Bavarois

5 Capítulo V


V

Como se o céu também estivesse triste pelo meu destino, naquela mesma tarde, ele derramou milhares de tons de cinza sobre meus olhos, cada vez que eu conseguia avistar uma janela, e nenhum deles era feliz. E, logo, o chão encheu-se de gotinhas que tornaram-se uma grossa chuva, implacável, em pouco tempo.

Eu não gosto do clima de St. Helens. É úmido, seja lá em qual estação estamos, e está sempre nevando ou chovendo.

Menos ainda, gosto do humor do nosso senhor.

- Quer parar de ficar olhando como uma idiota por aí? – ele avisou. – Se ficar parando a cada cinco minutos para ver porcarias, vai se perder, boneca. E eu não volto para te buscar, entendeu?

Eu agüentava a mão na minha coxa. Agüentava, igualmente, as implicâncias. Mas aquilo eu não suportava... “Boneca”!

Meu sangue fervia cada vez que o ouvia falar isso. E parecia que o cretino sabia que estava me irritando, porque insistia em chamar-me assim.

Aquele segundo andar, definitivamente, era ainda mais assustador que o primeiro. Em meus cinco anos de estada, desde que fui trazida aqui por mamãe Irisa, só havia subido ali algumas vezes, pouquíssimas, a ponto de poder contá-las nos dedos de uma mão. Agora que estava ali, “presa”, as coisas adquiriam um outro ar.

Não que ele fosse muito diferente da impressão que eu tinha antes. Quando menor, eu vinha agarrada à saia de Irisa, que vinha levar roupas de cama ou algo assim. Num dia desses, eu encontrei Victoria perambulando pelos corredores, procurando o nosso senhor.

Tudo lá em cima tinha um ar sagrado e, ao mesmo tempo, maldito. As paredes eram totalmente nuas e, ao contrário do andar de baixo, as janelas eram protegidas por uma cortina escarlate, da cor do sangue quando escapa dos dedos, quando eu me cortava picotando peixes ou verduras.

Tudo ficava evidente ali. Era um cadáver de realeza ainda mais pronunciado que o andar de baixo. Porque, no segundo andar, exclusivo de Mitchell Sunderland, não haviam estatuetas. Nenhum quadro. Nenhum vaso caríssimo, absolutamente nada nos corredores. Era apenas um pedaço de espaço, vazio e cheirando eternamente a papel de parede exótico. Ele havia se livrado, realmente, de qualquer coisa que lembrasse a sua família, do jeito que os boatos diziam.

Repentinamente, fui acordada de minhas divagações silenciosas por uma mão gelada se insinuando em minha cintura.

Baixei os olhos, retesando meu corpo, e vi o braço de Mitchell.

...Ele estava me abraçando, no melhor estilo “cafajeste”.

- Já que a bonequinha não sabe manter o passo, eu vou ter que guiá-la. – explicou, com aquele seu sorriso torto de pessoa sádica.

Desviei o olhar de seu rosto. A única coisa que eu não queria era perder o controle e ser mandada embora. Eu não tinha nenhuma vocação para ser uma rata de ruas. E não desejava perder meu posto tão querido de “empregada dos Sunderland”, onde eu podia contar com mamãe Irisa e tantas outras, só por causa de um capricho idiota de gente rica.

E, além disso, eu era propriedade dele. Duplamente, agora que também era sua “dama de companhia”. Não podia esquecer, desde a conversa com mamãe Irisa, que estava lidando com um louco. Um possível assassino. Por mais que ele fosse um espírito pusilânime, um total cretino, também podia matar.

E eu não tinha vontade de ficar estirada num quarto de iluminação parca e com uma poça de sangue vermelho como Victoria ficou. Não mesmo.

Mitchell Sunderland estava, por formalidade ou por capricho, me apresentando os cômodos. Abriu a porta da biblioteca, e apesar de eu conhecê-la de longa data, roubando livros dali com freqüência, ainda me surpreendia com sua aparência.

Era um amplo e palaciano recinto, quase como uma basílica de trevas. A mesma era iluminada por halos de luz delicados, quase efêmeros, das velas, que apagavam a qualquer momento por conta do vento que entrava por alguma janela. Um labirinto de estantes estendia-se até o teto, quase como uma colméia minimamente projetada para ser um labirinto, onde pessoas se perdem em corredores impossíveis e palavras de livros envelhecidos.

Eu vi, naquele instante, sem nunca ter notado isso antes, o esmero que Mitchell dedicava àquela peça da mansão. Certamente, aquele devia ser seu refúgio.

E até combinava com ele. Com aquela pele branca como a de um cadáver, misturar-se nas trevas e ficar sozinho, lendo, com aquela sua pose de espectro intocável e solitário, devia ser até mesmo um pensamento natural. Ele sempre me lembrava, não importa quantas vezes o encarava, um fantasma numa mansão assombrada. Talvez, um vampiro misterioso.

Assim que eu dei uma boa olhada naquele lugar, mais uma vez, ele imediatamente fechou a porta, como se aquele fosse um paraíso particular.

Voltamos a andar, ele e sua mão agarrada à minha cintura. Então, ele abriu a penúltima porta, perto daquela de aparência grandiosa (que eu imaginava ser seu quarto), que findava o corredor de aparência palaciana.

