Bavarois
37 Capítulo XLV
XLV
Um zumbido percorreu o que pareceu ser o contorno exato de meus tímpanos já sensibilizados o suficiente. Foi o bastante para que eu colocasse a mão no ouvido, num gesto inútil de quem tenta abafar a dor.
Ainda estava sendo difícil de aceitar que aquela pessoa à nossa frente era mesmo Edward Shelser, cond da família Shelser.
Ele estava igual a todas as outras vezes, como um corvo saído direto de um pesadelo feito da conflagração de fogo e lamúrias do inferno. Impecável em sua roupa negra e de punhos e lenços de puro branco, a mesma bengala com a inscrição dourada de seu brasão, e o mesmo arrogantemente posto no peito, brilhando na morna luz das velas do corredor.
Sem ter controle sobre meu corpo, o mesmo estremeceu ao encarar-lhe os olhos. Eram tão escuros como os dos quais eu lembrava. Olhos de névoa, feitos de perdas indizíveis e uma fúria contida. Nunca sabia dizer se aquele seu rosto exibia traços felinos ou de uma ave de rapina. Mas os olhos...
Esses eu podia, sem dúvidas, dissertar sobre. Envoltos levemente nas penumbras que arrastavam-nos ao pânico, lentamente divisadas por luzes áureas de velas, seus olhos escurecidos pareciam reluzir em escuridão. Olhos de demônio. Por muito tempo, achei que fosse ter pesadelos com os mesmos. Quando nos encarava da escuridão na qual estavam confinados, era como se todos os males de uma caixa de Pandora imaginária se libertassem de imediato. Mesmo agora, depois de tantas vezes tendo-o encarado, ainda ficava temerosa.
Encarei Mitchell naquela escuridão violentada pela tênue luz, procurando palavras que não existiam. Como Victoria havia registrado em seu diário, “Mitchell Sunderland padece de um extremo medo de Edward Shelser”.
- ...Ora. – ele disse, simplesmente, apoiando as mãos enluvadas na base da bengala (que certamente era só um enfeite nobre, uma vez que jamais o vi mancar ou perder a pose extremamente impecável).
- O que faz aqui, Edward? – Mitchell arriscou.
Olhando ao redor, procurando lentamente por cada ninfa cega de vidro, cada pedaço de tecido vermelho e dourado, e até mesmo os discretos detalhes em branco, passando pela cama de aparência aveludada e até palaciana, enfim, Edward Shelser voltou os orbes escuros para ele.
- As notícias voam rápido, Mitch. – provavelmente meu pânico impedia-me de raciocinar com clareza, mas imaginei que fosse... – Bonita caixa, aquela. – e, com um aceno de cabeça, indicou aquela, aquela onde estava meu vestido.
Pude sentir o quanto aquele comentário, aparentemente casual, mudou até mesmo os ânimos do quarto.
- Papai... Por favor, chega... – e só então eu lembrei que Emma Shelser também estava ali, atrás da figura imensa e assustadora de seu pai, tentando demovê-lo de alguma idéia que eu desconhecia (mas que temia, só de saber que vinha daquela cabeça).
- Emma, não se intrometa nos assuntos do seu pai. – ele apenas disse, com um sorriso quase mortiço.
Pude perceber o brilho dos olhos dela lentamente morrer, tornando-se quase que uma cicatriz, não mais uma pupila, sugando toda a alma que quisesse transparecer ali. E notei, mais uma vez, quão forte era o poder daquele homem sobre aqueles que marcava: ninguém ousava ir contra sua mísera presença, quanto mais ir contra as palavras ditas em tom tão ameaçador por baixo da calma.
- Edward, retire-se da minha casa.
Surpresa, percebi Mitchell em seu tom cauteloso. E compreendia toda aquela cautela: da última vez em que fui sem nenhum plano, tive meu pulso praticamente esmagado por aquela força que sequer suspeitava que ele possuísse.
- Como?...
- Eu pedi para se retirar da minha casa. – repetiu o lord (ou seria cond, pensando bem?) Sunderland. – Por favor.
Sorrindo, ele deu de ombros. – E por que eu deveria?
- Não foi formalmente convidado a entrar e eu também não fui avisado de sua presença. Tem plenos direito de vir, doravante, gostaria que respeitasse minha privacidade. Invadiu meu quarto e minha mansão sem explicações, e...
- Belo vestido, senhorita Baker!
O que antes parecia já suficientemente tenso transformou-se em um esqueleto de falsa segurança, esfaqueado à exaustão por palavras tão pequenas, mas repletas de poder. O bastante para que eu retesasse totalmente o corpo, e visse o punho de Mitchell cerrar.
- O que é isso? Pompadour, não é...? – parecendo indiferente (ou apenas ignorando) ao nosso pânico, ele continuou, como se falasse do tempo. – Realmente, está na moda entre as ladies da capital. E esta cor esverdeada tão exótica, parece até uma pedra preciosa... Ficou muito bonito na senhorita.
As regras da boa educação me diziam para, apesar de tudo, agradecê-lo, mas aqueles olhos de criatura maligna me assustavam tanto que eu permaneci calada, olhando-o debilmente.
