Bavarois
36 Capítulo XLIV
XLIV
Uma necrópole. Não podia descrever aquele quarto de outro modo. Todas as vezes eu me sentia como que rodeada de olhos cegos e desconhecidos, de milhares de ninfas que secretamente observavam a tudo, como filhas de Mnemosine.
Inexploradas e esquecidas para sempre naqueles seus vestidos vermelhos ou negros, as cores mais predominantes daquela peça da mansão. Era estranho quando eu parava para pensar naquelas bonecas que abarrotavam o quarto. Já sabia para que serviam, justamente para recordar; mas, por mais que soubesse de seu significado nada simpático, não conseguia não sentir até certa simpatia por elas. Era como a sensação que me abatia na biblioteca: rodeando-me, um oceano imenso de milhares de pequeninas almas de porcelana se fundiam numa escuridão macilenta, enquanto o mundo palpitante lá fora perdia a memória sem nem perceber. Realmente, como se fossem filhas de Mnemosine.
- E então, boneca?
- Ainda não acabei! Nem pense em se virar!
Repentinamente, fui jogada à realidade mais uma vez, desviando os olhos daquelas bonecas assustadoras e tão silenciosas, e me concentrando em puxar o vestido e apertá-lo para que se ajustasse às curvas (se é que eu tivesse alguma... Bem, enfim...) do meu corpo.
Lembrei-me, enfim, do porquê estava naquele quarto.
Mitchell chegara há pouco tempo do que pareceu ter sido uma longa maratona de negócios. Não ousei incomodá-lo com perguntas, porque ele parecia realmente tenso. Em vez disso, quem fez o questionário habitual foi Emma, e ele respondeu apenas em monossílabos (como suspeitei que faria). Por isso, ela sugeriu um banho. Sim, eu também concordei, dizendo-lhe que um banho era bom depois de um dia exaustivo, ele acalmava.
Então, a boca abençoada de Emma Shelser disse que eu devia acompanhá-lo. Mitchell e eu fomos contra essa idéia (e eu já tinha uma experiência passada de banhá-lo para apoiar minha veemência em não ir). Mas enfim, ela é Emma, e eu ainda estava baqueada pelo que ela me contou com tanta naturalidade. Resultado: vi-me no mesmo quarto do lord Sunderland outra vez.
E só então percebi que ele tinha em mãos o que parecia ser uma caixa de presente. Não ousei perguntar nada (de novo), temendo sua resposta. Ele disse que ela devia ficar ali e que eu não devia tocá-la (como se eu fosse fazer isso!). E entrou no banho, sozinho dessa vez.
Confesso que fiquei curiosa. O que seria aquilo ali? Para quem iria dar? Porque estava tão perfeitamente embrulhado que não devia mesmo ser algo para ele. Só faltava algum cartão ou coisa parecida.
Sequer pensei em sentar na cama dele e esperar (não sei o quê, porque ainda não entendia porque devia estar ali), e permaneci de pé, bem onde estava desde o início, ocupando-me em observar detalhes em fios de ouro do tapete que eu não havia visto antes, ou mesmo alguma dobra do tecido semelhante a veludo das cortinas vermelho-sangue, algumas formando certos desenhos que eu reconhecia como um biscoito que eu comia quando pequena, às vezes, uma flor de jardim.
Quando saiu do banho (já vestindo uma roupa bem dentro de seus padrões, totalmente negra, detalhes vermelhos, às vezes só com o punho e parte da camisa de baixo branca), Mitchell sentou-se na cama e, silenciosamente, abriu o pacote.
Eu fiquei surpresa. Então, era dele mesmo, com aqueles enfeites todos...?
- Cora? – chamou-me.
- Ah, sim? – respondi, exaltando-me mais do que previ.
- Por que continua aí?
Imaginei mesmo que ele ia fazer uma pergunta do tipo. Depois de certo tempo, você aprende a nunca ignorar o tipo de raciocínio de Mitchell Sunderland. – Não achei certo sentar em sua cama.
- Quanta frescura. – suspirou.
- ...Desculpe.
Dando de ombros, ele deixou a tampa da caixa de presentes ao seu lado e puxou um tecido esverdeado com o que parecia ser detalhes em pompadour negro.
- Ao invés de termos esse papo-cabeça estranho, pode fazer o favor de experimentar isso, ver se acertei no tamanho?
