias da saúde de seu senhor, não é?

A sobrancelha continuou erguida. – Si-sim...

- Eu estarei providenciando as vitaminas, e enfim... Por favor, se qualquer coisa acontecer, avise-me, certo?

- Avisarei, mamãe.

Beijando minha testa, ela sorriu. Aquele seu riso de ninfa perfeita. – Essa é minha menina. Boa sorte.

- ...“Boa sorte”?

- Vá logo!

Quando entrei no quarto onde, até algum tempo atrás, tudo aquilo que agora ainda custava a ser digerido por mim aconteceu, tudo pareceu adquirir um ar novelesco, como se nada fosse necessariamente real. O prodigioso quarto de ar macabro continuava lá, com apenas um candelabro simples de duas velas o iluminando.

As silhuetas das bonecas de porcelana cegas e mudas em suas vestes que se fundiam com os tons mortos do quarto eram desenhadas perfeitamente, com leves toques de uma difusão negra. Na suntuosa cama que mais parecia ser feita de seda diretamente das Índias, Mitchell Sunderland estava deitado, o braço sobre a testa.

Passei bem pelo lugar onde ele estava esvaindo-se em sangue, e percebi estar limpo, com apenas uma mancha úmida que desprendia um leve aroma de produtos de limpeza. Mamãe Irisa era mesmo uma mulher muito eficiente em manter os segredos longe dos empregados “inocentes” (ou eu que ficara por demais distraída e não me dei conta do tempo que passou).

Uma estranha atmosfera que eu jamais achei que fosse formar-se entre nós agora estava ali, rindo de ambos, pairando sadicamente.

- ...Mitchell?

Ele não me respondeu. Continuou com o rosto virado para a direita, o braço sobre a testa suturada (enquanto eu me perguntava quão grande era o estrago).

- Está bem...?

O lord Sunderland fez que “sim” com a cabeça, levemente.

- Ainda dói algum lugar?... – continuei, apenas para, como pensei, vê-lo negar, debilmente, sem nenhum som.

- ...Posso me sentar ao seu lado?

Ao vê-lo assentir, foi como se uma mão imensa e pesada estivesse comprimindo meu peito, impedindo-o do devido funcionamento. Como se eu tivesse algum problema cardíaco, toda aquela área doeu insuportavelmente.

Suspirei, olhando para meus próprios pés, dando-me conta de que, realmente, ainda estava com o vestido estilo pompadour.

E pensar que, de certa forma, por culpa dele, tudo estava daquele jeito...

Sem nenhum som, deixando o ambiente o mais pesado possível, eu me sentei na cama, logo ao lado do braço que ele deixou descansando em cima do colchão. Tive ímpetos de segurar sua mão, mas me contive, bem como quis falar qualquer coisa, mas tudo estava tão opressivo que me impediu.

Para minha surpresa imediata, tão logo me sentei, Mitchell tateou minha mão e colocou a sua por cima da minha, fechando os dedos sobre as costas de minha mão. Baixei outra vez os olhos, evitando olhá-lo.

- ...Não quer falar nada?

Ele me presenteou com seu silêncio. E isso me deixou ainda mais mortificada.

- Eu tinha prometido...

Surpresa, vire-me a tempo de vê-lo desviar somente aqueles seus olhos azulados, meio lavandas, na direção dos meus. – Eu prometera a mim mesmo que o primeiro assunto que trataria com você tão logo chegasse seria...

- A culpa não foi sua. – livrei-me daquela sua mão prendendo a minha e, dessa vez, eu quem prendi a sua em meu aperto.

- Sou um idiota. Estraguei tudo de verdade, agora. – mais uma vez, ele desviou os olhos dos meus.

- É mentira. Você foi corajoso, Mitchell.

- ...Mas eu nem pude protegê-la, Cora.

Eu sorri diante de sua reação. – Se fosse mesmo assim, acho que não seria você que estaria com a testa rasgada, não é?

Mitchell Sunderland me pareceu uma criança temerosa da reação de sua mãe quando me encarou de novo.

- ...Não está decepcionada?

- Não espero que você saque uma espada e me proteja de dragões gigantes depois de me resgatar da torre mais alta de um castelo. – eu sorri outra vez, dedilhando os contornos de sua mão. – Se deseja mesmo saber, eu estou realmente orgulhosa. E muito agradecida também. Mas, mesmo assim, fiquei irritada por você ficar aí se arriscando.