- O quarto de visitas, boneca. – fez-me uma mesura, talvez só por brincadeira, como se eu fosse mesmo uma donzela de alta sociedade.

Mitchell não me deixou olhá-lo muito. Na verdade, fechou a porta segundos depois de abri-la. Mas eu não precisava olhar muito para aquele lugar para reconhecê-lo como o túmulo particular de Victoria. E as más línguas diziam que aquele também fora o antigo quarto do casal Sunderland.

Fiquei pensando que, como “dama de companhia”, eu iria dormir naquele mesmo quarto.

Será que o espírito da Victoria aparece por ali de noite?, perguntei-me, perdida em pensamentos incômodos. Estremeci involuntariamente; fantasmas não eram, exatamente, algo do qual eu gostava.

- E, por fim... – ouvi-o. Aquela voz rouca e irritante com um estranho contentamento embutido. – ...Aqui está nosso quarto, minha bonequinha.

Nosso quarto?! Eu engoli em seco, repentinamente, incapaz de me mover. Ele disse “nosso”, no plural...

Encarei o trajeto daquela mão em minha cintura, que subiu até meus ombros, e me envolveu, apertando-me mais contra ele. Não sei bem porquê, mas percebi que aquele aperto não tinha nenhuma intenção maliciosa. Na verdade, me parecia até um carinho solitário. Estremeci mais uma vez.

Se a biblioteca já era uma basílica de trevas, aquele quarto era, então, a própria mortalha da mansão. Uma cama imensa, ricamente decorada e parecendo até ser o móvel de descanso de sultões das índias exóticas, estava descansando placidamente do lado direito do quarto. O mesmo tinha duas janelas, imensas, que estavam escondidas por uma pesada cortina escarlate. Não parecia ter mais móveis que isso. Só um armário típico, uma mesa de cabeceira logo ao lado esquerdo da cama, e não mais do que isso. Mitchell Sunderland não parecia alguém com preferência para complementos ou detalhes.

Primariamente, o preto e o vermelho eram dominantes. Mas, com um olhar mais atento, podia-se ver uma clara preferência pelo dourado e o branco.

O branco da pele translúcida dos bonecos. Sim, salpicando aquele quarto de fachos de uma atração inexplicável, como se eles fossem uma conspiração de alguma confraria secreta de fantasmas, incontáveis bonecas de porcelana estavam dispostas em várias prateleiras. Elas enchiam-nas, até ao ponto em que eu achava que a menor brisa poderia derrubar a maioria delas dali.

Todas elas tinham roupas pretas ou vermelhas. Todas tinham a pele vítrea e branca. E todas tinham olhos vazios, como se fossem um amontoado de pequeninas ninfas cegas, porém perfeitas. Senti-me, na mesma hora, perturbada; aquelas bonecas, por algum motivo, pareciam olhar para tudo e para nada, ao mesmo tempo. Senti-me invariavelmente observada, mal pondo meus pés naquele quarto doentio.

- O que... – eu queria falar alguma coisa, mas estava muito chocada para tal. Aquele cenário distorcido pegou-me totalmente de surpresa. – O senhor... O senhor parece gostar mesmo de bonecas, senhor Sunderland...

- Bonecas... Eu detesto bonecas. – ele sorriu. Tão radiante que, por um momento, pensei não se tratar de Mitchell.

Antes que eu pudesse falar algo, ele me abraçou ainda mais. Parecia realmente satisfeito, por algum motivo. E, quanto a mim, eu estava o exato oposto dele...

- Mas... Mas o senhor... – é doente demais alguém que odeia bonecas tem uma coleção absurda delas em seu próprio quarto ou é impressão minha?

- Eu as odeio por serem delicadas. As odeio por serem perfeitas. As odeio por serem silenciosas. E também as odeio por serem neutras. – e, de repente, seu sorriso adquiriu uma estranha sombra mortiça. Aquele não era mais um sorriso de satisfação, muito menos de felicidade; era estritamente sinistro. – Eu realmente odeio bonecas.

Este homem é completamente louco!

Foi minha primeira conclusão acerca Mitchell Sunderland.

Tive medo dele. Quis desesperadamente poder ter o poder de voltar no tempo, e jamais ter ajudado aquela figura que caía das escadas, por alguma razão que desconheço e, sinceramente, não quero saber. Se eu pudesse reviver essa mesma manhã, teria até fugido ao ouvir aquele som.

Quem sabe, assim, a essa hora eu estaria com a mamãe Irisa. Totalmente segura e confortável na cozinha fria, porém cheia de calor humano.

Acho que aquele rapaz loiro e bizarro percebeu meu medo. Porque ele parou de me estreitar nos braços, e simplesmente tocou em meu ombro. Não conseguia não estremecer quando ele fazia isso; sua pele era tão fria que mais parecia um morto, um cadáver pálido e perfeito andando em plena luz do dia.

- Esse será seu novo lar, de agora em diante. O segundo andar. – e ele teve prazer em me anunciar aquilo, tive certeza. Como se me mandar para a forca junto com ele fosse um alívio sem precedentes.

Respirei profundamente, tentando buscar coragem. Não poderia estar em situação pior, definitivamente.

- Agora que já lhe apresentei tudo, boneca... – ele passou a mão pelos cabelos loiros, calmamente. – Vamos à biblioteca, já que está chovendo? Quero que você leia um pouco para mim, sim?

Ou poderia...