Finalmente deixando-me ver toda a extensão do dito tecido esverdeado, pude perceber que era um vestido. Um em estilo pompadour, que tanto era moda na capital entre as ladies. Tinha uma gola alta de rendas brancas e de mangas longas, tendo nos punhos a mesma renda.
A cor esverdeada lembrava-me alguma jóia preciosa dos quadros de antigos reis. No peito, as fitas e reentrâncias que davam o nome do estilo eram negras como o ébano, bem como os detalhes na parte da saia, que mais se assemelhavam àquele tecido exótico das cortinas de Mitchell. Um belo vestido, com um ar sóbrio, porém feminino. Muito bom gosto, tinha de admitir!
- A-acertar no tamanho...? Vai dar a alguma lady, Mitchell...? – engasguei, num misto do que identifiquei ser vergonha e ciúmes. – Vai me usar de modelo...?
- Não seja tolinha... Tolinha. Eu estou te dando o vestido.
Sim, agora era vergonha em seu estado mais puro.
- P-para mim...?! – por isso Emma insistiu tanto que fôssemos juntos ao quarto dele? Aquela maldita, provavelmente já conhecia o estilo das caixas de presente da loja e adivinhou na hora (como sempre, só eu era a inocente ali)!
E, enfim, ali estava eu: experimentando o dito vestido, e pensando quando iria desmaiar por falta de sangue no resto do corpo.
Meu rosto ia explodir, se continuasse corando daquele jeito...
Foi muito repentino. Aliás, tudo em minha vida estava se tornando repentino demais. Passei cinco anos sem esperar nada e sem ter nenhuma surpresa. Foi só tê-lo conhecido e tudo virou de pernas para o ar... Não que eu desgostasse desse estilo de vida, mas às vezes, era tão exaustivo.
Percebi, enquanto fechava os botões na parte de trás, que o verde realmente combinara. Talvez porque eu fosse ruiva; aquele verde ficava bem contrastando com o cabelo. Sorri, sem deixar de sentir até um cálido sentimento invadindo-me. Eu imaginava que, dada a fama indiferente de Mitchell, vê-lo entrar e pedir um vestido de mulher fosse muito chocante para os vendedores e os que estivessem ali na hora. Imagino até que ele deva ter se sentido envergonhado de entrar, no começo.
...E aquele era um presente meu. Um vestido que o próprio estava dando para mim (e um vestido tão belo! Ainda tinha dificuldades de aceitar isso).
De fato, acreditei que nada poderia estragar aquela felicidade momentânea.
- Boneca, se ficar divagando, só vai terminar de abotoar esse vestido amanhã.
Ouvindo a voz dele tão perto de mim, percebi o lord Sunderland logo atrás de mim, fechando o resto dos botões com um suspiro impaciente.
- AH!... – corei ainda mais, se fosse possível. – De-deixa que eu faço isso, Mitchell! Tire as mãos daí!
- Já disse para deixar de ser tola. Você fica aí se distraindo o tempo todo e não acaba isso nunca, Cora.
...Não era com isso que eu me preocupava. Eu estava é sentindo as suas mãos roçando na minha pele enquanto fechava os botões restantes e minha espinha estava respondendo sozinha, mandando sinais elétricos tão fortes que me arrepiavam até a medula, provavelmente.
Eu evitara encarar-me no espelho por enquanto, querendo manter a surpresa até para mim mesma, num gosto infantil, como quando eu tinha doze ou treze anos e ganhava um doce de alguma empregada. Eu o colocava na boca e deixava que se derretesse lentamente, evitando fazer muitos movimentos com a língua.
- É sério, deixa que eu faço isso... – retomei a conversa.
- Já terminei, boneca. – anunciou.
Encolhi-me, enquanto olhava para baixo, para meu próprio corpo aproveitando a sensação tão estranha de estar vestido numa roupa tão bela. Aquilo era tecido fino, apenas para ladies e nobres donzelas! Eu me senti tão estranha... Uma simples empregada com tantas regalias... Quando foi que iria imaginar ver-me assim um dia? Deixei outro sorriso escapar, diante da ironia.
- Não ficou apertado? – ouvi Mitchell perguntar-me.
- Nem um pouco. Serviu perfeitamente. – sorri, imaginando como seria ver-me assim na frente de um espelho (e desejando fazer isso imediatamente).
- Verdade?
- Sim!
- ...Viu como sou bom nisso? Nem preciso conhecer seu corpo para saber o que irá servir em você.