Dessa vez, quem sorriu foi ele. – Não pensei direito na hora. Quando percebi, minha testa já estava sangrando.

- Incrível! Você não pensou!... – ironizei. – O senhor “eu não uso os instintos, uso o cérebro” dizendo isso! Devo-me sentir honrada?

Mitchell pareceu ignorar a minha ironia, porque desviou os olhos de mim (outra vez), encarando o que parecia ser um pedaço da parede que ofuscava o vermelho e manchava-o de preto, numa sombra em tamanho maior da vela que ia tremeluzindo, morrendo aos poucos.

- ...Cora?

- Hum? – sem perceber, Mitchell tinha posto sua mão livre sobre as duas minhas, que eu mantinha juntas agora.

- Não ficou assustada com a situação grotesca?

Não entendi realmente o que ele quis dizer, mas resolvi negar. – Já vi coisas piores, Mitchell, sem dúvidas. – emendei.

- Eu tinha planejado para ser tudo tão... Digno. – suspirou. Parecia mesmo frustrado com alguma coisa, seja lá o que se passava em sua cabeça. – Pensando agora, foi mesmo o pior pedido de casamento da História.

O casamento!...

Tão rápido quanto um trovão derramando-se no solo, lembrei-me do motivo da fúria de Edward Shelser. E lembrei-me até do timbre de voz de Mitchell anunciando-me como “sua esposa”.

- Ah... – engasguei, sentindo o rosto esquentar imediatamente.

- Eu não... Estava brincando... – em minha ingenuidade, achei que ele também estivesse sem jeito. – Realmente queria... Fazê-la minha esposa. É claro, se você concordar... Foi tudo tão rápido que eu revelei sem sequer pedir a sua opinião...

Não me surpreende, pensou uma parte mais racional de meu cérebro. Mitchell faz tudo nas minhas costas, e eu sempre sou a última a ficar sabendo.

- Pensava em te falar enquanto você experimentava o vestido... Mas nada deu certo... Edward atrapalhou tudo, e... – ele se calou repentinamente.

Sim, eu também concordava. Aquilo não era nada romântico. Nada ideal, não foi nada que eu lia, quando menor, em livrinhos, escondida.

Ele não se ajoelhara e pedira minha mão, nem ouvi os sinos tocando às minhas costas. O que eu ouvi foi o som de seu corpo caindo aos meus pés e o sangue preenchendo o tapete em cada fibra, até fundir-se à composição do mesmo. O grito de Emma Shelser, os olhos irritados do cond Edward e, por fim, o meu próprio pânico embebendo até essa informação para um poço de trevas... Nada romântico.

Mesmo assim, naquele instante, longe de ser algo que eu desejava, surpreendi meus olhos se enchendo d’água.

- Eu ainda posso aceitar, ou... Primeiramente, também preciso ter minha cabeça partida em duas para isso...?

Há certas coisas que dispensam comentários. Uma delas era aquilo: aquela sensação estranha de “o que está acontecendo?”, que tanto empurrava a consciência para o abismo da confusão, que logo era dissipada pelo calor morno de seus braços recém saídos das cobertas e que me envolviam, o que fazia invariavelmente a consciência oscilar entre a surpresa e a incredulidade.

- Nem está tão ruim assim. – eu comentei, quebrando o silêncio. – Nem sei como saiu tanto sangue de um cortezinho de nada.

- ...Cortezinho de nada? Tem sorte de estar vendo isso, agora que já está melhor. – ele resmungou. – Antes, estava realmente horrível. Aquele maldito do Edward me acertou de jeito.

- Sei. As empregadas da cozinha se cortam bem pior com uma faca e não precisam que uma Bursnell venha costurá-las. – continuei, soerguendo a sobrancelha outra vez. – Você é mesmo uma milady, no fundo.

- Está me chamando de “donzela”, Cora Baker?...

- E se eu estiver?

Para alguém que foi pedida em casamento há menos de cinco minutos, talvez, eu estava bem tranqüila, até.

Nem mais o corar de meu rosto estava se evidenciando.

Tarde demais percebi minha familiaridade diante da cena, pois quando pude piscar outra vez, tendo uma breve noção de minha situação, eu é quem estava com a cabeça sobre o travesseiro, e o rosto de Mitchell Sunderland, em cima de mim, me encarava, desta vez ele com o rosto de caçador, não de caça.

- Então você acabou de dizer algo muito infeliz.