Bavarois

34 Capítulo XLII


XLII

Não, a cena não seria nem um pouco estranha vista por olhos alheios. Apenas uma empregada, uma lady e um livro. Entretanto, eu sabia muito bem que a cena estava totalmente torta. E isso era o suficiente.

Eu não era exatamente a dissonância da situação. Mas Emma Shelser, mesmo se fosse uma Emma sorridente enfiada num vestido pompadour de detalhes florais (que eu jamais achei que fosse voltar a ser moda na capital desde a época da madame de mesmo nome), não era algo bom. Se eu juntasse o fato dela ter em mãos o diário de Victoria Barrington, então, tudo piorava ainda mais.

Aquela era uma típica tarde de St. Helens. As nuvens não estavam exatamente fugindo do céu, e aquele jardim colorido, talvez o único lugar que pudesse ter vida numa mansão tão fria e impessoal como a Sunderland, estava descansando imerso numa lagoa de delicada neblina que fazia suar as rosas brancas. Eu me lembrava do jardineiro, que tanto dizia que as rosas brancas, as preferidas do nosso senhor, eram as que mais sofriam no verão (se bem que, até onde me constava, ainda não estávamos no verão... Ou já havia chegado o mês de Junho?).

Apesar daquela estranha atmosfera impessoal e quase tropical, o jardim conservava um ar lacônico, quase que vitoriano. Emma e Mitchell, quando treinavam esgrima ali, sempre escolhiam aquela pequena casa, não saberia dizer se era uma estufa, onde uma mesa branca de algo que se assemelhava mármore estava posta, com duas cadeiras, num estilo gótico (apesar do lord Sunderland cessar muito rápido as atividades ao ar livre por conta de sua falta de sistema imunológico e preferir sempre o salão Bastion para esses exercícios).

- Hum... Onde será que podemos pôr a mesa para que fiquemos com um pouco mais de sol, hein...?

Eu ouvia Emma falar, talvez comigo, mas não conseguia responder. Estava tão surpresa com o rumo dos acontecimentos que fiquei totalmente quieta. Naquela mesma madrugada, eu enfrentara Edward Shelser, o pai dela, tivera surpresas, confessara meus pecados a Mitchell e tive uma estranha e pacífica noite...

E, assim que acordava, deparava-me com o que parecia ser Emma tocando o piano que eu achei que só ele podia tocar. Mitchell não aparecera até então, provavelmente preso em seus “compromissos inadiáveis”, e eu não conseguia deixar de suspirar, pesadamente, sempre que pensava nisso. Coisas demais em pouco tempo causavam isso em mim: eu ficava exausta, não no sentido físico, mas minha mente sempre foi um pouco mais delicada que a média para essas coisas.

- Ah, senhorita Cora! Consegui!

Surpreendi-me encarando Emma Shelser.

Ela era estranhamente diferente de tudo que eu já tinha visto. Mesmo tendo aquelas feições finas, desenhadas a traço firme sob cabelos cacheados e negros que chegavam até os ombros delicados, ela ainda tinha alguma coisa. Aqueles olhos, imagino, eram como os meus: eles escondiam.

Uma lady como aquela tinha tantos segredos, tantas excentricidades... Era a primeira vez que sequer ouvia falar de uma mulher que agia assim “livremente”.

Sentei-me, tensa, e deixei-me soltar um suspiro muito discreto. Ali, naquele vestido pompadour (que lhe caía bem, devia admitir) vermelho-sangue, ela sequer me lembrava em nenhum traço aquela moça que vestia calças e tinha um manejo surpreendente no florete. Aquela Emma Shelser e essa eram totalmente diferentes. Mas, mesmo assim, se olhasse bem, elas só se pareciam numa coisa: aquele nostálgico e perseguidor brilho de acusação estava sempre presente.

Um pecado que eternamente lhe tocava nos ombros, colocava-a para dormir e acordava-a em todas as manhãs que o céu derramava sobre nós.

- Milady Emma?

- Sim? – ela me sorriu.

Respirei fundo. Eu ainda estava envergonhada; fazer esse tipo de pergunta não era uma tarefa fácil. – Permite que eu lhe pergunte algo?

- Fique à vontade, Cora! – e, como pensei, ela estava me mostrando toda aquela sua alegria de jovem donzela (que eu tinha quase certeza ser falsa como seu sorriso). – Esteve tão quieta desde o almoço!

- Mil perdões. – e pigarreei. – Então... Por que a senhorita... Digo, a milady... Trouxe consigo o diário de Victoria Barrington?

Eu temia sua reação. Achei que ela ia ficar com os olhos rasos d’água, como da última vez que conversamos, ou talvez fosse ter um ataque de dama caprichosa e me empurrar... Não sei, eu não imaginei que ela fosse apenas erguer uma sobrancelha e depois sorrir placidamente.

- Agora que você sabe tudo, para quê esconder? – deu de ombros. Fiquei surpresa: eu sabia que provavelmente Mitchell já lhe contara tudo, mas não achei que ela já se contentara com isso. – Trouxe-o para cá para reler. Sabia que, muitas vezes, eu ficava lendo e relendo ele? A senhorita Barrington realmente deu tudo de si para desvendar isso. Fico impressionada com o esmero das informações...

- De que adianta? Ela morreu. Falhou miseravelmente.