Prendi a respiração no mesmo segundo, pois além de ter ouvido tão semelhante frase, pude sentir o dedo dele traçando o caminho sinuoso das curvas em minhas costas. Algo em mim quis lhe pedir para que parasse, mas a maioria esmagadora de meu cérebro estava por demais envolto num torpor macilento. E aqueles mesmos arrepios estranhos continuavam vindo, agora com força total.
- Obrigada pelo... Presente... – sussurrei, nem ousando me virar para encará-lo, ou iria ter um derrame.
- Então me dê um beijo de agradecimento.
Como se um balde de água fria fosse jogado em mim, virei-me, toda aquela vergonha dissipando em questão de milésimos de segundo.
O rosto dele estava incrivelmente cínico. – Um beijo de agradecimento?! Não tem nada melhor para fazer, lord Sunderland?!
- Se não me der, vou te roubar um, pode ser?
Ergui uma sobrancelha. – Claro. É incrível como você sempre dá um jeito de estragar toda a gratidão que eu acabo acumulando, e...
Tive a sentença bruscamente interrompida pelo que pareceu ser uma mão deslizando até minha cintura, me inclinando como se eu fosse uma dançarina de alguma espécie de dança espanhola.
- ...Eu avisei, bonequinha.
- Pare, Mitchell... – novamente, vi-me corando violentamente.
- Ficou tão linda assim que até me doeu, sabia? E olha que você nem colocou as luvas, as jóias e os sapatos ainda.
Engolindo em seco, eu pude começar a sentir as pernas tremerem, e comecei a achar que não queria mesmo que ele me soltasse, ou possivelmente não conseguiria me manter sozinha.
- ...Seu grande cretino. – respondi, incapaz de resistir mais.
- Eu sei, querida. Eu sei.
Meu corpo tremia sob seu toque, e eu me vi prendendo mais uma vez a respiração assim que o senti segurar minha nuca com a sua outra mão. Antes que eu pudesse protestar (ou respondê-lo mais uma vez sarcasticamente), Mitchell calou-me com um beijo que muito pouco tinha de casto.
Antes mesmo que eu pudesse perceber e ralhar com meu corpo pela traição, o mesmo pareceu serenamente abandonar-se, e as mãos agarraram-se aos seus ombros (maldita Emma, ela provavelmente sabia que isso também aconteceria). Mais uma vez, senti meu coração quase saltar do peito, e ao mesmo tempo, aquela estranha tranqüilidade de que nada do mundo podia se interpor àqueles raros momentos que pareciam ser sempre os mais emocionantes (mesmo que não fosse verdade).
Quando ele finalmente afastou-se só um pouco, encostando a testa na minha, eu ainda arrastava o roçar de seus lábios, ainda tinha o seu cheiro e aquela estranha letargia cravados na alma.
- ...Se não parar de me olhar desse jeito, não respondo por mim. – sorriu.
- Hum? Eu estou te olhando estranho...? – ainda estava tonta demais para raciocinar com a devida clareza.
- Se eu fosse qualquer outro homem, possivelmente teria desabotoado isso ao invés de ter te ajudado a vestir.
- ...E por que não o fez, Mitchell Sunderland? – instiguei, com um sorriso que beirava a ironia e a malícia. Certamente ele entendeu, porque também me devolveu o mesmo riso, os olhos de alfazema estranhamente escurecidos.
- Cora Baker, sua pequena messalina. Pare de me provocar.
Deixei que ele beijasse-me de novo, desta vez envolvendo-lhe o pescoço, mas quando achei que estava me perdendo em minha própria desinibição, tanto eu quanto ele ouvimos um som pronunciado vindo do corredor.
- É a Emma?... – perguntei, reconhecendo a voz feminina.
- Não só ela.
E, então, Mitchell me soltou tão bruscamente que, por muito pouco, não caí. Ainda sob os efeito estonteantes de segundos atrás, demorou até a adrenalina chegar a todas as extremidades do meu corpo.
- Fique aí, Cora. – ele me avisou, ajeitando os cabelos. Eu senti medo de sua expressão séria. Sem dúvidas, algo tinha acontecido. – E não saia, entendeu?
...Tarde demais.
Tão logo Mitchell ia pôr a mão na maçaneta do quarto, a mesma movimentou-se sozinha, alguém do outro lado abrindo a porta, que rangeu um pouco, enchendo o quarto de um ar estranhamente macabro.
Uma silhueta negra e de olhos estranhamente familiares irrompeu o recinto.
- ...Edward Shelser?
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