- Acaso foi Mitchell quem o deu a você?
Salpicando meu desespero de uma estranha vontade de negar tudo, arrancar aquele vestido do corpo e dizer que eu nunca tive nada a ver com aquele homem à minha frente, percebi que Edward Shelser chegou exatamente onde queria, graças a pressão psicológica pura: me encurralar.
- Deixe a Cora fora disso, Edward. – e, quando percebi, as luzes das velas tornaram-se ainda mais difusas, perdidas no que pareceu ser a silhueta de uma pessoa pondo-se em minha frente. – Já disse para sair daqui.
Mais uma vez aparentemente ignorando aqueles protestos, Shelser entrou no quarto, para o pavor de Emma, que eu percebi estar tão catatônica em seus próprios pensamentos que sequer sabia como proceder.
- Por que comprou um vestido para a moça, Mitch? – o cond perguntou. – Não combina com você, não mesmo. E por que está protegendo-a? Acaso está me privando de falar com ela... “Meu objeto”?
“Objeto”. Desta vez, contrariando todo meu medo, ousei encará-lo diretamente em seus olhos ameaçadores.
Ele percebeu o meu gesto, e esboçou um débil sorriso. Divertindo-se, talvez, com minhas parcas tentativas de me ‘debater’ perante sua influencia. Mitchell pareceu retesar-se tão completamente que deixou Shelser passar por ele.
E, naquele instante, quis abraçá-lo mais uma vez. Pude perceber nele e na filha daquele homem odioso o quanto aquela sua presença era-lhes um martírio.
Aproximando-se de mim, senti sua mão com o toque da seda esbranquiçada das luvas tocando-me no queixo e erguendo o mesmo. Pude ter um contato direto com aquelas fendas estranhamente felinas, os olhos negros como a noite e tão ameaçadores quanto um grito de guerra.
- Fico pensando o que Mitch viu em você, senhorita Baker.
Tive vontade de cuspir-lhe na face, mas controlei-me, antes que algo saísse muito errado (mais do que já estava).
- ...É Sunderland.
Quebrando o que antes parecia ser um elo particular entre eu e aquele homem assustador, Mitchell surpreendeu a mim e a Edward Shelser.
- O que você disse...? – mas, ao contrário de minha pessoa, ele pareceu entender, seja lá o que fosse aquela frase.
- Disse que não é mais Baker. É Sunderland. – repetindo, Mitchell fez minhas pernas bambearem. – E nem mesmo uma ordem sua me demoverá da idéia, cond Edward Shelser. Portanto, modere sua boca e seus modos quando estiver falando com a minha esposa.
O epílogo da frase não melhorou em nada o ambiente; ao contrário, contribuiu para aquela estranha face que já não era mais neutra do homem em questão.
Percebi que Emma encolheu-se, talvez temendo algo pior. E percebi o punho de Mitchell ainda fechado, sabendo que sim, eles sabiam que algo muito ruim resultaria disso. Mas, mesmo sabendo de tudo isso, do perigo que estávamos correndo, meu coração acelerou não por causa daquilo, mas por causa de...
“Minha esposa”, ele disse?...
Quase por traição, a luz tênue que esfaqueava as trevas foi decaindo, lentamente, como se estivesse acompanhando os ânimos daqueles olhos escuros de demônio. Edward Shelser tinha o corpo tão tenso que provavelmente tiros ou facadas ricocheteariam por sua pele.
Mesmo feliz, mesmo assustada com aquela declaração, no fundo de minha alma eu senti... Eu soube que quando Mitchell me chamou de “esposa”, havia assinado seu atestado de óbito.
- ...Esposa, você disse? – ele repetiu, incrédulo.
- Exatamente.
- Por isso o vestido, o posto de ‘dama de companhia’... A estranha cumplicidade e atrevimento que você andava adquirindo, hein, Mitch?... – ele continuou com seu sorriso mortiço, mas incrédulo.
- Exatamente. – repetiu o lord Sunderland.
- Então...
Arrepiando-me até a última ligação que minha medula podia alcançar. Foi assim que me senti tão logo vi-me auscultada novamente por seu olhar.
Mas, agora, ele nada tinha de calmo. Era tão colérico e ofendido que mais se assemelhava a um rei subitamente destronado de uma forma nada gentil.
- ...A culpada realmente era a senhorita.
Entreabri os lábios, no que foi um gesto de surpresa tão logo percebi sua intenção. Vi um estranho risco dourado rasgar o ar logo ao meu lado, e senti que era tarde demais para me defender de um impacto certeiro.
Ouvi Emma gritar, não entendi o quê, e ouvi um baque. Como se fosse um saco de folhas velhas caindo na neve fofa do meio do Inverno.
Não senti dor, absolutamente nada. Estranhei o fato.
E, então, vi a bengala de Edward Shelser levemente manchada de escarlate, vermelho esse que se espalhava numa poça que exponencialmente aumentava seu tamanho, logo aos pés de Mitchell que, caído ao chão, escondia o rosto, e do qual pingava gotas levemente salgadas do líquido precioso.
- A culpa realmente era da senhorita. – ele repetiu, possuído de fúria.
Fale com o autor