Se for mesmo para deixar clara a posição, eu deixei a minha naquele instante. Logo me arrependi por tão arrogante fala, mas já era tarde demais para tal. Apenas esperei a repreensão que nunca veio.

Ao invés disso, Emma Shelser me sorriu de novo. – Começo a entender o porquê do Mitch ter te escolhido para...

Um silêncio entrecortado de uma leve brisa reinou absoluto, até o momento em que aquela mademoiselle falou outra vez:

- Ei, Cora... Posso te chamar só de “Cora”, não?

- Ah... Fique à vontade... – respondi, apressada, surpresa também por ela ter mudado o assunto para perguntar-me algo desse tipo.

- Então, Cora... Adivinhe o que eu estou pensando.

Não saberia dizer porquê, mas lembrei-me de um livro que li quando era menor, onde dizia que “os sonhos, esses podemos ver refletidos nos outros. Porém, pesadelos e pensamentos são fantasmas apenas nossos”. Realmente, poder tracejar o caminho tortuoso daquelas memórias era a minha maior ambição.

Queria poder fazer o mesmo com mamãe Irisa, com Mitchell... Muitas pessoas ao meu redor tinham segredos sinuosos dos quais eu sequer tinha noção da gravidade, da grandeza real. Eu própria tinha segredos que, para os outros, pareciam inatingíveis. E certamente não era um desejo só meu: poder “adivinhar o que um outro pensa” era um apelo universal.

Não saberia, porém, dizer com clareza no quê uma milady como Emma Shelser estaria pensando. Se fosse outra mademoiselle, responderia que era num perfume, num vestido de Paris, na mais nova ópera na capital Londres... Em algum pretendente, em futilidades do tipo que imaginei comporem a vida de uma rosa aristocrática criada em redoma de cristal.

Mas não Emma Shelser. Ela não era uma flor aristocrática qualquer.

Enquanto mantinha meus olhos fixos no diário que ela folheava calmamente, e não nos seus orbes, eu suspirei: – Infelizmente, não faço idéia do que esteja pensando, milady.

- Se treinar um pouco mais, poderá ser uma boa mentirosa. – sorriu.

- Co-como...?

- Eu sei que você pensou um monte. A senhorita sempre pensa um monte, Cora. Por isso, sei que tem pelo menos suposições. – a explicação dela não me animou nem um pouco, admito. – Pode dizê-las a mim?

- Bem... – gaguejei. – Na verdade, depois de alguns segundos, deixei de pensar na milady e acabei viajando sozinha...

- E em quê pensava?

- ...No motivo do porquê quis aprender esgrima.

Percebi que aquela mademoiselle de vestido vermelho ficou bastante surpresa com o rumo da conversa e com minha resposta (bem, admito que eu também ficaria se fosse comigo), então, tentei corrigir-me:

- Digo... É extremamente anormal ver uma donzela nobre lutar. Nem imagina o quanto me surpreendeu. Achei que isso só existisse na ficção, e...

- Eu quis matar.

- Hã?! – surpresa, deixei escapar sem querer, tapando minha boca no segundo seguinte àquela exclamação.

Emma Shelser percebeu meu embaraço, e sorriu delicadamente (me incomodando um pouco com isso, admito).

- Eu queria pegar aquela espada e cravá-la no corpo de alguém. – ela continuou sorrindo. Se Emma tivesse ficado séria, talvez com o rosto contorcido em gozo sádico, eu teria compreendido. Mas me chocou vê-la com aquele sorriso tão tranqüilo, tão resignado. – Você sabia, Cora? Matar... Matar é muito fácil. Cravar um florete em alguém é como passar uma faca na superfície da manteiga. Macio, fácil e assustador. Mas, depois, fica estranhamente interessante.

- E-está me dizendo que a senhorita... – gaguejei, temendo até mesmo finalizar mentalmente aquela sentença.

- Em minhas costas está escrito “Inimicum Involvat Igne”. Sabe o que significa? “Cubra de Fogo o Inimigo”. É diferente do “Contenção de Maus Espíritos” do Mitchell ou do “O Machado de Deus que a Tudo Destrói” da senhorita Irisa Baker.

Engoli em seco. Achei que meu corpo já não pudesse mais me responder, porque eu tinha a plena certeza de que queria respirar, mover ao menos um tendão de minha mão, mas nada me obedecia.

Emma Shelser, calmamente, continuava folheando aquele diário, mas ainda prestando atenção em minhas feições.

- Cora, tem idéia do porque eu ter ganhado essa marca?

Quase que automaticamente, fiz que “não” com a cabeça.

Mas o que está acontecendo...?, me perguntava mentalmente, tentando refazer meus passos e descobrir onde havia errado para ter transformado o que pareceu ser uma simples conversa naquele novo ninho de problemas.

- Então, vamos refazer aquela pergunta do início? Ao invés de ser “adivinhe o que eu estou pensando”... – e seu sorriso aumentou exponencialmente com essa nova frase. – ...Vai ser “adivinhe quem matou Sirius Shelser”. Que tal?

Um novo vento estranhamente mais gélido passou por minha espinha, e veio trazer em meu colo uma pétala de rosa branca.

E eu me vi piscando, incapaz de encarar aquela mulher em minha frente mais outra vez.